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Revista Brasileira de Educação Médica

versão impressa ISSN 0100-5502versão On-line ISSN 1981-5271

Rev. bras. educ. med. vol.33 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-55022009000200020 

RESENHA

 

Resenha de "Residência médica: estresse e crescimento"

 

Review of "Medical residence: stress and growth"

 

 

Joaquim Edson Vieira

Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil

Endereço para correspondência

 

 

 

Resenha da obra de: Martins LAN. "Residência Médica: Estresse e Crescimento". São Paulo: Casa do Psicólogo; 2005.

O livro Residência médica: estresse e crescimento tem 201 páginas, cuidadosamente distribuídas em seis capítulos. A leitura desse texto é marcante: os capítulos têm a graça de histórias bem contadas, com o suporte de cuidadosa pesquisa na literatura médica ou, ainda, de modo mais intenso, com a originalidade das pesquisas do autor. É ele quem escreve, na apresentação: "quem fala... [fala] desde um lugar que ocupa no presente ou que ocupou no passado". Assim, pretendo, respeitosamente, falar da obra de Luiz Antonio Nogueira Martins.

O capítulo I descreve a história dessa "experiência avassaladora" (voz de uma médica residente) que é a residência médica desde a identidade de seu criador, William S. Halsted, passando pela instalação dos programas no Brasil, sua legislação e seus conflitos, até o interessante resgate do caso Libby Zion, nos Estados Unidos. A existência por mais de cem anos, embora só reconhecida em 1933, resulta seguramente em novos arranjos sociais e culturais provocados pela residência médica na própria medicina e mais ainda em seus principais.

No segundo capítulo, Luiz Antonio descreve o estresse psicológico do médico a partir de modelos do seu campo de saber, a saúde mental. Responsabilidade, eventos inesperados e expectativa ou contato com o novo são descritos como elementos que originam tensão. O autor é cuidadoso nestes aspectos, mas arrisco especular que tais elementos sobram na atividade do médico... Os estudantes de Medicina não parecem estar preservados desses e de outros elementos de estresse. Menos ainda os residentes.

No terceiro capítulo, o estresse na residência médica é abordado em detalhes. Interessante atentar para o gráfico da página 22 - história natural psicológica do R1 -, que, por si só, já seria suficiente para orientar os coordenadores desses programas, sugerindo ações de suporte emocional e profissional. Mas o autor chama a atenção para dois dos aspectos mais frequentes na literatura sobre estresse do médico residente: depressão e privação do sono.

O capítulo IV descreve e discute os resultados da pesquisa original sobre dificuldades na tarefa assistencial e fontes de estresse na residência. Por meio de questionários, a pesquisa sugere que a intensidade do trabalho (número de pacientes e qualidade da assistência) foi relatada entre as principais dificuldades na vida do médico residente, seguida por dilemas éticos, pressões para cumprir carga de trabalho e reduzido tempo para lazer e necessidades pessoais ou familiares. Impressiona a fidelidade e, de certa forma, a franqueza com que médicos residentes descrevem essa paradoxal fase de suas vidas. O título desta obra nasce aqui, em minha modesta opinião...

Os capítulos V e VI finalizam esta obra, novamente em minha modesta opinião, com um toque genial. Luiz Antonio apresenta, com elegância, maturidade e inegável suporte científico, a necessidade de cuidar do cuidador. Se o médico residente dedica o melhor de seu tempo, durante uma importante fase de sua vida profissional, para cuidar da saúde de tantos, também merece ser cuidado e receber atenção e acolhimento, tanto intelectual quanto social.

O autor sustenta que a instituição formadora, residência médica, deve ser encarada como um ambiente acadêmico em que a responsabilidade é plena, a supervisão honesta e o interesse mútuo, entre residentes e instituição. A responsabilidade plena está embasada no profissionalismo dos médicos residentes em participar das oportunidades de ensino e do cuidado aos pacientes, no profissionalismo da instituição em oferecer suporte pessoal e profissional e transparência sobre obrigações e metas da residência. A supervisão honesta se destaca pelo entendimento de que se deve ensinar a capacidade de buscar conhecimento e também produzi-lo. O interesse mútuo entre residentes e instituição pode ser mais bem formulado ao se acreditar que ambos devam buscar a liderança ética, com profissionais honestos, justos e confiáveis (Vieira e Oliveira Filho, Revista Saesp nº 3, 2007).

O sexto capítulo descreve o Núcleo de Assistência e Pesquisa em Residência Médica (Napreme), serviço pioneiro no Brasil, sediado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), como modelo de assistência e pesquisa, cuidando não só dos médicos residentes, mas também da instituição que os abriga. Sem dúvida, seu lema deve ser tal como se encerra esta obra: "cuidar de quem cuida".

Trata-se de um livro fundamental para quem se interessa pelo tema, seja como objeto de pesquisa ou gerenciamento, ou ainda por quem teve a experiência de ser residente.

 

 

Endereço para correspondência:
Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina,
Cedem (Centro de Desenvolvimento de Educação Médica.)
Av. Dr. Arnaldo, 455, sala 2342
Cerqueira César - São Paulo
CEP.: 01246-903 - SP

Recebido em: 11/09/2008
Aprovado em: 11/09/2008

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