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Revista Brasileira de Educação Médica

Print version ISSN 0100-5502

Rev. bras. educ. med. vol.35 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-55022011000200001 

EDITORIAL

 

A Função da Universidade e a Formação Médica

 

The Role of the University and Medical Training

 

 

Lilian Koifman

Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil; Editora Associada da RBEM

 

 

A universidade tem uma função determinante na formação de profissionais, outrora chamados recursos humanos. Não só por demonstrar eficácia em comparação com instituições de outra natureza, mas também por seu papel único na definição da ética de desenvolvimento nacional e por ser um lócus privilegiado de crítica e transformação social. Isto se dá por meio do ensino e da criação do novo como resultado do processo de pesquisa científica. Além disso, a universidade é a instituição que pode reunir a maior diversidade de interesses sociais.

As necessidades são determinadas não pela demanda " atualmente explicitada pelo poder de compra da sociedade ", mas em função dos desejos de futuro estimulados por sua evolução. Novas necessidades são geradas a partir da superação das carências presentes. As necessidades de formação de profissionais precisam ser dimensionadas quantitativa e qualitativamente em função das peculiaridades nacionais.

Comparações internas e externas são inevitáveis não para estabelecer paradigmas, mas para dimensionar diferenças e distâncias que porventura precisem ser superadas. O dimensionamento das necessidades nacionais de formação de profissionais de saúde depende fortemente de recorte futuro da ciência, e somente a universidade pode satisfazê-lo porque não segue (ou não deve seguir) a lógica imediata da demanda.

Para não confundir necessidade com utopia, é necessário explicitar as condições atuais que poderão concretizar os sonhos a partir da realidade presente: considerando que a ciência é uma forma de poder, o acesso ao conhecimento científico deve ser oferecido a todos, não apenas a uma elite, mas ensejando sua apropriação por toda a sociedade. A universidade, por meio da integração do ensino, pesquisa e extensão, é a instituição que reúne as melhores condições para gerar, transmitir e transferir o conhecimento científico, sendo a única realmente capaz de um empreendimento de tamanha envergadura.

Perceber as instituições universitárias como "instâncias culturais" significa entendê-las como um conjunto de procedimentos de criação, apropriação e transmissão de saberes, valores e representações que se concentram em um nível do sistema educativo definido como "superior" por qualquer sociedade.

A análise cultural das universidades contribui com elementos construtivos e, ao mesmo tempo, desafiantes, para decodificar a crise atual das instituições de educação superior. Ela nos ajuda a entender que a universidade não é uma instituição autônoma que produz ideias e depois a sociedade as absorve ou não. Ao contrário, ela se rege por complexos processos de interações entre o estatuto da ciência, as profissões e as disciplinas, a expansão ou concentração do mercado de trabalho, o papel sociocultural do gênero ou a respectiva localização do trabalho manual e intelectual na escala de valores sociais. Neste sentido, a universidade se constrói como uma instância de produção, controle e legitimação, em um contexto de tensão constante entre a delegação que recebe da sociedade, do Estado, do mercado produtivo e suas tradicionais funções de produção e difusão do saber11.

As manifestações da crise da universidade em escala internacional ao longo do século XX produziram um discurso simbólico que constitui, hoje, um capital político na defesa ou na crítica à universidade. Este vai desde o movimento da reforma universitária de Córdoba, na Argentina (em 1918), que gerou o discurso fundador do movimento estudantil de 1968, na França, com seus desdobramentos na Alemanha e nos Estados Unidos, até a mais longa greve da Universidade Nacional Autônoma do México, desencadeada em 1999, contra o fim da gratuidade do ensino superior naquele país22. Todos esses movimentos criaram suas metáforas para expressar, por meio de textos analíticos, de material iconográfico e de slogans, os diálogos e as denúncias que fazem parte do imaginário social das lutas universitárias até hoje, em pleno século XXI.

As novas exigências apresentadas à educação superior, porém, requerem mudanças que afetam as tradicionais funções institucionais herdadas do princípio do século XX e afetam diretamente a formação dos profissionais de saúde.

Podemos listar três princípios que revelam as relações entre o trabalho e a educação dos profissionais de saúde no Brasil, em direção a mudanças do modelo de formação. O primeiro se orienta pelo sistema de saúde vigente (o SUS), o segundo pelo trabalho em equipe, e o último pelo atendimento integral à saúde. Nessa perspectiva, a formação, aliada aos princípios estratégicos mencionados, retira os trabalhadores de saúde da condição de recursos humanos, transportando-os para a ideia de "atores sociais responsáveis pela produção do cuidado em saúde". E esse objetivo se potencializa com a utilização de diversas estratégias educacionais de produção da alteridade com os usuários, a experimentação em equipe e a prática de saúde como afirmação da vida, a partir do caráter público das intervenções desenvolvidas nos diferentes níveis de gestão, controle social e de produção do cuidado33.

Nesse sentido, a formação dos profissionais de saúde, incluindo médicos, tem sido pensada a partir de três movimentos sincrônicos. O primeiro diz respeito à produção de transformações na estrutura dos cursos para evitar a fragmentação entre campos disciplinares distintos e valorizar a integração entre os ciclos básico e profissional. O segundo busca superar o isolamento ou a visão utilitária que as instituições formadoras e de pesquisa mantêm frente à rede de serviços do SUS, apropriando-se e utilizando-se da sua capacidade instalada e do cuidado, numa leitura de mão única. O terceiro diz respeito à atuação do docente como mediador dos processos de ensino, a partir da adoção de metodologias ativas e significativas de aprendizagem, cedendo ao discente a construção de seu processo de aprendizagem44.

A formação como parte da gestão e transformação do trabalho em saúde se volta para a construção de um novo contrato ético e político entre os profissionais e a população. Não apenas como transposição de um formato de aprendizagem para outro, sem produzir uma efetiva mudança dos olhares e práticas que ali ocorrem. Ou seja, não basta transpor o aprendizado centrado na aula magna para outro, organizado em espaços fora dos muros das instituições de ensino, sem efetiva geração de capacidades que mudem práticas e atitudes.

Nesse formato, a formação estimula e cria espaço para a integração entre ensino, pesquisa e extensão, que, como dissemos antes, reúne as melhores condições para gerar e transformar o conhecimento científico.

A missão, a função e os processos de mudança da universidade não podem ser isolados do modelo de desenvolvimento em que esta se insere. Este é o aspecto fundamental que a universidade deverá resolver no marco dos objetivos que propõe hoje a globalização, com todos os seus problemas e potenciais, ou a globalização contra-hegemônica, como sugere Boaventura de Sousa Santos55.

 

REFERÊNCIAS

1. Mollis M. En busca de respuestas a la crisis universitária: história y cultura. Perfiles Educativos. 1995;69:35-40.         [ Links ]

2. Trindade H. As metáforas da crise: da "universidade em ruínas" às "universidades na penumbra" na América Latina. In : Gentili P, org. Universidades na penumbra: neoliberalismo e reestruturação universitária. São Paulo:Cortez; 2001.         [ Links ]

3. Ceccim RB. Onde se lê "Recursos Humanos da Saúde", leia-se "Coletivos Organizados de Produção da Saúde". Desafios para a Educação. In: Pinheiro R, Mattos RA, orgs. Construção social da demanda: direito à saúde, trabalho em equipe, participação e espaços públicos. Rio de Janeiro: IMS/UERJ; 2005. p.161-180.         [ Links ]

4. Saippa-Oliveira G, Fernandez VS, Koifman L. Trabalho e formação: diálogos necessários para a construção de práticas do cuidado. In: Pinheiro R, Silva Júnior AG, org. 10 anos do Projeto Intregralidade: por uma sociedade cuidadora. Rio de Janeiro: IMS/UERJ; 2010. p.297-312.         [ Links ]

5. Santos BS. A universidade do século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade. 3ª ed. São Paulo: Cortez; 2010.         [ Links ]

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