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Pesquisa Veterinária Brasileira

Print version ISSN 0100-736X

Pesq. Vet. Bras. vol.32 no.9 Rio de Janeiro Sept. 2012

https://doi.org/10.1590/S0100-736X2012000900006 

ANIMAIS DE PRODUÇÃO

 

Viabilidade celular, fagocitose e espraiamento de fagócitos mononucleares, e liberação de peróxido de hidrogênio por leucócitos de glândulas mamárias bovinas sadias e infectadas

 

Cell viability, phagocytosis and spreading by mononuclear phagocytes and hydrogen peroxide release by leukocytes from healthy and infected bovine mammary glands

 

 

Camila R. BastosI; Maiara G. BlagitzII; Fernando N. SouzaIII; Camila F. BatistaI; Claudia R. StricagnoloI; Milton R. AzedoIV; Alice M.M.P. Della LiberaI, *

IDepartamento de Clínica Médica, FMVZ-USP, Av. Prof. Dr. Orlando Marques de Paiva 87, Cidade Universitária, São Paulo, SP 05508-270, Brazil
IIUniversidade Federal do Paraná, Campus Palotina, Rua Pioneiro 2153, Jardim Dallas, Palotina, PR 85950-000, Brasil
IIIDepartamento de Medicina Veterinária Preventiva, Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Av. Presidente Antônio Carlos 6627, Belo Horizonte, MG 30123-970, Brasil
IVFaculdade de Medicina Veterinária, Universidade Metropolitana de Santos, Av. Antônio Manuel de Carvalho 3935, Santos, SP 11080-300, Brasil

 

 


RESUMO

O presente estudo objetivou avaliar a viabilidade celular, a capacidade de fagocitose e espraiamento pelos fagócitos mononucleares, e a liberação de peróxido de hidrogênio (H2O2) por leucócitos oriundos de glândulas mamárias bovinas sadias e infectadas. Deste modo, 94 amostras foram divididas de acordo com os resultados da cultura bacteriológica e da contagem de células somáticas (CCS). O presente estudo não encontrou diferenças na viabilidade celular, e nos índices de fagocitose e espraiamento entre os diferentes grupos. No entanto, a liberação de H2O2 oriundos dos quartos mamários infectados, infectados por Streptococcus spp. ou Corynebacterium spp. foi menor do que nas amostras de leite provenientes dos quartos mamários sadios. Ao estimar a concentração de H2O2 mL-1 leite observou-se que as amostras de quartos mamários positivos no exame bacteriológico, infectados por Staphylococcus spp. e negativos no exame bacteriológico com alta celularidade foram maiores que aquelas provenientes de quartos mamários sadios. Observou-se também correlação positiva entre a CCS e a viabilidade celular e os índices de fagocitose e espraiamento; e correlação negativa entre a liberação de H2O2 e a CCS e a viabilidade celular. Conclui-se que a CCS, assim como a sua viabilidade e função, são conceitos intimamente relacionados com a saúde da glândula mamária.

Termos de indexação: Leite, macrófagos, mastite, resposta imune.


ABSTRACT

The study aimed to evaluate the cell viability, the phagocytosis and spreading rates by the mononuclear phagocytes, and hydrogen peroxide (H2O2) release by leukocytes from healthy and infected mammary glands. Thus, 94 milk samples were divided according the results of the bacteriological analysis and the somatic cell count (SCC). No significant difference was found in cell viability, the phagocytosis and spreading rates by mononuclear phagocytes between the distinct groups. Therefore, the H2O2 release by leukocytes was higher in the milk samples from healthy mammary glands compared to those infected with Streptococcus spp. or Corynebacterium spp. However, when the H2O2 release by phagocytes in 1mL of milk according to SCC mL-1 of each sample was estimated, it was found that milk samples from infected, infected with Staphylococcus spp. and bacteriological negative quarters with high SCC were higher than the healthy ones. It was also observed a positive correlation among SCC and cell viability or phagocytosis and spreading rates, and a negative correlation between H2O2 release and cell viability or SCC. In face of, it can be concluded that the SCC, as well as their function and the cell viability, are related to mammary gland health.

Index terms: Immune response, macrophages, mastitis, milk.


 

 

INTRODUÇÃO

Apesar das ferramentas disponíveis para o monitoramento e controle da mastite, esta enfermidade continua sendo uma das principais causas de perdas econômicas à atividade leiteira. Desta forma, a melhor compreensão dos mecanismos de defesa da glândula mamária permitiria a adoção de medidas profiláticas e terapêuticas mais adequadas para obtenção de êxito no que diz respeito à sanidade da glândula mamária (Souza et al. 2012).

As defesas celulares inatas são representadas pelos neutrófilos, macrófagos, células epiteliais e células Natural killer. Os macrófagos, que representam os fagócitos mononucleares, podem desempenhar várias funções na defesa do tecido mamário, como a fagocitose, apresentação de antígenos para linfócitos T, participação na produção e secreção de diversos fatores biologicamente importantes, como a lactoferrina, fatores do sistema complemento, N-acetil-β-D-glucosamidase, citocinas e componentes derivados do ácido aracdônico; e ainda apresentam crucial relevância na remoção de detritos teciduais, e até mesmo na remoção de neutrófilos apoptóticos, minimizando a liberação de seu conteúdo granular que é tóxico ao tecido mamário (Johnston 1988, Carneiro et al. 2009), sendo a principal população celular presente no leite de bovinos sadios (Sarikaya et al. 2004).

Atribui-se aos leucócitos polimorfonucleares (PMNL) a maior responsabilidade na proteção da glândula mamária aos patógenos invasores (Paape et al. 2003, Elazar et al. 2010, Souza et al. 2012). Entretanto, deve-se considerar a delicada inter-relação que rege os mecanismos imunes, e o papel crucial dos macrófagos na detecção e montagem da resposta imune, e consequentemente nos mecanismos de defesa da glândula mamária (Della Libera et al. 2006).

Sabe-se que a capacidade funcional de fagócitos envolvidos na resposta imune pode ser avaliada, em parte, pela competência destas células de englobar e lisar partículas ou microorganismos, pela geração de espécies reativas de oxigênio (ERO), entre elas o peróxido de hidrogênio (H2O2), ou até mesmo, pela capacidade de aderir e emitir microvilos, manifestada pela aderência e espraiamento de fagócitos mononucleares em lamínula de vidro (Della Libera et al. 2006, Azedo et al. 2011). Neste ínterim, pode-se dizer que avaliar funcionalmente os fagócitos torna possível identificar interferências que o mecanismo mais trivial de defesa da glândula mamária - os mecanismos de defesa celular - pode vir a sofrer, quer por influências da dieta, de estresse, mas principalmente pelo processo inflamatório (IDF 2003).

Desta forma, o objetivo do presente estudo foi avaliar a viabilidade celular, a capacidade de fagocitose e espraiamento de fagócitos mononucleares, e a liberação de peróxido de hidrogênio por leucócitos oriundos de glândulas mamárias bovinas sadias e infectadas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizadas 94 amostras de leite proveniente de glândulas mamárias de vacas em diferentes fases da lactação, que foram divididas de acordo com os resultados da cultura bacteriológica e a CCS. As glândulas mamárias foram consideradas infectadas quando foi isolado pelo menos um agente causador de mastite no exame bacteriológico. Os quartos mamários negativos no exame bacteriológico foram divididas em dois grupos experimentais, o primeiro com baixa celularidade (<200.000 células/mL), quartos mamários que foram considerados como sadios conforme previamente estabelecido por Schukken et al. (2003), e o segundo grupo foi formado por quartos mamários negativos no exame bacteriológico, mas com alta CCS (>200.000 células/mL).

Inicialmente, coletaram-se assepticamente as amostras de leite para o exame bacteriológico, CCS, e para avaliação da viabilidade celular, fagocitose e espraiamento pelos fagócitos mononucleares, e liberação de H2O2 pelos leucócitos. A CCS foi realizada no aparelho Somacount 300 (Bentley Instruments®, Chaska, EUA). O exame bacteriológico foi realizado pela cultura de 0,01mL de leite estriado em ágar-sangue de carneiro (5%) com incubação a 37°C por 72 horas e a leitura realizada a cada 24 horas, como recomendado por Oliver et al. (2004).

O isolamento das células do leite foi realizado conforme descrito por Della Libera et al. (2006), no qual foram coletados 500mL de leite de cada quarto mamário juntamente com 500mL de solução salina tamponada. Após o isolamento, procedeu-se a avaliação da viabilidade celular com o azul de tripan (Jain & Jasper, 1967), buscando-se concentração de 2x106 células viáveis mL-1. Essa suspensão celular foi utilizada para as provas de fagocitose, espraiamento e liberação de H2O2.

As avaliações dos ensaios de fagocitose e espraiamento foram realizadas conforme previamente descrito por Della Libera et al. (2006) e Azedo et al. (2011). Inicialmente, procedeu-se o isolamento dos fagócitos mononucleares por aderência em lamínula de vidro, e posteriormente os índices de fagocitose e espraiamento desta população celular foram determinados, onde utilizaram-se quatro poços por amostra, sendo dois poços para avaliação da fagocitose e dois poços para avaliação do espraiamento. Sobre as lamínulas foram depositados 4x105 células viáveis mL-1, que foram incubadas por 30 minutos a temperatura ambiente. Para o ensaio de fagocitose, utilizou-se 1µL de parede de células mortas de Saccaromyces cerevisae (Zymosan A de Saccaromyces cerevisae, Sigma Aldrich, St Louis, USA, nº cat. Z4250), que foram incubadas por uma hora a 37°C. A função fagocítica e de espraiamento foi realizada por leitura em microscopia de contraste de fase (Fig.1), após duas lavagens com RPMI 1640 (Sigma Aldrich, St. Louis, USA, n° cat. R7638) e fixação com glutaraldeído a 0,5% durante 10 minutos, onde os valores percentuais dos fagócitos mononucleares que espraiaram e que fagocitaram S. cerevisae foram determinados.

 

 

As células para a determinação da liberação de H2O2 foram ressuspendidas em 1mL de solução de vermelho fenol (SFV) (Sigma Aldrich, EUA). A mensuração da liberação de H2O2 baseou-se na oxidação da SFV dependente de peroxidase, e foi realizado segundo método colorimétrico descrito por Pick & Keisari (1980), adaptado para microensaio por Pick & Mizel (1981), e modificado por Della Libera et al. (2006). As amostras sem estímulo e estimuladas por 10ng mL-1 de forbol 12-miristato 13-acetato (PMA, Sigma Aldrich, St Louis, EUA) e as soluções padrões (0,0; 0,5; 1,0; 2,0 e 4,0 nmoles de H2O2/100µL da SFV) foram realizadas em quadruplicatas. A placa foi incubada por uma hora a 37ºC, em câmara úmida, e após este período a reação foi bloqueada pela adição de 10µL de solução normal de NaOH, e a absorbância determinada a 620nm. O resultado foi expresso em nmoles de H2O2/4x105 células viáveis.

Portanto, com o intuito de estimar a concentração de H2O2 resultante da liberação de H2O2 pelos leucócitos em 1mL de leite ([H202] mL-1 leite ) considerando a celularidade de cada amostra, o seguinte cálculo foi aplicado:

Para a análise dos resultados, foi verificada a normalidade dos resíduos pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Os dados da CCS foram transformados em escala logarítmica, pois não apresentaram distribuição normal. Para os dados com distribuição não paramétrica, o teste de Kruskal-Wallis seguido pelo teste de Dunn's foi aplicado. Os dados paramétricos foram analisados pela ANOVA seguido pelo teste de Tukey-Kramer para comparações entre as médias. As correlações foram determinadas pelo coeficiente de correlação de Spearmann. A análise estatística foi realizada utilizando os programas BioEstat 5.0 (Belém, Brasil) e GraphPad Prisma 5.0 (GraphPad software, Inc., San Diego, EUA). O nível de significância adotado foi de 5%.

 

RESULTADOS

No presente estudo, 66 (70,21%) das 94 amostras de leite analisadas foram positivas no exame bacteriológico. Destas amostras, em 33 (50,00%) foram isoladas bactérias do gênero Staphylococcus spp., em 23 (34,85%) foram isoladas Corynebacterium spp., em 7 (10,61%) foram isoladas Streptococcus spp., em 2 (3,03%) foram isoladas Staphylococcus spp. e Corynebacterium spp., e em 1 (1,52%) amostra foi isolada Staphylococcus spp. e Streptococcus spp.

Dentre as 28 amostras negativas no exame bacteriológico, 20 (71,43%) e 8 (28,57%) amostras apresentaram baixa (< 2x105 células mL-1) e alta celularidade (>2x105 células mL-1). No presente estudo, a CCS foi menor nos quartos considerados sadios, quando comparado com os demais quartos (P<0,0001), embora a viabilidade celular (P=0,50) e os índices de fagocitose (P=0,18) e espraiamento (P=0,16) não diferiram entre os grupos (Quadro 1).

A liberação de H2O2 pelos leucócitos foi menor nas amostras provenientes de quartos mamários positivos no exame bacteriológico, infectados por Streptococcus spp. e infectados por Corynebacterium spp. quando comparadas com os quartos mamários considerados sadios (P=0,01) (Tab. 1). No entanto, a liberação de H2O2 estimuladas por PMA pelos leucócitos provenientes de quartos mamários considerados sadios foi maior apenas que os quartos mamários infectados por Streptococcus spp. (P=0,02) (Quadro 1).

Ao estimar a [H2O2] mL-1 leite sem estímulo e estimulada por PMA produzida pelos leucócitos observou-se que as amostras provenientes de quartos mamários positivos no exame bacteriológico, infectados por Staphylococcus spp. e negativos no exame bacteriológico com alta celularidade foram maiores que as amostras provenientes de quartos mamários considerados sadios (P=0,003; P=0,0006) (Quadro 1).

Além disso, observou correlação entre a CCS e a viabilidade celular (r=0,36; P=0,0003), os índices de fagocitose (r=0,32; P=0,0015) e espraiamento (r=0,32; P=0,017) pelos fagócitos mononucleares, e a liberação de H2O2 sem estímulo (r=-0,34; P=0,0007) e estimuladas por PMA (r=-0,40; P<0,0001) pelos leucócitos. Encontrou-se também correlação entre a viabilidade e a liberação de H2O2 sem estímulo (r=-0,37; P=0,009) e estimuladas por PMA (r=-0,20; P=0,048), embora não observou-se correlação significativa entre a viabilidade celular e os índices de fagocitose (r=0,08; P=0,43) e espraiamento (r=0,04; P=0,67) pelos fagócitos mononucleares.

 

DISCUSSÃO

No presente estudo, apenas as bactérias dos gêneros Staphylococcus spp., Streptococcus spp. e Corynebacterium spp. foram isoladas; estas bactérias são isoladas com mais frequência de casos de mastite infecciosa em bovinos (Souza et al. 2009, Della Libera et al. 2011, Langoni et al. 2011, Oliveira et al. 2011). Ademais, as glândulas mamárias consideradas sadias apresentaram menor celularidade no leite, já que o processo inflamatório leva a infiltração de leucócitos para o sítio inflamatório na tentativa de eliminar os patógenos invasores (Della Libera et al. 2011).

Apesar de não ter sido evidenciada diferença entre as médias dos índices de viabilidade celular, fagocitose e espraiamento de fagócitos mononucleares, o presente estudo apontou para aumento da viabilidade celular, e dos índices de fagocitose e espraiamento de fagócitos mononucleares com o aumento da celularidade do leite. Sabe-se que durante o processo inflamatório, há significante influxo de leucócitos para o sítio inflamatório, principalmente de neutrófilos (Paape et al. 2003), e em menor número macrófagos (Sladek & Rysanek 2010) e linfócitos (Riollet et al. 2001, Mehrzad et al. 2008), o que explicaria, pelo menos em parte a correlação positiva entre a viabilidade celular e a CCS. Corroborando ao presente estudo, Pessoa et al. (2012) encontraram maior viabilidade de PMNL, assim como menor porcentagem de PMNL sofrendo apoptose, em amostras de leite com alta celularidade. Similarmente, Sladek & Rysanek (2010) observaram maior porcentagem de macrófagos residentes em apoptose que os macrófagos inflamatórios após indução de resposta inflamatória com solução salina tamponada ou lipopolisacárides em glândulas mamárias de novilhas clinicamente saudáveis.

A maior proporção de macrófagos inflamatórios após a indução de resposta inflamatória com solução salina tamponada ou lipopolisacárides (Sladek & Rysanek 2010), pode explicar, pelo menos em parte, a correlação positiva entre a CCS e os índices de fagocitose e espraiamento de fagócitos mononucleares. Sabe-se que a capacidade fagocítica dos macrófagos (Schroten et al. 1987, Johnston Jr. 1988), assim como dos PMNL (Paape et al. 2003, Mehrzad et al. 2009), podem apresentar reduzidas, devido a indiscriminada ingestão de glóbulos de gordura, caseína e/ou debris celulares. Neste contexto, supõe-se que os macrófagos residentes presentes a maior tempo na glândula mamária apresentem menor capacidade fagocítica que os macrófagos inflamatórios que migraram recentemente para a glândula mamária.

Diferentemente do presente estudo, Mehrzad et al. (2004, 2005) encontraram maior produção de ERO pelos PMNL provenientes de glândulas mamárias experimentalmente infectadas por Escherichia coli. No entanto, estes autores utilizaram o ensaio de quimioluminescência do luminol, que mensura tanto a produção intracelular quanto a liberação de ERO (Rinaldi et al. 2007), o que pode explicar, em parte, a discrepância entre os resultados descritos e aqueles encontrados no presente estudo. Do mesmo modo, Rinaldi et al. (2008) encontraram maior produção intracelular de ERO pelos neutrófilos no dia do parto em vacas leiteiras, enquanto Gilbert et al. (1993) demonstraram menor liberação de ERO no período periparturiente, ao tentarem avaliar a capacidade microbicida desta população celular. As ERO produzidas pelos PMNL, no ambiente extracelular, podem levar a danos teciduais e celulares, como a clivagem de proteínas, o que pode levar à amplificação do processo inflamatório e a maior migração de PMNL para a glândula mamária (Blagitz et al. 2011, Pessoa et al. 2012). Congruente a isso, Niethammer et al. (2009) demonstraram a importância do H2O2 no recrutamento de leucócitos para o sítio inflamatório, mesmo em condições assépticas. Assim, a maior [H2O2] mL-1 leite nas glândulas mamárias infectadas encontrada no presente estudo pode explicar o marcante recrutamento de leucócitos durante o processo inflamatório, corroborando os resultados descritos por Brasil et al. (2012).

A correlação negativa entre a viabilidade celular, assim como a CCS, e a liberação de H2O2 pelos leucócitos pode ser explicada, pelo menos em parte, pelo extravasamento citoplasmático decorrente da morte celular por necrose que pode liberar grânulos citotóxicos e ERO para o ambiente mamário (Blagitz et al. 2011), e pelo fato que os PMNL provenientes de amostras de leite com alta celularidade estão mais propensos a sofrerem necrose que apoptose (Pessoa et al. 2012).

 

CONCLUSÕES

O presente estudo fortalece a hipótese de que a CCS, assim como a sua viabilidade e função, são conceitos intimamente relacionados com a saúde da glândula mamária.

Ademais, a maior liberação de H2O2 pelos leucócitos em 1mL de leite nos quartos infectados pode contribuir, pelo menos em parte, com o maior recrutamento de leucócitos para a glândula mamária e/ou a persistência do processo inflamatório.

Agradecimentos.- À FAPESP pelo auxílio financeiro concedido.

 

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Recebido em 31 de janeiro de 2012.
Aceito para publicação em 24 de maio de 2012.

 

 

Parte integrante da dissertação da primeira autora, apresentada ao Programa de Pόs-Graduação em Clínica Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), Universidade de São Paulo (USP).
* Autor para correspondência: dellalibera@usp.br

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