SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.34 número2Dos igarapés da Amazônia para o outro lado do Atlântico: a expansão e internacionalização do Santo Daime no contexto religioso global índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Religião & Sociedade

versão On-line ISSN 1984-0438

Relig. soc. vol.34 no.2 Rio de Janeiro jul./dez. 2014

https://doi.org/10.1590/S1984-04382014000200001 

Editorial

Editorial

Patricia Birman


Este número de Religião e S ociedade agrupa dois conjuntos de artigos que exploram com originalidade alguns temas e situações de clara relevância teórica nos estudos de religião.

No primeiro conjunto, os textos abordam alguns dos eixos que exprimem as preocupações atuais a respeito da presença contemporânea do religioso: processos de globalização e de espraiamentos do religioso em cenários transnacionais; circuitos de transações diversas, por vezes conflituosas, do religioso em movimento; atores nodais e o papel destes como operadores de conexões entre redes diversas; a experiência do sagrado como fronteira e como ferramenta política; o feminino na construção de gênero católico juvenil e a participação católica nas esferas partidárias da Argentina.

A ambivalência talvez seja um bom termo para, em uma escala mais genérica, destacar uma das características recorrentemente mencionadas sob a ótica da globalização. O artigo de Glauber Assis e Beatriz Labate, ao apontar o Santo Daime como parte do "sul global" e analisar o cenário contemporâneo dos conflitos e tensões relativas ao seu espraiamento para o hemisfério norte, ilustra bem como a circulação no mundo globalizado visibiliza os efeitos bem como as tensões e controvérsias presentes na expansão religiosa do sul global. Com efeito, estes circuitos, chama atenção Renée de la Torre, constituem-se de fato como redes, compostas também por "atores no-dais" capazes de "polinizar", quer dizer, transformar ao se expandir, espraiando traços que se destacam de uma rede aparentemente infinita. O percurso de atores "nodais" ilustra como certos híbridos se forjam atravessando os limites supostos de sua elasticidade possível. Alias, não fazemos, talvez, a mesma coisa como atores que "tecem redes", ao cruzar repertórios, nutrindo circuitos a partir de elementos não imaginados em conjugações inusitadas? Seria esta uma leitura possível do denso artigo de Júlia Goyatá que coloca face a face Michel Leiris e Georges Bataille a respeito do interesse comum que partilharam sobre a noção de sagrado, revelando o cruzamento de interesses relacionados à arte, à sociologia e à religião. Buscaram o sagrado como ferramenta política para combater o fascismo. A noção de sagrado como operador político de resistência ao fascismo na década de 30 nos convida a olhar com interesse a indisciplina dos saberes.

É do interior da Igreja Católica que Silvia Fernandes e Elizabeth de Souza tratam dos efeitos, ao mesmo tempo mitigados e relevantes, da "vida em comunidade" de jovens integrantes da Toca de Assis. As autoras buscam nas filigranas da vida confessional católica os processos ambivalentes por que passam as jovens nos tempos atuais em que juventude rima frequentemente com sexo e consumo. Manterem-se à margem dos valores "modernos" e, ao mesmo tempo participarem, através das redes tecnológicas globais de comunicação, da vida mundana, é o desafio que enfrentam estas jovens por meio da prática da caridade. O conservadorismo católico é explorado neste volume também por uma outra faceta: na Argentina, a sua organização partidária a-confessional e o pacto entre Igreja e Estado. Ao questionar a ausência de partidos confessionais neste país do cone sul, Sol Prieto destaca o que tem sido, ao longo de décadas, com regimes militares inclusive, o "pacto de mútua imbricação entre Estado e Igreja". Assim, enquanto a noção de sagrado através de Leiris e Bataille é posta à serviço de uma causa política, o embricamento argentino entre igreja e Estado produziu uma aparente ausência de um ator político onipresente, a Igreja Católica, na esfera pública através das organizações partidárias. Assinale-se que isto se deu como um empreendimento de catolicização, dentro e fora do Estado e de um controle do Estado sobre as instituições religiosas.

Há algum tempo que queremos explorar mais detidamente a relação entre religião e mídia, para além das excelentes contribuições que já publicamos em nossos números. A importância que as conexões entre as práticas midiáticas e religiosas adquiriram nos anos noventa, a sua intensificação ao longo dos últimos anos, ganharam uma importância teórica e analítica incontornável.

Assim, este dossiê, organizado por Carly Machado em colaboração com a revista, sugere a necessidade teórica e metodológica de valorizar o que seria o "produto" próprio desta associação. A categoria "associação", com efeito, esclarece pouco a especificidade do objeto que nasceu através do emprego de novas tecnologias midiáticas, somadas aos circuitos derivados do processo de globalização. Os artigos que integram este dossiê revelam o quanto a junção entre mídia e religião pode alterar, e é o que de fato ocorre, o sentido eventualmente assumido por cada um destes termos. Ressaltamos, com efeito, a emergência de novos objetos na vida social, dotados de uma potência própria. As análises etnográficas desses objetos religiosos-midiáticos, dos seus agenciamentos políticos e sociais, de seus efeitos discursivos, corporais, performativos e subjetivos encontram-se no cerne deste dossiê.

Por fim, chamamos atenção dos leitores para o quanto estes dois conjuntos de artigos permitem leituras que os conjuguem entre si.

Patricia Birman

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.