SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.42 número1Avaliação nutricional na doença renal crônica: o protagonismo da mensuração longitudinalRadiografia digital como método alternativo na avaliação da densidade óssea em ratos urêmicos índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Brazilian Journal of Nephrology

versão impressa ISSN 0101-2800versão On-line ISSN 2175-8239

Braz. J. Nephrol. vol.42 no.1 São Paulo jan./mar. 2020  Epub 03-Abr-2020

http://dx.doi.org/10.1590/2175-8239-jbn-2019-0240 

Editoriais

Cistatina C: não é apenas um marcador da função renal

Sanduni Fernando1 

Kevan R. Polkinghorne1  2  3 
http://orcid.org/0000-0002-9851-002X

1Monash Health, Monash Medical Center, Department of Nephrology, Clayton, Melbourne, Australia.

2Monash University, Department of Medicine, Clayton, Melbourne, Australia.

3Monash University, School of Public Health and Preventive Medicine, Department of Epidemiology and Preventive Medicine, Prahran, Melbourne, Australia.


A cistatina C, descrita pela primeira vez em 1961 e formalmente nomeada em 1984, é uma proteína básica não glicosilada, codificada pelo gene CST3, é encontrada em praticamente todas as células nucleadas. É um potente inibidor de proteinases lisossômicas e inibidores extracelulares de proteases de cisteína, que desempenham um papel pleiotrópico na fisiopatologia vascular humana, em particular na regulação de catepsinas, que são superexpressas em lesões ateroscleróticas e aneurismáticas1.

O papel da cistatina C sérica como medida da função renal (filtração) está agora bem estabelecido. A cistatina C é gerada a uma taxa praticamente constante, é livremente filtrada, reabsorvida e catabolizada no túbulo proximal do néfron2. Não é afetada pelo habitus corporal e pela massa muscular e, como tal, acredita-se que seja uma medida mais precisa da função renal em comparação com a creatinina sérica 3. Agora estão disponíveis materiais de referência padrão para a cistatina C, de modo que os ensaios laboratoriais possam ser padronizados com as equações de estimativa da taxa de filtração glomerular (TFGe) desenvolvidas e validadas para uso clínico de rotina3. As limitações ao seu uso rotineiro na prática clínica têm sido principalmente considerações de custo, onde, por exemplo, custa até dez vezes do que um ensaio de creatinina sérica4, e pode ser afetada por doenças da tireóide, adiposidade e inflamação subjacente1,5.

Além do seu uso na estimativa da função renal, a TFGe à base de cistatina C mostrou ser um preditor superior de doença cardiovascular (DCV) e mortalidade quando comparada à TFGe baseada na creatinina sérica6. De fato, quando combinada à albuminúria, a cistatina C TFGe adicionou discriminação preditiva aos escores atuais de risco de DCV usados ​​rotineiramente, enquanto que a TFGe sérica à base de creatinina não adicionou discriminação adicional4. Isso sugere que a TFGe à base de cistatina C deve ser usada não apenas para avaliar a função renal, mas também deve fazer parte da avaliação de risco cardiovascular de um indivíduo.

Outros papéis potenciais para a cistatina C incluem ser um marcador precoce de lesão renal aguda, um marcador superior da função de um transplante renal, risco de DCV e falha do transplante, e uma medida mais precisa da função em subpopulações específicas, como cirrose hepática e malignidade6. Nesta edição do Brazilian Journal of Nephrology, Moreira et al. avaliaram outra subpopulação específica em que a cistatina C pode ter utilidade adicional sobre a creatinina sérica e outros marcadores, como em indivíduos com doença renal terminal7.

Moreira et al. avaliaram a cistatina C sérica e efluente de diálise peritoneal em 52 pacientes tratados com diálise peritoneal (DP) em um único centro de diálise. Além da avaliação da função renal residual (FRR), eles exploraram a correlação da cistatina C e eventos cardiovasculares, bem como uma avaliação da composição corporal usando a bioimpedância. Como a população em geral, níveis mais altos de cistatina C foram associados a um aumento de duas vezes na probabilidade de doença cardiovascular (odds ratio (OR) 2,65), embora o intervalo de confiança de 95% tenha sido amplo, refletindo incerteza significativa no resultado (0,84 8,37). Isso não é surpreendente, dadas as limitações do pequeno tamanho da amostra e a natureza transversal do desenho e análise do estudo.

A avaliação da FRR em pacientes tratados com DP é crítica, dada sua importância no prognóstico e na depuração total pela diálise. O presente estudo reafirma nosso entendimento de que a cistatina C pode ser um bom marcador de avaliação da FRR. Pacientes que estão em DP há mais tempo têm um nível mais alto de cistatina C, correlacionado com a perda gradual de FRR observada após o início da diálise. A depuração semanal total da creatinina foi significativa- e negativamente correlacionada com os níveis de cistatina C, como seria esperado. É importante notar que a DP também remove a cistatina C e, portanto, seus níveis serão determinados pela FRR e pela depuração da diálise. Também como esperado, os níveis de cistatina C correlacionaram-se positivamente com a massa relativa de tecido magro.

O estudo de Moreira et al. levanta mais questionamentos do que fornece respostas devido ao tamanho e ao desenho do estudo, dado o papel da cistatina C como uma ferramenta estabelecida para a avaliação da função renal na população geral e na DRC, bem como um marcador aditivo da avaliação de risco cardiovascular, além de apresentar grandes perspectivas futuras. Estudos em populações em DP são necessários para delinear se a cistatina C terá um papel no manejo dessa população.

References

1 Séronie-Vivien S, Delanaye P, Piéroni L, Mariat C, Froissart M, Cristol JP, et al. Cystatin C: current position and future prospects. Clin Chem Lab Med. 2008;46(12):1664-86. [ Links ]

2 Shlipak MG, Mattes MD, Peralta CA. Update on cystatin C: incorporation into clinical practice. Am J Kidney Dis. 2013 Sep;62(3):595-603. [ Links ]

3 Levey AS, Inker LA, Coresh J. GFR estimation: from physiology to public health. Am J Kidney Dis. 2014 May;63(5):820-34. [ Links ]

4 Lees JS, Welsh CE, Celis-Morales CA, Mackay D, Lewsey J, Gray SR, et al. Glomerular filtration rate by differing measures, albuminuria and prediction of cardiovascular disease, mortality and end-stage kidney disease. Nat Med. 2019 Nov;25(11):1753-60. [ Links ]

5 Stevens LA, Schmid CH, Greene T, Li L, Beck GJ, Joffe MM, et al. Factors other than glomerular filtration rate affect serum cystatin C levels. Kidney Int. 2009 Mar;75(6):652-60. [ Links ]

6 Levin A, Cystatin C. serum creatinine, and estimates of kidney function: searching for better measures of kidney function and cardiovascular risk. Ann Intern Med. 2005 Apr;142(7):586-8. [ Links ]

7 Moreira C, Cunha L, Correia S, Silva F, Castro A, Tavares J, et al. Does cystatin C have a role as metabolic surrogate in peritoneal dialysis beyond its association with residual renal function?. Braz. J. Nephrol. 2019 Dec 02; [Epub ahead of print]. DOI: https://doi.org/10.1590/2175-8239-jbn-2019-0007Links ]

Recebido: 12 de Dezembro de 2019; Aceito: 22 de Dezembro de 2019

Enviar correspondência para: Kevan R Polkinghorne, E-mail: kevan.polkinghorne@monash.edu

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.