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Revista Brasileira de Sementes

Print version ISSN 0101-3122

Rev. bras. sementes vol.24 no.1 Londrina  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31222002000100010 

Fungitoxicidade in vitro de iprodione sobre o crescimento micelial de fungos que se associam a sementes de arroz

 

Fungitoxicity in vitro of iprodione on mycelial growth of fungi associated with rice seeds

 

 

Liliana Auxiliadora Avelar PereiraI; Wirton Macedo CoutinhoI; José Cruz MachadoII; Flávio Henrique Linhares MagalhãesI; Rosângela Conceição Marques PenaI

IEngos Agros, M.Sc., Depto. de Fitopatologia/UFLA, Lavras-MG: e-mail: dfp@ufla.br
IIEngº Agrº, Ph.D., Prof. do Depto. de Fitopatologia/UFLA, Lavras-MG; e-mail: machado@ufla.br

 

 


RESUMO

Este estudo teve o objetivo de avaliar a fungitoxicidade de iprodione, em diferentes concentrações, sobre o crescimento micelial in vitro dos fungos mais comuns disseminados pelas sementes de arroz no Estado de Minas Gerais, Brasil. Isolados de Alternaria alternata, Aspergillus flavus, Aspergillus niger, Aspergillus ochraceus, Curvularia oryzae, Drechslera oryzae, Gerlachia oryzae, Phoma sorghina e Pyricularia grisea foram obtidos de sementes de arroz e o seu cresci-mento micelial foi avaliado em meio BDA contendo o fungicida nas concentrações de 10mg.l-1, 50mg.l-1, 100mg.l-1 e 500mg.l-1, após sete dias de incubação. O efeito de iprodione foi avaliado por meio da ED50 (dose necessária para inibir em 50% o crescimento micelial). O fungicida iprodione inibe com alto efeito (ED50<10mg.l-1) o crescimento micelial dos fungos A. alternata, A. niger, A. ochraceus, C. oryzae, D. oryzae e G. oryzae, médio efeito (ED50 entre 10 e 50mg.l-1) Phoma sorghina e baixo efeito (ED50>50mg.l-1) Pyricularia grisea. Os fungos A. niger e A. ochraceus foram os mais sensíveis a iprodione, tendo apresentado ED50 de 2,5 e 3,1mg.l-1, respectivamente.

Termos para indexação: inibição micelial, iprodione, Oryza sativa.


ABSTRACT

This experiment aimed to evaluate the iprodione effects on mycelial growth of fungi commonly associated with rice seeds in the state of Minas Gerais, Brazil. Isolates of Alternaria alternata, Aspergillus flavus, Aspergillus niger, Aspergillus ochraceus, Curvularia oryzae, Drechslera oryzae, Gerlachia oryzae, Phoma sorghina and Pyricularia grisea were obtained from rice seeds and mycelial growth measured in PDA medium containing the fungicide at concentrations of 10mg.l-1, 50mg.l-1, 100mg.l-1 and 500mg.l-1, after seven days of incubation. The effect of iprodione was evaluated by calculating ED50 (dose required for inhibiting 50% of the mycelial growth). Iprodione inhibits with high effect (ED50 < 10mg.l-1) the mycelial growth of the fungi A. alternata, A. flavus, A. niger, A. ochraceus, C. oryzae, D. oryzae and G. oryzae, medium effect (ED50 = 10-50mg.l-1) P. sorghina and low effect (ED50 > 50mg.l-1) the mycelial growth of P. grisea. The fungi A. niger and A. ochraceus were the most sensitive ones to the fungicide tested with ED50 of 2,5 e 3,1mg.l-1, respectively.

Index terms: mycelial inhibition, iprodione, Oryza sativa.


 

 

INTRODUÇÃO

As sementes de arroz podem ser colonizadas em toda as fases de produção, inclusive após a colheita, por fungos fitopatogênicos, cujos principais danos são a redução da germinação e do vigor.

Os fungos que se associam às sementes de arroz podem ser divididos em três grupos: patogênicos de campo, saprófitas e de armazenamento. Os fungos classificados no primeiro grupo colonizam as sementes no campo de cultivo, necessitando para o seu desenvolvimento de umidade relativa em torno de 95%, enquanto que os de armazenamento são responsáveis pela invasão e deterioração de sementes em condições de baixa umidade, podendo crescer em qualquer matéria orgânica com grau de umidade em equilíbrio com a umidade do ambiente entre 65 e 90% (Christensen, 1973). Os fungos saprófitas colonizam as sementes em condições de umidade relativa de 85 a 95% e podem reduzir a qualidade fisiológica delas (Neergaard, 1977).

A eliminação ou redução do inóculo em sementes pode ser eficientemente alcançada pelo manejo e tratamento das mesmas por métodos biológicos, físicos ou químicos, sendo o último a forma mais freqüente de controlar doenças no campo (Machado, 2000).

Vários são os fungicidas existentes para controlar patógenos associados a sementes de arroz. Amaral (1981) e Ribeiro (1996) relataram a eficácia de thiram, captan, carboxin, mancozeb e de quintozene na melhoria da qualidade sanitária de lotes de sementes, e conseqüente aumento de estande no campo. Valarini & Lasca (1984), Figueiredo et al. (1985) e Sartorato et al. (1990) reportaram a eficácia de iprodione no controle dos patógenos Drecheslera oryzae (Breda de Haan) Subram. & Jain e Phoma sorghina (Sacc.) Boerema, Derenbosh & Van Kesteremn associados a sementes de arroz, iprodione tem período de proteção longo e atua tanto de forma preventiva quanto curativa (Machado, 2000). Especificamente para o arroz, o espectro desse fungicida em relação à micobiota associada a sementes é pouco conhecido.

Este trabalho teve por objetivo avaliar o efeito de diferentes concentrações do fungicida iprodione sobre o crescimento micelial, in vitro, dos fungos Alternaria alternata (Fr.) Keissler, Aspergillus flavus Link ex Fr., Aspergillus niger van Tiegh., Aspergillus ochraceus Wilhelm, Curvularia oryzae Bugnicourt, Drecheslera oryzae (Breda de Haan) Subram. & Jain, Pyricularia grisea (Cooke) Sacc.,Phoma sorghina (Sacc.) Boerema, Dorenbosch & Van Kesteren e Gerlachia oryzae (Hash. & Yok.) W. Gams, os quais constituem a micobiota mais comum associada a sementes de arroz no Estado de Minas Gerais e representam os três grupos de fungos que podem se associar às sementes: patogênicos de campo, de armazenamento e saprófitas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os ensaios foram conduzidos no Laboratório de Patologia de Sementes do Departamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Lavras, Minas Gerais. O fungicida iprodione (isopropilcarbamoil - 1 - (dicloro - 3,5 - fenil) - hidantoína) foi fornecido pelo seu fabricante.

Isolamento e obtenção de culturas puras dos fungos - as culturas puras de A. alternata, A. flavus, A. niger, A. ochraceus, C. oryzae, D. oryzae, G. oryzae, P. sorghina e P. grisea foram obtidas pelo isolamento desses fungos de sementes de arroz (Oryza sativa L.) submetidas ao teste de sanidade pelo método do papel de filtro com congelamento e transferidos para placas de Petri contendo meio BDA (extrato de batata - dextrose - ágar). As placas com o inóculo dos fungos foram mantidas em câmara de crescimento com temperatura de 20±2ºC e fotoperíodo de doze horas de luz negra (comprimento de onda próximo a ultravioleta), durante sete dias.

Avaliação do fungicida sobre o crescimento micelial dos fungos - o fungicida foi solubilizado em água destilada e adicionado ao meio BDA fundente, após esterilização, com temperatura em torno de 45ºC, obtendo-se os substratos nas concentrações de 10mg.l-1, 50mg.l-1, 100mg.l-1 e 500mg.l-1 de ingrediente ativo. O meio BDA com as diferentes concentrações do fungicida foi distribuído em placas de Petri de 9cm de diâmetro, utilizando 15ml por placa. No centro de cada placa foi colocado um disco de meio centímetro com micélio dos fungos testados crescidos em meio BDA. Para fungos do gênero Aspergillus, utilizaram-se discos de papel de filtro de meio centímetro de diâmetro, previamente esterilizados, embebidos em ágar-água e mergulhados na suspensão dos esporos. As testemunhas consistiram de discos de micélio ou de papel de filtro embebidos em suspensão de esporos e colocados em meio BDA sem o fungicida. As placas com o inóculo dos fungos foram colocadas em câmara do tipo BOD com fotoperíodo de doze horas e temperatura de 25ºC, por um período de sete dias.

A avaliação da fungitoxicidade in vitro foi realizada por meio da porcentagem de inibição de crescimento micelial (PIC), comparando-se o diâmetro médio, em cm, entre as colônias nos tratamentos com fungicida e a testemunha, após sete dias de incubação (Edgington et al., 1971):

 

 

Análises de regressão correlacionando porcentagem de inibição de crescimento micelial (PIC) e concentração de iprodione (transformada em log x+1) foram realizadas para cada fungo, sendo calculada a ED50 (dose necessária para inibir em 50% o crescimento fúngico). Após o cálculo da ED50, o fungicida foi classificado em três categorias, segundo a escala de Edgington et al. (1971) modificada: ED50 < 10mg.l-1 alto efeito; ED50 10 - 50mg.l-1 médio efeito e ED50 > 50mg.l-1 baixo efeito.

O delineamento experimental usado foi o inteiramente casualizado com cinco tratamentos e quatro repetições.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para os fungos A. alternata, C. oryzae, D. oryzae, G. oryzae, P. sorghina e P. grisea, à medida que se aumentou a concentração do fungicida iprodione, houve aumento da porcentagem de inibição de crescimento micelial (PIC), sendo ajustadas aos dados equações de regressão pelo modelo linear. As equações de regressão apresentaram um bom ajuste com altos valores para os coeficientes de determinação - R2 (Tabela 1).

 

 

Para os fungos pertencentes ao gênero Aspergillus, a concentração de 50mg.l-1 de iprodione inibiu ao máximo o crescimento micelial. Para esses fungos foram ajustadas aos dados obtidos equações de regressão pelo modelo quadrático (Tabela 1).

No cálculo da dose necessária de iprodione para inibir em 50% o crescimento micelial (ED50) dos fungos avaliados (Tabela 2), verificou-se um alto efeito do fungicida (ED50 < 10mg.l-1) em relação aos fungos A. alternata, A. flavus, A. niger, A. ochraceus, C. oryzae e D. oryzae, efeito mediano (ED50 = 10 - 50mg.l-1) em relação a P. sorghina e baixo efeito (ED50 > 50mg.l-1) em relação a P. grisea.

 

 

Os resultados deste estudo em relação a D. oryzae corroboram com os resultados de trabalhos conduzidos por Valarini & Lasca (1984) e Figueiredo et al. (1985), diferindo, entretanto, em relação a P. sorghina nos estudos de Figueiredo et al. (1985) e Sartorato et al. (1990). Essas diferenças podem estar relacionadas a diversos fatores como a variabilidade genética entre os isolados utilizados, conforme verificado por Parisi et al. (1999) em relação à fungitoxicidade diferenciada de um mesmo fungicida sobre o crescimento micelial in vitro de quatro isolados de Phomopsis sojae Lehman e Phomopsis phaseoli f. sp. meridionalis Morgan-Jones.

Dentre os fungos avaliados, A. niger e A. ochraceus foram os mais sensíveis à iprodione, com ED50 de 2,5 e 3,1mg.l-1, respectivamente. Esses fungos, assim como A. flavus, tiveram inibição máxima de crescimento micelial a partir da concentração de 50mg.l-1. Segundo Machado (2000), iprodione é um produto que apresenta um razoável espectro de ação fúngica, atuando sobre esporos, impedindo sua germinação, e sobre o micélio, bloqueando o seu desenvolvimento. Neste estudo, a eficácia desse fungicida na inibição do crescimento micelial in vitro ficou evidenciada para a maioria dos fungos que compõem a micobiota mais freqüentemente encontrada em sementes de arroz no Estado de Minas Gerais. A eficácia desse produto ficou evidenciada não só em relação a D. oryzae, como em relação à Gerlachia oryzae, um importante patógeno que tem sido uma preocupação em diversas circunstâncias. O fato de não apresentar ação contra espécies de Fusarium e ser eficaz em relação a Gerlachia oryzae, pode fazer com que iprodione seja utilizado na distinção in vitro entre espécies de Fusarium, como F.dimerum,e Gerlachia oryzae, dois fungos que exibem frutificações muito semelhantes, por ocasião dos testes de sanidade, e que ocorrem em sementes de arroz.

 

CONCLUSÕES

♦ O fungicida iprodione inibe com alta eficácia o crescimento micelial in vitro dos fungos Alternaria alternata, Aspergillus flavus, A. niger, A. ochraceus, Curvularia oryzae, Drechslera oryzae e Gerlachia oryzae;
♦ em relação aos fungos patogênicos Phoma sorghina e Pyricularia grisea, a eficácia de iprodione na inibição de crescimento micelial in vitro é baixa.

 

REFERÊNCIAS

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Aceito para publicação em 28.12.2001.

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