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vol.40 número111VIGOTSKI E LEONTIEV: DE MEMÓRIAS E SENTIDOSA PESQUISA DE ALEKSEI N. LEONTIEV SOBRE A MEMÓRIA E SEU SIGNIFICADO COMO VANGUARDA NA CIÊNCIA SOVIÉTICA DO FUTURO índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
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Cadernos CEDES

versão impressa ISSN 0101-3262versão On-line ISSN 1678-7110

Cad. CEDES vol.40 no.111 Campinas maio/ago. 2020  Epub 05-Ago-2020

https://doi.org/10.1590/cc225970 

DOSSIÊ: MEMÓRIA E SENTIDO

PREFÁCIO PARA O LIVRO DE A. N. LEONTIEV O DESENVOLVIMENTO DA MEMÓRIA*

PREFACE TO THE DEVELOPMENT OF MEMORY, BY A. N. LEONTIEV

Lev Semionovitch Vigotski

Aleksei Nikolaievitch Leontiev


RESUMO

O presente texto consiste na primeira tradução do segundo “Prefácio” do livroO Desenvolvimento da Memória para a língua portuguesa. Tal texto, escrito em 1932, esboça uma breve autocrítica dos autores com relação ao ideário de psicologia instrumental existente no livro prefaciado, o qual perpassou a pesquisa de Leontiev, orientada por Vigotski. Os autores revisam tópicos como a importância da idade na memorização e a sobrevivência de formas “inferiores” nas formas “superiores” de memória, traçando importantes contribuições acerca dos conceitos de “memória/memorização” e de “sentido”.

Palavras-chave Lev Semionovitch Vigotski (1896–1934); Aleksei Nikolaievitch Leontiev (1903–1979); Memória; Sentido

ABSTRACT

This is the first translation of the second “Preface” to The Development of Memory into Portuguese. The text, written in 1932, outlines a brief self-criticism of the authors regarding some ideas of instrumental psychology which based Leontiev’s research supervised by Vygotsky. The authors review topics such as the importance of age in memorization, and the maintenance of the “inferior” in the “superior” forms of memory, offering an important contribution to the study of “memory/memorization”, and “sense”.

Keywords Lev Semionovich Vygotsky (1896–1934); Aleksey Nikolaevich Leontiev (1903–1979); Memory; Sense

O livro, cujo prefácio se encontra nestas linhas, será publicado em 1932 com considerável atraso, pois foi escrito e enviado para impressão há mais de dois anos; o estudo experimental que compõe seu conteúdo foi conduzido pelo autor há alguns anos e foi terminado, resumido e generalizado teoricamente em 1929; ou seja, há três anos. Assim, um longo intervalo de tempo separa a conclusão do trabalho do momento da sua publicação.

Na nossa ciência, que está se construindo sobre novas bases metodológicas, assim como todas as áreas da ciência soviética, houve, nesse período, mudanças sérias e profundas no sentido da aplicação real (não formal, verbal ou escolástica) do método dialético nas pesquisas científicas concretas. Como se sabe, essas mudanças estão associadas a uma revisão crítica de antigas posições e antigos pontos de vista teóricos em todas as áreas do conhecimento científico – inclusive a psicologia.

No decorrer desse tempo, o círculo de pesquisa ao qual o presente trabalho pertence também foi ampliado e aprofundado, o que levou os próprios pesquisadores – inclusive o autor deste livro e o autor do primeiro prefácio – a revisar algumas das proposições teóricas apresentadas durante o trabalho vivo de pesquisa, bem como a aprofundar, especificar e avançar no desenvolvimento de alguns pontos de vista, além de transformar e reelaborar muitas generalizações teóricas e hipotéticas; ou seja, levou à complementação e à modificação significativa do conceito psicológico fundamental que orienta esses estudos: o conceito do desenvolvimento histórico das funções psicológicas superiores.

Sob influência contrária da revisão metodológica da psicologia soviética, por um lado, e do ulterior desenvolvimento interno de todo o sistema de pesquisa existente, por outro, surgiu a necessidade de acrescentar este prefácio ao livro em questão. O único objetivo deste prefácio é evitar possíveis mal-entendidos e fazer correções, esclarecimentos e complementações que não pudemos introduzir no texto1 (pois o livro já está pronto enquanto escrevemos estas linhas).

A ideia principal deste livro – e, ao mesmo tempo, de todos os estudos entre os quais ele adquire seus sentido e significado verdadeiros – consiste no reconhecimento do desenvolvimento histórico da personalidade humana e de suas funções psicológicas. Em essência, a assim chamada “teoria do desenvolvimento histórico” (ou histórico-cultural), em psicologia, designa uma teoria das funções psicológicas superiores (memória lógica, atenção voluntária, pensamento verbal, processos voluntários etc.) – nem mais, nem menos.

A origem e o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, suas estrutura e composição, sua forma de atividade e suas relações de dependência, as leis que regem seu curso e seu destino: esses são o conteúdo exato e o objeto verdadeiro desses estudos.

É basicamente esse o conteúdo e o objeto do estudo relatado neste livro. O objetivo deste livro é demonstrar a origem e a natureza psicológica da memória lógica e da atenção voluntária; ou seja, das formas superiores de memorização e atenção existentes nos seres humanos e específicas do psiquismo humano.

Na tentativa de revelar a natureza psicológica da memória humana e da atenção humana, o autor naturalmente precisou confrontar-se, de maneira aguda e irreconciliável, tanto com a ideia de que “as leis gerais da memória em seres humanos e em animais inferiores, como moluscos, são idênticas” quanto com o ponto de vista que considera que “a memória é uma atividade pura do espírito, absolutamente independente da matéria”; em outras palavras, com concepções metafísicas de tipo idealista ou mecanicista sobre a memória, as quais, apesar da aparente contradição, são internamente inseparáveis e se apoiam mutuamente.

Nessa luta ideológica contra as teorias idealistas e mecanicistas da memória, observa-se muitas vezes que o autor nem sempre desenvolve o sistema de seus pontos de vista fundamentais com suficientes coerência e clareza, o que, muitas vezes, causa erros de interpretação e compreensão de seu livro.

Assim, partindo da premissa correta de que o desenvolvimento histórico das formas superiores da memória não substitui, mas remove as formas elementares de memorização, que são fundamentalmente um produto da evolução biológica, o autor, no entanto, em vários trechos de seu livro, apresenta seu pensamento e os resultados dos experimentos de tal modo que enfatiza unilateralmente a distinção entre as formas elementares e superiores da memória, sem destacar unidade, ligação e continuidade no desenvolvimento delas. Vários trechos de seu trabalho, portanto, podem ser lidos e compreendidos exatamente no espírito da substituição, em vez da remoção das formas inferiores de memória pelas superiores.

Por exemplo, nas páginas 117 e 118, o autor, ao discutir a questão do desaparecimento da chamada memória eidética, afirma corretamente o seguinte:

As tarefas do nosso estudo não incluem a análise de como ocorre o desaparecimento desse tipo de memória. Interessa-nos agora outra questão: “O desaparecimento do eidetismo significaria a suspensão completa da atividade dos mecanismos que o subjazem?” A resposta negativa a essa questão, uma resposta que tem sido insistentemente imposta pelos dados das pesquisas modernas sobre o papel dos mecanismos eidéticos no desenvolvimento das nossas percepções, concepções e, conforme tentaremos mostrar a seguir, das formas superiores de memorização, leva-nos a uma posição extremamente importante: a memória eidética, que é destruída e atrofiada no processo de desenvolvimento psicológico, é, no entanto, preservada; mesmo depois de desaparecer como tal, ela continua existindo, mas em sua forma removida2. O que aparece com clareza completa no exemplo do eidetismo, obviamente, mantém-se válido em relação ao processo de involução da memória mecânica, associativa. Assim como no exemplo anterior, não existe aqui uma suspensão imediata dessa função e um surgimento repentino, desconectado do processo geral, de quaisquer novas operações psicológicas. Se é correto que formas novas e superiores da memória já estão dadas nas formas que as antecedem, o contrário também é verdadeiro; ou seja, as velhas formas continuam não apenas a conviver com novas, mas entram na composição delas, formando sua base natural.

Ao mesmo tempo, em outras páginas do mesmo livro, o autor às vezes usa formulações que podem criar uma impressão contrária à sua ideia principal, expressa na citação anterior. É o caso, por exemplo, da formulação introdutória do terceiro capítulo do livro (p. 109), que afirma:

O desenvolvimento das formas superiores da memória não representa um simples desdobramento de certa propriedade fisiológica que depende, em primeiro lugar, de uma série de fatores biológicos diretos, mas representa um processo complexo determinado por condições socioculturais, sob a influência das quais a estrutura dos atos de memorização se altera e, de maneira correspondente, sua eficácia aumenta. Essa ideia, que é ponto de partida para nosso trabalho em geral, no entanto, resulta diretamente dos materiais experimentais que nós obtivemos no presente estudo.

Esse trecho poderia facilmente sugerir que o autor supõe um rompimento entre as funções superiores e inferiores da memória, uma separação dos processos de memorização em relação ao substrato material, ou o esquecimento do conceito fundamental de que não há desenvolvimento das formas superiores de memória sem o desenvolvimento de “certas propriedades fisiológicas” que formam a premissa biológica dessa atividade psicológica e se mantém nela numa forma removida.

Como se sabe, Hegel lembra o duplo significado do verbo alemão “aufheben”, que, em russo, equivale a “snimát” [remover]3. Essa palavra designa, ao mesmo, tempo tanto a eliminação quanto a preservação de determinado fenômeno, o qual dizemos ter sido removido. Outros tradutores verteram esse termo com a palavra russa “skhoróneno” [enterrado], pois ela transmite claramente o duplo sentido do original alemão.

É exatamente esse duplo sentido da palavra, que esconde uma dupla relação objetiva entre as formas superiores e inferiores no processo do desenvolvimento, que muitas vezes escapa ao autor e, assim, suas formulações adquirem caráter unilateral e pecam contra a compreensão dialética dos fenômenos estudados, cuja aplicação consequente o autor estabeleceu como tarefa para si.

Contudo, o problema não está apenas nas formulações, mas em um ponto mais geral, inerente ao trabalho como um todo, que constitui o resultado inevitável dos níveis metodológico e teórico deste e de outros estudos desse círculo nos últimos anos.

Trata-se de um ponto que, muitas vezes, acompanha o pesquisador nos primeiros passos em um novo campo ou direção. Tal falha deixou sinal de incompletude e imperfeição em todos os estudos iniciais das funções psicológicas superiores e, neste livro em particular, consiste em certo esquematismo, um caráter abstrato na definição e na resolução de uma série de problemas, certa simplificação da real e grandiosa complexidade do problema.

Nos anos de hegemonia da psicologia empírica e da reflexologia mecanicista, este trabalho, bem como outros, similares e congêneres a ele, costumava ser acusado de complicar excessivamente o problema; agora, se considerarmos a verdadeira complexidade das questões abordadas no livro e o movimento ulterior por esse mesmo caminho, esse trabalho se revela culpado de simplificar a realidade. Essa é sua falha real, não imaginária.

O próprio processo de desenvolvimento da memória na infância é apresentado no livro de modo um tanto esquemático e extremamente abstrato – desconectado do desenvolvimento da personalidade da criança como um todo.

Na verdade, já durante a escrita deste livro, nas últimas páginas, o autor toca nessa questão com uma perspectiva distante. Ele escreve:

Se, depois de analisar nossa pesquisa com um olhar unificado, rastrearmos a substituição genética dos processos e operações psicológicas com a ajuda dos quais uma pessoa realiza a tarefa de memorização, a qual constitui o conteúdo real do desenvolvimento histórico da memória, teremos diante de nós um processo único de desenvolvimento de uma função única, no lugar da velha noção de existência inalterada de duas memórias diferentes lado a lado, a lógica e a mecânica. A essência desse processo, tomado em sua totalidade, consiste em que, no lugar da memória como propriedade biológica especial, surge, em etapas superiores do desenvolvimento do comportamento, um complexo sistema funcional de processos psicológicos, que, nas condições de existência social da pessoa, desempenha a mesma função que a memória, ou seja, realiza a memorização; um sistema que não somente amplia infinitamente as capacidades adaptativas da memória e transforma a memória animal em memória humana, mas que, organizado de outra maneira, é regido por suas próprias leis peculiares. O aspecto mais essencial desse processo de desenvolvimento é o surgimento de um sistema exatamente desse tipo, em vez de uma função comum e simples. Além do mais, estamos profundamente convencidos de que isso não constitui, de maneira alguma, privilégio apenas da memória, mas se trata de uma lei muito mais geral, que rege o desenvolvimento de todas as funções decididamente psicológicas. Essa memória superior, que é subordinada ao poder da própria pessoa, ao seu pensamento e à sua vontade, não apenas difere da memória biológica primária por suas estrutura e maneira de funcionamento, mas também por sua relação com a personalidade como um todo. Em outras palavras, isso significa que, junto com a transformação cultural da memória, o próprio uso da experiência passada, cuja preservação é garantida pela memória, assume formas novas e mais elevadas: ao dominarmos nossa memória, liberamos todo o nosso comportamento do poder cego das influências automáticas e espontâneas do passado (p. 197).

No entanto, o desvelamento da memória lógica como sistema funcional complexo de processos psicológicos em toda a singularidade de suas construção e atividade permaneceu como tarefa não realizada nas páginas deste livro. De igual maneira, o problema teórico e genético extremamente complexo da unidade do interno e do externo e da transição do externo para o interno no processo de desenvolvimento social da criança (um problema que foi tão intimamente abordado por experimentos que estudam a transição dos processos de memória mediados externamente para processos mediados internamente) não foi resolvido integralmente dentro deste estudo.

Por motivos de economia de espaço, não vamos indicar toda gama de consequências desse esquematismo, que, na nossa opinião, é a principal característica negativa deste livro, a qual deveria e deve ser superada no decorrer futuro do trabalho; trata-se de uma característica que exige do leitor uma leitura cuidadosa e crítica deste livro.

Apenas para facilitar a tarefa de leitura crítica, vamos nos deter em dois pontos ligados a essa característica por nós indicada. Ambos são conectados internamente entre si: um esclarece o outro. A nosso ver, se tomados em conjunto, ajudam a encontrar uma fórmula crítica comum para a avaliação do presente livro em seus aspectos negativos.

Comparando os resultados do estudo experimental dos processos de memorização em crianças e em adultos, o autor afirma o seguinte a respeito dos indicadores da memorização em experimentos com adultos pertencentes a diferentes níveis de desenvolvimento cultural:

Os dados que caracterizam a memorização dos adultos permanecem completamente peculiares em todas as fases do seu desenvolvimento cultural e, é claro, não podem ser equiparados às fases do desenvolvimento da criança que lhes são formalmente correspondentes. A pessoa adulta analfabeta e uma criança pré-escolar, assim como um adulto que faz cursos e uma criança que frequenta uma escola regular, possuem experiências individuais completamente diferentes e os complexos de características psico-fisiológicas que lhes são inerentes são totalmente distintos. No entanto, quando excluímos um dos fatos mais importantes – a idade –, destacando assim o impacto das condições sociais e culturais, nós revelamos em nossos experimentos da transição do nível inferior ao superior, em princípio, a mesma lei, referida anteriormente, do desenvolvimento de formas superiores de memorização (p. 115).

Esta convergência das leis básicas do desenvolvimento de formas superiores de memorização na criança e no adulto, à qual o autor chega, torna-se possível em seu trabalho (apesar de estar em forte contradição com sua abordagem básica principal do desenvolvimento da criança, cuja originalidade consiste exatamente na união e na síntese da formação orgânica e cultural das funções psicológicas da criança), pois o autor abstrai esquematicamente a influência das condições culturais e sociais, querendo apresentá-las por meio de uma análise experimental numa forma isolada e pura, desviando de “um dos fatores mais importantes” (segundo suas próprias palavras), ou seja, do fator idade.

Para entender como foi possível o surgimento dessa abstração, que pareceria tão claramente ilegítima e, ademais, contradiz os principais procedimentos realizados neste livro sobre análise teórica do desenvolvimento infantil em toda a sua singularidade qualitativa, é necessário imaginar esse ponto em conexão com a tarefa teórica principal e central que foi resolvida por este estudo. Essa tarefa consistia, antes de tudo, em descobrir a natureza psicológica comum de todas as funções formadas historicamente, das mais primitivas até as superiores, e, dessa maneira, destacar esse sistema de funções da totalidade dos processos psicológicos.

Portanto, é totalmente natural que, para a solução dessa tarefa, tenham sido sacrificadas as diferenças internas de algumas formas concretas do desenvolvimento das funções superiores da memória; a abstração do desenvolvimento orgânico foi motivada pelo desejo de enfatizar a irredutibilidade do desenvolvimento das funções superiores a uma continuação direta do desenvolvimento orgânico de suas premissas. Em grande medida, o poder dessa abstração, que, por um momento, escondeu de nós o outro lado do processo estudado, deve-se à defesa experimental da tese básica deste livro. Do ponto de vista da etapa do desenvolvimento de nossas pesquisas e das tarefas que se colocavam diante de nós naquele período, essa abstração forçada nos parece, portanto, psicologicamente inevitável.

Entretanto, não podemos agora, à luz dos novos fatos sobre a memória, deixar de perceber toda a limitação do ponto de vista adotado por nós, toda a convencionalidade da apresentação unilateral do desenvolvimento da memorização que decorre dele e a incompletude do quadro por nós apresentado, bem como o fato de que o esquecimento dessas limitação e convencionalidade conduz inevitavelmente a posicionamentos equivocados, como é o caso de nossa análise da convergência das leis da memória da criança e do adulto num determinado aspecto, tomado isoladamente e abstraído da idade.

Excluindo a idade, excluímos também toda a especificidade do desenvolvimento infantil como tal; quando excluímos do desenvolvimento da criança tudo o que é especificamente infantil, ou seja, a idade, descobrimos que as leis que regem o desenvolvimento da memória superior no adulto e na criança são idênticas em princípio. Além disso, ao excluirmos a idade, excluímos todo o desenvolvimento etário, inclusive a maturação anatômica e fisiológica do cérebro e o desenvolvimento de sua estrutura e de suas funções. Portanto, não é apenas pelas formulações, mas pela própria sequência do pensamento que traímos nosso ponto de partida, segundo o qual não se podem analisar as funções psicológicas superiores e seu desenvolvimento de maneira total e fundamentalmente isolada em relação ao desenvolvimento das funções fisiológicas que estão na base da memória.

O segundo ponto está diretamente relacionado com isso, pois também constitui um dos aspectos negativos, tanto do livro em questão como de todos os estudos do mesmo círculo e da mesma etapa. Por isso, em essência, a ele pode ser aplicado tudo o que acabamos de dizer sobre o primeiro ponto no que se refere à explicação sobre seu surgimento no decorrer do estudo, em um determinado período, à elucidação da limitação e da convencionalidade do ponto de vista por nós adotado e ao consequente perigo de conclusões teóricas falsas.

Referimo-nos ao fato de que, na análise do material experimental, o autor abstrai a estrutura e o funcionamento dos processos superiores da memória do aspecto semântico dessas operações, da memória lógica; ou seja, dos aspectos lógicos na memória lógica. O próprio nome dessa abstração aponta para a sua convencionalidade. Afinal, o aspecto lógico, ou seja, a estrutura semântica na qual sempre se realiza o processo mediado de memorização, constitui, obviamente, a diferença específica daquela memória que legitimamente chamamos memória lógica. Naturalmente, nesse tipo de consideração, não apenas a análise da estrutura e do funcionamento da memória superior, estudados pelo autor de maneira isolada do aspecto semântico dessas mesmas operações, é colocada no centro da investigação e adquire caráter abstrato, mas também o próprio curso do desenvolvimento da memória recebe interpretação incompleta e unilateral, pois são ignoradas e excluídas do campo de visão as ligações mais essenciais, imediatas e específicas para a função estudada e sua relação com outras funções psicológicas, as quais, na teoria, são apresentadas pelo autor como primordiais.

Na verdade, o autor enfatiza o papel da intelectualização da memória como principal momento na constituição das formas superiores de memorização:

Exatamente em suas formas superiores e internas de fala, revela-se, com uma clareza particular, a natureza intelectual da memorização mediada, que se manifesta já nas primeiras etapas do seu desenvolvimento. As ligações verbais, que reúnem numa estrutura unificada elementos memorizados separados, transformam essa operação numa operação lógica (p. 177).

No entanto, quando excluímos de nossa análise o aspecto semântico de uma operação complexa, quando retemos e nos concentramos apenas em seus momentos estruturais e dialéticos, estamos exatamente ignorando a intelectualização da memória; ou seja, o ponto central em termos de significado da relação interfuncional entre memória e pensamento, sem o qual o desvendamento completo da memória lógica, como sistema funcional complexo de processos psicológicos, torna-se impossível.

Para esta análise crítica breve, escolhemos estes dois aspectos: a questão do desenvolvimento da memória superior na criança e no adulto e a questão do aspecto semântico das operações de memória lógica. Isso se deu principalmente porque, por seu valor metodológico, são aspectos centrais e determinantes para a fórmula crítica que procuramos para este livro como todo.

Esses dois fatores indicam essencialmente os desvios do caminho metodológico principal escolhido pelo autor, desvios que seguem sentidos opostos.

O primeiro – a convergência das leis do desenvolvimento da memória do adulto e da criança – contém objetivamente um elemento de ordem idealista, uma vez que, como foi demonstrado anteriormente, pode levar à separação entre os processos de desenvolvimento da memória e os processos de desenvolvimento do cérebro e de suas funções (separação entre a função psicológica e seu substrato material).

O segundo – o desvio da estrutura semântica das operações de memória lógica – contém objetivamente um elemento de ordem mecanicista, uma vez que, conforme os objetivos do livro, ao se desviar da especificidade da palavra como portadora de um conceito, em busca de algo comum e semelhante, que seja inerente a todos os processos mediados, desde a memorização, como o uso de um nó para se lembrar de algo, até a memorização com ajuda da palavra, desconsiderando a convenção e a limitação do ponto de vista adotado, podemos vir a ignorar o ponto mais importante no desenvolvimento das operações com signos, esquecer o desenvolvimento dos significados e, portanto, reduzir de maneira substancialmente mecanicista as formas superiores dos processos mediados às formas inferiores desses mesmos processos, ao tentar abarcar com uma única lei a atividade de ambas4.

Não queremos absolutamente dizer que o significado científico deste livro é definido por esses desvios, que tais desvios são seu foco principal e central. Pelo contrário: pensamos que não enxergar nele nada além desses desvios seria apenas uma prova de cegueira teórica. O livro, como um todo, a nosso ver, não apresenta – nem subjetivamente, segundo a intenção do autor, nem objetivamente, segundo a realização dessa intenção – uma concepção mecanicista ou idealista que simplesmente deva ser descartada. Procurarmos citar as palavras do próprio livro, que comprovam que cada desvio por nós observado em relação ao caminho metodológico é precisamente um desvio, não o caminho propriamente dito, pelo qual o autor conduz o leitor do seu trabalho.

Tendo em vista uma avaliação objetiva do livro, gostaríamos de ressaltar a dualidade inerente a este trabalho (assim como a todas as outras obras do mesmo círculo, em cujo contexto o autor do primeiro prefácio tenta introduzir este livro): uma dualidade que se manifesta na condução de sua linha metodológica mestre.

Na luta contra as teorias idealistas da memória, a nova concepção proposta no livro não foi coerente o suficiente, pois não superou, por si mesma, até o fim e completamente, os elementos idealistas. Na luta contra as teorias mecanicistas, essa concepção de igual maneira não foi coerente o suficiente, pois também não superou, em si mesma, até o fim e completamente, os elementos mecanicistas.

Contudo, ainda teremos que voltar à avaliação dessas obras como um todo em outra oportunidade.

Eis por que, aos olhos dos próprios pesquisadores, este livro não resolveu as tarefas críticas e positivas de maneira minimamente definitiva e completa. Não pode, portanto, ter a pretensão de ser completo, de ter elaborado um ponto de vista metodológico sobre o desenvolvimento histórico das funções superiores ou de oferecer uma interpretação global e completa desse desenvolvimento que seja desprovida de contradições internas.

Não, este estudo, na opinião dos próprios pesquisadores, é o que ele é realmente: não mais do que um primeiro passo para o estudo de novos fatos, não mais do que uma primeira experiência de generalização teórica sobre eles; ou seja, não mais do que uma solução do problema com uma aproximação grosseira, que agora não parece ser suficientemente precisa.

Esses erros de cálculo são totalmente compreensíveis em termos psicológicos se levarmos em consideração que, diante dos pesquisadores, estava a tarefa de revelar a unidade das funções psicológicas superiores e sua origem histórica comum. Daí decorrem as ousadas abstrações realizadas. Todavia, é claro que não é nisso que vemos a justificativa ou o significado objetivo do livro sobre o desenvolvimento da memória que está sendo publicado, mas na conquista de novos fatos (os quais agora não poderão ser ignorados por nenhuma teoria psicológica da memória), bem como na afirmação do caminho concreto do desenvolvimento histórico da memória humana.

A justificativa para o livro e sua publicação consiste no estabelecimento de novos caminhos para o pensamento psicológico e para a pesquisa, os quais, mediante rigorosa avaliação crítica e autocrítica de erros isolados no processo de pesquisa, ainda assim levam para o destino certo.

Notas

1Ao preparar este prefácio, os autores levaram em conta as observações feitas durante a revisão crítica do livro pelo diretor do Instituto de Psicologia, Pedologia e Psicotécnica, V. N. Kolbanóvski (N. A).-

2Forma removida equivale a “sniátaia forma” (em russo). Não significa que as formas antigas de memória sejam destruídas, mas que ocorre uma espécie de deslocamento; a palavra “deslocada” dá a entender que ela passa a segundo plano na consciência. A expressão também aparece em “Acerca dos processos compensatórios no desenvolvimento da criança mentalmente atrasada”, de 1931 (VIGOTSKI, L. S. Acerca dos processos compensatórios no desenvolvimento da criança mentalmente atrasada. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 44, e44003001, 2018, Trad. Denise Regina Sales, Marta Kohl de Oliveira, Priscila Nascimento Marques). Dois parágrafos antes, Vigotski faz um trocadilho afirmando que o desenvolvimento histórico “ne smeniáet, a snimáet” (ou seja, não substitui, mas remove as formas elementares de memorização). O conceito de “sniátie” (remoção) tem origem no léxico hegeliano (“Aufhebung”) e pode ser descrito como uma “transformação na qual as formas ou princípios existentes são eliminados, negados e, ao mesmo tempo, conservados, preservando seu significado como aspecto subordinado de uma nova totalidade ou sistema. [...] Ao apontar para o sentido duplo do termo “aufheben” (preservar, reter e, ao mesmo tempo, eliminar, cessar, colocar fim), Hegel destacou que o que é removido é sempre mediado pelo processo de desenvolvimento. Segundo Hegel, trata-se do rebaixamento de algum fundamento real (objeto, sistema, estrutura) ao ponto de um todo mais desenvolvido. Assim, o termo se caracteriza pelo surgimento de uma nova unidade, de um grau mais elevado de desenvolvimento. A interpretação hegeliana está ligada primeiramente à esfera do espírito e da cognição; em sua abordagem idealista, a substância espiritual realiza e supera a si mesma, preservando as formas superadas como ferramentas de sua atividade. Na literatura filosófica marxista, o termo é empregado como característica do objeto em desenvolvimento no contexto da lei da negação da negação e é identificado com o conceito de negação dialética” (Dicionário Enciclopédico Filosófico, Moscou: Soviétskaia Entsiklopédia, 1983). Em algumas edições da obra de Hegel em português, o termo “Aufhebung” aparece como suprassunção. Enfim, vale destacar que “aufheben”/”snimát” não equivale integralmente ao verbo “superar” (“überwinden” e “preodoliét”, em alemão e russo, respectivamente), mas inclui, ao mesmo tempo, a noção de superação e negação (N. T).-

3Ver nota anterior.-

4Vigotski (1995, p. 77) utiliza o exemplo do “nó recordatório” como recurso para lembrar-se de algo. Nas formas mais primitivas de signo, o sujeito atribui novo sentido a um determinado objeto do meio externo para poder se recordar de outro. Os exemplos do autor são o ato de dar nó em um lenço ou colocar um papel sob a tampa do relógio de bolso para lembrar-se de cumprir alguma tarefa – ambos atribuem novos sentidos a objetos que não são feitos para ser usados como signos – daí sua estrutura primitiva. (VYGOTSKI, L. S. Historia del desarrollo de las funciones psíquicas superiores. In: Obras escogidas, Madrid: Visor Distribuiciones, v. 3, pp. 11-340, 1995 (Texto original de 1931) (N. T).-

Comitê Editorial do Cedes/Coordenação deste número: Silvia Cordeiro Nassif e Maria Silvia Pinto de Moura Librandi da Rocha

*O texto foi escrito conjuntamente por L. S. Vigotski e A. N. Leontiev e impresso como folheto à parte, sendo acrescentado aos exemplares do livro O Desenvolvimento da Memória já impressos naquele momento (conforme nota dos editores russos).

Esta tradução foi realizada a partir da coletânea de trabalhos jovens de Vigotski e Leontiev: Predislóviie k knígue A. N. Leontieva « Razvítiie pámiati » [“Prefácio ao livro de A. N. Leontiev Desenvolvimento da Memória”]. In: LEONTIEV, A. N. Stanovlénie psikhológuii déiatelnosti: Ránnie rabóti [Formação da psicologia da atividade. Trabalhos iniciais]. Moscou: Smisl, 2003, p. 199-205 (Original de 1932).

Essa coletânea foi editada em russo por A. A. Leontiev, D. A. Leontiev e E. E. Sokolova e a presente tradução do prefácio para o português foi realizada por Gisele Toassa, Yuliya Kodalyeva e Priscila Nascimento Marques. (N. T.)

Dossiê organizado por: Gisele Toassa e Ana Luiza Bustamante Smolka

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Recebido: 01 de Julho de 2019; Aceito: 30 de Novembro de 2019

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