SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.40 número4Medindo a percepção de profissionais latino-americanos sobre a qualidade da educação físicaSatisfação com a vida e status social subjetivo em atletas de futsal e futebol de campo índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista Brasileira de Ciências do Esporte

versão impressa ISSN 0101-3289versão On-line ISSN 2179-3255

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.40 no.4 Porto Alegre out./dez. 2018

https://doi.org/10.1016/j.rbce.2018.03.018 

Artigos originais

Tecendo relações entre a motivação para as aulas de educação física e o Ideb

Weaving relations between motivation for Physical Education classes and IDEB

Tejer relaciones entre la motivación en las clases de educación física y el Ideb

Luciane Cristina Arantes da Costaa  * 

Patric Paludet Floresa 

Natasha de Paula Andradea 

Ana Luiza Barbosa Anversab 

Vânia de Fátima Matias de Souzac 

aUniversidade Estadual de Maringá (Uem), Departamento de educação física, Maringá, PR, Brasil

bCentro Universitário UNIFAMMA, Maringá, PR, Brasil

cUniversidade Estadual de Maringá (Uem), Programa de Pós-Graduação em Educação, Maringá, PR, Brasil


Resumo

Os problemas relacionados ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principalmente no que se refere ao ensino de má qualidade e à estrutura física inadequada das escolas, podem interferir na motivação nas aulas de educação física.

Objetivo:

Este estudo objetivou investigar a motivação dos alunos de educação física das escolas estaduais de Maringá-PR.

Método:

Foram selecionadas duas escolas para participação no estudo, uma delas com menor e outra com maior Ideb; para análise da motivação dos alunos usou-se o questionário de Necessidades Psicológicas Básicas na Educação Física Escolar (BPNES), analisados a partir do software SPSS versão 20.0, considerando o valor de p < 0,05.

Conclusão:

Os resultados demonstraram que em geral os escolares de maior Ideb tiveram uma motivação superior na dimensão competência. Quando comparados os sexos dos participantes, não houve diferenças significativas.

PALAVRAS-CHAVE Motivação; Educação física; Ideb

Abstract

Understanding the motivation of students in Physical Education classes is a major challenge today to keep them involved in activities. Problems associated with teaching poor quality and inadequate physical structure of schools greatly affect interest in classes.

Objective:

To investigate the motivation of the students of Physical Education of the state schools of Maringá-PR.

Methodology

Two schools were selected: with lower Ideb and one with higher Ideb; the data were collected from the questionnaire of Basic Psychological Needs in School Physical Education (BPNES), and analyzed using SPSS software version 20.0, considering the value of p < 0.05.

Conclusion:

The results showed that in general the students with the highest Ideb had a higher motivation in the competence dimension. When comparing the sexes of the participants, there was no significant difference in any aspect.

KEYWORDS Motivation; Physical education; Ideb

Resumen

Los problemas relacionados con el Ideb, principalmente en lo que se refiere a la educación de mala calidad y la estructura física inadecuada de las escuelas, pueden interferir en la motivación en las clases de educación física.

Objetivo:

Este estudio tuvo como objetivo analizar la motivación de los alumnos de educación física en las escuelas estatales de Maringá, PR.

Metodología:

Se seleccionaron dos escuelas para participar en el estudio, una con menor Ideb y otra con un Ideb mayor; para analizar la motivación de los alumnos se ha utilizado el cuestionario de Necesidades Psicológicas Básicas en la Educación Física Escolar (BPNES) a partir del software SPSS versión 20.0, en que se considera el valor de p < 0,05.

Conclusión:

Los resultados han demostrado que, en general, los alumnos con mayor Ideb tenían una motivación superior en la dimensión competencia. Cuando se compara por sexo de los participantes, no se encuentra ninguna diferencia considerable en ningún aspecto.

PALABRAS CLAVE Motivación; Educación física; Ideb

Introdução

A motivação tem um grande papel em manter o sujeito determinado a uma meta, os fatores que motivam uma pessoa podem advir internamente (motivação intrínseca) ou externamente (motivação extrínseca) (Samulski, 2002). As investigações relacionadas à motivação têm como grande desafio descobrir os motivos que levam as pessoas a fazerem determinado esporte ou exercício físico. A teoria da autodeterminação considera o bem-estar psicológico como uma consequência do compromisso com os desafios e propósitos de vida (Ryan e Deci, 2001).

Um comportamento para ser considerado autodeterminado necessita apresentar três aspectos: autonomia, a capacidade do sujeito de governar a si mesmo; percepção de competência, na qual o sujeito tem percepção da sua habilidade de realizar seus objetivos; e relacionamento, o qual envolve as pessoas inseridas no mesmo meio, ou seja, se apresenta bom relacionamento com as pessoas a sua volta (Silva, Wendt & Argimon, 2010). O professor de educação física deve estar ciente de que, além de ter conhecimento teórico, tem papel fundamental na motivação de seus alunos (Junior, 2000).

Um dos meios de diagnosticar se os objetivos e as metas estão sendo atingidos, e também uma forma de o próprio aluno ter consciência de seu crescimento e das dificuldades no meio escolar e colaborar com sua motivação, é a avaliação do desempenho da aprendizagem feita por meio do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), um indicador para verificar a qualidade de ensino nas escolas públicas pelo governo federal. Os dados ficam disponíveis para acesso no site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

O valor do Ideb no Brasil obtido no último exame, feito em 2015, foi de 4,5, ficou abaixo da meta, que era de 4,7. Contudo, isso se torna uma diretriz para o professor tomar decisões sobre seu planejamento e sua abordagem pedagógica na realidade em que se encontra (Fazolin e Maraisa, 2014).

O Ideb é calculado a partir de dois componentes: a taxa de aprovação e as médias de desempenho obtidas por meio da Prova Brasil, aplicada a cada dois anos (Fernandes, 2007). A meta que se espera ser atingida pelo Ideb em 2021 em nosso país é de 6, valor usado nos países desenvolvidos. Dessa forma, o Ideb foi usado como condutor da pesquisa, com a intenção de verificar se o comportamento motivacional dos alunos nas aulas de educação física se diferencia de acordo com essa avaliação.

Assim, tendo como base o apoio da teoria da autodeterminação, o presente estudo buscou analisar o nível de motivação em escolares da rede estadual de ensino em função do Ideb em um município do interior do Estado do Paraná.

Método

Esta pesquisa, de cunho descritivo, buscou apurar opiniões e atitudes, usou como meio questionários padronizados com perguntas claras e objetivas e analisou dados numéricos por meio de procedimentos estatísticos (Gil, 2002). Busca ainda analisar, observar e correlacionar os fatos, sem manipulação (Cervo e Bervian, 2002).

Para verificar o nível de motivação dos alunos foi usado o questionário de Necessidades Psicológicas Básicas na Educação Física Escolar (BPNES), validado para a língua portuguesa (Costa, 2015). O BPNES tem três dimensões relacionadas às necessidades humanas básicas: autonomia (3, 6, 9 e 12), competência (questões 2, 4, 7 e 10) e relacionamento (1, 5, 8 e 11).

Participaram da investigação 339 alunos da rede estadual de ensino, 205 da escola de maior Ideb e 134 da escola de menor Ideb (184 do sexo masculino e 155 do feminino).

Inicialmente foi feito contato com o Núcleo Regional de Educação para selecionar as escolas com o maior (v. 5,8) e menor (v. 3,6) Ideb. Depois foi solicitada aos diretores das escolas a autorização para a pesquisa. Para a participação foi entregue o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) aos responsáveis pelos alunos matriculados regularmente. Participaram do estudo aqueles que entregaram o TCLE devidamente assinado pelos responsáveis.

Os dados foram analisados por meio da estatística descritiva e inferencial. Para a análise da normalidade dos dados foi usado o teste de Kolmogorov-Smirnov. Foi usado o teste U de Mann-Whitney e o teste de Kruskall-Wallis. A significância adotada foi de p < 0,05.

Este estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual de Maringá (Parecer nº 1.715.040).

Resultados e discussão

Verificou-se que não houve diferença significativa entre os índices de autonomia (0,490), competência (0,178) e relacionamento (0,983) para os sexos masculino e feminino (tabela 1).

Tabela 1 Comparação dos índices de autonomia, competência e relacionamento (BPNES) dos alunos em relação ao sexo 

Dimensões Sexo masculino (n = 184) Sexo feminino (n = 155) P
Mediana (Q1-Q3) Mediana (Q1-Q3)
Autonomia 3,00 (2,25-4,00) 3,00 (2,25-3,75) 0,490
Competência 3,75 (3,00-4,50) 3,50 (2,75-4,25) 0,178
Relacionamento 3,50 (3,00-4,25) 3,75 (3,00-4,50) 0,983

Diferença significativa p ≤ 0,05.

Folle e Teixeira (2012) e Marzinek (2004) afirmam em seus estudos que, ao investigarem a motivação nas aulas de educação física, não houve diferença significativa entre os sexos, o que vai ao encontro do nosso estudo. Ainda assim, encontram-se estudos que demonstram que ambos os sexos se sentem motivados nas aulas de educação física, o que difere são os fatores que os motivam (Bidutte, 2001). Outro estudo demonstra a maior motivação por parte do sexo feminino na capacidade autônoma, o que vai de encontro ao nosso estudo (Rufini, Bzuneck e Oliveira, 2012).

Estudos demonstram que o sexo masculino tem maiores índices em suas capacidades psicológicas básicas (Valentini e Rudisill, 2006; Neto, 2012). Villwock e Valentini (2007) demonstram em suas investigações que o sexo masculino se torna mais motivado pelo contexto histórico de encorajamento e inclusão dos meninos em atividades motoras. Os resultados contraditórios nos diversos estudos sobre motivação remetem à necessidade de novas investigações e estudos mais aprofundados sobre esse constructo na realidade escolar.

Marzinek (2004) demonstra em seu estudo que, em relação aos fatores relacionamento e autonomia, não houve diferença significativa entre os sexos. Já no fator competência, o sexo masculino foi superior ao feminino. Na comparação com o estudo feito, não houve diferença significativa entre os sexos, porém os fatores relacionamento e autonomia vão ao encontro do nosso estudo.

Ao comparar os índices de autonomia, competência e relacionamento (BPNES) dos alunos com menor e maior Ideb (tabela 2), verificou-se que o índice de competência (0,013) foi superior nos alunos que obtiveram o maior Ideb. No que se refere aos índices de autonomia (0,945) e relacionamento (0,727), não houve diferença entre as escolas investigadas.

Tabela 2 Comparação dos índices de autonomia, competência e relacionamento (BPNES) dos alunos das escolas em relação ao Ideb 

Dimensões (Menor Ideb) (Maior Ideb) P
Mediana (Q1-Q3) Mediana (Q1-Q3)
Autonomia 3,00 (2,25-3,75) 3,00 (2,38-3,75) 0,945
Competência 3,50 (2,50-4,25) 3,75 (3,00-4,50) 0,013
Relacionamento 3,75 (2,88-4,50) 3,50 (3,00-4,25) 0,727

Diferença significativa p ≤ 0,05.

Soares et al. (2011), ao tratar do Ideb, verificaram que a gestão da escola interfere muito no desempenho dos alunos nas aulas, ou seja, o diretor e seus professores precisam estar integrados com os alunos de forma participativa, procurar apoiar os que apresentam dificuldades no aprendizado e ter estratégias apropriadas para superar obstáculos.

Um ambiente que favoreça as relações pessoais e as torne mais próximas pode ser a grande diferença para manter a escola e seus alunos com níveis de aprendizagem elevados e, de certa forma, motivados para quererem superar a cada dia novos desafios (Soares et al., 2011).

De acordo com Rufini, Bzuneck e Oliveira (2012), os alunos são considerados mais motivados em relação à capacidade autônoma. Isso acontece porque as escolas públicas passam por uma cadência de conteúdo e exigem que seus alunos tenham maior autonomia durante as aulas. Acredita-se então que esse fato torne os alunos mais competentes para aprender, o que vem ao encontro deste estudo, no qual os índices de competência foram mais elevados. Crianças que se percebem mais competentes em atividades motoras demonstram desempenho mais elevado, ou seja, o índice de desenvolvimento da educação em todas as disciplinas, não só a educação física, é favorecido (Villwock e Valentini, 2007).

Valentini (2002) aponta que os alunos que se percebem competentes são mais motivados e como consequência o desempenho é mais elevado. Com isso, é possível verificar que a estratégia de manter os alunos motivados melhora vários aspectos de sua formação no âmbito escolar e as aulas de educação física têm grande papel nesse fator, no qual o professor tem grande peso para desenvolver e integrar seus alunos nas práticas aludidas.

Considerações finais

Este estudo se propôs a investigar os níveis de motivação de escolares nas aulas de educação física da rede estadual de ensino e sua relação com o Ideb.

Dessa forma, a motivação em escolares do ensino fundamental é um aspecto essencial para tornar o indivíduo mais competente e envolvido nas atividades propostas pelos professores. O professor deve proporcionar um ambiente motivador e fazer nas aulas atividades que envolvam os alunos.

Podemos concluir que os escolares de maior Ideb tiveram uma motivação superior no que se refere à competência. Isso pode evidenciar que essa escola aparece mais bem desenvolvida no quesito aprovação por série e nota nos exames padronizados para medir a qualidade de ensino da mesma. Isso cria um ambiente favorável para aprendizagem e desenvolvimento do aluno, torna-o assim mais competente em suas atividades diárias.

Como limitação do estudo, não foi possível verificar a percepção do professor em relação a suas aulas serem motivadoras dos seus alunos. Fica, assim, uma possibilidade para estudos futuros.

Financiamento

O presente trabalho não contou com apoio financeiro de qualquer natureza.

Referências

Bidutte LC. Motivação nas aulas de educação física em uma escola particular. Braga: Psicologia escolar e educacional; 2001. [ Links ]

Cervo AL, Bervian PA. Metodologia científica. 5aed. São Paulo: Prentice Hall; 2002. [ Links ]

Costa, LA. da. Influência de um programa de ensino de esportes coletivos de invasão na motivação e desempenho motor de escolares no ensino fundamental. 2015. 196 f. Tese (Doutorado). Programa Associado em Educação Física UEM/UEL, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2015. [ Links ]

Fazolin B, Maraisa S. Melhorias no desempenho escolas através do Ideb. Unisanta Humanitas. 2014;3(1):1-19. [ Links ]

Fernandes R. Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Brasília, DF: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2007. [ Links ]

Folle A, Teixeira FA. Motivação de escolares das series finais do ensino fundamental nas aulas de educação física. Revista da Educação Física/UEM. 2012;23(1):37-44. [ Links ]

Gil AC. Como elaborar projetos de pesquisa. 4ª. ed. São Paulo: Atlas; 2002. [ Links ]

Junior J. Professor de educação física e a educação física escolar: como motivar o aluno?. Revista da Educação física/UEM 2000. 2000;11(1):107-17. [ Links ]

Marzinek A. A motivação de adolescentes nas aulas de educação física 2004. 88 f. In: Dissertação (Mestrado). Brasília: Universidade Católica de Brasília; 2004. [ Links ]

Neto GB. Uma breve visão sobre a afetividade nas teorias de Wallon, Vygotsky e Piaget. Trabalho de conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas). São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2012. [ Links ]

Rufini S, Bzuneck JA, Oliveira KL. A Qualidade da Motivação em Estudantes do Ensino Fundamental. Paidéia. 2012;22(51):53-62. [ Links ]

Ryan RM, Deci EL. On happiness and human potentials: a review of research on hedonic and eudaimonicwell-being. Annu Rev Psychol. 2001;52:141-66. [ Links ]

Samulsky D. Psicologia do Esporte. 1. ed Editora Manole; 2002. [ Links ]

Silva MA, Wendt GW, Argimon IL. A teoria da autodeterminação e as influências socioculturais sobre a identidade. Psicologia em Revista 2010. 2010;16(2):351-69. [ Links ]

Soares TM, et al. A gestão escolar e o Ideb da escola. Revista Pesquisa e Debate em Educação. 2011;1. [ Links ]

Valentini NC. A influência de uma intervenção motora no desempenho motor e na percepção de competência de crianças com atrasos motores. Revista Paulista de Educação Física, São Paulo. 2002;16(1):61-75. [ Links ]

Valentini NC, Rudisill ME. Orientação de metas e contexto para a maestria: uma revisão de pesquisas contemporâneas e considerações para intervenções. Estudos de Psicologia. 2006;23(2):159-71. [ Links ]

Villwock G, Valentini NC. Percepção de competência atlética, orientação motivacional e competência motora em crianças de escolas públicas: estudo desenvolvimentista e correlacional. Revista Brasileira de Educação física. 2007;21(4):245-57. [ Links ]

Recebido: 1 de Fevereiro de 2016; Aceito: 20 de Março de 2018; Publicado: 7 de Junho de 2018

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

* Autor para correspondência. E-mail:luarantes100@gmail.com (L.C. Costa).

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution Non-Commercial No Derivative, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que sem fins comerciais, sem alterações e que o trabalho original seja corretamente citado.