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Revista Brasileira de Ciências do Esporte

versão impressa ISSN 0101-3289versão On-line ISSN 2179-3255

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.42  Porto Alegre  2020  Epub 15-Maio-2020

http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2018.07.008 

ARTIGO ORIGINAL

A emergência e a disseminação do futebol na cidadede Rio Grande/RS: uma análise a partir do jornal Echodo Sul (1900-1916)

Jones Mendes Correiaa 

Gustavo da Silva Freitasb  * 
http://orcid.org/0000-0002-3419-8217

Alan Goularte Knutha  b 

Luiz Carlos Rigoa  c 

aUniversidade Federal de Pelotas (UFPel), Programa de Pós-Graduação em Educação Física, Pelotas, RS, Brasil.

bUniversidade Federal do Rio Grande, Instituto de Educação, Rio Grande, RS, Brasil.

cUniversidade Federal de Pelotas (UFPel), Escola Superior de Educação Física, Pelotas, RS, Brasil.

RESUMO

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa histórica que tratou da emergência e da disseminação do futebol moderno na cidade de Rio Grande/RS. O recorte temporal abarcou de 1900 a 1916 e o corpus empírico foi constituído pelo jornal Echo do Sul. O estudo faz uma análise das lógicas futebolísticas da época, sem se ater demasiadamente a um ou outro clube. No período pesquisado, identificaram-se 47 agremiações esportivas-futebolísticas, citadas na fonte, com distintos vínculos socioeconômicos, étnicos e geográficos. Desse modo, a pesquisa concluiu que, diferentemente do que predomina na historiografia do futebol riograndino, a prática desse esporte deixou de ser exclusiva das elites ainda no fim da primeira década do século XX.

Palavras-chave: Historiografia; Futebol; Clubes de futebol; Cidade

RESUMEN

Este estudio es una investigación histórica que trata sobre la llegada y difusión del fútbol moderno en la ciudad de Rio Grande/RS. Abarca el período de 1900 a 1916 y el cuerpo empírico está formado por el periódico Echo do Sul. El estudio realiza un análisis de la lógica futbolística de la época, sin centrarse en ningún club de fútbol en concreto. En el período que se estudia se ha contado hasta un total de 47 clubes de fútbol en la fuente con diferentes características socioeconómicas, étnicas y geográficas. De este modo, la investigación concluyó que, de manera distinta a lo que predomina en la historiografía del fútbol riograndino, la práctica de este deporte dejó de ser exclusiva de las elites al final de la primera década del siglo XX.

Keywords: History; Football; Football clubs; City

ABSTRACT

This study is characterized as a historical research reviewing the emergence and dissemination of modern football in the city of Rio Grande/RS. It encompasses the period from 1900 to 1916 and the empirical corpus was made up by a daily newspaper called Echo do Sul. The study analyzes football logics at the time, without focusing on one football club in particular. In the studied period, a total of 47 football clubs were identified in the newspaper with different socioeconomic, ethnic and geographical characteristics. Thus, the research concluded that, unlike what prevails in the history of football in the city of Rio Grande, the practice of this sport ceased to be exclusive of the elites in the first decade of the twentieth century.

Palavras Chave: Historiografía; Fútbol; Clubes de fútbol; Ciudad

INTRODUÇÃO

Na historiografia do futebol brasileiro, a cidade de Rio Grande/RS1 tornou-se conhecida por ser a sede do Sport Club Rio Grande, clube de futebol mais antigo do país em atividade, fundado em 19/07/1900. Entretanto, o contexto social, histórico e futebolístico que criou as condições de emergência desse clube suscita maiores investigações acadêmicas.

A partir de meados do século XIX, Rio Grande se tornou uma das cidades brasileiras proeminentes nas trocas comerciais entre o Brasil e a Europa (Enke, 2005), além de anfitriã aos imigrantes europeus que vinham para a América do Sul. O município, que vivia os ares e as promessas da modernidade europeia, construiu um jeito de viver que possibilitou a emergência de uma cultura futebolística que fez de Rio Grande e da região um polo pioneiro do futebol brasileiro (Rigo, 2004; 2013; Mascarenhas, 2014)2.

Assim, esta pesquisa caracteriza-se como um estudo histórico que pretendeu investigar e narrar os acontecimentos que constituíram uma singular cultura futebolística na cidade de Rio Grande no começo do século XX. Diferencia-se, assim, daqueles estudos (Pêgas, 1972; Ramos, 2000; Cesar, 2012; Lima, 2014) que, ao tratar da história do futebol na cidade, priorizam em demasia apenas alguns clubes, geralmente Sport Club Rio Grande (1900), Sport Club São Paulo (1908) e Football Club Riograndense (1909), esquecem-se da relevância que também tiveram outros clubes menores.

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Este estudo se inspirou na concepção de Michel Foucault, 2000a; Foucault, 2000b Foucault (2009; 2000a; 2000b), para o qual a história não tem "um núcleo consistente” (Veyne, 1995, p. 138) nem uma perspectiva linear ou progressiva. Para Foucault, "os níveis possíveis da análise”, os métodos e as periodizações históricas devem ser instituídos, considerar as particularidades internas de cada objeto (Foucault, 1995, p. 10). Assim, como ressalta Rago, 1995; Rago, 2002 Rago (1995; 2002), em uma perspectiva foucaultiana, o ofício do historiador assemelha-se ao de um narrador, um construtor de enredos e de tramas históricas.

O recorte temporal do estudo teve como referência a fundação do Sport Club Rio Grande (19/07/1900) e estendeu-se até 1916, ano da fundação da Liga Rio-Grandense de Football3. Essa delimitação temporal justifica-se, principalmente, porque a partir de 1916 a Liga Rio-Grandense passa a organizar, anualmente, o Campeonato Citadino de Futebol, acontecimento que institui novas lógicas ao futebol da cidade.

Espig (1998) ressalta a importância dos jornais como fonte historiográfica e destaca que a periodicidade faz dos jornais "verdadeiros arquivos do cotidiano” (p. 274). O autor salienta também que os jornais são uma representação da realidade de outras épocas. Desse modo, delimitamos como corpus empírico dessa pesquisa o periódico Echo do Sul, caracterizado por ser o jornal diário de maior circulação na cidade de Rio Grande, no início do século XX, que circulou ininterruptamente durante o período deste estudo4.

Os exemplares do periódico fazem parte do acervo da Biblioteca Rio-Grandense e encontram-se organizados em volumes encadernados por semestres de publicação. Nesse sentido, foram consultadas todas as edições disponíveis no banco de dados da biblioteca. A produção de dados contou com meticulosa leitura dos exemplares, desenvolveu anotações completas de todas as matérias relacionadas ao futebol encontradas no jornal para posterior análise. Para a feitura deste artigo foram usadas passagens de 41 edições do jornal.

CLUBES PIONEIROS

Anos antes da instauração do profissionalismo no futebol brasileiro (década de 1930), a cidade de Rio Grande já vivia um clima futebolístico5. Apesar de a fundação do Sport Club Rio Grande (1900)6 ser um acontecimento de interesse restrito (um indício disso é o fato de nenhum jornal da cidade tê-la noticiado), alguns anos depois se inicia um movimento de fundação de clubes de futebol originários de vínculos distintos, como é o caso, por exemplo, do Sport Club Brazileiro7, fundado em 16 de agosto de 1903 (Echo do Sul, 17/08/1903) e também do Sport Club União, fundado em 30 de maio de 19028 (Echo do Sul, 28 e 29/09/1903, 05 e 13/10/1903).

Em 1905, o jornal anuncia uma partida de futebol entre os sócios do Sport Club Rio Grande e um time de jovens aprendizes marinheiros. Segundo a edição de 11 de novembro, o jogo se realizou no "terreno provisório” do Sport Club Rio Grande, atrás do cemitério católico, longe do centro da cidade, por cedência da Southern (empresa ferroviária). Na segunda-feira seguinte, o periódico repercute o jogo vencido pelos donos da casa por 5 x 2. Todavia, mais do que o resultado da partida, chama a atenção o fato de o jornal tê-la anunciado e, posteriormente, ter feito a cobertura do jogo, o que evidencia um aumento do interesse da imprensa pelo futebol (Echo do Sul, 13/11/1905).

Até 1905, o jornal fez referência a quatro clubes (Sport Club Rio Grande, 1900; Sport Club Brazileiro, 1902; Sport Club União, 1902; Sport Club Estudante, 1903). A partir de 1906, o futebol começa a forjar possibilidades de entretenimento para quem estava fora das quatro linhas, faz-se referência ao "belo sexo”, forma como o jornal se referia às mulheres que, constantemente, se faziam presentes no field (campo de futebol) do Sport Club Rio Grande.

Os jogos de futebol deixam de ocorrer isoladamente e se tornam parte de festas esportivas que, além do futebol, contavam com bandas de música e outros atrativos. Em 1906, um dos fundadores do Sport Club Rio Grande, Arthur Lawson, ofereceu 11 medalhas de prata como premiação para uma série de jogos entre os sócios do clube (Echo do Sul, 03 e 19/09/1906).

Nos anos seguintes, amplia-se o interesse pelo futebol. Em 1908, novos clubes surgem, como o Sport Club Nacional. Como indica o seu nome, trata-se de clube não hegemonizado por descendentes das etnias europeias (alemã e inglesa), como era o Sport Club Rio Grande. Entre os membros da diretoria fundadora aparecem nomes como Waldemar Silveira, Eugênio Freitas, Jaime Silva e Eduardo dos Santos. Em sua fundação, o Sport Club Nacional contava com 70 sócios e fez "uma bela estréa reunindo no seu field trinta e tantos footballers que se bateram com enthusiasmo no espaço de três horas” (Echo do Sul, 03/08/1908.). Nos dias seguintes, o jornal anuncia jogos entre as quatro equipes do novo clube, que objetivava também dedicar-se a outros esportes, como tênis, esgrima, críquete, boxe e diabolo (Echo do Sul, 27 e 28/07, 1°, 03, 06 e 07/08/1908).

Ainda em 1908, foi fundado também o Sport Club São Paulo. Esse mantém ainda hoje suas atividades futebolísticas9. Diferentemente do Sport Club Rio Grande, o Sport Club São Paulo nasceu com vínculos mais populares, já na sua fundação participam os operários da Companhia União Fabril (indústria têxtil). A proximidade entre fábrica-ferrovia-campos de futebol10 facilitou que os operários aumentassem seu interesse pelo esporte. Assim, em 4 de outubro de 1908, dentro do recinto férreo, fundou-se o Sport Club São Paulo (Cesar, 2012).

Entre 1900 e 1916, apareceram registradas no Echo do Sul 47 agremiações esportivo-futebolísticas pertencentes a Rio Grande. A Tabela 1 mostra quais são essas agremiações, os seus respectivos anos de fundação e, daquelas que foi possível garimpar essa informação, os principais vínculos que representavam na época.

Tabela 1 Cartografia dos clubes de futebol. Tabela constituída a partir dos dados coletados do jornal Echo do Sul (1900 -1916). 

Clube Fundação Vínculos étnicos e/ou socioeconômico
Sport Club Rio Grande 1900 Predominantemente alemães e ingleses / classe média alta
Sport Club União 1902 Comerciantes, classe média
Sport Club Brazileiro 1903 Não descendentes de imigrantes (Brasileiros)
Sport Club Estudante 1903 Estudantes
Sport Club Nacional 1908 Não descendentes de imigrantes (Brasileiros)
Sport Club São Paulo 1908 Operários e ferroviários
Football Club Riograndense 1909 Classe popular, predominantemente trabalhadores do comércio e operários de fábricas
Sport Club Operário 1909 Operários, predominantemente de fábricas
Football Club Luso-Brasileiro 1909 Portuguesa, trabalhadores do comércio
Sport Club Minerva 1910 Operários
Sport Club 30 de Setembro 1910 Estudantes
Sport Club União Fabril 1910 Operários, grande maioria da Fábrica União Fabril
Sport Club Universal 1911 Provavelmente com vínculos negros
Sport Club Echo do Sul 1911 Vinculado ao Jornal Echo do Sul, em sua maioria trabalhadores do jornal
América 1911 Classe média
Sport Club Chileno 1911 *
Sport Club dos Artistas 1911 Classe média
Aymoré Football Club 1911 *
Sport da Quinta 1911 Zona rural, distrito da Quinta
Sport Club Povo Novo 1911 Zona rural, distrito de Povo Novo
Leal Santos Foot Ball Club 1911 Operários, maioria da Fábrica Leal Santos
Sport Progresso 1911 Proprietários do comércio
Grêmio Esportivo Bahiano 1912 *
Sport Club Estivador Rio Grande 1912 Operários do Porto de Rio Grande
Sport Club Internacional 1912 Multiétnico, maioria descendentes de alemães, ingleses e portugueses
Sport Club União Democrata 1912 Classe média alta
Sport Club Fábrica Tullio 1912 Operários, maioria da fábrica Tulio
Sport Club São Pedro 1913 *
Sport Club Cruzeiro do Sul 1913 Provavelmente com vínculos negros
Sport Club União Riograndense 1913 *
Sport Club União Caixeiral 1913 Comerciários
Football Club União Vencedor 1913 *
Carlos Gomes 1913 *
Football Club Militar 1913 Militares e parentes
Esporte Clube Esperança 1913 Zona rural, distrito de Povo Novo
Sport Club Guarany 1913 Estudantes da classe média alta
Sport Club Gaspar Martins 1913 *
Sport Club São João 1913 *
Football Club Caxangá 1914 *
Football Club Urucubaca 1914 *
Football Club Urucubaca 1914 *
Sport Club Baturité 1914 *
Sport Club Commercial 1915 Comerciários
Sport Club Palmeira 1915 Comerciantes classe média
Gremio Sportivo Ideal 1915 Comerciantes classe média alta
Sport Club União Brasil 1915 Operários (fabril)
Sport Club Primavera 1915 *

*Informação não encontrada.

Mesmo não sendo possível identificar os principais vínculos de muitas agremiações, a partir daquelas em que isso foi possível nota-se que elas traziam consigo mais de uma representação social. Os sobrenomes dos diretores e dos jogadores indicam alguns desses vínculos, bem como o nome de algumas agremiações. Como era o caso, por exemplo, do Sport Club Brazileiro e do Sport Club Nacional, clubes que se singularizavam pela não participação de imigrantes ou seus descendentes. Outro exemplo é o Sport Club Internacional, esse, ao contrário dos outros dois, era uma agremiação multiétnica que congregava imigrantes e descendentes de todas as etnias.

A existência de vários clubes com vínculos operários nas duas primeiras décadas - a Tabela 1 aponta, pelo menos, nove com essa característica - mostra a presença de uma veia do futebol fabril na consolidação do futebol riograndino. Fato similar ao ocorrido em outras cidades que se destacam na historiografia do futebol brasileiro, como é caso do Rio de Janeiro (The Bangu Athletic Club [1904]) e de São Paulo (Votorantim Athletic Club [1902] (Antunes, 1994)11. No caso de Rio Grande, esses vínculos, em parte, foram efeitos das movimentações portuárias e de uma crescente ocupação espacial notada pelos parques fabris e de suas resultantes, o que leva ao aparecimento de bairros operários, que não só ofereciam moradias como também uma série de outros serviços e atividades, entre eles aqueles de sentido recreacionista (Martins e Pimenta, 2004).

Já a relação entre clubes e vínculos étnicos negros, similar ao ocorrido na cidade de Pelotas em 1919, quando há a fundação de uma liga específica de clubes de futebol de negros (a Liga José do Patrocínio), em Rio Grande tem-se registro da criação de uma dessa natureza em 04/08/1926. Participaram como clubes fundadores dessa Liga: Rio Negro, Brasil, Bento Gonçalves, Democrata e Cruzeiro (Loner, 1888 Loner, 1999).

Apesar de a fundação da Liga Rio Branco ocorrer posteriormente à delimitação temporal que abrange este estudo, ela é indício que assinala a inserção dos negros no futebol da cidade, ainda nos 1920. Mesmo que esse tema seja um assunto que demandaria pesquisas mais especificas, cabe o registro de que encontramos indícios empíricos que nos permitem concluir que, entre os clubes que foram mencionados no jornal, ao menos dois deles, o Sport Club Cruzeiro do Sul (1913) e o Sport Club Universal (1911), tinham vínculos negros12.

Outra particularidade das duas primeiras décadas foi a fundação de três clubes na zona rural: Sport da Quinta (1911), no distrito da Quinta; Sport Club Povo Novo (1911) e EC Esperança (1913), ambos pertencentes ao distrito de Povo Nov13. A fundação de clubes fora do circuito principal do futebol, no início da segunda década do século XX, é outro sinal de que se acelerava o ritmo da disseminação do futebol pela cidade.

Quanto aos vínculos das agremiações, a grande maioria dos clubes constituiu-se com mais de um vínculo identitário. Os clubes da zona rural, por exemplo, além do pertencimento de localidade, agregavam componentes étnicos e de classe social. Algo semelhante ocorria com a maioria dos clubes operário-fabris. Essa tendência de as agremiações terem diferentes vínculos socioculturais assemelha-se ao processo de disseminação do futebol ocorrido na cidade do Rio de Janeiro, nas três primeiras décadas do século XX (Pereira, 2000).

Sobre a frequência com que as agremiações aparecerem citadas nos jornais, fizemos uma apropriação do conceito de "sujeitos infames”, de Michel Foucault (2009), para se referir aos clubes poucas vezes citados no jornal pesquisado. Assim, classificamos como "clubes infames”: Sport Estudante (1903), Sport Club 30 de Setembro (1910), Sport da Quinta (1911), Sport Club São João (1913), FC Caxangá (1914), Sport Club União Democrata (1912) e Sport Club Fábrica Tullio (1912). Por outro lado, o clube que mais frequentava as páginas do jornal foi o Sport Club Rio Grande. Além desse, ganhavam maior visibilidade aquelas agremiações que tinham vínculos com etnias europeias e/ou com as classes média e alta da cidade.

DESLOCAMENTOS FUTEBOLÍSTICOS

Damo e Ferreira (2012) tratam da importância que as "excursões”14 tiveram, na década de 1950, para preenchimento dos calendários dos clubes brasileiros. Todavia, quando se trata das excursões nas primeiras décadas do século XX, principalmente na primeira, o objetivo maior era aumentar a visibilidade do futebol. Essa foi a intenção que teve, por exemplo, o Sport Club Rio Grande nas inúmeras excursões que fez no início do século XX. De acordo com Rigo (2004), foi em uma dessas excursões do clube riograndino que se produziu o registro da primeira partida do futebol moderno na cidade de Pelotas (Rigo, 2004, p. 61). O autor destaca também que foi por meio dessas excursões "que o veterano Sport Club Rio Grande pôde desempenhar um papel importante no processo de divulgação do futebol no Rio Grande do Sul” (Rigo, 2004, p. 63).

Uma das excursões futebolísticas destacadas pelo Echo do Sul foi a 1903 para a cidade de Porto Alegre. Primeiramente, o jornal divulgou o planejamento do clube para o evento (Echo do Sul, 04/08, 25/08 e 03/09/1903). Alguns dias depois, o periódico anunciou a partida rumo à capital do estado a bordo da embarcação Aymoré (Echo do Sul, 05/09/1903). Entretanto, a nota mais significativa sobre a excursão viria três dias depois, sob a forma de telegrama enviado pelos riograndinos: "Jogamos duas partidas hoje de manhã e à tarde. Aqui desconhecido o football foi, contudo, muito apreciado pela enorme assistência. Recepção acima da expectativa” (Echo do Sul, 08/09/1903). Na historiografia do futebol gaúcho, essas partidas são tratadas como jogos que incentivaram a fundação do Grêmio de Football Porto Alegrense, que ocorreu alguns dias depois (Pires, 1967).

Outra excursão do Sport Club Rio Grande que também recebeu destaque no jornal foi Bagé-RS, em que o clube fretou um trem15, em 1906 (Echo do Sul, 29/08/1906). De acordo com a fonte, a intenção dessa excursão era "fazer propaganda do jogo a que se dedica esperando que se funde um club congênere em Bagé, como já implantou com sucesso esse esporte salutar em Pelotas e Porto Alegre” (Echo do Sul, 29/08/1906). Alguns dias depois, o clube de Rio Grande recebeu um telegrama anunciando a fundação do Sport Club Bagé (Echo do Sul, 17/09/1906).

As excursões mostram a influência direta que o futebol riograndino teve na disseminação do esporte, no começo do século XX. Entretanto, até 1906 o Sport Club Rio Grande foi a única agremiação da cidade a excursionar. Alguns anos depois as excursões passaram a fazer parte da agenda de outros clubes. No entanto, predominavam excursões para os municípios mais próximos, como Pelotas, São Lourenço do Sul e São José do Norte. Entre as divulgadas pelo jornal aparecem: a excursão que o terceiro quadro do Sport Club São Paulo fez de barco em 1911 para São José do Norte16 (Echo do Sul, 21/10/1911); a feita pelo Grêmio Sportivo Bahiano, em 1912, à cidade de Pelotas para jogar contra o Arranca Rabo Football Club (Echo do Sul, 14/12/1912); e a que fez o Football Club Riograndense, em 1913, para São Lourenço do Sul17 (Echo do Sul, 05/11/1913).

Os clubes de Rio Grande também recebiam agremiações de outras cidades. Como aconteceu com o Sport Club Bagé, que foi a Rio Grande para retribuir uma visita ao Sport Club Rio Grande, em 1908 (Echo do Sul, 20/05/1908), e com o Esporte Clube Pelotas, que excursionou para enfrentar o Sport Club Rio Grande, em jogo que marcou a estreia de seu novo uniforme, comprado na Europa (Echo do Sul, 16/03/1909). A cidade de Rio Grande também recebia visita de agremiações do centro do país, da Argentina e do Uruguai. Quando elas ocorriam, o jornal costumava destacá-las, tal como aconteceu na ocasião da visita recebida do Club Atlético Estudiantes da Argentina (Echo do Sul, 14 e 19/09/1910).

Outra prática que passou a fazer parte da cultura futebolística da época foram as "incursões”, ou seja, viagens dentro dos limites do município. Entre as "incursões” noticiadas pelo jornal estão a feita pelo FC Riograndense, em 1911, para o distrito da Vila da Quinta para enfrentar o Sport da Quinta (Echo do Sul, 28/09/1911) e a feita pelo Aymoré FC para a Ilha dos Marinheiros18, com o objetivo de organizar uma "imponente festa esportiva” (Echo do Sul, 07/10/1911).

As viagens e os passeios dentro do município, geralmente, incluíam outras práticas de lazer, como era o caso dos picnics (Echo do Sul, 25/11/1910 e 28/09/1911). Guardadas as devidas singularidades de cada época, as lógicas futebolísticas dessas "incursões” assemelhavam-se ao que existe atualmente no futebol de várzea, em que vigora "uma lógica de reciprocidade que pode ser compreendida na relação do ganhar jogo, pagar jogo e ganhar visita” (Spaggiari, 2008, p. 177)19.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa mostrou que de 1900 a 1916 a cidade de Rio Grande produziu uma singular cultura futebolística, representada pela fundação de agremiações que tinham distintos vínculos étnicos e socioeconômicos. Foi possível identificar também que a grande maioria dos clubes de futebol não tinha um único vínculo social. Os clubes se constituíram como agremiações capazes de aglutinar diferentes afinidades e representações sociais. Assim, clubes com vínculos étnicos também poderiam estar constituídos por componentes de classe social ou por vínculos geográficos, pertencentes a um determinado bairro ou uma certa região da cidade.

A identificação de 47 agremiações, noticiadas no Echo do Sul, de 1900 a 1916, mostra que o futebol, na cidade de Rio Grande, estava longe de se resumir a apenas àqueles clubes que alcançaram uma maior longevidade e reconhecimento na historiografia do futebol riograndino. Sem menosprezar a importância desses clubes, a pesquisa mostrou que, já nas duas primeiras décadas do século XX, a prática do futebol em Rio Grande ia da zona urbana para a zona rural, alcançava até lugares distantes do centro da cidade, como o distrito de Povo Novo, a Vila da Quinta e a Ilha dos Marinheiros.

Conclui-se que na cidade de Rio Grande o futebol deixou de ser uma prática exclusiva das elites ainda no fim da primeira década do século XX, como ilustra a fundação do Sport Club São Paulo, em 1908, e a existência de um vigoroso futebol operário/fabril, já nas duas primeiras décadas do século XX. A partir de 1916 a atenção futebolística do Echo do Sul volta-se para o Campeonato Municipal de Futebol, competição organizada pela Liga Rio-Grandense de Football, que tem a sua primeira edição naquele ano. Todavia, esse futebol de campeonatos e ligas que, em Rio Grande, começa a ganhar musculatura a partir de 1916 e que, na década de 1930, conquista apenas três títulos estaduais, constitui-se em tema para outros estudos.

EDIÇÕES DO JORNAL ECHO DO SUL

04/08/1903, 17/08/1903, 25/08/1903, 03/09/1903, 05/09/1903, 08/09/1903, 10/09/1903, 28/09/1903, 29/09/1903, 05/10/1903, 13/10/1903, 14/11/1903, 05/09/1905, 13/11/1905, 29/08/1906, 03/09/1906, 17/09/1906, 19/09/1906, 20/05/1908, 03/08/1908, 27/07/1908, 28/071908, 1°/08/1908, 03/08/1908, 06/08/1908, 07/08/1908, 16/03/1909, 13/09/1909, 14/09/1910, 19/09/1910, 25/11/1910, 28/09/1911, 07/10/1911, 21/10/1911, 08/11/1912, 11/11/1912, 13/11/1912, 14/12/1912, 05/11/1913, 02/11/1914, 22/01/1915.

1O município do Rio Grande foi fundado em 1737 e está localizado no extremo sul do Rio Grande do Sul. No começo do século XX, se destacava por ser uma das principais cidades portuárias do país e por ter sido um polo estratégico no desenvolvimento de indústrias têxteis - Fábrica Rheingantz e Inca Têxtil (Amaral, 2011).

2 Rigo (2004) alerta que quase sempre que se fala da historiografia do futebol brasileiro há uma tendência de ressaltar os aconteci- mentos do eixo Rio de Janeiro e São Paulo em detrimento daqueles ocorridos fora desse eixo, como é o caso do RS, por exemplo.

3No ano seguinte, em 1916, ocorreu a 1a edição do campeonato citadino de futebol.

4Mais informações sobre o jornal Echo do Sul, ver Torres (2012).

5Vários estudos assinalam o processo de instauração do profissi- onalismo como um marco importante na popularização do futebol brasileiro (Pereira, 2000; Santos, 2010; Souto Mayor, 2017).

6Outros clubes, tais como o Flamengo do Rio de Janeiro, foram fundados antes de 1900, porém como clubes de regatas. O futebol nessas agremiações foi incorporado posteriormente, logo o Sport Club Rio Grande ostenta o título de clube de futebol mais antigo do Brasil, pois desde sua fundação dedicou-se ao futebol.

7 Rigo (2004) salienta que em Pelotas também existiu um clubecom essa denominação. Isso mostra que essa prática não foi umepisódio isolado do município de Rio Grande.

8 Cesar (2012) ressalta que essa foi a data da fundação oficial do clube, entretanto o Echo do Sul de 13/09/1909, ressalta que o grupo de jovens que fundou essa agremiação já praticava futebol em 1898, em alguns casos jogava com outro grupo que acabou dando origem ao Sport Club Recreativo.

9Em 1933 o SC São Paulo sagrou-se campeão estadual ao vencer o Grêmio de Football Porto-Alegrense na final por 2 a 1. Atualmente (2018) participa da primeira divisão do Campeonato Estadual.

10Os campos existentes localizavam-se ao lado das oficinas da ferrovia e dois estavam localizados atrás dos cemitérios, um de católicos e outro de não católicos, ambos cortados pela linha férrea.

11Sobre futebol de fábrica, ver também Stédile (2013).

12Um caminho auxiliar que usamos para encontrar indícios da existência de clubes com vínculos negros e que serve como suges- tão para outros estudos interessados nesse tema foram as relações que os clubes de negros de Pelotas mantiveram com clubes de Rio Grande. Isso é possível pela existência de estudos que apontam para a emergência de clubes de negros em Pelotas já em 1908 (Sport Club Juvenil). Mais considerações sobre a presença dos negros no futebol pelotense, ver Mackedanz (2016) e Mackedanz, Gil, Rigo (2015).

13O distrito do Povo Novo localiza-se entre os municípios de RioGrande e Pelotas. O EC Esperança continua com suas atividadesfutebolísticas e anualmente participa do Campeonato Amador deRio Grande. Para outras considerações sobre esse clube, consultarMackedanz e Rigo (2015).

14Os autores definem como excursões as viagens que os clubes fazem para fora de suas cidades-sede (Damo e Ferreira, 2012).

15Bagé tem aproximadamente 120 mil habitantes, fica no sudoestedo Estado do Rio Grande do Sul, distante 250km de Rio Grande, eé considerada uma das cidades de tradição do futebol do interiordo estado. Entre os clubes de maior tradição da cidade destacam--se o Guarany Futebol Clube, fundado em 19/04/1907 (campeãoestadual em 1920 e 1938) e o Grêmio Esportivo Bagé, fundado em05/08/1925, campeão estadual em 1925. Mais considerações sobreo futebol nessa região, ver Rigo (2013).

16São José do Norte é uma península com cerca de 26.000 habitantes que goza de um campeonato municipal de futebol amador de grande tradição. Sobre isso consultar Cunha, Freitas e Rigo (2016).

17Município distante aproximadamente 150 km de Rio Grande.

18A Ilha dos Marinheiros é um distrito do município de Rio Grande onde as principais atividades econômicas advêm da agricultura e da pesca. Outras considerações sobre o futebol na Ilha dos Marinheiros, ver Correia, Freitas e Rigo (2013).

19 Sppagiarri (2008) tem como referência para trabalhar essas lógicas as sociabilidades forjadas a partir de um clube de futebol amador rural. Assim, o time que recebe a visita deve retribuí-la, ir jogar no campo da equipe que o visitou. É assim que se paga o jogo. O ganhar e o pagar usados pelo autor não se referem ao resul- tado da partida, tampouco a questões financeiras, mas aos códigos simbólicos pré-usados pelos nativos do futebol de várzea.

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Recebido: 01 de Março de 2018; Aceito: 31 de Julho de 2018

Correspondence author: Gustavo da Silva Freitas E-mail:gsf78 ef@hotmail.com

CONFLITOS DE INTERESSE

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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