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Revista Brasileira de Zoologia

versão impressa ISSN 0101-8175

Rev. Bras. Zool. v.22 n.2 Curitiba jun. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81752005000200006 

Relação dos anfíbios do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, Rio Grande do Sul, Brasil

 

Amphibians list from Lagoa do Peixe National Park, Rio Grande do Sul, Brazil

 

 

Daniel LoebmannI; João P. VieiraII

IEmbrapa Meio Norte. Rodovia BR 343, Km 35, Caixa Postal 341, 64200-970 Parnaíba, Piauí, Bolsista DTI. E-mail: pinguimfiel@yahoo.com.br
IIDepartamento de Oceanografia, Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Avenida Itália Km 8, Vila Carreiros, Caixa Postal 474, 96201-900 Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil

 

 


RESUMO

Este trabalho apresenta uma relação das espécies de anfíbios do Parque Nacional da Lagoa do Peixe. Durante os anos de 2001 e 2002 os anfíbios foram amostrados através de armadilhas de queda, procura visual e identificação através da atividade de vocalização. O estudo cobriu três diferentes ambientes: a) campos e banhados; b) dunas costeiras e c) praia oceânica. Observou-se a presença de 13 espécies distribuídas em três famílias (Bufonidae, Leptodactylidae e Hylidae). As espécies encontradas são típicas da região costeira do Rio Grande do Sul. O número de espécies foi diferente para cada ambiente, sendo maior no ambiente de campos e banhados onde todas as espécies foram encontradas. Nas dunas costeiras foram encontrados sete espécies de anfíbios, sendo Physalaemus biligonigerus (Cope, 1861) e Bufo arenarum Hensel, 1867 as espécies mais abundantes. Bufo arenarum foi a única espécie encontrada na praia oceânica. De acordo com a literatura, esta espécie parece ser a único anuro capaz de suportar este ambiente que sofre forte influência da salinidade, e o usa para se alimentar.

Palavras chave: Bufonidae, ecossistema costeiro, Hylidae, Leptodactylidae, levantamento de fauna.


ABSTRACT

This paper reports the first taxonomic list of amphibians from Lagoa do Peixe National Park. During the years 2001 and 2002 we sampled using Pit Fall Traps, visual searching and identification through vocalization activity. The study covered three different habitats: a) plains and swamps; b) coastal dunes and c) open beach. We observed 13 species into three families (Bufonidae, Leptodactylidae and Hylidae). All species were found along all coastal environment of Rio Grande do Sul. The number of species was different for each environment, being greater in plains and swamps, where all species were found. On the coastal dunes we found seven species of amphibians, being Physalaemus biligonigerus (Cope, 1861) and Bufo arenarum Hensel, 1867 the most abundant. Bufo arenarum was the unique specie that was found in the beach. According to literature, this species seems to be the only anuran able to support this environment which has strong influence of salinity, using it for feeding.

Key words: Bufonidae, coastal ecosystem, fauna investigation, Hylidae, Leptodactylidae.


 

 

Trabalhos de levantamento da fauna de anfíbios do Rio Grande do Sul, embora escassos, vêm sendo realizados há mais de 100 anos. HENSEL (1867) foi o pioneiro mencionando a ocorrência de 22 espécies no estado. Nas últimas décadas, vários pesquisadores têm elaborado e ampliado as listas de anfíbios do Rio Grande do Sul (BRAUN & BRAUN 1980, GAYER et al. 1988, KWET & DI-BERNARDO 1999, KWET 2001) de modo que, até o momento foram registradas 79 espécies para o estado.

Em 1986, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF, hoje denominado Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, sugeriu a criação de uma área para proteção de espécies animais. Assim surgiu o Parque Nacional da Lagoa do Peixe (PNLP), localizado no segmento mediano da Planície Costeira do Rio Grande do Sul, entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico. O PNLP abrange os municípios de Tavares (80 %), Mostardas (17 %) e São José do Norte (3 %). Segundo seu plano de manejo, esta Unidade de Conservação (UC) possui uma área de 344 Km², sendo sua extensão de 62 km e sua largura média de 6 km, apresentando temperatura média anual entre 18 e 20ºC e precipitações médias anuais de 1.186 mm. Com exceção de um extenso cordão de dunas costeiras, a topografia é praticamente plana, e o solo é formado basicamente por areias quartzosas de origem marinha. O PNLP se estende desde as lagoas de água doce Pai João e Veiana (31°02'S, 050°77'W) ao norte, até a porção sul do estuário da Lagoa do Peixe (31°48'S, 051°15'W).

A existência de várias unidades ambientais torna o PNLP uma das áreas mais ricas em aves aquáticas da América do Sul, contando atualmente com o registro de 182 espécies de aves residentes e migratórias. Esta posição privilegiada, com a presença de diversos ambientes diferentes (marismas, banhados, lagoas interiores, laguna, dunas, praias interiores e oceânicas, planos intertidais, pradarias de algas e fanerógamas submersas, campos, mata de restinga e Pinnus sp.), e a inter-relação entre estes ambientes, fornecem ao PNLP características peculiares que lhe conferem grande importância em nível mundial, de modo que já foi atribuído ao PNLP o status de Reserva da Biosfera, Sítio Ramsar e Reserva Internacional de Aves Limnícolas.

Apesar desta diversidade de habitat e importante status, levantamentos dos anfíbios presentes nesta Unidade de Conservação são inexistentes. Sendo assim, o objetivo deste trabalho é apresentar uma relação dos anfíbios presente no PNLP.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Este trabalho apresenta uma relação das espécies dos anfíbios coletados durante os anos de 2001 e 2002 no Parque Nacional da Lagoa do Peixe. As coletas foram autorizadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), sob a licença de n° 074/2001. Espécimes-testemunho estão depositadas no Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS.

Através de coletas sazonais, utilizando-se das técnicas de monitorar o ambiente através da atividade de vocalização, uma vez que esta atividade é de caráter específico e através de capturas manuais, realizou-se um levantamento dos anfíbios da área do Parque. Três estações (Praia-Nova, Farol de Mostardas e Barra da Lagoa, localizadas entre os pares de coordenadas geográficas 31°06'54,7"S; 50°50'46,7"W e 31°21'26,2"S; 51°02' 27,4"W) foram utilizadas para as coletas, sendo que todas são constituídas de campos e banhados semi-permanentes, dunas costeiras e praia oceânica, constituindo assim três perfis transversais ao longo da área do Parque.

Durante o verão de 2002, diariamente ao longo dos meses de janeiro e fevereiro, utilizou-se armadilhas tipo "pit fall traps" na região de dunas costeiras do PNLP, com o propósito de intensificar e complementar as amostragens. Quatro armadilhas foram construídas, sendo cada uma composta de quatro baldes de 20 litros enterrados até a borda a uma distancia de 5 m entre si. Interconectando os baldes e passando sobre suas bocas foi entendida uma cerca guia de tela de PVC com cerca de 50 cm de altura.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As 13 espécies observadas distribuem-se em três famílias: Bufonidae, um gênero e duas espécies; Hylidae, três gêneros e cinco espécies e Leptodactylidae, quatro gêneros e seis espécies, representando 10,3% dos anfíbios registrados para o Rio Grande do Sul (Tab. I). Todas as espécies encontradas são típicas do Rio Grande do Sul e ocorrem em toda a planície costeira do estado.

Através das armadilhas de queda, foram coletados um total de 348 anuros de sete espécies. As espécies mais abundantes foram Physalaemus biligonigerus (Cope, 1861) (n = 127) e Bufo arenarum Hensel, 1867 (n = 109), sendo que desta última, foram capturados 100 indivíduos jovens em um único dia decorrente de indivíduos que completaram sua metamorfose. A família Leptodactylidae foi a que apresentou maior vulnerabilidade às armadilhas com maiores valores de freqüência de ocorrência (FO), sendo que Leptodactylus ocellatus (Linnaeus, 1758) apresentou FO variando de 4 a 28% entre as armadilhas Physalaemus biligonigerus apresentou FO variando de 31 a 55% e Physalaemus gracilis (Boulenger, 1883) apresentou FO entre 17 e 44%.

É importante ressaltar que o método de armadilhas é ineficiente para Hilídeos pois estes são capazes de escapar das armadilhas uma vez que conseguem escalar superfícies verticais (CECHIN & MARTINS 2000). Mesmo assim notou-se a presença de Hyla pulchella pulchella Duméril & Bibron, 1841 nas armadilhas que, assim como outros indivíduos de outras espécies, buscavam a água presente nos coletores, uma vez que a alta permeabilidade das areias quartzosas faz da água um recurso escasso neste ambiente.

Bufo arenarum foi a única espécie que ocorreu nos três tipos de ambientes estudados (área de campo e banhados, área de dunas e praia oceânica). A presença desta espécie em praias oceânicas já havia sido registrada em praias uruguaias (ACHAVAL & OLMOS 1997), que relata que esta espécie vai a praia a procura de isópodos terrestres para se alimentarem.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores deste trabalho agradecem a CAPES pela concessão de uma bolsa nível mestrado para a execução do mesmo; ao Curso de Pós-graduação em Oceanografia Biológica e ao IBAMA de Mostardas, Rio Grande do Sul pela infra-estrutura necessária para sua execução, e a equipe do Laboratório de Ictiologia que auxiliou nas atividades de campo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACHAVAL, F. & A. OLMOS. 1997. Anfibios e Reptiles del Uruguay. Montevideo, Uruguay, 128p.        [ Links ]

BRAUN, P.C. & C.A.S. BRAUN. 1980. Lista prévia dos anfíbios do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Iheringia, Série Zoologia, Porto Alegre, 56: 121-146.        [ Links ]

CECHIN, S.Z. & M. MARTINS. 2000. Eficiência de armadilhas de queda (pitfall traps) em amostragens de anfibios e répteis no Brasil. Revista Brasileira de Zoologia, Curitiba, 17 (3): 729-740.        [ Links ]

GAYER, S.M.P.; L. KRAUSE & N. GOMES. 1988. Lista preliminar dos anfíbios da Estacão Ecológica do Taim, Rio Grande do Sul, Brasil. Revista Brasileira de Zoologia, Curitiba, 5 (3): 419-425.        [ Links ]

HENSEL, R.F. 1867. Beittage zur kentniss der wirbelthiere. Archiv für naturgeschichte, Berlim: 1-120.        [ Links ]

KWET, A. & M. DI-BERNARDO. 1999. Pró-Mata-Anfíbios. Amphibien. Amphibians. Porto Alegre, EDIPUCRS, 107p.        [ Links ]

KWET, A. 2001. Frösche im brasilianischen Araukarienwald - Anurengemeinschaft des Araukarienwaldes von Rio Grande do Sul: Diversität, Reproduktion und Ressourcenaufteilung. Tübingen, Natur und Tier-Verlag, 192p.        [ Links ]

 

 

Recebido em 01.VII.2004; aceito em 05.V.2005.

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