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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. bras. Hist. vol. 18 n. 35 São Paulo  1998

https://doi.org/10.1590/S0102-01881998000100014 

Deusdedit, Joakim, seus livros e autores

 

Cláudio DeNipoti
Universidade Estadual de Londrina

 

 

RESUMO
Este artigo busca compreender as relações e práticas culturais envolvidas na leitura no passado. A análise parte do estudo de dois leitores em particular, que realizaram suas leituras no início do século XX, na Biblioteca Pública do Paraná, para, a seguir, buscar em seus escritos as pistas sobre suas leituras.
Palavras-chave: história da leitura; leitura, história cultural.

 

ABSTRACT
This article tries to understand the cultural practices and relationships in the reading practices of the past. The analysis begins with the study of two readers, who began their reading practices in early Twentieth Century, at the Public Library of Paraná.. It goes on to recover in their own writings the clues thy might have left about their readings
Key- words: history of reading, reading, cultural history.

 

 

Os diversos caminhos que a pesquisa histórica assume em seu decorrer são provavelmente seu aspecto mais encantador. É sem dúvida notável a perseverança que atém algumas centenas de pessoas razoavelmente sérias e, em alguns casos, extremamente inteligentes e ilustradas, horas a fio em arquivos e bibliotecas, sofrendo todo o tipo de incômodos ao lidar com objetos e papéis - mais freqüentemente - velhos e empoeirados.

Todos eles discordariam veementemente do jornalista anônimo curitibano que, em 1911, criticava a então Biblioteca Pública do Paraná em termos nada elogiosos, dizendo que

a nossa [biblioteca], sempre emperrada nos montões de livros de venerável antigüidade, alli está n'uma acanhada sala do Gymnasio, fossilisada em archaicos armários, sob camadas de pó e mais própria a tentar a curiosidade de algum archeólogo do que a do estudioso dominado pelo justo receio de infecção pelos bacillos de Koch que ali socegadamente proliferam confiados na desidia do Estado.1

Ao contrário, vários historiadores estariam dispostos - hoje e naqueles dias - a correr o risco de contágio, unicamente para encontrarem fontes para seu trabalho de escrever a história. Robert Darnton conforta o historiador quando afirma que" construir mundos é uma das tarefas essenciais do historiador, e ele não a empreende pelo estranho desejo de escarafunchar arquivos e farejar papel embolorado - mas para conversar com os mortos"2. É um conforto relativo porém, pois à gratificante tarefa de (re)construir mundos, ainda se opõem as dificuldades que o historiador - de qualquer tendência teórico-metodológica - enfrenta3 no intuito de ver concluídas suas considerações sobre, digamos, a cultura sexual greco-romana, a Paris de Voltaire ou o universo político da Primeira República no Brasil.

É claro que, depois que reúne seu material de pesquisa e começa a refletir sobre ele - ou melhor, a refletir com ele - o historiador pode sentir-se menos incomodado fisicamente e buscar aquela reconstrução de mundos perdidos com uma maior liberdade.

A Biblioteca Pública do Paraná, citada acima, pode servir para ilustrar essa série de relações que a pesquisa assume em seu percurso, partindo, por vezes para caminhos que o historiador sequer imaginava poderem ser trilhados.

O trabalho com os registros de retirada da Biblioteca Pública do Paraná (BPPR) pode ser descrito dentro do quadro desenhado nas páginas anteriores. As quase duas dezenas de livros-ata empoeirados, roídos por traças, incompletos, jogados de um canto a outro da atual Biblioteca Pública do Paraná, conforme as necessidades de espaço e as múltiplas reformas e rearranjos - verdadeiro motivo de pânico para qualquer pesquisador - fornecem, contudo, um material extremamente rico, ainda que talvez seja somente a faísca inicial para um trabalho mais completo4.

Esses registros são instigantes para a pesquisa, ainda que, por si sós, não constituam um objeto - ao menos não um objeto completo - de uma história da leitura, já que fornecem panoramas gerais sobre a leitura no passado (quem lia o quê, quando e quanto), e não entram nas questões mais específicas da relação cognitiva implícita no ato de ler. Esses panoramas são, contudo, absolutamente necessários para apoiar essas últimas questões5.

É sobre esse panorama geral - ou um panorama possível - que gostaria de me deter um pouco. Naturalmente, para não reproduzir aqui os próprios registros em sua íntegra (como o mapa perfeito de Borges)6,tomo o universo das leituras de dois assíduos freqüentadores da BPPR. Ainda que faltem algumas informações sobre esses dois personagens, desde o início eles causaram espécie ao pesquisador, seja pela particularidade do nome de um deles - Deusdedit - seja porque eles eram irmãos, seja ainda pela diversidade e freqüência de suas leituras. Deusdedit e Joakim Moura Brasil também suscitaram questões sobre os hábitos da leitura no passado que gostaria de tentar desenvolver aqui e, isto feito, cruzar os escritos (fundamentais para esta análise) que os leitores Deusdedit e Joakim deixaram, com suas leituras na BPPR.

Este estudo preliminar, colocado portanto como um panorama geral da leitura no início do século, embora seja inicialmente marcado por uma abordagem quantitativa, não pretende situar a história da leitura no âmbito da Histoire serielle au troisième niveau, de Pierre Chaunu "(o terceiro nível, após o econômico e o social sendo aquele da cultura)"7. Essa abordagem foi dominante na historiografia francesa durante os anos 70, e é caracterizada como a tentativa de "medir comportamentos através da contagem - contando missas para os mortos, quadros mostrando o purgatório, títulos de livros, discursos em academias, móveis em inventários, crimes nos arquivos policiais, invocações à Virgem Maria em testamentos, e o peso da cera das velas queimadas para os santos patronos das igrejas"8. Robert Darnton objeta a essa abordagem afirmando que, em primeiro lugar, os objetos culturais, por não serem fabricados pelo historiador, mas sim pelas pessoas que ele estuda, têm uma natureza diferente daquela das informações contidas nas séries das histórias econômica e demográfica. "Eles têm que ser lidos, e não contados". Em segundo lugar," a cultura não pode ser considerada como um nível de alguma entidade social semelhante a uma casa de três andares porque todas as relações interpessoais são de uma natureza cultural, mesmo aquelas que qualificamos de econômicas ou sociais"9.

Sendo assim, esse estudo quer simplesmente, lançando mão do material bruto fornecido pela pesquisa naqueles papéis empoeirados dos livros de registro de retirada, pensar juntamente com o que esses registros fornecem. Ainda que, antes de 1952, a BPPR tenha sido mais uma intenção do que um fato, ela existiu desde meados do século XIX na forma de uma pequena sala de livros, funcionando em salas cedidas por diversos órgãos do governo do Estado, principalmente o Gymnasio Paranaense. Nas décadas iniciais deste século, as descrições da BPPR são as de um órgão estatal abandonado pelo governo e razoavelmente restrito a um público de estudantes do Gymnasio10.

Os registros de retirada, marcados cotidianamente pelos bibliotecários e/ ou responsáveis pela BPPR que se sucederam nos anos para os quais os livros ainda existem, fornecem uma série de idéias sobre a leitura no passado. Deusdedit e Joakim surgiram nos registros pela primeira vez em 1914 (este em fevereiro e aquele em março). Ambos freqüentaram a biblioteca intermitentemente até 1917, quando Joakim desapareceu dos registros. Deusdedit continuou retirando livros até outubro de 1918. Nesse ponto, há uma interrupção nos registros remanescentes até 1921. Nenhum deles reaparece entre essa data e 1937. Durante os anos em que ambos freqüentam a BPPR, é grande o número de dias em que os dois são listados consultando as obras do acervo.

As listagens elaboradas a partir de seus registros de leitura mostram uma ampla gama de interesses e uma intensa troca de informações sobre as obras lidas. É comum que, em curtos espaços de tempo, ambos consultem o mesmo livro, indicando que o primeiro leitor pode ter influenciado as escolhas do segundo. É o caso, por exemplo, das Cartas literárias, de Adolpho Caminha, consultadas por Joakim em 05 de fevereiro de 1917 e por Deusdedit dois dias depois. Ou ainda, Casa de pensão, de Aluizio Azevedo, que Deusdedit leu durante outubro de 1914 (três consultas nos dias 6, 15 e 19, indicando renovação de empréstimo) e que Joakim leu no mês seguinte (dias 9 e 12 de novembro), o mesmo acontecendo nesses mesmos meses (porém com dias diferentes nos registros) com outro livro de Azevedo, O coruja (ver quadro 1 no final do texto).

Ao todo, eles estiveram na BPPR em 373 dias entre 1914-1918 (em 116 desses dias, ou cerca de 32%, ambos foram à biblioteca, possivelmente juntos). Seus nomes foram anotados nos livros de retirada mais de 550 vezes nesse período, referentes a 137 títulos de obras para Deusdedit e 78 para Joakim11. Dessas obras, ambos consultaram, em um ou outro momento, 38 títulos, que incluem diversas obras de Manoel de Macedo, José de Alencar e Aluizio Azevedo, a Antropologia e a Raças humanas de Oliveira Martins, Os sertões de Euclides da Cunha, e Literatura contemporânea de Sílvio Romero (ver quadro 2 no final do texto).

Os registros de leitura permitem um mapeamento quantitativo, portanto, das leituras realizadas pelos irmãos Moura Brasil. Porém, no universo da história da leitura, as constatações estabelecidas por números com relação ao que foi lido, quando e por quem, não são suficientes. É necessário ir além e buscar as razões e as formas da leitura no passado.

Como isto pode ser feito no caso de nossos dois leitores? Primeiramente, é necessário que estabeleçamos melhor quem eles foram, qual seu passado com relação ao momento estudado e o que fizeram a partir de então. Em segundo lugar, devemos buscar em seus escritos as pistas sobre suas leituras, que de outra forma seriam inacessíveis para o historiador de hoje.

Nascidos no final do século XIX (Deusdedit em 1897 e Joakim em 1899), no interior do Ceará, os Moura Brasil vieram para o Paraná, em 1909, por iniciativa de seu pai, seleiro - "como o pae de Kant" - que viajava pela região Norte do Brasil vendendo seus produtos. Segundo o julgamento do chefe da família, o Sul, além de possibilitar melhores oportunidades de trabalho, também proporcionava "grande probabilidade de instruir os filhos, de formá-los homens úteis - e nos citava, frio mas sincero, patrícios nossos, no sul, econômica e intelectualmente preponderantes"12.

Inicialmente vivendo em Morretes, no litoral paranaense, a família dedicou-se à agricultura, e os filhos tiveram que participar do trabalho junto com seu pai. Sobre este período de trabalho duro, Deusdedit escreveu que nenhum dos dois irmãos sentiu-se degradado por ter que trabalhar a terra, pois eles aprenderam "num livro de leitura infantil [que] o imperador chinez em certa phase do anno, empunhava o arado para, mostrar aos suditos quão dignificante o labor agrícola"13. Em Morretes também, Joakim deu as primeiras mostras de gênio artístico e intelectual, dedicando-se ao desenho e à pintura desde tenra idade, pois "tendo ás mãos uma estampa lytographica, reclamo, copiava-a com gosto, reproduzindo também, com interesse, caricaturas de revistas, que lhe chegavam ao alcance"14. Em 1910, Joakim redigiu um semanário manuscrito que quase causou a prisão de seu pai, devido à suspeita que fosse ele, e não o filho, o autor de artigos contra o Gremio Horus Morretense.

O delegado, senhor Arthur Balster, não duvidava o auctor do escripto fosse papae, que só depois de ver o nome de seu filho no jornaleco soube da vocação jornalística do mano que tão pequeno revolucionava a cidade com seu arremedo de jornal em linguagem toda assimilada do terrível jornalista cearence João Brigido, incomprehensivel político que papae admirava e por isso guardava uma collecção do Unitario fonte encyclopedica do saudoso mano, que então tinha dez anos de idade15.

Ainda segundo Deusdedit, nesta época seu irmão já demonstrava uma forte obsessão com a morte, que lhe adviria prematuramente em 1917 (explicando assim o fim de suas visitas à BPPR em março daquele ano)16. Em um artigo de 1916, parte de um de seus livros inéditos (Dentro da Vida), essa obsessão se manifesta nas inquietações de um enfermo:

Tentou levantar-se, mas a sua geral fraqueza negou-lhe o esforço requerido para se por de pé... Tal era a sua debilidade physica, que nem siquer um membro conseguiu animar; parecia que seu corpo todo, n'uma contração macabra e vil, estava privado da faculdade de locomoção; dir-se-ia que uma forte lethargia paralysara-lhe os movimentos os mais futeis...

Profundo desespero invadiu-lhe a alma, em convulsões de dor... diante de tanta resistência a que senão podia oppor, tal o depauperamento de suas forças, elle se maldisse, n'aquella hora em que seu coração não podia render um preito amigo de gratidão aos pés da donzella bemfazeja...

Era profundo o seu pezar e mais a sua inquietação, a agitar-lhe as fibras, como vagalhões frementes de mar encapellado, a se chocarem d'encontro aos cachopos musgosos...17

Devemos supor que os irmãos vieram para Curitiba por volta de 1914 para realizar o desejo de seu pai de que se instruíssem. Foi nesse ano que seus nomes começaram a aparecer nos registros de retirada, levando-nos a crer que, como a grande maioria dos freqüentadores da BPPR, eles fossem alunos do Gymnasio Paranaense, que abrigava o acervo da Biblioteca. De fato, no ano seguinte, Deusdedit aparece como aluno do primeiro ano do curso de "Sciencias Juridicas e Sociaes" da Universidade do Paraná, então em seu terceiro ano de funcionamento18. Embora não exista referência a Joakim nas listagens de alunos da Universidade, supomos que ele passou os anos de 1914 a 1917 estudando em Curitiba, compartilhando com seu irmão as leituras que ambos realizaram na sala de leitura da Biblioteca Pública ou aquelas que Deusdedit possa ter feito na biblioteca da Universidade entre 1915 e a morte de seu irmão. Após formar-se advogado, Deusdedit prestou concurso para lente substituto na faculdade que cursara, em 1920. Não foi possível descobrir se sua tese foi ou não aprovada, mas ele a publicou no mesmo ano pela Empresa Graphica Paranaense19.

No tocante aos escritos de nossos dois personagens, pouco daquilo que Joakim escreveu chegou a ser publicado. Além do artigo O enfermo, citado acima, há também um trecho de seu oitavo romance inédito, O rato branco, "concepção dos quinze anos incompletos", terminado em fevereiro de 1914 - um texto ufanístico do sertão paranaense, escrito com algum esmero literário e assinado sob o pseudônimo Sursum Corda, que seu irmão incluiu no longo necrológio que publicou em capítulos em 191720.

Deusdedit, por sua vez, teve vários de seus trabalhos publicados. Além da referida tese de concurso Ontogenia do Direito Comercial, de 1920, ele publicou Loiras ao sol, sobre a seca em seu estado natal, e um discurso proferido em 1922 na região Oeste do Paraná21. Em 1925, ele publicou, juntamente com sua esposa Aldamira, um pequeno livro de sonetos dedicados a Jesus, à "Mãe Santíssima" e a diversos santos católicos, mais como orações em verso que qualquer outra coisa22. Há, além disso, a referência a obras que permaneceram inéditas, como os romances Os filhos do tropeiro e Alma de garoto23e as obras jurídicas A criminalidade no Paraná e Estrea no Fôro.

Leitor assíduo, Deusdedit deixou em seus escritos inúmeras impressões, não somente sobre os autores e obras que leu, mas também sobre o próprio processo de aprendizado calcado na leitura e sobre os meios para este aprendizado. Em sua dissertação para o concurso de professor na Faculdade de Direito, Deusdedit descreveu de forma bastante enfática o processo que caracterizou sua passagem pelas salas de aula daquela mesma faculdade. Esta foi, para ele, uma "phase acerrima em que me trepidaram espírito e corpo, como arbustos transplantados a regiões estranhas a lutarem com o meio tellurico (...)"24.

Este processo foi traumático, já que não buscava meramente obter as notas para a aprovação nas cadeiras que cursou, mas tentava dar conta do aprendizado de forma mais completa. O trauma se manifestou ante o volume de leituras que ele teria que fazer durante e após seu curso, expresso como

pasmo e deslumbramento causados pela obra humana, contemplada no espelho prefulgente da bibliografia inexgotável que senti vontade absurda de resumil-a em fóco e aluminar-me de vez, como por processo mechanico se desaggrega, se desfaz, sem acção do tempo e da lucta, o corpo em cinzas ou em pó25.

Assim, Deusdedit sofreu com a diversidade de escolas, doutrinas e teorias, com a versatilidade dos conceitos, argüições e postulados, tanto em direito, quanto em sociologia, religião e literatura. Sofrimento descrito sem meias palavras, pois ele recebeu

pelas ilhargas acicates da controvérsia, ferrões de mil tayocas, supplicio de dezenas de serras, torquazes e alfinetes - escolas sobre escolas, theorias sobre theorias, verdades misturadas com embustes, sciencia calma e branda com phantasia apaixonada, crença com lógica, mytho com realidade26.

Seu sofrimento foi ainda pior por não lançar mão de estimulantes que facilitassem sua compreensão de seu material de leitura, pois "soffrer sem buscar no absyntho ou alcool, alívio á sensibilidade, é soffrer duplamente", pois se atirar-solitário à tarefa de se iniciar na epopéia do pensamento sem a "inconsciencia, automatismo e desleixo" provocados pelo absinto foi tão penoso quanto "arrastar onerosa canga de capricho, de independência, de não aceitar e acolher a primeira idéia que se antolha, circumloqua, vasia, archaica, brunida e exornada pelo oiropel literário"27.

Não obstante, sua busca ia para além do conhecimento superficial sobre os assuntos de seu interesse, para "regiões mais altas" e "recantos mais límpidos", as razões últimas que lhe proporcionassem a satisfação de viver em paz, reservado e imune: a satisfação de "lançar olhar em torno de si e não ignorar demasiadamente (...)"28. Buscava poder discernir entre "a semente e a casca", habituar-se a "colher do emaranhado venenoso (...) a jóia ou o brinco que deleitará e confortará o espírito em seguida"29.

Após esse processo, Deusdedit avaliou que estava capacitado para exercer o cargo de professor substituto porque amadureceu o suficiente, ou, em suas palavras:

Estou na phase do incubo, do empollamento, ou melhor, na puberdade mental, satisfeito porque esclareci ao meu espírito irriquieto as primeiras duvidas, distendi-lhe a primeira mão de cal, dei-lhe a primeira luz, retirei-o dos cachos da escuridade, iniciei o grande enigma, e agora, poderá adejar ao talante sem ignorância pasmosa de quem contempla herbario, sem fazer antecipadamente classificação de cada arbusto30.

Este estado é auto-afirmativo em vários sentidos, já que dava a Deusdedit uma sensação de segurança e solidez naquilo que ele entendia como função do intelectual e do cientista - são raros os momentos em que ele parece lembrar-se que é advogado. Mesmo sabendo que um tal posicionamento era condenado por alguns autores (Payot, por exemplo), a ele interessava o debate científico e filosófico, a leitura e as oposições e encontros entre Darwin, Rousseau, Herder, Withney etc. Esse debate, calcado em uma noção de ciência bem definida31, tinha por pressuposto o dever de "fomentar o ensino superior, ministrando-o como queria Alberto Torres - aos capazes de recebê-lo e disseminando a grandeza anatômica do Brasil - supino ideal de Sylvio Romero"32.

A noção de educação adotada por ele transparecia também em sua opinião sobre a alfabetização, ou a "diffusão dos vinte e cinco utilíssimos caracteres, com alguns tragos de moralidade e civismo". Alfabetização essa, definida como "luz aos trevosos cérebros", que não deveria ser abrupta ("não tão forte para não maltratar a vista"), nem em demasia ("moderada, lentamente"), mas apenas suficiente para que família e pátria fossem engrandecidas33. Porém, ele criticava os lugares comuns que associavam a criminalidade com o analfabetismo, em termos principalmente de repetições incontáveis de frases feitas nesse sentido, frases que Deusdedit considera

asneiras e infantilidades como (...) [as] bonitas locuções do genial auctor do Legende des Siécles, que, se fosse vivo, estaria arrependido de tel-as creado, tal a ingenuidade que ellas contem e o despudor das citações sem termo: A ignorancia produz o erro, e o erro produz o crime, Cada escola que se abre, um cárcere se fecha.

Segundo Deusdedit, baseando-se em diversos exemplos de países que começaram a ter ensino obrigatório e nos quais a criminalidade não diminuiu, não existia relação alguma entre

gramatica e a moralidade, como não é possível comprehender que uma paixão ou um preconceito de honra, por exemplo, possam ser destruidos pelo Alphabeto34.

Em sua luta por não aceitar verdades acabadas - como a opinião corrente na virada do século sobre o analfabetismo como fonte de crime - Deusdedit combateu também a superficialidade com que o seu próprio tempo entendia a cultura. Para ele, o" typo moderno", civilizado, que aprendia mais por atavismo do que por estudo dedicado era "um pedante, um enfatuado, um tolo, de alma rachitica, carcomida pelo vício" que além de ignorar que sua própria linguagem era composta de jargões típicos "não do povo, mas de funccionario público, soberbo, cezarino"35, que desprezava as pessoas simples da população rural. O caipira era o personagem preferido de Deusdedit para catalisar as boas características humanas. Aqui, mostram-se alguns possíveis pontos de contato com um nacionalismo que buscava nos tipos brasileiros a expressão do bem, que pode encontrar suas raízes nas obras de Euclides da Cunha, Oliveira Vianna e Silvio Romero, obras estas que Deusdedit e Joakim leram na BPPR.

Em conformidade com este espírito, o mais velho dos irmãos Moura Brasil redigiu vários trabalhos que, além de suas próprias opiniões sobre os temas abordados, traziam um elenco de autores citados com o intuito de elogio ou de crítica, o que nos permite inferir sobre as formas de leitura que ele realizou desses autores e suas obras.

Seu autor favorito era certamente Clóvis Beviláqua (1859-1944), jurista, político e filósofo cearense que influenciou toda sua época com seus códigos de direito e suas obras críticas36. Os Moura Brasil consultaram a única obra de Beviláqua constante no catálogo da BPPR de 1911, Epochas e individualidades, publicada em 1889. Deusdedit, no entanto, consultou-a apenas em 03 de junho de 1918, (enquanto Joakim o fez pela primeira vez em julho de 1914 e mais seis vezes entre setembro e outubro de 1914, a intervalos regulares de aproximadamente sete dias, indicando que renovou o empréstimo até fazer a leitura completa da obra).

Sobre Beviláqua, Deusdedit escreveu que compartilhava "as palavras de meu grande coestadano (...) Nós os brasileiros somos mais ou menos, em regra geral, autoditacdas (...)"37 Deusdedit dedicou-lhe um artigo no qual questionou as razões da fama e glória serem sempre póstumas. Levado a essas considerações sobre "glória, justiça e equidade" por pensar em Beviláqua, Deusdedit considerava que

O egoismo, a inveja, a despeita ou cousa equivalente faz com que o homem a conceda ao seu merecedor somente quando este já não deixar desfructar o sabor divino que deve ter a verdadeira gloria, gloria parcial ou universal. É malícia do homem, é inveja, é injustiça, porque não dizer? É injustiça. Justiça tardia é injustiça.38

Beviláqua aparece, nos escritos de Deusdedit, como um importante orientador do pensamento do advogado e intelectual cearense radicado no Paraná. Sua tese de concurso deixou esse débito ainda mais evidente, já que Deusdedit buscou demonstrar uma história evolutiva (ou evolucionista) do Direito no Brasil, partindo das ligações, no passado, entre ciência e religião, anunciando a impossibilidade, em seu presente, dessa relação e historicizando os processos pelos quais ciência (Direito) e religião se diferenciam no tempo. A "noção philogenetica do Direito" que serve de leitmotif para a discussão estabelecida por Deusdedit é exatamente um assunto que tanto Clóvis Beviláqua quanto Silvio Romero haviam abordado anteriormente. Nessa conceituação, Deusdedit permite vislumbrar outras influências sobre seu trabalho, como a filosofia afilosófica de Bergson, o Positivismo de Comte e o evolucionismo de Spencer, além do pensamento de von Ihering39, bastante presente, por sua vez, na obra de Beviláqua40.

Nessa construção, Deusdedit elegeu o pensamento e o trabalho de Beviláqua como fundador do Direito no Brasil:

Acredito nas palavras de Clóvis Bevilacqua - nosso orgulho - pelo talento, pelo vigor da cultura, pela capacidade immarcessível de intuição e deducção; exemplo fecundo e prolífero de trabalho e amor à pátria, representante supino e inarredavel da consciência jurídica brasileira actual, que nos libertou das velharias portuguesas e nos tirou do improfícuo arranzel das leis disparatadas.41

A caracterização mais completa que Deusdedit forneceu de Clóvis Beviláqua foi, contudo, feita por oposição a Silvio Romero, como exemplos de intelectuais brasileiros que Deusdedit apreciava em maior e menor grau, respectivamente, cada qual com suas particularidades. Para Deusdedit a personalidade de Beviláqua afigurava-se "através de suas obras jurídicas" como um homem "vigoroso, manso, terno". Um erudito e "jurista profundo" que não tinha a "(...) intrepidez atrevida, audaciosa e por vez emphatica de Sylvio Romero". A obra de Beviláqua era escrita com" phrase limpida, serena, sem ademanes nem atavios, sem interjeições nem sarcasmo humilhador peculiar a Sylvio Romero, que tanta irritação deve causar ao contendor", mostrando que Deusdedit preferia o texto do primeiro, enquanto irritava-se, juntamente com o "contendor", com os escritos de Romero42.

Para Deusdedit, Beviláqua, ao contrário de Romero, "Não grita, não gesticula ameaçadoramente nem gargalha por debique em vendo a queda do opprimido que é certa". O estilo de argüição de Romero desagradava Deusdedit por várias razões, pois "Sylvio esphacela, arranca, corta, machuca, sopapo para aqui, sopapo para acolá; e finalmente, victorioso, offegante, delirante - aponta o caminho, rebate o erro, emenda, corrige." Mas o preço desse estilo era a opressão, que se baseava no esquecimento dos ensinamentos, no quase ódio e na birra, pois Romero "força [e] quer forçar o vencido a humilhar-se"43. Beviláqua agradava Moura Brasil por ser mais cortês. Ele "não ri, não chacoteia nem se pavoneia do triumpho, tanto rebatendo doutrinas do grande mestre von Jhering, como esclarecendo o jurista patrio sua falsa compreensão". Beviláqua debatia com" ternura delicada, feminil". Sempre vitorioso, não tripudiava sobre os adversários, recolhendo-se "ao seu canto, muito quêdo a investigar as sciencias até que um dia novamente, volta com o cajado na mão, não a bater, mas com elle a apontar o caminho ao viajor, como patriarcha gentil que guia a mocidade"44.

Silvio Romero também foi um nome recorrente nos artigos e livros de deusdedit, ainda que muitas vezes, como na comparação acima entre Romero e Beviláqua, as alusões fossem mais como contraposição que como aceitação das idéias. De Romero, o catálogo da BPPR de 1911 lista apenas seu Ensaio de Sociologia (publicado em 1901), porém, os Moura Brasil também consultaram A pátria Portuguesa (de 1906)45 e a Literatura Contemporânea46, acrescidos ao acervo da biblioteca antes das consultas de Joakim e Deusdedit em 1917. Ambos parecem ter tido um súbito interesse pelas obras de Romero, já que consultaram-nas entre fevereiro e abril daquele ano. Deusdedit solicitou Literatura... em 15 e Pátria... em 22 de fevereiro. Dessa data até meados de abril, consultou seguidamente este último livro, com intervalos de sete a dez dias entre as retiradas. Joakim, por sua vez, interessou-se pela Literatura... que retirou quatro vezes entre 08 e 23 de março47.

Contudo, tanto as idéias de Romero quanto de Beviláqua, com todas as suas matrizes e confrontos transparecem nas discussões de Deusdedit sobre a oposição ciência-religião, referida acima. A ciência, conceituada rigorosamente, não podia - ou não podia mais - prender-se a preceitos religiosos. A ciência, sendo evolutiva (como o direito de Beviláqua e a literatura de Romero), se aperfeiçoava e" comporta[va] exclusivamente verdades prováveis", enquanto a religião" não se objectiva (...) nem ao menos se torna racional, justamente por ser religião". Deusdedit afinava-se com Romero ao incluir nessa análise a fase final do pensamento de Auguste Comte, qual seja, a da religião positiva, que como qualquer outra" necessita da fé suprema, da cegueira, por assim dizer, mais suprema, do automatismo (...)"48.

Ao falar sobre a literatura no Brasil, Deusdedit opunha-se novamente a Romero, juntamente com J. Veríssimo, ambos autores de Histórias da Literatura Brasileira, Deusdedit afirmou que:

Não dizemos como elle nem tambem como o inquebrantável e aguerrido poeta, jurista e ensaista crítico - philosopho - Sylverio [sic.] Romero - [que] somos um povo incapaz as carrancudas abstrações philosophicas ou moraes, (...), ás artes a todo estudo enfim que requer perenne, pezadissimas e monasticas meditações.

Sua posição é, ao mesmo tempo, próxima e diferente da de Veríssimo e Romero:

Nossa literatura, considerando-a num todo, tão paupérrima e falha, tão vacillante e insegura, atravessa ainda a phase de rebentões, de embryonez ou de larvas, de esperança apenas renovada, sem chegar ao termo, sem firmeza, prenhe de enxertios aberrantes, debil como lyrios brancos a merce das correntes dos ribeiros em dias de enxurrada e ao esfuziar dos ventos esgarrados.

Comtudo, apezar de todos seus defeitos, de toda sua insegurança, a supportar o vendaval de tempo - nossa literatura - podemos falar sem jactancia nem vislumbre de superlatividade orgulhosa, porque peneirando-a algo encotramos plenamente nosso, como semente de espécie nova que se desaggregou das semeações exóticas; apezar dos seus defeitos, dizíamos, ella não é como se desgrenham assanhados e espivitados criticos a la minute, bufarinheiros que adejam lustros e decanos, mirrando a intelligencia e o gosto aproveitaveis em outros mestres, em torno da imprensa em vanglorias e irreflectidas e mal pensada conjectura.49

Da literatura nacional, Deusdedit consultou, na BPPR, um corpus que incluiu A Capital Federal, de Coelho Neto, Casa de Pensão, O homem, O mulato, Demônios e O Coruja, de Aluízio de Azevedo, Canaã, de Graça Aranha, Ao Correr da Pena, Diva, O ermitão da Glória e As minas de prata, de José de Alencar, Os dois amores, O forasteiro e Memórias do sobrinho de meu tio, de Joaquim Manoel de Macedo, Dom Casmurro e Quincas Borba de Machado de Assis, O garimpeiro e Lendas e romances, de Bernardo Guimarães, À margem da história e Os sertões, de Euclides da Cunha, Inocência, de Taunay, além da poesia de Castro Alves e Olavo Bilac, entre outros. Nesse corpus incluem-se também obras de Dario Vellozo, Romário Martins, Julia da Costa e outros autores paranaenses.

Deusdedit, no intuito de apresentar o ensaio biographico de seu irmão recém falecido, estava argumentando em favor do gênio nacional, contido mais em potencial do que na prática. A principal razão dessa espécie de atrofia intelectual, na avaliação de Deusdedit, encontrava-se na importação irrefreada de idéias, desenvolvidas por" sábios exóticos, [que] externaram com bocejos preguiçosos conclusões obtidas dos calculos obtusos rarefeitos e malfeitos na clausura do gabinete, duvidosos e mareantes quesitos, condenatórios de nossa índole, nossa raça e nossa terra! (...)" que os nacionais "louvaminheiros" bebiam cegamente50. O exemplo contrário à posição de Veríssimo e Romero é Euclides da Cunha, autor de um grande livro (Os sertões) que estava fadado a "ser ruido pela traça na estante com o sello mal pregado da critica dos analistas do trivial". Como Os sertões, outras obras resultantes de "arrojadas e rarrissimas concepções" tendiam a perder-se na "poeira da bibliotheca burguesa ou maniaca" até que a grandeza do livro ou do autor fosse novamente sinalizada, antes de retornar novamente" ao silencio carinhoso". Era este o quadro que Deusdedit visualizava para o irmão, herói "morto sem vencer" da história literária brasileira. Contudo, as previsões de Deusdedit mostraram-se vazias, já que Os sertões tornou-se rapidamente uma obra prima da literatura nacional, e as obras de Joakim permaneceram inéditas e seus originais provavelmente estão perdidos, à exceção dos breves trechos publicados51.

Os escritos de Deusdedit permitem ainda a percepção de incontáveis matrizes intelectuais vigentes nas décadas da virada do século. Se verificarmos pelos autores citados em sua tese de concurso, teremos uma lista que inclui, além de Romero e Beviláqua, Darwin, Haeckel, Payot, Rousseau, Withney, Herder, Max-Muller, Pedro Lessa, Alberto Torres, Stuart Mill, Macaulay, e outros. Podemos perceber uma forte preocupação com conceitos advindos da antropologia a la Oliveira Martins que serviam de justificativa, mais do que explicação, da sociedade em que ele viveu. A idéia central em quase todos seus escritos era a do evolucionismo, levado para o campo do darwinismo social, ainda que poucos anos antes este pensamento de Deusdedit estivesse próximo a Cesare Lombroso, com relação ao determinismo biológico, geográfico e temporal no tocante a questões como a relação entre criminalidade e analfabetismo, ou os meses de nascimento dos gênios.

Deusdedit, como leitor e freqüentador assíduo da BPPR, permite-nos a visualização de alguns elementos de suas formas de leitura - o que é menos possível no caso de seu irmão mais novo, cuja obra se perdeu. Resta acessarmos as representações de Deusdedit sobre o objeto físico que contém as idéias expressas em seus próprios escritos, bem como sobre os locais em que os livros são guardados. Além do complexo processo de aprendizado que ele mesmo descreveu, representou o próprio livro - como objeto - de formas variadas. A obra humana contida nos livros causava-lhe" pasmo e deslumbramento", ao mesmo tempo que Os sertões, era considerado um livro magistral, destinado "a ser ruído pelas traças" pela superficialidade da crítica. O livro podia também ser, como a Hygiene do amor, de Paolo Mantegazza, "um conselheiro livrinho á mocidade (...) tão sagaz e voluptuoso, as vezes sarcástico e picaresco, mas sincero"52, quanto podia ser indigno de figurar "num catálogo bibliographico". Já uma biblioteca em que os livros eram guardados por puro exibicionismo arrivista era" burguesa ou maníaca".

Corroborando as visões sobre a BPPR, divulgadas na imprensa curitibana mencionadas no capítulo anterior, para Deusdedit, a Biblioteca Pública não satisfazia seus desejos de conhecimento. Ele, que juntamente com seu irmão, conhecendo-a a fundo, estava familiarizado com seu acervo e sua organização (ou a falta dela), considera a biblioteca frustrante:

A minguada substancia da nossa desprezada Bibliotheca Pública, a mesquinhez e insufficiencia do elemento que possuimos nos tolhem o passo a fenecer, a esmaecer nossa curiosidade, para muitos problemas interessante[s] como as demographias ou estatisticas de qualquer espécie.53

Deusdedit, longe de buscar desfazer do local em que buscou boa parte das informações que propiciaram sua formação de advogado e de intelectual, buscava o ideal de biblioteca como depósito do conhecimento humano em condições favoráveis de conservação e de consulta, propugnando, como aliás diversos de seus contemporâneos, por bibliotecas públicas as mais completas e dignas possíveis.

Após esse período dos anos de sua formação acadêmica, Deusdedit pareceu perder seu ímpeto iconoclasta e seu deslumbramento intelectual. Pouco publicou na década de 1920, após sua tese de concurso. Talvez funcione como indicador que uma das obras que publica em 1925 seja uma obra religiosa e pia, escrita com sua esposa, onde a ciência é suplantada pela religião. Também como diversos intelectuais de seu tempo, Deusdedit parece ter abraçado o renascimento católico ultramontano e desistido do turbilhão mental envolvido na produção de conhecimento científico e laico. Nesse mesmo período, Deusdedit dava sinais de ter encontrado alguma ocupação no extremo oeste do Estado. Em 1922 ele foi o orador das festas do centenário da independência em Foz do Iguaçu, e em 1925 publicou seu discurso feito naquela ocasião, acompanhado de um soneto chamado Salve Pátria. Em 1923 ele remeteu sonetos em castelhano a partir de Posadas, na Argentina, para a revista O Itiberê, de Paranaguá54. A partir desse momento, ele retornou para o aparente ocaso de onde o retiramos.

As múltiplas leituras dos irmãos Moura Brasil nos apontam um universo de idéias e práticas culturais bastante dinâmico, no qual a leitura servia de motor para a difusão, confronto e defesa de idéias as mais variadas. Se não pudemos recuperar as leituras de Joakim, devido à sua morte e à não publicação de seus diversos escritos, as leituras de seu irmão mais velho puderam nos fornecer algumas pistas sobre as formas de apropriação e reelaboração do material lido por ele. Podemos supor que Joakim, por compartilhar muitas das mesmas leituras na BPPR, compartilhava também parte das interpretações de Deusdedit.

Essas, por sua vez, forjaram uma visão de sociedade que era simultanemente neo-iluminista (na esteira de uma tradição positivista) e evolucionista, inspirada por noções de darwinismo social presentes na obra de Clóvis Beviláqua, entre outros. O decadentismo presente em seus escritos mais explicitamente autobiográficos, perde-se nas obras em que suas opiniões são desfraldadas mais abertamente. Suas leituras na Biblioteca Pública, aliadas àquelas que ele explicita em seus textos, permitem um acesso mais direto às suas idéias.

Embora tênues, essas constatações são resultado da endurance da pesquisa histórica. As leituras de Deusdedit e Joakim perderam-se com seus escritos inéditos, mas nos restou elementos suficientes para tentar reconstruir parte de um mundo intelectual do passado. Um universo pulsante, digladiatório e envolvente salta do material estudado, justificando plenamente o esforço dispendido.

 

NOTAS

1 Bibliotheca Pública. O Paraná VI 24/04/1911, p.1.         [ Links ]

2 DARNTON, Robert. Boêmia literária e revolução; o submundo das letras no Antigo Regime. São Paulo, Companhia das Letras, 1987, p. 7.         [ Links ]

3 Talvez o termo inglês endure, significando aturar, agüentar, ao mesmo tempo que "perseverar" e" persistir", dê uma idéia melhor dessa tarefa.

4 DENIPOTI, Cláudio. Páginas de prazer; a sexualidade através da leitura no início do século. Dissertação Mestrado, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1994.         [ Links ]

5 DENIPOTI, Cláudio." Leitores, escritores e o casamento". In Boletim do departamento de História da UFPR 31. Curitiba, 1994 pp. 33-48.         [ Links ]

6 BORGES, Jorge Luis. "A biblioteca de Babel". In Ficções. São Paulo, Abril Cultural, 1971, pp.84-94.         [ Links ]

7 CHARTIER, Roger." Textos, símbolos e o espírito francês". In História Questões e Debates Curitiba, vol. 24, nº 13, jul./dez. 1996, pp. 05-27.         [ Links ]

8 DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos; e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro, Graal, 1986, p. 330.         [ Links ]

9 CHARTIER, Roger. op cit. e DARNTON, Robert. op cit., pp. 330-331.

10 "Bibliotheca Pública...; A nossa bibliotheca. In Gazeta do Povo, Curitiba, 26/08/1920, p. 01.         [ Links ]Ver também DENIPOTI, Claudio. op cit., pp. 22-24 e 166-167.

11 Para fins de comparação (e também buscando demonstrar a representatividade dos dados relativos aos nossos personagens), o total de consultas feitas à BBPR durante o período 1914-1918 foi de 6939. Deusdedit e Joakim contribuem portanto com 7,9% desse total, sendo este um dos maiores percentuais de consultas entre os freqüentadores da BBPR.

12 Moura Brasil, Deusdedit." Ensaio Biographico sobre J. H. Moura Brasil" In Revista Acadêmica II. Coritiba, vol. 07, nº 1899, Julho/1917 a jul./1918, pp. 182-184.         [ Links ]

13 Idem, p. 211.

14 Idem.

15 Idem, p. 213.

16 Deudedit publicou um ensaio biográfico sobre seu irmão em vários capítulos. Lamentavelmente as últimas partes do ensaio deixaram de ser publicadas por algum motivo, e não pudemos saber a causa ou a data precisa da morte de Joakim.

17 Moura Brasil, Joakim Honorio. "O enfermo." (Capítulo LXXI do livro inédito "dentro da vida"). In A falua I (1), Coritiba, 01/08/1916, pp.07-09.         [ Links ]

18 RELATÓRIO Geral da Universidade do Paraná para 1915. Curityba, Typographia Max Roesner, 1915;         [ Links ]RELATÓRIO Geral da Universidade do Paraná para 1916. Curityba, Typographia d'A República, 1917.         [ Links ]

19 MOURA BRASIL, Deusdedit. Ontogenia do direito commercial. Dissertação e theses de concurso para prehenchimento do cargo de lente substituto [...] da faculdade de direito do Paraná. Coritiba, Empreza Graphica Paranaense, 1920.

20 Moura Brasil, Deusdedit." Ensaio Biographico sobre J. H. Moura Brasil". In Revista Acadêmica II. Coritiba, vol. 6, jun./1918, pp.154-156.(cont.)         [ Links ]

21 MOURA BRASIL, Deusdedit. Loiras ao sol; acerca da seca no Ceará. Curitiba, Livraria Mundial, 1919;         [ Links ]Na fronteira do Brasil com a Argentina e o Paraguai. Curityba, Typographia Moderna, 1922. Apud: MOREIRA, Julio Estrella. Dicionario bibliográfico do Paraná. Curitiba, Imprensa Oficial do Estado, 1957.         [ Links ]

22 MOURA BRASIL, Aldamira e MOURA BRASIL, Deusdedit. Maria Salomé; sonetos. Coritiba, Moderna, 1925.         [ Links ]

23 Moura Brasil, Deusdedit. Ensaio Biographico. In Revista Acadêmica II. Coritiba, vol. 07, jul./1918, pp.182-184.         [ Links ]

24 MOURA BRASIL. op cit, 1920, p. 08.

25 Idem, p. 07.

26 Idem.

27 Idem, p. 07

28 Idem, p. 08.

29 Idem, p. 07.

30 Idem.

31 Seu conceito de ciência era extraído de John Stuart Mill, e foi apresentado como crítica às tentativas de simultaneamente trabalhar-se com ciência e religião: "(...) em certo campo labora a sciencia desafogadamente, esclarece e decide com segurança e vigor, com sua philosophia, servindo-se dos - methodos de investigações e das condições de prova, indicando uns os meios de chegar a conclusões; outros o modo de proval-as com exactidão; uns, instrumentos de descobertas, outros de prova (J. STUART-MILL. A. Comte et le positivisme, p. 55)(...)". MOURA BRASIL. op cit., 1920, p. 27. Em outro momento, ele contrapôs ciência e sensacionalismo literário: "A sciencia tem sua arrogância justificada, sua frieza ante a sensibilidade da rethorica, mesmo moldada pelo genio gaulez". MOURA BRASIL, Deusdedit. "A criminalidade e o analphabetismo". In Revista Acadêmica I Vol. 8, nov./ 1917.         [ Links ]

32 MOURA BRASIL. op cit, p. 09.

33 MOURA BRASIL. op cit., 1917.

34 Idem.

35 MOURA BRASIL, Deusdedit." O exilado". In A falua, 01/08/1916.         [ Links ]

36 MEIRA, Sílvio. Clóvis Beviláqua; sua vida, sua obra. Fortaleza, EUFC, 1990.

37 MOURA BRASIL, Deusdedit, op cit., 1920, p. 07.

38 MOURA BRASIL, Deusdedit." Reddite quae sunt Caesaris Caesaris". In Revista Acadêmica I Vol. 5; ago./1917, p. 121.         [ Links ]

39 As principais influências de Clóvis Beviláqua são Auguste Comte, Stuart-Mill, Émile Littré, Herbert Spencer e Rudolf von Ihering. Este último escreveu A luta pelo direito e Finalidade do direito. Beviláqua solicitou e obteve autorização de Jhering para traduzir para o português A hospitalidade do passado. De Jhering, Beviláqua retirou seus conceitos evolucionistas, em particular o evolucionismo jurídico. Cf. MEIRA, Sílvio. Clóvis Beviláqua; sua vida, sua obra. Fortaleza, EUFC, 1990, pp. 229-248.         [ Links ]

40 MEIRA, Silvio. pp. 229-248; MOURA BRASIL, op cit.,1920, p. 20.

41 Idem, 1920, p. 24.

42 Idem, p. 122.

43 Idem, p. 123.

44 Idem.

45 ROMERO, Silvio. Ensaios de sociologia e literatura. Rio de Janeiro, H. Garnier, 1901.         [ Links ]A pátria portuguesa; o território e a raça. Apreciação do livro de igual título de Teófilo Braga. Lisboa: Livraria Clássica de A.M. Teixeira, 1906. Apud: CANDIDO, Antonio. O método crítico de Sílvio Romero. São Paulo, Edusp, 1988, p.131.         [ Links ]

46 Os livros de retirada não permitem concluir se aqui tratava-se dos Estudos de literatura contemporânea de 1885, ou dos Novos estudos de Literatura contemporânea de 1898, ou ainda dos Outros estudos de literatura contemporânea, de 1905.

47 Contudo, eles não consultaram somente estes dois livros nesse mesmo período. De fato, entre 15 de fevereiro e 15 de abril de 1917, Deusdedit e Joakim retiraram outros 11 títulos, como O genio do cristianismo, de Chateaubriand, Anthropologia e Raças humanas de Oliveira Martins As bases da moral, de Domingos Jaguaribe etc, num total de 37 registros de retirada.

48 MOURA BRASIL, op cit., p. 28,. CANDIDO, op cit., pp. 57-78.

49 Moura Brasil. Moura Brasil, Deusdedit. "Ensaio Biographico sobre J. H. Moura Brasil". In Revista Acadêmica II. Coritiba, vol. 04, abr./1918, p. 91.         [ Links ]

50 Moura Brasil. op cit., vol. 05,. pp.125-127.(cont.)

51 Moura Brasil. op cit., vol. 06, p.154, Moura Brasil, op cit., 1916.

52 Moura Brasil. op cit., 1918, p.90.

53 Idem.

54" Bibliographia". In O Itiberê VIII. Paranaguá, vol. 81, jan./1926, pp. 15-16; O Itiberê V, Paranaguá, jullho-agosto/1923.         [ Links ]

 

 

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