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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.53 n.2 Belo Horizonte abr. 2001

https://doi.org/10.1590/S0102-09352001000200013 

Monitoramento histopatológico de mexilhão Perna perna da Lagoa de Itaipu, Niterói, RJ

[Histopathological monitoring assessment of mussels Perna perna at the Itaipu Lagoon, Brazil]

 

F.C. Lima1, M.G. Abreu1,2, E.F.M. Mesquita1,3

1Departamento de Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal Fluminense
Rua Dr. Vital Brazil Filho, 64
24230-340 - Niterói, RJ

2
Bolsista Iniciação Científica FAPERJ

3
Bolsista CNPq/MCT/Pesquisa

 

Recebido para publicação, após modificações, em 15 de setembro de 2000.
E-mail: eliana@esquadro.com.br

 

 

RESUMO

Cortes histológicos de 120 mexilhões Perna perna (Linnaeus, 1758), coletados na Lagoa de Itaipu, Niterói, RJ, por um período de 12 meses, foram examinados quanto a presença de parasitas e lesões. Noventa exemplares apresentaram cinco diferentes processos patológicos: bucefalose, presença de protozoários Nematopsis sp., inclusões basofílicas não específicas, encapsulamentos parasitários e cistos epiteliais branquiais. Cinquenta animais mostravam duas ou mais patologias concomitantes.

Palavras-Chave: Mexilhão, Perna perna, bivalve, parasita, histopatologia

 

ABSTRACT

Histologic sections of 120 mussels Perna perna (Linnaeus, 1758), from Itaipu Lagoon, Niterói, State of Rio de Janeiro, Brazil, were examined for the presence of parasites and lesions during a period of 12 months. Ninety mussels showed five different pathological processes: bucephalosis, protozoan Nematopsis sp., basophilic non-specific inclusions, parasitic encapsulations and ctenidia epithelial cysts. Fifty animals presented two or more pathological processes at the same time.

Keywords: Mussel, Perna perna, bivalve, parasite, histopathology

 

 

INTRODUÇÃO

Os bivalves vêm sendo utilizados como sentinelas na detecção de modificações temporárias da qualidade do meio ambiente. Essas modificações podem aumentar a susceptibilidade dos moluscos a várias patologias e em especial as parasitárias (Cheng & Rifkin, 1968; Sindermann & Rosenfield, 1968; Newman, 1971; Figueras et al., 1991), podendo estar relacionadas a alta mortalidade (Li & Clyburne, 1979; Munford et al., 1981; Kroeck & Pérez, 1998).

Desde 1995, nos EUA, a análise histopatológica de ostras e mexilhões vem sendo usada como base para a avaliação sazonal da carga parasitária, tendo sido incluída no programa de monitoramento de bivalves fomentado pela NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) (Kim et al., 1998). No Brasil, alguns trabalhos envolvendo o monitoramento histopatológico relataram a presença de parasitas Bucephalidae (Trematoda) em Perna perna (Magalhães & Ribeiro, 1998; Marenzi et al., 1998; Silva et al., 1998). No Estado da Bahia, Nascimento et al. (1986) associaram a alta mortalidade em Crassostrea rhizophorae (Guilding, 1828) à presença de Nematopsis sp. (Protozoa).

O mexilhão Perna perna (Linnaeus, 1758) vive na costa oeste do Atlântico, desde a Ilha Margarita e Cumaná (Venezuela) até a Ilha de Lobos e Punta del Este (Uruguai), sendo abundante entre o Rio de Janeiro e Santa Catarina (Klappenbach, 1964). Embora tenha grande potencial econômico, sendo utilizado como alimento em todo o litoral brasileiro, pouco se conhece sobre a distribuição e o significado patológico das doenças que mais freqüentemente o acometem. O incremento das atividades em mitilicultura no Brasil coloca o País como o principal produtor de mexilhões cultivados da América Latina, principalmente com a criação de fazendas marinhas no Estado do Rio de Janeiro.

O objetivo do presente trabalho foi o de avaliar o grau de processos patológicos encontrados nos mexilhões da Lagoa de Itaipu, visando detectar a higidez da população de mariscos da região.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram feitas coletas mensais de 10 mexilhões Perna perna (Linnaeus, 1758), entre novembro de 1998 e outubro de 1999, perfazendo um total de 120 exemplares. Os animais foram capturados na Lagoa de Itaipu, junto ao Canal de Camboinhas, Niterói, RJ (22º58’S, 43º02’W) (Fig. 1).

 

 

Com as valvas entreabertas, porém ainda dentro das conchas, os espécimes eram fixados em Bouin por quatro horas e transferidos para formalina 10% por 24 horas. As valvas eram, então, medidas e retiradas, separando-se as partes moles. Elas eram clivadas e obtinha-se na secção transversal a glândula digestiva, o manto, as brânquias, as gônadas e o pé. Os animais adultos tinham, em média, 6,12cm de comprimento e 2,90cm de largura. Para a análise microscópica foi utilizada a técnica de rotina de inclusão em parafina. Cortes de cinco micrômetros de espessura foram corados pelo método de coloração hematoxilina-eosina (Behmer et al., 1976).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Dos 120 mexilhões P. perna utilizados na pesquisa, 90 exibiam alterações patológicas. Destes, 40 (44,5%) mostravam apenas uma patologia, 39 (43,3%) com duas, nove (10,0%) com três e dois (2,2%) exemplares com quatro. Cinco patologias foram encontradas: bucefalose, presença de protozoários do gênero Nematopsis, inclusões basofílicas não específicas, encapsulamentos parasitários e cistos epiteliais branquiais.

Bucephalus sp. (Trematoda) foi observado nas coletas de dezembro de 1998 e junho e julho de 1999, totalizando três (2,5%) animais. Nos exemplares das duas últimas coletas foi impossível a identificação do sexo, já que os animais apresentavam as gônadas altamente infectadas, levando à castração pela destruição do tecido reprodutivo. Não se observou processo inflamatório com infiltração de hemócitos e o parasita não se apresentou encapsulado, apesar da forte regressão do tecido gonádico (Fig. 2). As brânquias mostraram-se parasitadas nos três indivíduos, sem evidência de reação inflamatória. Magalhães & Ribeiro (1998) relataram que 5,5% dos mexilhões estudados apresentavam a parasitose: 100% de esporocistos na glândula digestiva e 50% no manto (gônada), não sendo encontrada nas brânquias. Marenzi et al. (1998) verificaram média anual de 5,1% em mexilhões de cultivo, registrando pico de 20% no período de maior atividade reprodutiva. No monitoramento desenvolvido por Silva et al. (1998), a maior ocorrência foi de 3,3%.

Nematopsis sp. (Protozoa) foi encontrado nas brânquias (Fig. 3) de 43 (35,8%) animais, praticamente durante todo o período de coleta. Embora possa causar perdas importantes em ostras (Nascimento et al., 1986) e mexilhões (Matos et al., 1998), na presente pesquisa a presença desse protozoário não pareceu estar ligada a nenhum processo patológico.

Nos exemplares capturados nos meses de novembro de 1998 e julho e agosto de 1999 foram observados corpos basofílicos não específicos, ou seja, de natureza ainda desconhecida (Fig. 4), em 17 (14,2%) espécimes. Destes, com intensidade de infecção variada, seis animais (35,3%) apresentavam as inclusões apenas nas brânquias, um (5,9%) no trato digestivo e brânquias, e 11 (58,8%) na totalidade dos tecidos. Não foram registradas lesões de natureza inflamatória em nenhum dos animais. Figueras et al. (1991) encontraram inclusões nas células do epitélio do tubo digestivo em todos os exemplares de Mytilus edulis por eles estudados, mas que não geravam uma resposta celular marcante dos hospedeiros frente à infecção.

Os encapsulamentos relatados neste trabalho são respostas de reação originadas da ação mecânica de diversos helmintos como os documentados por Sindermann & Rosenfield (1967), Cheng & Rifkin (1975) e Nascimento et al. (1986). Ao corte histológico as lesões mostraram contorno arredondado, com o centro contendo a secção do parasita envolta por uma cápsula conjuntiva de espessura variável (Fig. 5). Do total de animais estudados, 51 (41,7%) possuíam um ou mais processos inflamatórios. Destes, 16 exemplares (32%) foram detectados no manto, três (6%) na gônada, 17 (34%) no trato digestivo, cinco (10%) nas brânquias e 10 (20%) com mais de um tecido parasitado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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