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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.53 no.4 Belo Horizonte Aug. 2001

https://doi.org/10.1590/S0102-09352001000400012 

Concentração plasmática de progesterona em novilhas receptoras submetidas à administração de rbST, GnRH ou hCG no quinto dia do ciclo estral

[Plasma progesterone concentration in recipient heifers submitted to administration of rbST, GnRH or hCG on day five of the estrous cycle]

 

J.F. Fonseca1, J.M. Silva Filho1*, M.S. Palhares1, J.R.M. Ruas2, A. Pinto Neto1

1Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais
Caixa Postal 567
30123-970 – Belo Horizonte, MG, Brasil
2
Empresa Mineira de Pesquisa Agropecuária (EPAMIG)

 

Recebido para publicação em 22 de março de 2000.
Recebido para publicação, após modificações, em 5 de abril de 2001.
Colaboradores: M.T.T. Alvin, H. Belisário, W.P. Saliba
*Autor para correspondência
E-mail:
monteiro@vet.ufmg.br

 

 

RESUMO

Avaliaram-se a habilidade de diferentes hormônios administrados no quinto dia do ciclo estral em induzir a ovulação do folículo dominante da primeira onda folicular (FDPO) e formar um corpo lúteo acessório (CLa) e seus efeitos sobre a concentração plasmática de progesterona (P4) em novilhas receptoras. Cinqüenta e duas novilhas mestiças Holandês-Zebu foram aleatoriamente distribuídas em quatro tratamentos: T1-controle, T2-administração subcutânea de 500mg de rbST, T3-administração intramuscular (IM) de 100mg de GnRH e T4-administração IM de 2000UI e endovenosa de 1000UI de hCG. Realizou-se palpação transretal nos dias 5, 13 e 60 para detecção de corpo lúteo original (CLo), de CLa e de gestação, respectivamente. A formação de CLa foi de: T1-0/12 (0,0%), T2-0/13 (0,0%), T3-5/12 (41,7%) e T4-10/15 (66,7%) (P<0,05) sendo T1 e T2 diferentes de T3 e T4. A concentração plasmática de P4 foi determinada por radioimunoensaio a partir de amostras de sangue coletadas na veia jugular nos dias 5, 13, 17 e 21 do ciclo estral. Trinta e dois embriões foram transferidos para as receptoras no sétimo dia do ciclo estral (T1-8, T2-8, T3-7 e T4-9). Apenas novilhas não transferidas tiveram sangue coletado nos dias 17 e 21. Observaram-se diferenças na concentração plasmática de P4 (ng/ml) entre os tratamentos (P<0,05) somente no 13ºdia do ciclo, com valores de T1=5,01± 1,04, T2=4,80± 1,26, T3=6,42± 1,47 (diferente de T1, T2 e T4) e T4=11,16± 2.79 (diferente de T1, T2 e T3), mas não houve efeito da presença do embrião (P>0,05). As taxas de gestação, T1=37,5% (3/8), T2=62,5% (5/8), T3=28,6% (2/7) e T4=33,3% (3/9), não diferiram entre tratamentos (P>0,05). Estes resultados mostraram que o FDPO no quinto dia do ciclo estral foi capaz de responder ao GnRH e à hCG, ovular e formar um CLa, o que elevou a concentração plasmática de P4 de novilhas no 13º dia do ciclo estral, período crítico para o estabelecimento da gestação em bovinos.

Palavras-chave: Bovino, Nelore, embrião, folículo dominante, corpo lúteo acessório.

 

ABSTRACT

The ability of different hormones administered on day five of the estrous cycle to induce the ovulation of the first wave dominant follicle (FWDF) and to form an accessory corpus luteum (CLa), and the respective effects on plasma progesterone concentrations were studied in recipient heifers. Fifty-two crossbred Holstein-Zebu heifers were randomly assigned to four treatments: T1-control, T2-subcutaneous administration of 500mg of rbST, T3-intramuscular administration of 100mg of GnRH and T4-administration of 3000IU of hCG (1000IU endovenous and 2000IU intramuscular). Transrectal palpation was performed on days 5, 13 and 60 to check original corpus luteum, CLa and pregnancy, respectively. CLa formation was as follow: T1-0/12 (0.0%), T2-0/13 (0.0%), T3-5/12 (41.7%) and T4-10/15 (66.7%), being T1 and T2 different from T3 and T4 (P<0.05). Plasma progesterone concentration (ng/ml) was determined by radioimmunoassay from blood samples collected from jugular vein on days 5, 13, 17 and 21. Thirty-two embryos, T1=8, T2=8, T3=7 and T4=9, were transferred to recipients at day 7. Only heifers not receiving embryos were collected on days 17 and 21. Differences on plasma progesterone concentration were observed only on day 13. The values were T1=5.01± 1.04, T2=4.80± 1.26, T3=6.42± 1.47 and T4=11.16± 2.79, being T3 different from T1, T2 and T4, and T4 different from T1, T2 and T3 (P<0.05). No differences between pregnancy rates, T1=37.5% (3/8), T2=62.5% (5/8), T3=28.6% (2/7) e T4=33.3% (3/9), were found. These results showed that the FWDF on day 5 is capable to respond to GnRH–analog and hCG, to ovulate and forme an accessory corpus luteum, which allows for an endogenous increase in plasma progesterone concentration in heifers on day 13 of the estrous cycle, the critical period for establishment of pregnancy in bovine.

Keywords: Cattle, Nelore, embryo, progesterone, dominant follicle, accessory corpus luteum.

 

 

INTRODUÇÃO

O reconhecimento precoce da gestação em bovinos envolve uma série de sinais transmitidos do embrião para a mãe, que se acredita inibir o início da luteólise, permitindo, dessa forma, a continuidade do corpo lúteo (CL) da gestação. Dada à elevada mortalidade embrionária e fetal em vacas, a maior causa de falhas reprodutivas (Lamming et al., 1989), há necessidade de se investigar como os sinais que levam ao estabelecimento da gestação são gerados e até mesmo se ocorrem em uma seqüência correta em animais que perdem seus embriões.

Em bovinos, uma significante proporção de infertilidade tem sido atribuída ao funcionamento inadequado do CL (Wielbold, 1988; Lamming et al., 1989). O inadequado funcionamento do CL, também chamado deficiência de fase lútea ou disfunção lútea, é caracterizado por ciclo estral de duração normal e baixa concentração periférica de progesterona (Dizerega & Hodgen, 1981; Lamming et al., 1981). Uma deficiência na secreção desse esteróide por parte do CL poderia contribuir para perdas embrionárias (Staples & Hansel, 1961; Thatcher et al., 1994a). Henricks et al. (1971) demonstraram que vacas inseminadas que não mantiveram a gestação tiveram menor concentração plasmática de progesterona entre os dias 10 e 16 do ciclo estral do que vacas gestantes durante o mesmo período. Lamming et al. (1989) encontraram menor concentração de progesterona no leite no mesmo período em vacas com as mesmas condições fisiológicas citadas.

O folículo dominante da primeira onda folicular ao quinto dia do ciclo estral (estro = dia zero) é saudável, esteroidogenicamente ativo (Badinga et al., 1992), e pode ovular em resposta à administração de gonadotrofina coriônica humana (hCG) ou de um agonista do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH; Schmitt et al., 1996a). Induzir a formação de um corpo lúteo adicional durante a fase lútea do ciclo estral com a administração de gonadotrofinas seria uma estratégia para elevar a concentração plasmática de progesterona durante esse período (Schmitt et al., 1996a). O aumento da esteroidogênese e do peso do CL foram alcançados por meio da administração de 25mg/dia de rbST durante o ciclo estral de vacas em lactação, demonstrando uma via alternativa para o incremento da função lútea (Schemm et al., 1990). Os resultados desses estudos suportam a possibilidade de uso de hormônios em receptoras com o objetivo de elevar as concentrações plasmáticas de progesterona, garantindo suporte adicional para o estabelecimento da gestação.

O objetivo deste estudo foi avaliar o efeito da administração de rbST, de GnRH e de hCG no quinto dia do ciclo estral de receptoras de embriões bovinos sobre a formação de corpo lúteo acessório, concentração plasmática de progesterona e taxa de gestação.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo foi realizado entre 1º de junho e 31 de agosto de 1998, utilizando-se 52 novilhas mestiças Holandês-Zebu selecionadas e mantidas a pasto, suplementadas com aproximadamente 20kg de cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.) e um quilograma de concentrado diariamente. Após avaliação do trato reprodutivo por palpação transretal e vaginoscopia, para confirmação da presença de corpo lúteo e eliminação de qualquer animal com problemas reprodutivos, as receptoras que estavam entre o 7º e 14º dia do ciclo estral tiveram o ciclo estral estrategicamente sincronizado com as doadoras, por meio da administração subcutânea sob a vulva de 0,25 miligrama de um análogo de prostaglandina (PGF2a ) (Cloprostenol, Ciosinâ , Coopers do Brasil). Os animais foram observados para detecção de estro duas vezes por dia (6 às 7 h e 18 às 19 h), e entraram em estro entre 24 e 72 horas após a administração de PGF2a . Uma vez caracterizado o estro, as receptoras foram distribuídas aleatoriamente em quatro tratamentos com administração hormonal no quinto dia do ciclo estral: T1-controle sem hormônio (n=12); T2-500mg de rbST (Sometribove Zinco, Lactotropinâ , Elanco Saúde Animal) por via subcutânea na base da cauda (n=13); T3-100mg de um análogo de GnRH (Gonadorelina, Cystorelinâ , Merial Saúde Animal) por via intramuscular (n=12); T4-2000 UI (unidades internacionais) via intramuscular e 1000 UI por via intravenosa de hCG (V Gonadotrofina Coriônica Humana, Vetecorâ , Serono Veterinária) (n=15).

As receptoras foram avaliadas por palpação transretal ao quinto dia do ciclo estral (dia de administração do hormônio) para caracterização do corpo lúteo original (CLo). No sétimo dia, todas as receptoras inovuladas (submetidas à transferência cirúrgica de embrião; rTE) tiveram seus ovários avaliados in situ. No 13ºdia do ciclo estral, receptoras não inovuladas (rNTE) e receptoras rTE foram palpadas para a caracterização de CLa (formado a partir da ovulação induzida no quinto dia).

Amostras de sangue foram coletadas por punção da jugular nos dias 5, 13, 17 e 21 do ciclo estral em tubos de 10ml com vácuo e heparina, e imediatamente estocados sob gelo até a centrifugação. O sangue foi centrifugado a 1000g ´ 10 min e o plasma separado e estocado a 18ºC negativos até a análise. Posteriormente, as concentrações plasmáticas de progesterona foram determinadas no Laboratório de Biofísica do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais, utilizando-se a técnica de radioimunoensaio (RIA) (Coat-a-Countâ Progesterone KIT, DPC-Medlab) de fase sólida, como descrito por Robinson et al. (1989), em contador de cintilação para radiação gama (Minigamma Gamma Counter, modelo LKB Wallac 1275). As rTE foram submetidas a coletas somente até o 13ºdia. Uma parcela em T3 e duas parcelas em T4 foram perdidas no 17º dia e recuperadas no 21º dia.

Cinco doadoras da raça Nelore Padrão, alojadas no Centro de Assessoria Técnica e Transferência de Embriões (CENATTE, Pedro Leopoldo – MG), após seleção e controle do ciclo estral com detecção do estro base (dia-0 ou dia do estro), foram superovuladas entre os dias 8 e 12 (10 dia em média) do ciclo estral com FSH (Plusetâ , Serono Veterinária) na dosagem de 350UI, fracionada em oito doses decrescentes, administrados a cada 12 horas, por via intramuscular, durante quatro dias. Cada doadora recebeu duas doses intramuscular de 1mg de PGF2a após 60 e 72 horas do início da superovulação para indução do estro. Cada doadora foi submetida a três inseminações artificiais (IA). A primeira foi realizada 14 horas após o início do estro e as demais a intervalos de oito horas.

Os embriões foram coletados não cirurgicamente no sétimo dia (7± 0,5 d) após o estro e conseqüente inseminação artificial, em meio PBS (tampão salina fosfato) de Dulbecco & Vogt, modificado por Whittingham (1971), sendo em seguida avaliados ao microscópio estereoscópio segundo a qualidade (Kennedy et al., 1983) e estádio de desenvolvimento embrionário (Lindner & Wright, 1983).

Trinta e dois blastocistos, classificados como excelentes e bons, foram transferidos cirurgicamente no sétimo dia do ciclo estral das receptoras: T1=oito, T2=oito, T3=sete e T4=nove. Decorridos 53 dias da transferência, as receptoras foram avaliadas por palpação transretal para verificação da taxa de gestação.

A formação de CLa e a taxa de gestação foram analisadas pelo teste de dispersão de freqüências do qui-quadrado (Sampaio, 1998). Para determinar o efeito das gonadotrofinas GnRH e hCG e da rbST sobre a concentração plasmática de progesterona, fez-se análise de variância e usaram-se os testes t de Student e Student-Newman-Keuls para comparação de médias. Com o objetivo de estabelecer homogeneidade de variâncias, efetuou-se a transformação logarítmica [log 10 (x+1), em que x=valor em nanogramas] dos dados (Sampaio, 1998).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A administração de gonadotrofinas GnRH (T3) e hCG (T4) induziu (P<0,01) a ovulação do folículo dominante da primeira onda (FDPO) e conseqüentemente a formação de corpo lúteo acessório (CLa) em 41,7% (5/12) e 66,7% (10/15) das receptoras, respectivamente. Em T1 e T2 não houve formação de CLa. Estes resultados confirmaram, em parte, estudos anteriores (Price & Webb, 1989; Rajamahendran & Sianangama, 1992; Fricke et al., 1993; Thatcher et al. 1994b; Schmitt et al., 1996a), os quais utilizaram hCG para a indução de CLa. No presente experimento obtiveram-se 66,7% de formação de CLa, resultados que se aproximam dos de Price & Webb (1989), que obtiveram 83,0% de formação de CLa. Em alguns estudos (Thatcher et al., 1994b; Schmitt et al., 1996a) tem sido relatado 100% de formação de CLa em resposta à hCG. A resposta à administração de hCG foi superior à de GnRH (P<0,05) e ao controle (P<0,01). A administração de GnRH, embora em escala inferior à de hCG, também foi capaz de promover a ovulação do FDPO e a formação de corpo lúteo acessório em 41,7% dos animais (P<0,01), valores inferiores aos de Thatcher et al. (1994b) e Schmitt et al. (1996a), ambos com 100% de formação de CLa. Entretanto, torna-se importante ressaltar que os referidos autores utilizaram número reduzido de animais por tratamento (não superior a cinco) e com acompanhamento ultrassonográfico, um método mais acurado para a seleção dos animais, detecção e caracterização do FDPO, detecção de ovulação e formação de CLa.

A concentração plasmática média de progesterona (ng/ml) obtida entre o 5º e 21º dias do ciclo estral é apresentada na Tab. 1.

 

 

Ao 17º dia não houve mais o efeito (P>0,05) das gonadotrofinas (GnRH e hCG) sobre as concentrações plasmáticas de progesterona (Tab. 1). No entanto, três parcelas foram perdidas (uma em T3 e duas em T4) neste dia, o que pode ter interferido nos resultados, já prejudicados pela retirada das novilhas rTE. Outros estudos têm relatado diferenças na concentração plasmática de progesterona entre grupos tratados com gonadotrofinas neste período (McDermott et al., 1986; Kerbler et al., 1997). Ao 21º dia a concentração plasmática média de progesterona não diferiu entre os tratamentos, pois os animais já retornavam ao estro.

Não houve efeito da transferência de embriões (P>0,05) sobre a concentração plasmática de progesterona ao 13º dia dentro de cada tratamento ou entre tratamentos (Tab. 2). A presença do embrião poderia elevar a concentração plasmática de progesterona nos dias seguintes ao 13ºdia, mas dentro das condições experimentais isto não pôde ser mensurado.

 

 

A concentração plasmática de progesterona no 13º dia elevou-se (P<0,05) em função da administração das gonadotrofinas, comparada com a concentração dos demais tratamentos (Tab. 1), o que confirma os resultados obtidos por estudos realizados anteriormente (Helmer & Britt, 1986; Fricke et al., 1993; Schmitt et al., 1996b). Esses valores mantiveram-se elevados até o 17º dia, sem que houvesse diferença entre eles (P>0,05). Este intervalo é considerado como o período crítico para o estabelecimento da gestação em bovinos (Thatcher et al., 1995; Wathes & Lamming, 1995; Thatcher et al., 1997). Sabe-se que a progesterona é o hormônio chave que orquestra os eventos fisiológicos e endócrinos que levam à preparação da fêmea para escapar da luteólise, suportar e levar a termo a gestação (Graham & Clarke, 1997). Segundo Wathes & Lamming (1995), a concentração plasmática de progesterona inicia seu declínio por volta do 14º-15º dia, ao contrário das concentrações de PGF2a e de oxitocina que começam a se elevar e causam luteólise e retorno do animal ao estro. Como sugerido por vários autores (Wiltbank et al., 1956; Macmillan & Thatcher, 1991; Geisert et al., 1992; Schmitt et al., 1996a), a elevação da concentração plasmática de progesterona nesse período poderia ser uma estratégia para auxiliar o estabelecimento e a manutenção da gestação. Isso poderia corrigir uma assincronia hormonal entre o ambiente uterino e os fatores necessários para o desenvolvimento do concepto, como sugerido por Thatcher et al. (1994a).

De fato, nas condições deste estudo a progesterona elevou-se em função do estímulo gonadotrófico. Kerbler et al. (1997) relataram que concentração plasmática elevada de progesterona, resultante do estímulo da hCG, tende a elevar a síntese de IFN-t , tido como indispensável para deter a lise do CL (Thatcher et al., 1995; Wathes & Lamming, 1995; Thatcher et al., 1997). Dessa forma, a elevação da concentração plasmática de progesterona verificada em T3 e T4, ao elevar a síntese de IFN-t , poderia favorecer o estabelecimento e manutenção da gestação, sobretudo em animais cuja função lútea primordial, a síntese e secreção de progesterona, estivesse prejudicada. Outro importante aspecto foi relatado por Mann & Lamming (1995), que classificaram animais em dois grupos segundo a concentração plasmática de progesterona na fase lútea do ciclo estral. No primeiro grupo, com baixa concentração plasmática de progesterona (@ 6ng/ml), observou-se maior concentração plasmática de PGFM (metabólito da PGF2a ). No segundo grupo, com alta concentração plasmática de progesterona, a concentração de PGFM esteve relativamente reduzida. Esses relatos suportam a teoria de que concentrações elevadas de progesterona favoreceriam o estabelecimento do embrião, ao reduzir as concentrações de PGF2a , obtendo-se dessa forma uma sobrevida do CL. Isso ocorreu independentemente do IFN-t , já que no referido trabalho utilizaram-se animais ovariectomizados e sem transferência de embriões. Segundo a classificação proposta por Mann & Lamming (1995), neste trabalho as receptoras dos tratamentos controle, rBST e GnRH enquadram-se no grupo com baixa concentração plasmática de progesterona, ao passo que as receptoras do tratamento hCG estariam em uma condição de alta concentração plasmática de progesterona. Essa alta concentração poderia favorecer o estabelecimento do concepto, ao atenuar o mecanismo luteolítico.

Dentro dos tratamentos GnRH e hCG (tratamentos no qual houve formação de CLa) não houve diferença (P>0,05) na concentração plasmática de progesterona entre as receptoras com CLa e sem Cla, cujas médias foram, respectivamente, 7,44 e 5,70ng/ml para o GnRH e 11,35 e 10,78ng/ml para a hCG. Isso suporta a teoria de que a administração de hCG ou GnRH, além de promover a formação de CLa, pode também ter efeito sobre a formação e diferenciação do CLo, o qual pode contribuir para a elevação na concentração de progesterona. De acordo com Veenhuizen et al. (1972), a administração de dose única de hCG (1000, 2000 ou 4000 UI) no terceiro dia depois do estro sincronizado em novilhas aumentou o tamanho do CLo removido nos dias 9, 10 e 11 do ciclo estral. Na dose de 4000UI de hCG, o CL apresentou maior conteúdo e maior produção de progesterona em resposta ao desafio com hCG in vitro. Respostas à injeção de hCG no terceiro dia suportam o conceito de que a exposição precoce ao LH ou substância semelhante ao LH na formação do CL pode incrementar seu desenvolvimento. Schmitt et al. (1996a) observaram aumento do tamanho médio das pequenas e grandes células luteínicas em resposta ao GnRH e hCG quando comparadas com o controle. O mesmo estudo relatou que o efeito do hCG foi mais evidente nesse aspecto. Farin et al. (1988) deram suporte para a hipótese de que tanto o LH quanto a hCG estimulam a conversão de células pequenas para grandes células luteínicas. Também observaram aumento no número de grandes células luteínicas por grama de tecido lúteo e redução na razão entre pequenas e grandes células lúteas, embora não tenham encontrado mudanças com relação ao diâmetro dessas células. Portanto, a administração de GnRH ou hCG no quinto dia do ciclo estral pode induzir modificações no CLo, além de contribuir para o desenvolvimento do CLa. Uma combinação provável desses efeitos culminou em concentração plasmática elevada de progesterona ao 13º dia verificada no presente estudo, principalmente considerando-se que nem todas as receptoras cujo plasma foi mensurado apresentavam CLa, notadamente no grupo que recebeu GnRH.

É bem conhecido que o GnRH e seus análogos e agonistas promovem ações via liberação endógena de LH na hipófise. As taxas de clearance do LH e hCG no homem têm sido demonstradas em duas fases, diferentes entre os hormônios. Durante a fase inicial rápida, o LH tem meia-vida de aproximadamente 20 minutos, enquanto que a da hCG varia de cinco a nove horas. Na segunda fase, de clearance lento, o LH tem meia-vida de aproximadamente quatro horas, ao passo que a da hCG é de 1 a 1,3 dias. Portanto, a hCG caracteriza-se por extensa meia-vida no plasma quando comparada à do LH (Yen et al., 1968, apud Schmitt et al., 1996b). Essa diferença se deve à maior quantidade de ácido siálico na molécula de hCG em relação à molécula de LH, o que reduz sua captação e metabolismo hepáticos e, dessa forma, aumenta sua meia-vida plasmática. Outro importante aspecto caracterizado por Ryzkallah et al. (1969) é que a injeção intramuscular de hCG no homem aumenta a meia-vida quando comparada com a administração endovenosa. Assim, essas várias características capacitam a hCG a ter uma ação mais potente e intensa, que culmina em maior concentração plasmática de progesterona ao 13º dia do ciclo estral, em comparação com a ação do GnRH. Ressalta-se que o GnRH é secretado por neurônios da eminência hipotalâmica dentro do sistema porta-hipotalâmico-hipofisário. Embora com meia-vida curta (quatro a sete minutos), por estar anatomicamente muito próximo, atinge rapidamente seu alvo, a hipófise (Wright & Malmo, 1992). A gonadorelina utilizada neste estudo, apesar de se tratar de GnRH nativo, é administrada em elevada dosagem (100m g), o que lhe permite acesso à hipófise, promovendo conseqüente liberação de gonadotrofinas (i.e. LH).

Embora a rbST não tenha sido capaz de elevar significativamente a concentração plasmática de progesterona em nenhum dos dias analisados (P>0,05) em relação aos outros tratamentos (Tab. 1), a queda na sua concentração foi menos aguda do que a do grupo-controle. No 21º dia a concentração de progesterona foi cerca de 10 vezes maior no grupo rbST do que no grupo-controle, mas a diferença não foi significativa (P>0,05). Entretanto, mesmo não diferindo de T1 e T3, a concentração plasmática média de progesterona de animais tratados no 21º dia com rbST e hCG (1,66 e 1,41 ng/ml, respectivamente) prolongou a vida ativa do CL, uma vez que a sua regressão é considerada efetiva quando a concentração plasmática de progesterona alcança valor <1ng/ml (Rajamahendran et al., 1998). Miyamoto et al. (1998), trabalhando com ovelhas hipofisectomizadas ao sétimo dia do ciclo estral, com colocação de um sistema de microdiálise de GH ou LH no mesmo dia, com o objetivo de acessar o efeito direto desses hormônios sobre o microambiente lúteo, constataram que o GH obteve maior potência que o LH em termos de estimulação da síntese de progesterona lútea, donde se concluiu que o GH, assim como o LH, é um hormônio luteotrófico hipofisário essencial em ovelhas. Schemm et al. (1990), ao administrar 25mg diárias de rbST em solução aquosa, elevaram o peso e a esteroidogênese do CL, o que repercutiu em aumento da produção de progesterona lútea. Salienta-se que a administração de rbST em solução oleosa em dose única de 500mg resulta em pico do hormônio 48 horas após e a concentração decresce até o 14º dia. Talvez a administração no dia do estro pudesse proporcionar efeito benéfico sobre a formação do CL bovino, como relatado em ovinos, além do efeito direto (via receptores de GH) sobre o CL formado, fato não observado neste estudo com a administração da rbST no quinto dia do ciclo estral.

As taxas de gestação detectadas no 60º dia de gestação por palpação transretal foram: T1=37,5% (3/8), T2=62,5% (5/8), T3=28,6% (2/7) e T4=33,3% (3/9). Não houve diferença entre os tratamentos (P>0,05). Nas condições deste estudo, embora o GnRH e o hCG tenham sido capazes de promover a formação de CLa com conseqüente elevação da concentração plasmática de progesterona, não se observou elevação nas taxas de gestação. O aumento do número de animais por tratamento deveria ser realizado em outro experimento.

Os resultados deste estudo demonstraram que a administração de gonadotrofinas, de análogo-GnRH e de hCG no quinto dia do ciclo estral é uma técnica viável para promover a ovulação do folículo dominante da primeira onda folicular do ciclo estral, com formação de corpo lúteo acessório e conseqüente elevação da concentração plasmática de progesterona no 13º dia do ciclo estral em novilhas. Estes resultados estimulam a continuidade de investigação do reflexo desses fenômenos sobre as taxas de gestação de receptoras de embriões.

 

AGRADECIMENTOS

Ao CENATTE – Centro de Assessoria Técnica e Transferência de Embriões por ceder os animais, estrutura física e humana, imprescindíveis à realização deste estudo. À Serono Divisão Veterinária pela doação do medicamento VetecorÒ (Gonadotrofina Coriônica Humana). À Merial Saúde Animal pela doação do medicamento CystorelinÒ (GnRH).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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