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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.53 no.4 Belo Horizonte Aug. 2001

https://doi.org/10.1590/S0102-09352001000400017 

COMUNICAÇÃO

[Communication]

 

Transmissão congênita de Babesia bovis

[Prenatal Babesia bovis infection]

 

A.P.F.L. Bracarense, O. Vidotto, G.D. Cruz

Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Londrina
Caixa Postal 6001
86051-970 - Londrina, PR

 

Recebido para publicação em 28 de setembro de 2000.
E-mail: anapaula@uel.br

 

 

Em áreas tropicais o carrapato Boophilus microplus é o vetor de uma das doenças mais importantes para animais de produção, a babesiose bovina (Kessler et al., 1983; Barbosa et al., 1994). Considerada uma doença endêmica no Brasil, causa prejuízos econômicos em áreas de instabilidade enzoótica (Patarroyo et al.,1982; Kessler et al., 1983; Barbosa et al., 1994). Causada por protozoários do gênero Babesia, no Brasil estão envolvidas as espécies B. bigemina e B. bovis. Bovinos jovens costumam ser resistentes à infecção pela presença de anticorpos maternos (Kessler et al., 1983). A transmissão intra-uterina dessa doença parasitária é considerada muito rara no país.

Este trabalho descreve um caso de transmissão congênita em um natimorto por Babesia bovis, ocorrido em uma propriedade rural do município de Tamarana, Estado do Paraná. Uma vaca Holandesa ´ Pardo-Suiça, de 17 anos e no terço final de gestação pariu um bezerro que morreu poucos minutos depois do nascimento, sem ter tido acesso ao colostro materno. A vaca apresentava alta infestação por carrapatos. Amostras de sangue foram colhidas no dia do parto, e aos 30 e 60 dias após. Os soros foram processados para pesquisa de anticorpos contra: herpesvírus bovino-1, vírus da diarréia viral bovina, Neospora caninum, Toxoplasma gondii, B. bovis, B. bigemina e Anaplasma marginale.

O bezerro foi submetido à técnica padrão de necropsia e fragmentos de tecido nervoso, fígado, baço, rins, timo, pulmões e coração foram colhidos e fixados em formol tamponado a 10%, blocados em parafina, cortados e corados pelo método de hematoxilina – eosina. Decalques de tecido cerebral fresco foram corados pelo método de Giemsa para pesquisa de hematozoários.

Na necropsia do natimorto verificou-se presença de líquido translúcido em moderada quantidade na cavidade torácica e na pericárdica, petéquias na mucosa oral, no timo e no epicárdio e esplenomegalia. O fígado apresentava áreas amareladas e a vesícula biliar pouco conteúdo de consistência espessa. Os rins mostravam petéquias difusas na cortical.

Na histopatologia observaram-se pulmões com congestão difusa alveolar, edema alveolar discreto e hemossiderose, timo com congestão passiva e folículos linfóides não evidentes, baço com hematopoiese e ausência de folículos linfóides. O fígado apresentava hematopoiese, hepatócitos aumentados de volume, muitos com vacúolos bem delimitados no citoplasma, e infiltrado inflamatório polimorfonuclear periportal moderado. Nos rins verificaram-se edema e degeneração vacuolar multifocal em túbulos contorcidos, congestão multifocal em região medular e infiltrado mononuclear perivascular. O cérebro apresentava hemorragia multifocal discreta na periferia dos vasos, congestão passiva acentuada e difusa (Fig. 1), endotélio reativo e degeneração neuronal. O cerebelo apresentava congestão passiva difusa.

 

 

No decalque cerebral verificou-se presença de grande número de hemácias parasitadas por B. bovis na luz vascular (Fig. 2).

 

 

Amostras de soro da vaca apresentaram títulos de 1:80 para anticorpos anti B. bovis, B. bigemina e A. marginale. Para os demais agentes investigados as amostras de soro materno mostraram–se negativas.

Após a fase aguda de infecção por B. bovis, o animal normalmente mantém parasitemia baixa e estável (Trueman & McLennan, 1987). Entretanto, a gestação é uma fase em que a imunossupressão é iminente, seja pelo estresse ou por causa do aumento dos níveis de esteróides, o que favorece a ativação de infecções latentes (Barbosa et al., 1994). Nessas situações, lesões de qualquer etiologia em vasos sangüíneos das membranas placentárias permitem o acesso do hematozoário ao feto (Trueman & McLennan, 1987; Barbosa et al., 1994). Além disso, raças européias são menos resistentes imunologicamente à infestações por carrapatos (Patarroyo et al.,1982) e são também mais suscetíveis à infecção por B. bovis, B. bigemina e A. marginale (Bock et al., 1997).

As alterações observadas na histologia estão de acordo com os relatos descritos na literatura (Kessler., et al., 1983; Trueman & McLennan, 1987). Entretanto estas observações discordam dos relatos de Callow & McGavin (1969) e de Barbosa et al. (1993) quanto à presença de degeneração neuronal em cérebros. Os achados microscópicos em tecidos e decalque cerebral indicam que houve transmissão congênita de Babesia bovis.

Palavras-chave: Bovino, Babesia bovis, transmissão congênita

 

ABSTRACT

A case of prenatal Babesia bovis infection in Brazil in a 17 year-old Holstein ´ Brown Swiss cow which aborted at approximately eight months of gestation is described and discussed. The newborn calf outlived for few minutes and then died. At necropsy, the thoracic and abdominal cavities were filled by a great volume of a transparent liquid and petechial hemorrhages in oral mucosa and epicardium were observed. Histopathologic examination stained by Haematoxylin-Eosin of lungs, spleen, liver, kidneys, brain and cerebellum revealed variable degrees of congestion and edema, particularly in the liver and brain. In the liver, inflammatory multi-nucleated cells were seen surrounding the portal area and a reasonable degeneration was noted. The brain also revealed endothelium reaction, multi-located hemorrhagic areas in blood vessels and neuronal degeneration. The diagnosis was based on necropsy and microscopic examination of brain that showed B. bovis in the capillary vessels in imprints by Giemsa.

Keywords: Cattle, Babesia bovis, prenatal infection

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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PATARROYO, J.H., VARGAS, M.I., BICUDO, P.L. Description of lesions in cattle in a natural outbreak of Babesia bovis infection in Brazil. Vet. Parasitol., v.11, p.301-308, 1982.        [ Links ]

TRUEMAN, K.F., McLENNAN, M.W. Bovine abortion due to prenatal Babesia bovis infection. Austr. Vet. J., v.64, p.63, 1987.        [ Links ]

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