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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.53 no.4 Belo Horizonte Aug. 2001

https://doi.org/10.1590/S0102-09352001000400018 

Influência de estratégias de manejo em pastagem de capim-elefante na produção de leite de vacas Holandês x Zebu

[Effect of different strategies of management of elephantgrass pasture on milk yield of crossbred Holstein x Zebu cows]

 

F. Deresz1,2, F.C.F. Lopes3, L.J.M. Aroeira1,2

1Centro Nacional de Pesquisa em Gado de Leite - CNPGL/Embrapa
R. Eugênio do Nascimento, 610, Dom Bosco
36038-330 – Juiz de Fora, MG

2
Bolsista CNPq

3
Técnico Especializado

 

Recebido para publicação em 21 de dezembro de 2000
E-mail:
deresz@cnpgl.embrapa.br

 

 

RESUMO

O objetivo do trabalho foi avaliar o efeito de diferentes estratégias de manejo em pastagem de capim-elefante sobre a produção de leite. Utilizaram-se 24 vacas Holandês x Zebu, distribuídas em quatro tratamentos, cada um com seis animais, como se segue: pastejo rotativo com descanso de 30 dias, adubação mensal e resíduo pós-pastejo de 90-100cm (30AM); pastejo rotativo com descanso de 30 dias, adubação bimensal e resíduo pós-pastejo de 90-100cm (30AB); pastejo rotativo com descanso de 45 dias e resíduo de 90-100cm (45MA) e pastejo rotativo com descanso de 45 dias e resíduo de 40-50cm (45MB). O período de ocupação dos piquetes foi de três dias. A área foi dividida em 108 piquetes, sendo 64 de 417m2 cada um para os tratamentos 45MA e 45MB (16 piquetes/repetição de área) e 44 piquetes de 606m2 cada um para os tratamentos 30AM e 30 AB (11 piquetes/repetição de área). A taxa de lotação foi de 4,5 vacas/ha. A pastagem foi adubada com 200kg de N e de K2O por ha/ano. Aplicaram-se também 40kg de P2O5 e 1.000kg de calcário dolomítico por ha/ano. A produção média de leite corrigido para 4% de gordura foi de 10,3; 10,5; 9,3; e 9,2kg/vaca/dia para os tratamentos 30AM, 30AB, 45MA e 45MB, respectivamente. Houve diferença (P<0,05) na produção de leite entre os tratamentos com 30 e 45 dias de descanso.

Palavras-chave: Bovino, produção de leite, capim-elefante, pastagem, rotação, adubação

 

ABSTRACT

The objective of this trial was to study the effect of different strategies of grazing management on milk production of cows on elephantgrass pastures. The treatments were: 30 days of grazing interval (GI) and fertilized monthly (30MF); 30 days GI and fertilized every two months (30BM); 45 days GI and a stubble height of 90-100cm (45HS); 45 days GI and a stubble height of 40-50cm (45LS). In treatments 30MF and 30BM the stubble height was 90-100cm. Each paddock was grazed for three days. Twenty four Holstein ´ Zebu cows were allocated to treatments (six/treatment). The area was divided into 108 paddocks, 64 of 417m2 each for the two 45 days GI treatments (16 paddocks/area replication). Others 44 paddocks of 606m2 each, were allocated for the two 30 days GI treatments (11paddocks/area replication). The stocking rate was 4.5 cows/ha. The pasture was fertilized with 200kg/ha/year of N and K2O, 40kg/ha of P2O5 and 1,000kg/ha of limestone. The average fat corrected (4%) milk yields were 10.3, 10.5, 9.3 and 9.2kg/cow/day for treatments 30MF, 30BM, 45HS and 45LS, respectively. There was a significant milk yield difference (P<0.05) between the 30 and 45 day-resting periods.

Keywords: Crossbred milking cows, elephantgrass, grazing interval, milk yield, rotational grazing

 

 

INTRODUÇÃO

O capim-elefante (Pennisetum purpureum, Schum) é uma gramínea perene, de alto potencial de produção, que se adapta às condições climáticas predominantes em quase todo o País. Em muitas regiões, aproximadamente 70 a 80% de sua produção concentra-se na época das chuvas. Essa estacionalidade de produção de forragem é atribuída às baixas precipitações e temperaturas que ocorrem no período de inverno.

Durante a época das chuvas, Deresz (1994) encontrou taxas diárias de acúmulo de matéria seca do capim-elefante de até 100kg/ha em condições de pastejo. Produções de leite de 15.000kg/ha/180 dias durante a época das chuvas foram relatadas por Deresz & Mozzer (1990) ao utilizarem vacas mestiças Holandês x Zebu em pastejo rotativo de capim-elefante. Produções diárias de leite de 12 a 14kg/vaca em pastagem de capim-elefante manejado em sistema rotativo e adubado com 200kg de N e de K2O/ha/ano foram observadas por Deresz et al. (1994). Esses níveis de produção de leite em pastos com forrageiras tropicais parecem estar próximos do limite máximo de produção obtido com vacas mestiças de bom potencial genético e produções por lactação ao redor de 4.500kg. Cowan et al. (1993), Alvim et al. (1996) e Vilela et al. (1996), trabalhando com vacas da raça Holandesa, obtiveram produções médias diárias bem próximas de 12 a 14kg por dia quando se retirou o efeito da suplementação com concentrado.

A tendência atual é produzir leite em pastagens visando a diminuição dos custos de produção. Na Nova Zelândia, Holmes (1995) afirmou que a produção de leite em pastagens é o sistema mais econômico de se produzir leite. Portanto, existe grande demanda por informações sobre o uso do capim-elefante e outras gramíneas tropicais manejadas em sistema de pastejo rotativo para produção de leite e carne.

O período de descanso da pastagem é um fator importante no sistema de pastejo rotativo de pastagens, pois determina o número de piquetes necessários ao seu manejo e afeta a qualidade da forragem e, conseqüentemente, a produção de leite (Deresz, 1994; Deresz et al., 1994). Em trabalho com capim-elefante anão, Veiga (1990) concluiu que a qualidade da forragem consumida era melhor nos períodos de descanso mais curtos do que nos mais longos, os quais variaram de 14 a 56 dias. Poucos são os trabalhos na literatura que comparam o efeito do período de descanso sobre a produção de leite em pastagens de capim-elefante (Deresz, 1994; Deresz et al., 1994; Deresz & Matos 1996). Esses autores compararam o efeito do período de descanso em pastagem de capim-elefante com 30, 37,5 e 45 dias ou 30, 36 e 45 dias. As informações sobre o efeito do período de descanso da pastagem de capim-elefante sobre a produção de leite de vacas mestiças Holandês x Zebu encontrados pela Embrapa Gado de Leite mostram maior produção para o tratamento com período de descanso de 30 dias em relação ao de 45 dias. Nesse sistema de manejo o resíduo pós-pastejo é em torno de 80 a 100cm. No sistema de produção de leite da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) adotam-se 45 dias de período de descanso e altura de resíduo em torno de 40 a 50cm. Os resultados obtidos nesses dois sistemas são conflitantes. Não há na literatura comparações entre dois sistemas manejados de forma semelhante como esses. Outras informações sobre o período de descanso em pastagem de capim-elefante referem-se a sistemas de produção com manejos distintos (Caro-Costas & Vicente-Chandler, 1974; Hillesheim, 1987; Valle et al., 1987).

O efeito da altura do resíduo pós-pastejo de capim-elefante na produção de forragem foi pouco estudado. Werner et al. (1966) observaram maior produção de matéria seca em capim-elefante cv. Napier quando cortado a 70-80cm do solo do que aquele a 30-40cm, com cortes a cada quatro semanas. Resultados semelhantes foram encontrados por Santana et al. (1989), quando o capim foi cortado a cada quatro semanas nas alturas de zero, 15 e 30cm do solo. Veiga (1990) também observou maior produção de matéria seca em capim-elefante anão quando a altura do resíduo era maior, independentemente do período de descanso estudado. Entretanto, nenhum desses trabalhos avaliou a resposta em termos de produção de leite.

O efeito do parcelamento da adubação em pastagem foi pouco estudado no país. Na Austrália, Humphreys (1974) recomendou que a adubação da pastagem com nitrogênio e enxofre fosse fracionada em várias aplicações durante o ano. Como esses elementos são rapidamente absorvidos pela planta, o que não foi imediatamente absorvido perde-se principalmente por lixiviação. O autor indicou fazer quatro aplicações de adubo durante o ano. Whitehead (1995) e Corsi & Nussio (1993) também recomendaram fazer várias aplicações do adubo em pastagem durante o ano, especialmente com nitrogênio e potássio. Ambos enfatizaram que a fertilização da pastagem deve ser feita durante a estação das chuvas, sendo a primeira aplicação no início da primavera e as seguintes após cada ciclo de pastejo, quando se usa o sistema rotativo, para obter a maior eficiência de absorção dos nutrientes solúveis (especialmente N e K).

Whitehead (1995) recomendou que no sistema de pastejo contínuo as aplicações fossem feitas de quatro a oito semanas, sendo a primeira aplicação no início da primavera.

A Embrapa Gado de Leite recomenda dividir a aplicação do adubo em três vezes durante a época das chuvas, mas nunca comparou essa metodologia nas nossas condições de clima e solo.

O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito do período de descanso, do parcelamento da adubação e da altura do resíduo de uma pastagem de capim-elefante manejada em sistema rotativo sobre a produção de leite e sobre a variação de peso vivo de vacas mestiças Holandês x Zebu, sem suplementação com concentrado.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido no campo experimental de Coronel Pacheco da Embrapa Gado de Leite situada na Zona da Mata de Minas Gerais, entre novembro de 1994 e maio de 1995, em uma área de pastagem de capim-elefante. A área vem sendo utilizada em pastejo rotativo desde 1988, com adubações anuais nesses mesmos meses com 200kg/ha/ano de N e de K2O, fracionados em três aplicações iguais.

A análise química de amostras de solo coletadas na época da seca do ano de 1994 revelou os seguintes resultados: pH em água = 4,8; P = 13 mg/dm3; K = 135 mg/dm3 Al = 0,47cmolc/dm3; Ca = 2,85cmolc/dm3; Mg = 0,54cmolc/dm3; CTC = 9,78cmolc/dm3 e MO = 3,15 g/kg.

Os tratamentos estudados foram: capim-elefante manejado em pastejo rotativo com descanso de 30 dias, adubação mensal e altura de resíduo pós-pastejo de 90-100cm (30AM); pastejo rotativo com descanso de 30 dias, adubação bimensal e altura de resíduo pós-pastejo de 90-100cm (30AB); pastejo rotativo com descanso de 45 dias e altura de resíduo pós-pastejo de 90-100cm (45MA); pastejo rotativo com descanso de 45 dias e altura de resíduo pós-pastejo de 40-50cm (45MB). Nos tratamentos 45MA e 45MB a adubação dos piquetes foi contínua, ou seja, em todos os ciclos de pastejo. O período de ocupação dos piquetes foi de três dias, independentemente da disponibilidade de forragem existente. A área foi dividida em 108 piquetes, 64 de 417m2 cada para os tratamentos 45MA e 45MB (16 piquetes/repetição de área e duas repetições de área/tratamento) e 44 piquetes de 606m2 cada para os tratamentos 30AM e 30 AB (11 piquetes/repetição de área e duas repetições de área/tratamento). A pastagem foi adubada com 200kg de N e de K2O por ha/ano. Aplicaram-se também 40kg de P2O5 e 1.000kg de calcário dolomítico por ha/ano. O tamanho dos piquetes variava entre os tratamentos com o objetivo de obter uma taxa de lotação de 4,5 vacas/ha.

Foram utilizadas 24 vacas Holandês x Zebu, sendo seis animais por tratamento. O delineamento experimental foi em blocos ao acaso, no qual os blocos foram formados com base na produção de leite e no peso vivo das vacas no início da lactação. A maioria das vacas pariu em outubro e novembro de 1994. Logo após o parto elas entravam nos piquetes de capim-elefante até completarem seis vacas por tratamento, quando passavam a receber individualmente 4kg de concentrado até 23/11/94. De 24/11/94 a 4/12/94 elas receberam 1kg de concentrado/vaca/dia. A suplementação com concentrado (20% de PB e 70% de NDT) terminou em 05/12/94.

Nas regiões onde não há geadas, a altura do resíduo pós-pastejo em pastagens de capim-elefante já estabelecidas permanece de um ano para o outro. Então, se não há erros de manejo da pastagem, a altura do resíduo permanece de um ano para outro sem necessidade de roçada ou poda. Entretanto, há renovação anual das plantas pelo perfilhamento basal das touceiras existentes na pastagem. O perfilhamento basal ocorre no início da época das chuvas ou no início da primavera. Os perfilhos basais novos irão formar resíduo pós-pastejo daquele ano ou daquele ciclo de crescimento e o resíduo do ano anterior morre e desaparece anualmente.

Para este trabalho a pastagem de capim-elefante já estava estabelecida e vinha sendo utilizada em piquetes em sistema rotativo durante a última estação seca do ano. Então, para iniciar o presente trabalho, houve necessidade de se estabelecer a altura do resíduo pós-pastejo nos diferentes tratamentos, iniciando-se em 19/11/94, por meio de roçada manual do resíduo, imediatamente após a saída das vacas dos piquetes. Essa altura do resíduo foi sendo estabelecida à medida que as vacas foram saindo dos piquetes pastejados, os quais tinham período de ocupação de três dias. Os resíduos foram estabelecidos em todos os tratamentos a cada três dias por meio de roçada manual. Após o ajuste para a altura do resíduo pós-pastejo iniciou-se a coleta de dados. A roçada do resíduo nos tratamentos com períodos de descanso de 45 dias terminou em 05/01/95 e nos tratamentos com 30 dias de descanso, 15 dias antes.

Devido à estiagem ocorrida em janeiro de 1995, a coleta de dados iniciou-se em 05/02/95, quando então já havia ocorrido a recuperação do capim-elefante. O experimento foi encerrado em 31/05/95, por não mais haver disponibilidade de forragem em quantidade suficiente que atendesse às necessidades dos animais.

A adubação por hectare foi de 200kg de N e de K2O, 40kg de P2O5 e 1.000kg de calcário dolomítico. O fósforo e o calcário foram aplicados de uma só vez, no início das chuvas. O nitrogênio (na forma de sulfato de amônio) e o potássio (na forma de cloreto de potássio) foram aplicados apenas na época das chuvas, iniciando a primeira aplicação em novembro. A adubação nos tratamentos 30AB e 30AM foi dividida em três e seis aplicações, respectivamente, e nos tratamentos 45MA e 45MB foi feita a cada ciclo de pastejo, de forma contínua até atingir os 200kg de N e de K2O. A distribuição do adubo em todos os tratamentos foi feita a partir de novembro de 1994.

As vacas foram ordenhadas manualmente sem a presença do bezerro, duas vezes ao dia, e pesadas semanalmente, sempre após a ordenha da manhã. A amostragem do leite para as determinações de gordura, proteína e extrato seco total foram feitas semanalmente.

As estimativas de disponibilidade de matéria seca foram feitas mensalmente um dia antes da entrada dos animais nos piquetes por meio da metodologia do pastejo simulado (Aroeira et al., 1999), observando-se a altura do resíduo dos piquetes recém-desocupados. O pastejo simulado foi feito em touceiras representativas, com disponibilidade de forragem alta e baixa, em dois pontos diferentes e em cada repetição de área dos piquetes de cada tratamento. As folhas e caules provenientes da rebrota foram retiradas para a estimativa da produção de forragem. A disponibilidade de forragem (kg/ha) foi estimada pela produção média das duas touceiras e do número de touceiras contidas em uma área de 100m2 de cada piquete. Além das amostras de forragem para a avaliação da produção de matéria seca, foram coletadas amostras para análise química.

Os dados médios de precipitação e o número médio de dias de ocorrência de chuva no período de out/1994 - maio/1995, obtidos no posto meteorológico localizado a aproximadamente 1 km de distância do local do experimento, são mostrados na Tab. 1.

 

 

Para produção de leite usou-se análise de variância, considerando-se o delineamento em blocos completamente ao acaso. Os tratamentos foram comparados por grupos de contrastes ortogonais usando-se o teste t. Foram testados três contrastes, um para comparar os tratamentos 30AM x 30AB, outro para comparar os tratamentos 45MA x 45MB e o terceiro para comparar os contrastes 30AM+30AB x 45MA+45MB.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nos tratamentos com períodos de descanso de 45 dias, tanto no de altura de resíduo de 90-100cm quanto no de 40-50cm, houve necessidade de se fazer o rebaixamento do resíduo (roçada) em todos os piquetes e em todos os ciclos de pastejo, visto que as vacas não conseguiram manter a altura do resíduo estabelecido. Isso provavelmente ocorreu devido à seletividade de pastejo dos animais, já que o capim-elefante com 45 dias e altura de resíduo de 90-100cm atingia mais de dois metros de altura e, conseqüentemente, o resíduo que sobrava era composto basicamente de caules e altura superior a 90-100cm. Esse mesmo tipo de problema se verificou no tratamento com período de descanso de 45 dias e altura de resíduo de 40-50cm, só que de maneira mais intensa do que no tratamento 45MA. Isso, na prática, resultou em aumento de custos devido à necessidade de roçada dos piquetes após cada ciclo de pastejo.

Nos tratamentos com período de descanso de 30 dias raramente houve necessidade de roçada.

Baseando-se na altura do resíduo pós-pastejo dos tratamentos com 45 dias de período de descanso pode-se constatar que o capim-elefante deve ser manejado com altura de resíduo baixo (40-50cm) ou talvez menos que isso.

Na Tab. 2 são apresentados os dados médios de disponibilidade de matéria seca coletados no pastejo simulado durante os meses de janeiro, fevereiro, março e abril de 1995. Observa-se que não houve diferença significativa (P>0,05) entre tratamentos quanto à disponibilidade média de matéria seca (kg/ha) quando se considerou todo o período experimental. Estes resultados contrariam aqueles observados por Aroeira et al. (1999), que observaram maior disponibilidade de matéria seca para o tratamento com período de descanso de 45 dias. O esperado seria que os tratamentos com 45 dias de descanso apresentassem os valores de disponibilidade de matéria seca 50% maiores, visto que existem 15 dias de diferença entre os tratamentos com descanso de 30 e 45 dias e isto eqüivale a 50% a mais em tempo para o crescimento do capim. Então, para se fazer uma comparação justa em termos de disponibilidade de matéria seca entre os tratamentos com descanso de 30 e 45 dias, dever-se-ia dividir a disponibilidade de matéria seca do capim-elefante por 30 ou 45 dias para ver quantos quilos de matéria seca por vaca por dia estariam disponíveis considerando a taxa de lotação de 4,5 vacas/hectare. Exemplo: para o tratamento 45MA têm-se 1.821kg/ha e para o tratamento 30AM, têm-se 1.652kg/ha (1.821/45 = 40,47/4,5 vacas/ha = 8,99kg/vaca/dia para o tratamento 45MA e 1.652/30 = 55,06/4,5 vacas/ha = 12,24kg/vaca/dia para o tratamento 30AM, respectivamente). É bom salientar que esses ajustes deveriam ser sempre feitos quando se trabalha com períodos de descanso diferentes, pois no período de descanso de 30 dias as vacas passam 12 vezes no mesmo piquete durante 12 meses, ao passo que no período de descanso de 45 dias nos mesmos 12 meses, as vacas passam apenas oito vezes no mesmo piquete. Aroeira et al. (1999) encontraram valores de disponibilidade de matéria seca de capim-elefante bastante semelhantes a estes nos diferentes meses do ano.

 

 

Na Tab. 3 são mostrados os dados médios de composição química da forragem amostrada durante os meses de janeiro, fevereiro, março e abril de 1995. Não houve diferença entre tratamentos quando aos teores de matéria seca, proteína bruta e fibra detergente neutro (FDN). A ausência de significância (P>0,05) entre os tratamentos deve-se provavelmente à forma de coleta das amostras de forragem, a qual observou a altura do resíduo dos piquetes pastejados, e como os animais são seletivos nos hábitos de pastejo, a parte mais fibrosa não deve ter sido selecionada, o que pode ter contribuído para os resultados obtidos. Aroeira et al. (1999) encontraram valores de composição química de capim-elefante bastante semelhantes a estes nos diferentes meses do ano.

 

 

Os dados de produção de leite sem correção para gordura e corrigidos para 4% de gordura são mostrados na Tab. 4 e Fig. 1.

 

 

 

 

As produções médias de leite corrigido para 4% de gordura foram comparadas usando-se contrastes ortogonais. Os contrastes 30AM x 30AB e 45MA x 45MB não diferiram entre si (P>0,89) e (P>0,94), respectivamente. Os resultados mostram que a produção de leite não foi afetada pela freqüência de adubação (mensal ou bimensal) dos piquetes no período de descanso de 30 dias, nem pela altura do resíduo (de 40-50cm ou 90-100cm) nos tratamentos com período de descanso de 45 dias. Os resultados de freqüência de adubação contrariam as recomendações de Corsi & Nussio (1993), isto é, fazer aplicações de nitrogênio e potássio após cada ciclo de pastejo. Essa contradição deve ser usada com cautela pois o sistema de pastejo rotativo recomendado pelos autores considera o período de descanso de 45 dias e nesse caso o descanso foi de 30 dias. Quanto à distribuição mensal ou bimensal do adubo, há vantagem prática quando a distribuição é bimensal, pois nesse caso há redução nos custos de mão-de-obra.

Não há uma explicação lógica para não ter havido diferença (P>0,05) na produção de leite entre os tratamentos com 45 dias de descanso e manejados com resíduo pós-pastejo de 40-50cm ou 90-100cm. Teoricamente, o resíduo mais alto teria vantagem pois aumentaria a velocidade de rebrota como mostram os trabalhos de Werner et al. (1966) e Santana et al. (1989). Entretanto, a seletividade de pastejo dos animais pode ter ajudado para a não observação de diferença significativa, visto que a altura do capim com resíduo pós-pastejo de 90-100cm era 40-50cm superior do que aquela do capim com 40-50cm de resíduo pós-pastejo, o que pode ter alterado para pior a composição química da dieta dos animais desse tratamento.

No contraste (30AM+30AB) x (45MA+45MB) a diferença foi significativa (P<0,05), mostrando que os tratamentos com 30 dias de descanso resultaram em maior produção de leite. A explicação mais provável para esse resultado deve-se à maior disponibilidade de matéria seca (kg/vaca/dia) nesses tratamentos (Tab. 2). Calculando-se as disponibilidades médias de matéria seca do período de duração do experimento (kg MS/vaca/dia =kg MS/ha ¸ 11 ou 16 piquetes ¸ 3 dias de ocupação do piquete ¸ 4,5 vacas/ha) observa-se que havia 11,1; 9,9; 8,4 e 7,9kg de matéria seca/vaca/dia nos tratamentos 30AM, 30AB, 45MA e 45MB, respectivamente. Isso certamente teve reflexos negativos nas produções de leite nos tratamentos com período de descanso de 45 dias.

Dados da literatura têm mostrado médias de produção de leite superiores a esta, como observado nos trabalhos de Deresz et al. (1994), Deresz & Matos (1996) e Deresz & Mozzer (1994), todos trabalhando com pastagem de capim-elefante adubado e com pastejo rotativo durante a época de chuvas. Resultados semelhantes foram relatados por Alvim et al. (1996) com vacas da raça Holandesa em pastagem de "coast-cross" adubada e manejada em sistema de pastejo rotativo. Cowan et al. (1993), nas condições da Austrália, em pastagens tropicais adubadas e utilizando vacas da raça Holandesa, também relataram produções em torno de 12 a 14kg de leite por vaca por dia, sem utilização de suplementação de concentrado.

Na Tab. 4 são apresentados os dados de composição do leite em termos de porcentagem de gordura, de proteína e de extrato seco total. Não houve diferença (P>0,05) entre tratamento quantos aos componentes avaliados. Os dados de composição de gordura, proteína e extrato seco do leite deste trabalho são bem próximos aos encontrados por Deresz & Matos (1996) ao trabalharem com pastagem de capim-elefante adubado e manejado em sistema rotativo sem suplementação de concentrado.

Na Fig. 2 são apresentados os dados de peso das vacas durante o período experimental. Não houve diferença (P>0,05) entre os tratamentos quanto ao peso ao final do experimento (Tab. 5). Entretanto, observou-se grande variação no peso durante o período experimental, como mostram os dados da Fig. 2. A não observação de diferença (P>0,05) no ganho médio diário entre tratamentos foi devido ao alto coeficiente de variação observado (334%). Contudo, em média, as vacas ganharam peso durante o período experimental, com exceção das vacas do tratamento 30AB, nas quais houve pequena perda de peso (Tab. 5). Os resultados de ganho médio diário dos animais deste trabalho são semelhantes aos observados por Deresz & Matos (1996), os quais trabalharam com vacas em lactação em pastagem de capim-elefante.

 

 

 

 

CONCLUSÕES

Vacas mestiças Holandês ´ Zebu mantidas em pastagens de capim-elefante em pastejo rotativo com 30 dias de descanso e adubadas mensalmente ou bimensalmente produzem mais leite que aquelas em pastejo rotativo com 45 dias de descanso com resíduo pós-pastejo de 40-50cm ou 90-100cm. É possível obter produção média de leite próxima ou ligeiramente superior a 10kg/vaca/dia no terço inicial e médio da lactação em vacas em pastagem de capim-elefante em pastejo rotativo, com 30 dias de descanso e com uma taxa de lotação de 4,5 vacas por hectare, sem suplementação com concentrado durante a época das chuvas. A composição química das pastagens de capim-elefante manejadas em pastejo rotativo com períodos de descanso de 30 ou 45 dias não é afetada quando se utiliza a metodologia de pastejo simulado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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