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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.2001 no.5 Belo Horizonte Oct. 2001

https://doi.org/10.1590/S0102-09352001000500019 

Suplementação com cromo e desempenho reprodutivo de vacas zebu primíparas mantidas a pasto

[Supplemental high chromium yeast and reproductive performance of grazing primiparous zebu cows]

 

V.E.F. Aragón1, D.S. Graça1, A.L Norte2, G.S. Santiago2, O.J. Paula2

1Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária UFMG
Caixa Postal 567
30123-970 - Belo Horizonte, MG
2Médico Veterinário

 

Recebido para publicação em 10 de agosto de 2000.
E-mail:
eduardoaargon@yahoo.com

 

 

RESUMO

Foram utilizadas 126 vacas zebu primíparas, mantidas a pasto durante a estação de monta, divididas em dois grupos, suplementado (72 animais) e controle (54 animais), com o objetivo de estudar a influência da suplementação com cromo (Cr) sobre algumas características reprodutivas. Utilizou-se como fonte de cromo a levedura Sacharomices cerevisae adicionada à mistura mineral (0,017% Cr). Não houve diferença significativa nos pesos das crias ao nascer e ao final do experimento. O peso final das vacas foi maior no grupo suplementado (428,5kg vs. 380,5kg). A porcentagem de animais em estro foi maior no grupo suplementado (98,6% vs. 88,7%) e a porcentagem total de prenhez apresentou apenas tendência em ser maior no grupo suplementado (87,5% vs. 75,47%). O intervalo parto-primeiro cio foi menor nos animais que receberam Cr (120,5 dias vs. 142,8 dias). O número de doses de sêmen por vaca inseminada (1,57) e por vaca gestante (1,85) no grupo controle foi semelhante ao de vacas inseminadas (1,69) e gestantes (1,90) no grupo suplementado.

Palavras-chave: Bovino, cromo, eficiência reprodutiva

 

ABSTRACT

One hundred and twenty six grazing primiparous Zebu cows were assigned to one of two treatments, supplemental chromium (Cr) (72 cows) and control (54 cows), in order to evaluate the effects of Cr supplementation on reproductive performance of cows. Chromium was supplemented as high-Cr yeast Sacharomices cerevisae added to mineral premix (0.017% Cr). Chromium had no effect on calf weight, whereas final weight of cows was higher for the supplemented group (428.5kg vs. 380.5kg).The percentage of detected estrus was higher for Cr supplemented group than for control group (98.6 vs. 88.7%) A tendency for higher pregnancy rate was showed by the Cr supplemented group (87.5% vs. 75.47%). The calving - first estrus interval of the Cr supplemented cows was lower than control cows (120.5 vs. 142.8 days). Supplementation of chromium had neither effect on service rate (1.57 vs. 1.69 doses of semen) nor on pregnancy (1.85 vs. 1.90 doses of semen).

Keywords: Calf, chromium, reproductive performance

 

 

INTRODUÇÃO

O Cr é um elemento de transição encontrado nos estados de oxidação 0, 2+, 3+ e 6+, sendo o estado trivalente o mais estável (McDowell, 1992). A absorção intestinal dos sais inorgânicos é pobre. Em ratos em jejum varia entre 0,5 e 3 % (Mertz, 1974) e, por esse motivo, tem sido utilizado como marcador nas pesquisas que avaliam a digestibilidade no trato gastrintestinal. A essencialidade do Cr tem sido demostrada em numerosas espécies como camundongos (Schroeder et al., 1963a), ratos (Schroeder et al., 1963b), suínos (Lindemann et al., 1995), coelhos (Sahin et al., 1998), aves (Ward et al., 1993), carneiros (Kitchalong et al., 1995) e bovinos (Chang & Mowat, 1992; Subiyatno et al., 1996). Schwarz & Mertz (1959) indicaram que a forma biologicamente ativa do Cr seria o fator de tolerância à glicose (GTF). A estrutura química do GTF ainda não foi definida, mas parece estar constituída por um átomo de Cr3+, várias moléculas de niacina e, provavelmente, os aminoácidos glicina, cisteína e ácido glutâmico. Sem Cr3+ como núcleo o GTF é inativo. Evidências recentes sugerem que poderá existir outra forma ativa in vivo que seria um polipeptídio conhecido como substância de baixo peso molecular ligada ao Cr (LMWCr) (Davis & Vincent, 1997).

O íon de Cr3+ facilita a interação entre a insulina e seus receptores nos tecidos alvos (Mertz, 1974), dessa forma, potencializa a atividade da insulina. A deficiência de Cr resulta do estresse físico e metabólico que causam incremento no metabolismo da glicose e aceleram a mobilização de Cr, e aumento da excreção urinária, produzindo queda nas reservas corporais de Cr (Anderson, 1987). Yousef & Johnson (1985) argumentaram que durante o estresse incrementa-se o metabolismo da glicose e, simultaneamente, há aumento da secreção do cortisol, que atua antagonicamente à insulina e como depressor da função imune.

Em sistemas de produção de bovinos de corte os animais estão submetidos a estresse durante a desmama, transporte e aclimatação. Em vacas leiteiras os episódios de estresse metabólico e físico são causados pela prenhez, parto e lactação, quando a demanda de produção de leite excede o consumo de alimento, resultando em perda de peso. Esses períodos de estresse estão associados com alterações da saúde, principalmente com a doença respiratória bovina (BDR) ou a febre de embarque em bovinos de corte (Irwin et al., 1979), com alta incidência de febre de leite, cetose, mastite e distúrbios relacionadas com diminuição na resposta imune (Kehrli et al., 1989) em vacas leiteiras. Em regiões tropicais a influência do clima, em determinadas épocas do ano, exerce diferentes graus de estresse.

Este trabalho teve como objetivo estudar a influência da suplementação com Cr sobre características reprodutivas em vacas zebus mantidas a pasto, numa situação de estresse produzida por uma estiagem prolongada associada à temperaturas elevadas, em plena estação de monta.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado na Fazenda Itatiaia, localizada no Município de Caravelas, Estado da Bahia, durante a estação de monta nos meses de dezembro de 1998, janeiro e fevereiro de 1999. Foram utilizadas 126 vacas Zebu no pós-parto, mães de bezerros cruzados Red Angus, com médias de idade de 30 meses e pesos de 380kg no grupo suplementado e 385kg no grupo controle. As vacas foram mantidas em piquetes de Brachiaria brizantha com bezerros "ao pé".

Quando da parição, as vacas foram distribuídas em grupo-controle com 54 vacas, mães de 27 crias fêmeas e 27 machos e grupo suplementado, com 72 vacas, mães de 36 crias machos e 36 fêmeas. A fonte de Cr foi na forma de levedura Sacharomices cerevisae (BIO-CHROMEâ, Alltech Biotechnology Center) (1g Cr/kg). O Cr foi adicionado à mistura protéica (Tab. 1) que foi analisada segundo Cunniff (1995). Os animais receberam a mistura nos cochos localizados nos piquetes.

 

 

Vacas e bezerros foram pesados no início e no final do período experimental (Tab. 2).

 

 

As zonas de conforto fisiológico (Tab. 3) foram determinadas segundo o esquema do índice de temperatura e umidade (THI) sugerido por Wiersma (1990), citado por Armstrong (1994).

 

 

As características reprodutivas avaliadas foram: porcentagem de animais em estro e anestro, porcentagem de prenhez por período experimental e total, intervalo parto primeiro cio (dias), doses de sêmen usadas por animal inseminado e doses de sêmen usadas por animal gestante. O diagnóstico de gestação foi feito por palpação retal após 35 dias da inseminação.

Os dois tratamentos foram definidos como inteiramente ao acaso e as três colheitas como parcelas. Foram comparados pelo teste t de Student os resultados de: cortisol, peso das vacas, intervalo parto-primeiro cio e número de doses de sêmen utilizado por animal inseminado e por animal gestante, e pelo teste de qui-quadrado, o número de animais em estro e anestro de animais gestantes e vazios.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O consumo diário de mistura mineral por animal foi de 72,92g para o grupo suplementado, que corresponde a 12,40mg de Cr/vaca/dia, e de 77,84g para o grupo não suplementado, equivalente a 0,78mg de Cr/vaca/dia. Os valores encontrados para cortisol são apontados na Tab. 4.

 

 

Durante todo o experimento a concentração de cortisol no grupo suplementado com Cr foi significativamente (P< 0,05) menor de que no grupo testemunha (Tab. 4). Os glicocorticoides inibem a resposta imune (Munk et al. 1984; Khansari et al. 1990) e sua concentração sangüínea aumenta durante situações estressantes (Anderson, 1987), por isso, tem sido sugerido que o Cr age como um elemento anti-estresse. Como todos os animais estavam submetidos a estresse calórico, que variou de moderado a severo (Tab. 3), a suplementação com cromo, ao reduzir a concentração de cortisol, efetivamente tornou os animais tratados mais capazes de produzir em situação adversa, o que foi confirmado pelo seu melhor ganho de peso (Tab. 2) e também pelo seu desempenho reprodutivo (Tab. 5). As concentrações de cortisol encontradas coincidem com as obtidas por Kegley & Spear (1995), Chang & Mowat (1992), Moonsie-Shageer & Mowat (1993) e Mowat et al. (1993) que também observaram redução significativa na concentração de cortisol com a suplementação com Cr em animais submetidos a diferentes fatores estressantes.

 

 

As características reprodutivas estudadas são mostradas na Tab. 5.

Este estudo revelou que o grupo suplementado apresentou valores mais altos de vacas em estro (P<0,05). Estes resultados sugerem vantagem da suplementação com Cr, já que o maior percentual de vacas em estro aumenta as chances de inseminar maior número de vacas. Não houve diferença significativa (P>0,05) entre os dois grupos quanto ao número de animais gestantes na primeira, segunda e terceira inseminações. A taxa de gestação à primeira inseminação aparentemente foi maior no grupo controle, efeito não significativo, mas na segunda e terceira inseminações o efeito foi inverso (também não significativo). As taxas de gestação após três inseminações foram próximas considerando-se o número de vacas em cio. Observou-se ligeira tendência de ocorrer maior porcentagem de vacas gestantes em relação ao número total de vacas no grupo suplementado. A propósito, Subiyatno et al. (1996) e Yang et al. (1996) demostraram que a suplementação com Cr incrementou a produção de leite sem comprometer a eficiência reprodutiva. Yang et al. (1996) também observaram a mesma tendência em aumentar o número de vacas gestantes que receberam Cr. Isso revela que o melhor resultado econômico advém da maior porcentagem de vacas em cio, quando da suplementação com Cr. Embora os resultados da primeira inseminação sejam economicamente indesejáveis para o grupo que recebeu Cr, por causa do maior número de doses gastas, a fertilidade total foi melhor com a suplementação com Cr.

O intervalo parto-primeiro cio (Tab. 5) foi significativamente menor (P<0,01) nos animais suplementados com Cr, coincidindo com os resultados de Yang et al. (1996) que mostraram tendência em reduzir o número de dias até o primeiro estro (63 versus 74 dias) e primeira inseminação (71 versus 90 dias) nos animais suplementados com Cr. Segundo os autores, isso poderia ser devido à condição corporal das vacas que receberam Cr suplementar. A diferença no número de doses de sêmen usadas por vaca inseminada (1,57 versus 1,69 doses) e no número de doses por vaca gestante (1,85 versus 1,90 doses) foi mantida, isto é, sempre um pouco menor no grupo controle, diferindo dos resultados de Yang et al. (1996), os quais encontraram no primeiro experimento 2,5 e 2,0 serviços por concepção para os grupos controle e suplementado, respectivamente, e no segundo experimento valores de 1,8 e 1,5, na mesma ordem de citação.

 

CONCLUSÕES

A suplementação com cromo melhorou o desempenho reprodutivo ao aumentar o número de vacas em cio e conseqüentemente diminuir as em anestro, e ao diminuir o intervalo parto-estro, porém não teve efeito sobre as taxas de concepção de vacas que apresentaram cio após a primeira, segunda e terceira inseminações e no total (taxa final). A decisão em usar o cromo suplementar vai depender do aspecto custo/benefício.

 

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