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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.54 no.1 Belo Horizonte Feb. 2002

https://doi.org/10.1590/S0102-09352002000100003 

Estudo ultra-sonográfico da involução uterina pós-parto em cadelas

[Ultrasonography study of the post-partum uterine involution in bitches]

 

S.T.S. Ferri1*, W.R.R. Vicente2

1Doutoranda, Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária da UNESP
2Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária da UNESP

 

Recebido para publicação em 11 de janeiro de 2001.
Recebido para publicação, após modificações, em novembro de 2001.
*Endereço para correspondência:
R. Barão José Miguel, 330 – Farol
57055-160  -  Maceió,  AL

 

 

RESUMO

Utilizando-se 15 cadelas no pós-parto, são descritas as características da involução uterina e determinado o diâmetro do útero, por meio de exames seriados de ultra-som em modo B (tempo real), no período de zero a 28 dias pós-parto. O diâmetro uterino declina progressivamente, sem influência da ordem de parto ou tamanho da ninhada. As características ultra-sonográficas do útero são melhor visualizadas na primeira semana pós-parto e a qualidade da imagem diminui com o progresso da involução. Pela técnica usada são visualizadas apenas três camadas constituintes da parede uterina.

Palavras-chave: Cadela, ultra-sonografia, involução uterina

 

ABSTRACT

The ultrasonographic characteristics and the involution of the uterus were described in 15 pregnant bitches by serial B-mode (real time) technique at period of 0 to 28 days postpartum. The uterine diameter decreased progressively, without influence of parity or litter size. The ultrasonographic image of the uterus is better view in the first week and the image quality is poor at subsequent weeks. The uterus was composed of only three ecographic layers.

Keywords: Bitch, ultrasonography, uterine involution

 

 

INTRODUÇÃO

A avaliação ultra-sonográfica dos órgãos reprodutivos em animais de companhia tem-se popularizado, principalmente no diagnóstico da gestação. Contudo, são raros os relatos sobre as características do útero no pós-parto (Root & Spaulding, 1994).

A obstetrícia humana já demonstrou a grande importância de se conhecer as mudanças ultra-sonográficas fisiológicas no pós-parto, principalmente as de dimensão do útero, para diferenciá-las das alterações patológicas do puerpério (Rocha et al., 1988; Oxorn, 1989; Cunninghan et al., 1993). É certo que na cadela a observação ultra-sonográfica do útero não gravídico é mais difícil, principalmente nas primípiras. Não é possível observar mais do que o corpo uterino e, às vezes, a bifurcação dos cornos. Os cornos uterinos podem estar mascarados ou serem confundidos com alças intestinais (Mahaffey et al., 1995; Yeager & Concannon, 1995; Loriot et al., 1997).

Entretanto, durante o puerpério a observação é facilitada pelo aumento de volume e a boa diferenciação do útero, propiciando avaliar sua arquitetura, ecogenicidade, características e diâmetro (Yearger & Concannon, 1990; Root & Spaulding, 1994; Mahaffey et al., 1995).

A involução uterina completa-se em aproximadamente 12 semanas, embora o término dos eventos regenerativos teciduais seja às nove semanas (Sokolowski et al., 1973; Al-Bassam et al., 1981). Durante os dois primeiros dias do pós-parto, há rápida diminuição do diâmetro dos cornos uterinos que se prolonga até a 15a semana, quando então estarão uniformemente hipoecóicos, tubulares e com diâmetro reduzido (Yearger & Concannon, 1990; Mahaffey et al., 1995).

Além das mudanças de tamanho e forma, o conteúdo uterino também se modifica. Entre um e quatro dias pós-parto, o conteúdo tem ecogenicidade mista, ou seja, apresenta tanto componentes ecogênicos como anecóicos Assim, o aspecto ultra-sonográfico do útero vai variar conforme o material contido e a quantidade de líquido presente no lume (Rocha et al., 1988; Root & Spaulding, 1994). Também o diâmetro uterino se modifica ao longo do puerpério e é diferente nos sítios de implantação placentária e nas regiões interplacentárias (Pharr & Post, 1992; Root & Spaulding, 1994).

Yearger & Concannon (1990) e Pharr & Post (1992) afirmam que, conhecendo-se as características ultra-sonográficas da involução uterina fisiológica, em um único exame ou em exames seriados, pode-se identificar e diagnosticar precocemente processos patológicos do puerpério, pela simples mensuração do diâmetro uterino nos sítios placentários e interplacentários.

O objetivo deste trabalho foi caracterizar pela ultra-sonografia a involução uterina no puerpério fisiológico da cadela e estabelecer as medidas do diâmetro uterino em dias pré determinados do pós-parto.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizadas 15 cadelas gestantes, sem raça definida, com idade entre dois e sete anos e peso variando de 5 a 20 kg, oriundas do Canil do Biotério Central da UNESP-Campus de Botucatu e alimentadas com ração comercial (A3 Royal Canin do Brasil Ind. Com. Ltda.). As fêmeas foram pré-selecionadas por exame clínico geral e apenas as consideradas sadias foram incluídas no experimento. Todas foram submetidas ao exame ultra-sonográfico nos dias 0 (parto), 3, 7, 14, 21 e 28 do pós-parto.

Para o exame ultra-sonográfico utilizou-se aparelho (Scanner 200Ò - Pie-Medical – Holland) com transdutores de 7,5 MHz setorial e linear acoplado a impressora (Video Printer P&B - MitsubishÒ) para registro de imagens. Todos os exames foram executados no Departamento de Reprodução Animal e Radiologia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP, Campus de Botucatu.

O exame foi efetuado com o animal em decúbito lateral direito, após prévia depilação da região do flanco esquerdo, e utilizando gel apropriado para ultra-sonografia (Yeager & Concannon, 1995; Loriot et al., 1997). A mensuração do diâmetro uterino foi feita por várias medições (cinco ou mais) em cada corno uterino, na sua porção mais próxima à bifurcação, e registradas nas imagens impressas. Posteriormente, foi obtida a média para cada dia e para cada animal. As condições uterinas, tais como uniformidade e presença e característica do conteúdo do lume foram também avaliadas.

Os dados foram analisados pela estatística descritiva com determinação de medidas de tendência central (média, mediana) e de variabilidade (desvio-padrão e coeficiente de variação).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A observação ultra-sonográfica do útero foi melhor até o 14º dia pós-parto, provavelmente por sua hipertrofia natural. Após esse período, tem-se dificuldade em identificar e delimitar o órgão, em virtude de seu diâmetro reduzido e semelhança com alças intestinais. Também por causa disso, a visualização dos sítios placentários não foi possível em todas as cadelas, dificuldade também relatada por Yeager & Concannon (1990) e Mahaffey et al. (1995). Já Pharr & Post (1992) citam que debris celulares presentes no lume uterino tornam indistinguíveis, ultra-sonograficamente, os sítios placentários e interplacentários.

Como já mencionado pela literatura (Peter & Jakovljevic, 1992; Mahaffey et al., 1995; Loriot et al., 1997), ficou demonstrada a facilidade de observação do útero na região da bifurcação dos cornos uterinos e nas proximidades da bexiga, o que possibilitou a observação até o último período proposto neste estudo.

Pharr & Post (1992) relatam que são pequenas as probabilidades de se observar o útero de cadelas, pela ultra-sonografia, após o 24º dia do pós-parto. No presente estudo aos 21 dias foi difícil de se obter a imagem do útero. Essa dificuldade pode advir da disparidade da técnica empregada ou do aparelho usado uma vez que a definição ultra-sonográfica e a qualidade da imagem variam conforme o aparelho e a técnica. Yearger & Concannon (1990) utilizaram um standoff no transdutor de 7,5 MHz setorial, o que facilitou a visualização das estruturas mais próximas da parede abdominal e sem redução da qualidade da imagem. Pharr & Post (1992) utilizaram equipamento com as mesmas características, mas sem o recurso de standoff, obtendo também imagens de qualidade. Mahaffey et al. (1995) citam a utilização do standoff como opcional, já que ele se presta para visualizar apenas as estruturas mais superficiais. Assim, sua utilização dependerá do tamanho e estado físico do animal. No presente estudo, optou-se pela não utilização do standoff dada a variação de peso e estado físico das cadelas. Entretanto, não houve comprometimento da avaliação uterina e nem da qualidade das imagens obtidas, sendo possível completar o período de observação previsto, apesar da dificuldade de identificar o útero após os 21 dias pós-parto.

A média do diâmetro uterino diminuiu progressivamente até o último dia de avaliação, quando aparentemente atingiu a estabilidade (Tab.1). A taxa de redução foi mais acentuada na primeira semana, tornando-se mais lenta nos períodos subseqüentes (Fig.2). Os valores obtidos não diferiram dos encontrados na literatura consultada (Al-Bassam et al., 1981; Yeager & Concannon, 1990; Pharr & Post, 1992). O diâmetro uterino foi bastante uniforme, a despeito da variação de peso entre as cadelas (5 a 20 kg), fato também observado por Pharr & Post (1992) e Root & Spaulding (1994). Outros fatores, como idade, ordem de parto e tamanho da ninhada, também não influenciaram o diâmetro uterino e, por conseguinte, a involução fisiológica do órgão, tal como observado por Galli et al. (1993), Lavery & Shaw (1993) e Yearger & Concannon (1990).

 

 

 

 

Yeager & Concannon (1990) identificaram na parede uterina, até quatro semanas após o parto, seis camadas (uma externa hiperecóica, três intermediárias anecóicas e duas internas de ecogenicidade mista). No presente estudo apenas três estavam bem definidas (anecóica, hiperecóica e de ecogenicidade mista), mesmo na primeira semana, época em que a visualização uterina é mais detalhada (Al-Bassam et al., 1981). A camada anecóica correspondia ao miométrio, a hiperecóica, à serosa e a de ecogenicidade mista, a uma estrutura formada pelo endométrio e o lume, que pode conter ou não material anecóico (Fig.1A e 1B).

No dia zero (pós-parto imediato), o útero mostrava-se aumentado de volume e com forma irregular. A presença de conteúdo anecóico ou hipoecóico no lume não foi uma constante e, quando observado, o era apenas até o 3º dia. Neste período, o útero apresentava-se mais delimitado, tendendo a ter forma cilíndrica, sendo possível visualizar a bifurcação, as três camadas da parede (Fig. 1C) e o corpo uterino (Fig. 1D).

No 7º dia, o útero já era tipicamente cilíndrico, bem delimitado e, em algumas cadelas, com as camadas ainda bem delimitadas e visíveis (Fig. 1E). Aos 14 dias, o útero mantém-se cilíndrico, com a camada anecóica (miométrio) definida apenas em algumas cadelas e as demais estruturas não distinguíveis (Fig. 1F). Aos 21 e 28 dias pós-parto (Fig. 1G), as imagens ultra-sonográficas mostram útero cilíndrico e bem definido, mas com camadas pouco perceptíveis e correspondentes a tênues linhas pouco definidas. Isso é devido à drástica redução no diâmetro do útero, o que diminui a resolução da imagem. Todos esses achados se contrapõe aos de Yeager & Concannon (1990) que afirmam ser possível boa visualização uterina até quatro semanas após o parto.

 

CONCLUSÃO

O diâmetro uterino é medida precisa para diagnosticar, por ultra-sonografia, a involução uterina no puerpério fisiológico da cadela. A visualização ultra-sonográfica detalhada do útero da cadela no pós-parto é possível até as duas primeiras semanas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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