SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.55 número4Modificações eletrocardiográficas induzidas pelo exercício físico no cavalo saltadorEmprego do propofol, isofluorano e morfina para a anestesia geral de longa duração em bezerros índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.55 n.4 Belo Horizonte ago. 2003

https://doi.org/10.1590/S0102-09352003000400004 

Achados gastroscópicos em eqüinos adultos assintomáticos

 

Gastroscopic findings in horses without clinical signs

 

 

W.R. FernandesI; C.B. BelliII, *; L.C.L.C. SilvaIII

IDepartamento de Clínica Médica, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - USP
IIPós-graduação em Clínica Veterinária, FMVZ-USP
IIIDepartamento de Cirurgia, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - USP

 

 


RESUMO

Avaliaram-se pela gastroscopia 21 eqüinos adultos sem manifestações clínicas. A prevalência de úlceras gástricas foi alta, 47,6%, principalmente ao longo do margo plicatus, embora de baixa gravidade. Gastrite leve ou moderada da mucosa glandular constituiu um achado comum em eqüinos adultos assintomáticos submetidos a jejum para exame gastroscópico. A ocorrência de Habronema sp. foi alta, 28,6%, o que resultou em gastrite catarral crônica.

Palavras-chave: úlcera gástrica, eqüino, gastroscopia


ABSTRACT

Twenty one adult horses without clinical signs were used for gastroscopic study. High prevalence (47.6%) of gastric ulceration was observed, especially adjacent to the margo plicatus, although with low severity. Mild or moderate gastritis of the glandular mucosa was an usual finding in these horses submited to fasting for gastroscopic examination. The occurrence of Habronema sp. was high (28.6%), and caused chronic catarrhal gastritis.

Keywords: gastric ulcers, equine, gastroscopy


 

 

INTRODUÇÃO

Conceitualmente, úlceras gastrintestinais são definidas como alterações da mucosa que destroem elementos celulares, resultando em falhas (soluções de continuidade) que podem se estender até a lâmina própria (Andrews et al., 1999).

As úlceras assintomáticas estão presentes em cerca de metade da população eqüina, tanto em potros como em adultos. Essa porcentagem pode chegar até 93% na raça Puro Sangue Inglês em treinamento de corrida (Murray et al., 1996; Murray, 1997). As úlceras gástricas em eqüinos aparecem com maior freqüência na mucosa aglandular ao longo do margo plicatus (Hammond et al., 1986; Murray, 1994; MacAllister et al., 1997). A gastroscopia é a única maneira eficiente de diagnosticar sua presença, localização e gravidade (Murray, 1994; Andrews et al., 1999).

Em eqüinos da raça Puro Sangue Inglês submetidos à necrópsia, Hammond et al. (1986) encontraram prevalência de 80% de úlceras nos animais em treinamento e de 52% nos não em treinamento para competições. Sandin et al. (2000), em levantamento necroscópico de eqüinos com idade superior a um ano, verificaram prevalência de 17% de úlceras e erosões. McClure et al. (1999) fizeram a endoscopia de 50 eqüinos de apresentação e encontraram prevalência de 58% de úlceras gástricas.

No primeiro estudo de prevalência feito no Brasil, 60 potros da raça Quarto-de-Milha, assintomáticos, de 1 a 120 dias de idade, foram submetidos à gastroscopia. A prevalência foi de 43,3%, principalmente na região aglandular, próxima ao margo plicatus, sem diferença significativa entre as faixas etárias (Dearo, 1995).

No Brasil foram avaliados os achados necroscópicos de 250 eqüinos, observando-se prevalência de aproximadamente 59% de úlceras gástricas em animais alojados em jóqueis-clubes e de 20% em animais de outras procedências, com localização mais freqüente na mucosa aglandular (Klemm, 2000).

A úlcera gástrica é uma enfermidade prevalente e importante na clínica de eqüinos. No entanto, faltam informações a seu respeito no Brasil, sendo necessários estudos gastroscópicos em eqüinos adultos. O objetivo deste estudo foi verificar a ocorrência e a gravidade das úlceras gástricas em eqüinos adultos assintomáticos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram avaliados 21 eqüinos, machos e fêmeas, com idade igual ou superior a três anos, pesando entre 262 e 600kg, selecionados entre os animais atendidos no Hospital Veterinário da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Todos foram submetidos a exames clínicos e de laboratório de rotina e ao exame gastroscópico. Os animais selecionados eram clinicamente sadios, sem histórico de alterações do trato digestivo e de uso oral ou parenteral de antiinflamatórios nos 90 dias precedentes ao exame.

Idade (de 3 a 20 anos), número de refeições diárias (2 a 4) e sistema de manejo (criação em campo ou em regime de estabulação) foram relacionadas para verificar a associação entre prevalência e intensidade das ulcerações gástricas.

Os eqüinos foram submetidos a jejum antes da gastroscopia pelo tempo mínimo de 12 horas para jejum alimentar (com variação de 12 a 24 horas) e de seis horas para jejum hídrico. Todos foram sedados com aplicação intravenosa (IV) de romifidina (Sedivetâ - Boehringer Ingelheim), 0,04 a 0,08 mg/kg, segundo a índole do animal.

Para o exame endoscópico foi utilizado um vídeo-gastroscópio (Karl Storz GMBH & CO), com 300 centímetros de comprimento e 0,14 centímetros de diâmetro, acoplado a uma fonte de luz de xenon, de 175 W (Karl Storz GMBH & CO). Antes de sua introdução, a extremidade distal foi lubrificada com lidocaína em gel. Ao alcançar a cavidade gástrica, insuflou-se ar até se obter a melhor visualização possível sem causar desconforto ao animal. Observou-se toda a mucosa aglandular, o margo plicatus e a porção visível da mucosa glandular a procura de possíveis úlceras e outras alterações gástricas de interesse clínico.

As úlceras foram classificadas segundo o método proposto por MacAllister et al. (1997). Assim, para cada porção do estômago, elas receberam duas pontuações, uma para a quantidade e outra para a gravidade, resultando em quatro pontuações para o estômago de cada animal. Registrou-se também a identificação visual aproximada da porcentagem afetada de cada área do estômago (< 5%; 5 a 10 %; 10 a 45%; 50 a 75%; 80 a 100%).

Os resultados foram analisados por comparação de médias, com P<0,05. Apenas para a comparação entre tempo de jejum e porcentagem da área gástrica observada foi usado teste de correlação. Os resultados foram analisados utilizando-se o programa de computador GrafPad InStat™ (GraphPad Software, versão 3.01, 1998).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A técnica da gastroscopia seguiu as recomendações da literatura (Murray, 1989; Rose, Hodgson, 1995; Vatistas et al., 1997) e mostrou-se bastante simples e fácil de ser realizada.

A porcentagem da mucosa glandular que pôde ser observada variou de 30 a 80%, com média de 46,6±16,5 %. Essa visualização parcial se deve em grande parte à presença de conteúdo gástrico sobre a região glandular (Fig. 1). A permanência de certa quantidade de conteúdo após jejum é considerada normal em eqüinos (Murray et al., 1996).

 

 

O tempo médio de jejum foi de 19,8±3,5 horas. Embora o número de animais seja pequeno, não se observou relação linear entre o tempo de jejum e a porcentagem da porção glandular observada (P=0,96), ou seja, o aumento do tempo de jejum não necessariamente implicou em maior visualização da mucosa glandular. Isso pode indicar variação individual em relação ao esvaziamento gástrico, não sendo possível prever qual a área passível de visualização em função do tempo de jejum utilizado.

Dos 21 animais examinados, seis eram criados em campo e 15 em regime de estabulação. Dez (47,6%) apresentaram ulcerações, sendo dois criados em campo (33,3%) e oito estabulados (53,3%). Estas ocorrências correspondem às citadas na literatura em animais assintomáticos (Murray, 1994) e à prevalência, em torno de 50%, em animais não submetidos a treinamento de corrida (Murray et al., 1989; Murray, 1997). O valor foi menor do que o encontrado por Hammond et al. (1986) em necrópsias, os quais trabalharam exclusivamente com eqüinos Puro Sangue Inglês de corrida. Sabe-se que animais em treinamento intenso têm maior risco de desenvolverem úlceras gástricas (Murray, 1994).

O número de animais com ulceração entre os criados em regime de estabulação foi maior do que entre os criados em campo. Embora o número de animais examinados seja pequeno (o que não permitiu a realização de análise estatística), é possível que os resultados indiquem que a estabulação contribua para o desenvolvimento de úlcera gástrica, como sugerem Murray e Eichorn (1996) e Murray et al. (1999).

A média de idade dos animais sem úlcera gástrica, 9,4±4,3 anos, foi semelhante à dos animais com úlcera, 9,0±3,9 anos (P= 0,80), o que sugere não haver correlação entre idade e presença de úlceras. Estes resultados são semelhantes aos obtidos por Hammond et al. (1986).

Quanto ao número de refeições, não houve diferença (P=0,83) entre os animais sem úlcera gástrica (3,1±0,9) e com úlcera (3,2±1,0). A literatura consultada é omissa quanto a esse aspecto. Os experimentos de Murray e Eichorn (1996) e Murray et al. (1996) compararam apenas jejum ou quantidades restritas de alimento e acesso irrestrito ao feno ou pasto, e não número variado de refeições.

Foi observada incidência de 28,6% de Habronema muscae. A área de melhor visualização e com maior quantidade de parasitas foi a da região do margo plicatus. A presença de muco em excesso foi identificada em 50,0% dos animais parasitados e dois deles (33,3%) apresentaram gastrite leve e moderada. Quantidade de muco elevada ou gastrite da mucosa glandular associada à presença de Habronema sp. foi descrita por Urquhart et al. (1990).

Foi observada gastrite leve ou moderada em 38,0% dos animais apenas na mucosa glandular, sugerindo ser um achado comum em eqüinos normais. Segundo MacAllister et al. (1997), o significado da inflamação da mucosa em eqüinos ainda é desconhecido. É possível que a presença de gastrite nesses animais esteja relacionada ao jejum, já que este aumenta a acidez gástrica, podendo levar até mesmo ao sangramento caso seja mantido por mais de 18 horas (Murray et al., 1996).

Em 100% dos estômagos com úlceras aglandulares, elas estavam localizadas ao longo do margo plicatus, semelhante ao mencionado na literatura (Hammond et al., 1986; Murray et al., 1989; Murray, 1994; Rose, Hodgson, 1995; MacAllister et al., 1997). Além dessa localização, as úlceras aglandulares também foram encontradas na curvatura maior (40%) e na curvatura menor (30%). Não houve visualização de úlceras na mucosa glandular.

A diferenciação entre úlceras agudas (sem bordas elevadas; fundo avermelhado) e crônicas foi realizada com facilidade (Fig. 2). Todas as úlceras eram superficiais e, em geral, de pouca gravidade. Tal situação tende a não causar manifestações clínicas em eqüinos adultos.

 

 

A extensão das úlceras foi menor que 5% da região aglandular em sete animais, de 5 a 10% em dois e de 50% em apenas um. A aparência ativa foi observada em quatro animais (19%) e a hiperqueratose da mucosa aglandular foi observada em apenas um (4,7%).

Dois eqüinos utilizados para corrida de trote apresentaram grande número de ulcerações na mucosa aglandular. É provável que os treinamentos para corrida de trote contribuam para o aparecimento de úlceras, como ocorre nos treinamentos de corrida em eqüinos da raça Puro Sangue Inglês (Murray, 1994). Em um dos animais, as ulcerações chegavam a cobrir 50% da região aglandular (Fig. 3), mostrando que mesmo lesões numerosas e extensas dessa região podem não causar manifestações clínicas, embora não se saiba o quanto podem interferir na digestão e no desempenho.

 

 

Conclui-se que a alta ocorrência de ulcerações gástricas em eqüinos deve servir de alerta aos clínicos, mesmo quando o animal não apresente sintomatologia compatível.

 

AGRADECIMENTO

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDREWS, F.; BERNARD, W.; BYARS, D. et al. Recommendations for the diagnosis and treatment of equine gastric ulcer syndrome (EGUS). Equine Vet. Educ., v.11, p.262-272, 1999.        [ Links ]

BERSCHNEIDER, H.M.; BLIKSLAGER, A.T.; ROBERTS, M.C. Role of duodenal reflux in nonglandular gastric ulcer disease of the mature horse. Equine Vet. J., p.24-29, 1999. Supplement 29.        [ Links ]

DEARO, A.C.O. Prevalência de lesões gástricas (úlceras e/ou erosões) em potros assintomáticos da raça quarto de milha. Estudo endoscópico. 1995. 42p. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP, Botucatu, SP.        [ Links ]

HAMMOND, C.J.; MASON, D.K.; WATKINS, K.L. Gastric ulceration in mature Thoroughbred horses. Equine Vet. J., v.18, p.284-287, 1986.        [ Links ]

KLEMM, M. Estudo retrospectivo da prevalência de úlceras gástricas em eqüinos necropsiados no "Centro de Anatomia e Anatomia Patológica Romeu Macruz". 2000. 104f. Dissertação (Mestrado). Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.        [ Links ]

MacALLISTER, C.G.; ANDREWS, F.M.; DEEGAN, E. et al. A scoring system for gastric ulcers in the horse. Equine Vet. J., v.29, p.430-433, 1997.        [ Links ]

McCLURE, S.R.; GLICKMAN, L.T.; GLICKMAN, N.W. Prevalence of gastric ulcers in show horses. J. Am. Vet. Med. Assoc., v.215, p.1130-1133, 1999.        [ Links ]

MURRAY, M.J. Gastric ulceration in horses with colic. In: Annual Convention of the AMERICAN ASSOCIATION OF EQUINE PRACTITIONERS, 34, 1988, San Diego. Proceedings... Lexington: American Association of Equine Practitioners (AAEP), 1989. p.61-68.        [ Links ]

MURRAY, M.J. Gastric ulcers in adult horses. Compend. Contin. Educ. Pract. Vet., v.16, p.792-794, 1994.        [ Links ]

MURRAY, M.J. Gastroduodenal ulceration. In: ROBINSON, N.E. (Ed.) Current therapy in equine medicine. 4.ed. Philadelphia: W.B. Saunders, 1997. p.191-197.        [ Links ]

MURRAY, M.J.; EICHORN, E.S. Effects of intermittent feed deprivation, intermittent feed deprivation with ranitidine administration, and stall confinement with ad libitum access to hay on gastric ulceration in horses. Am. J. Vet. Res., v.57, p.1599-1603, 1996.        [ Links ]

MURRAY, M.J.; GRODINSKY, C.; ANDERSON, C.W. et al. Gastric ulcers in horses: a comparison of endoscopic findings in horses with and without clinical signs. Equine Vet. J., p.68-72, 1989. Supplement 7.        [ Links ]

MURRAY, M.J.; SCHUSSER, G.F.; PIPERS, F.S. et al. Factors associated with gastric lesions in Thoroughbred racehorses. Equine Vet. J., v.28, p.368-374, 1996.        [ Links ]

MURRAY, M.J.; VATISTAS, N.J.; ANDREWS, F.M. Equine gastric ulcer syndrome. J. Equine. Vet. Sci., v.19, p.296-306, 1999.        [ Links ]

ROSE, R.J., HODGSON, D.R. Manual clinico de equinos. México: Interamericana-McGraw-Hill, 1995. 632p.        [ Links ]

SANDIN, A.; SKIDELL, J.; HÄGGSTRÖM, J. et al. Postmortem findings of gastric ulcers in Swedish horses older than age one year: a retrospective study of 3715 horses (1924 - 1996). Equine Vet. J., v.32, p.36-42, 2000.        [ Links ]

URQUHART, G.M.; ARMOUR, J.; DUNCAN, J.L. et al. Parasitologia veterinária. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1990. Cap. 1: Helmintologia Veterinária: p.3-145.        [ Links ]

VATISTAS, N.; SNYDER, J.R.; JOHNSON, B. Adult stomach and duodenum. In: TRAUB-DARGATZ, J.L.; BROWN, C.N. (Ed.) Equine endoscopy. 2.ed. St. Louis: Mosby, 1997. p.172-186.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 10 de maio de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 2 de junho de 2003

 

 

* Endereço para correspondência: Rua Almeida Maia, nº 38, apto. 62, Água Fria02338-060 - São Paulo, SP. E-mail: cbbelli@usp.br

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons