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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.55 n.6 Belo Horizonte dez. 2003

https://doi.org/10.1590/S0102-09352003000600004 

MEDICINA VETERINÁRIA

 

Salmonella spp. em forros de caixa de transporte e órgãos de pintos de um dia

 

Salmonella spp. in paper pads of chick boxes and organs of one-day-old- chicks

 

 

P.T. RochaI; A.J. MesquitaII, *; M.A. AndradeII; P.R. LoulyI; M.N. NascimentoI

IMestre em Medicina Veterinária - Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás
IIEscola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás Caixa Postal 131 74001-970 – Goiânia, GO

 

 


RESUMO

Estudou-se a ocorrência de Salmonella spp. em forros de caixa de transporte e em órgãos de pintos de corte de um dia, por meio de cultura bacteriológica convencional. Foram avaliadas 378 amostras de 18 lotes pertencentes a três empresas integradoras de frangos de corte do Estado de Goiás. Verificou-se a ocorrência de Salmonella spp. em 55,6 % (10/18) dos lotes sendo 10 lotes positivos oriundos de caixa de transporte e um lote de órgãos de pinto de um dia. A freqüência de isolamento de Salmonella spp. nos forros de caixas foi de 11,1%, e nos órgãos de pintos de corte de um dia, 3%. Os resultados sugerem a transmissão vertical do agente. Foram isolados os sorovares Salmonella Enteritidis e Salmonella Heidelberg, o primeiro mais freqüente (92,3%).

Palavras-chave: forro de caixa de transporte, frango de corte, pintos de um dia, órgãos, Salmonella Enteritidis


ABSTRACT

The occurrence of Salmonella spp. in paper pads of chick boxes and organs of one-day-old chicks was studied by conventional bacteriological technique. Eighteen broilers flocks belonged to three integrated broiler organizations in the state of Goiás were evaluated. The occurrence of Salmonella spp. was registered in 55.6 % (10/18) of the flocks, 10 flocks by analysis of paper pads of chick boxes and one flock by analysis of chick organs. The paper pads of chick boxes revealed 11.1% of Salmonella recovery, while the one-day-old chick organs, 3%. This result suggested Salmonella spp. transmission by vertical way. Salmonella Enteritidis and Salmonella Heidelberg were the isolated serovars and the first one was the most frequent (92.3%).

Keywords: broiler, one-day-old chicks, organs, paper pads of chick boxes, Salmonella Enteritidis


 

 

INTRODUÇÃO

As salmonelas não adaptadas às aves, salmonelas paratíficas, podem causar doença clínica e comprometer a produção avícola com perdas econômicas, além de ter importante significado para a saúde pública (Barrow, 1993). Fernandes (1995), Taunay et al. (1996) e Hofer et al. (1997) relataram aumento da freqüência de isolamento de Salmonella Enteritidis em estudos de surtos de enfermidades veiculadas por alimentos na década de 90. Tavechio et al.(1996) isolaram esse sorovar em ovos, matrizes e ambientes avícolas no Estado de São Paulo, sugerindo a participação de produtos avícolas na veiculação de Salmonella Enteritidis ao homem.

Muitos sorovares de Salmonella foram isolados de aves com ou sem apresentação de quadro clínico do paratifo aviário, sendo o mais comum S. Typhimurium, mas outros, entre eles S. Enteritidis, S. Agona, S. Infantis, S. Hadar, S. Senftenberg e S. Heidelberg, também foram identificados (Berchieri Júnior, 2000).

Salmonella Enteritidis, S. Typhimurium e S. Heidelberg podem ocasionalmente infectar os ovários, oviduto e conteúdo dos ovos, sendo transmitidas verticalmente à progênie (Poppe, 1999). Salmonella Enteritidis pode ser transmitida para os ovos através da infecção do oviduto resultando na contaminação da albumina e contaminação dos ovos durante sua formação (Desmidt et al., 1997). Há também a possibilidade de os ovos se tornarem contaminados após a formação da casca pelo contato com fezes contaminadas na cloaca ou mesmo no ambiente (McIlroy et al., 1989).

Os ovos incubáveis podem se tornar contaminados por Salmonella após a postura, ainda nos ninhos, nos galpões de matrizes, nos caminhões e no próprio incubatório, caracterizando a transmissão horizontal do microrganismo. Nas incubadoras e nascedouros, as condições de temperatura e umidade promovem a proliferação de Salmonella (Cox et al., 2000). De acordo com Cox et al. (1991), os embriões podem ser contaminados na incubadora e com maior freqüência nos nascedouros, durante a bicagem dos ovos e eclosão. Os autores citam ainda a possibilidade de contaminação durante o transporte dos pintinhos para as granjas. A contaminação no incubatório pode resultar em exposição dos pintinhos recém-eclodidos às salmonelas, no momento em que as aves são mais suscetíveis à colonização do trato intestinal (Bailey et al., 1994; Byrd et al., 1998).

A transmissão vertical como via introdutória de Salmonella em criações avícolas pode ser confirmada pelas análises de forros de caixa de transporte e de aves recém-nascidas ainda no incubatório ou mesmo nas granjas. Zancan (1998), ao avaliar a presença de Salmonella em forros de caixa de transporte de pintos de um dia oriundos de avós de matrizes pesadas e de poedeiras comerciais, encontrou 77,1 e 44,4 % de contaminação, respectivamente. Salmonella Heidelberg foi o sorovar mais freqüente em amostras de pintos de avós de matrizes pesadas e S. Enteritidis de pintainhas poedeiras comerciais.

Cox et al. (1990) avaliaram três incubatórios e encontraram 74% de amostras de forros de caixa de transporte positivas para Salmonella. Cox et al. (1991) analisaram forros de caixas em seis incubatórios e encontraram 12% de amostras positivas.

Froyman et al. (1997) acompanharam 79 lotes de frangos de corte através de análises realizadas no incubatório através de swabs de superfície do ambiente, revelando que 55 lotes foram positivos, ou seja, 69,6%.

Este trabalho teve o objetivo de verificar a ocorrência de Salmonella spp. em forros de caixas de transporte e em órgãos de pintos como agente na transmissão vertical.

 

MATERIAL E MÉTODOS

No período de janeiro a novembro de 2000 foram avaliados 18 lotes de frangos de corte pertencentes a três diferentes empresas integradoras do Estado de Goiás (Tab. 1).

 

 

Os lotes foram aleatoriamente sorteados de acordo com o programa de alojamento fornecido por cada empresa, sendo amostrados no dia do alojamento, ainda no caminhão de entrega de pintinhos.

Foram colhidas 378 amostras, 21 por lote segundo recomendação do Escritório Internacional de Epizootias (Office..., 1992) de acordo com as especificações do Georgia Poultry Laboratory (Georgia..., 1997).

Antes do alojamento, ainda no caminhão de entrega, 10 pintinhos foram aleatoriamente separados. Ao mesmo tempo, 10 pools de forros de caixas de transporte de pintinhos foram colhidas, cada uma constituída por porções de forros de cinco caixas. As amostras foram acondicionadas em sacos plásticos identificados e transportados ao laboratório em caixa isotérmica contendo gelo.

Com o auxílio de tesouras e pinças esterilizadas, procedeu-se a retirada do mecônio presente no forro das caixas. O material, submerso em leite desnatado previamente esterilizado em vapor fluente, aí permaneceu submergido por cerca de uma hora em temperatura ambiente, do qual se retirou a alíquota da amostra para os procedimentos bacteriológicos.

Os pintinhos foram sacrificados por secção das vértebras e medula cervical e posteriormente necropsiados em condições assépticas. Coração, fígado e vesícula biliar, porções inicial e final dos intestinos, ceco e saco da gema foram retirados para integrarem as respectivas unidades amostrais, discriminadas a seguir: pool de corações, fígados e vesículas biliares – dois por lote; pool de sacos da gema – cinco por lote; pool das porções iniciais dos intestinos e respectivos conteúdos – dois por lote; pool das porções finais dos intestinos, ceco e respectivos conteúdos – dois por lote.

A pesquisa de Salmonella spp. foi realizada segundo a metodologia proposta por Brasil (1995) e Georgia... (1997)

Cepas com perfil bioquímico de Salmonella foram submetidas ao teste sorológico com soro polivalente anti-O e anti-H. Aquelas que apresentaram sorologia positiva foram encaminhadas, em ágar nutriente, à Fundação Instituto Oswaldo Cruz, RJ, para tipificação sorológica.

Os dados foram submetidos ao teste não paramétrico de qui-quadrado conforme Sampaio (1998).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os sorovares de Salmonella identificados nos lotes e amostras são apresentados na Tab.2.

 

 

No forro das caixas de transporte foram identificados os sorovares S. Enteritidis e S. Heidelberg e nos órgãos de pintos de um dia somente o sorovar S. Enteritidis. Ambos sorovares podem causar o paratifo aviário (Poppe,1999; Berchieri Júnior, 2000), além de toxinfecções alimentares no ser humano (Fernandes, 1995; Tavechio et al., 1996; Taunay et al., 1996; Hofer, et al.,1997). Estes achados reforçam a importância dos produtos avícolas como veiculadores desses agentes ao homem (Tavechio et al., 1996) e a necessidade de controle relativo às vias de introdução de Salmonella spp. em granjas avícolas.

Seis amostras de órgãos foram positivas (3%), todas pertencentes ao lote 10, sendo três isoladas em pool de sacos da gema, uma em pool de corações, fígados e vesículas biliares, uma em pool de porções iniciais dos intestinos com seus respectivos conteúdos e uma em pool de porções finais dos intestinos, cecos e seus conteúdos (Tab. 3). Verificou-se maior ocorrência de Salmonella spp. (P<0,01) no forro da caixa de transporte (11,1 %) do que em órgãos de pintos de um dia (3,0 %). Provavelmente, essa diferença pode ser atribuída à maior representatividade das amostras de forros de caixas de transporte, pois em cada caixa acondicionaram-se, em média, 100 pintos de um dia e, em conseqüência, a forração tornou-se rica em mecôneo, aumentando a probabilidade de isolamento do enteropatógeno.

 

 

A freqüência em amostras de forros de caixa assemelha-se à encontrada por Cox et al. (1991) que detectaram 12% e inferior às verificadas por Cox et al. (1990) e Zancan (1998), 74% e 77,1%, respectivamente.

O percentual de lotes positivos nos forros pode ser considerado elevado, porém é inferior ao relatado por Froyman et al. (1997), 69,6 % de lotes positivos, em avaliação por meio de swabs de superfície no incubatório.

Os percentuais de positividade das amostras de forro de caixa e de órgãos de pintos de um dia verificados no presente estudo permitem inferir sobre a participação da transmissão vertical do patógeno nos sistemas de produção de frangos de corte no Estado de Goiás.

As freqüências absoluta e relativa dos sorovares de Salmonella spp. isolados e identificados podem ser vistos na Tab. 4.

 

 

S. Enteritidis foi o sorovar mais freqüente, correspondendo a 92,3 % das cepas identificadas. No Brasil (Hofer et al., 1997), S. Enteritidis foi um dos sorovares freqüentes no período de 1972 a 1981, e muito freqüente no período de 1982 a 1991, em material proveniente de aves. Estudos realizados por Fernandes (1995), Tavechio et al. (1996), Taunay et al. (1996) também constataram aumento no isolamento de S. Enteritidis em material de origem avícola e humana no Estado de São Paulo, sugerindo associação dos casos de toxinfecção alimentar humana pelo agente e o consumo de produtos avícolas contaminados.

 

CONCLUSÕES

Os forros de caixa de transporte de pintos de um dia proporcionaram maior isolamento de Salmonella do que os órgãos de pintos de um dia, sugerindo a transmissão vertical de Salmonella Enteritidis e S. Heidelberg em criações de frango de corte do Estado de Goiás.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 6 de novembro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 13 de outubro de 2003

 

 

* Autor para correspondência E-mail: cpa@vet.ufmg.br

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