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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.69 no.1 Belo Horizonte jan./fev. 2017

https://doi.org/10.1590/1678-4162-8956 

Medicina Veterinária

Primeiro relato de Hysterothylacium deardorffoverstreetorum (Raphidascarididae) em bijupirá de criação, Rachycentron canadum (Linnaeus 1766), no Brasil

First report of Hysterothylacium deardorffoverstreetorum (Raphidascarididae) in cobia (Rachycentron canadum (Linnaeus 1766) farming in Brazil

F.A.A. Calixto1 

J.B. Diniz2 

E.S. Machado2 

N.N. Felizardo3 

S.C. São Clemente3 

E.F.M. Mesquita3 

1Aluna de pós-graduação - Faculdade de Veterinária- UFF; Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro -FIPERJ - Niterói, RJ

2Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro - FIPERJ - Niterói, RJ

3Faculdade de Veterinária - UFF - Niterói, RJ


RESUMO

O objetivo do presente estudo foi registrar a ocorrência de larva de nematoide da família Raphidascarididae, Hysterothylacium deardorffoverstreetorum, em bijupirá Rachycentron canadum (Linnaeus, 1766), criado e alimentado com ração e "trashfish" em fazendas marinhas localizadas no Rio de Janeiro, Brasil, alertando para possíveis riscos zoonóticos ao se usar esse tipo de alimentação para criação de peixes. Foram necropsiados 15 animais. Os parasitas encontrados foram coletados, fixados e, posteriormente, conservados em álcool a 70°GL, clarificados e identificados. Em todos os animais necropsiados, apenas um espécime estava parasitado com uma larva de Hysterothylacium deardorffoverstreetorum na serosa do fígado do peixe e conclui-se que a presença desse parasita em bijupirá de criação alimentado por "trashfish pode estar associada à alimentação, indicando, assim, um potencial risco zoonótico.

Palavras-chave: maricultura; "trashfish"; nematoides; Raphidascarididae

ABSTRACT

The aim of this study was to record the occurrence of nematode larvae of the Raphidascarididae family, Hysterothylacium deardorffoverstreetorum in cobia Rachycentron canadum (Linnaeus, 1766) grown and fed with trashfish in marine farms located in Rio de Janeiro, Brazil, warning regarding possible zoonotic risk using this type of food for fish. Fifteen animals were necropsied. Parasites found were collected, fixed and later preserved in alcohol 70°GL, clarified and identified. In all animals necropsied, only one specimen was infested with a Hysterothylacium deardorffoverstreetorum larvae in the serosa of fish liver. It is concluded that the presence of the parasite in cobia culture fed with trashfish may be associated with a potential zoonotic risk.

Keywords: aquaculture; trashfish; nematodes; Raphidascarididae

INTRODUÇÃO

O bijupirá Rachycentron canadum (Linnaeus, 1766) é um peixe grande, carnívoro, migratório e pelágico costeiro de distribuição mundial em mares tropicais e subtropicais, excelente para o desenvolvimento comercial devido ao alto desempenho na aquicultura. Possui rápida taxa de crescimento, baixa mortalidade e alta taxa de conversão alimentar. Além disso, em alguns países com cultura de consumo dessa espécie, tem uma ótima demanda e preço de mercado.

Na criação experimental na Baía de Ilha Grande (latitude: -23.113072, longitude: -44.229230), Angra dos Reis, Rio de Janeiro, Brasil, a alimentação dos animais conta com uso de ração e "trashfish", resíduo sólido da pesca de sardinha verdadeira em abundância naquele local, o que pode influenciar na contaminação do bijupirá por agentes biológicos.

No filo Nematoda encontram-se as famílias Anisakidae e Raphidascarididae, incluindo espécies que podem parasitar uma ampla variedade de organismos aquáticos, tais como peixes, moluscos, crustáceos, mamíferos e aves piscívoras. Os anisaquídeos e os rafidascaridídeos desenvolvem seu ciclo de vida no ambiente marinho, onde os ovos dos parasitas adultos são eliminados nas fezes de mamíferos marinhos, continuando seu desenvolvimento até o estágio larval. Essa larva é ingerida por um crustáceo, peixe ou cefalópode, hospedeiros intermediários, e desenvolvem-se até o terceiro estágio. Os mamíferos marinhos atuam como hospedeiros definitivos, nos quais as larvas evoluem até o estágio adulto, fechando o ciclo. Nessa parasitose, o homem atua como hospedeiro acidental e o ciclo biológico do parasito não se completa (Anderson, 2000).

Felizardo et al. (2009) sugerem que Hysterothylacium sp. confere potencial zoonótico e que as manifestações causadas pelas larvas devem continuar a ser chamadas de anisaquidose, independentemente de sua classificação taxonômica.

Larvas de Hysterothylacium sp. têm sido relatadas em diferentes espécies de peixes de água salgada (Knoff et al., 2007; Felizardo et al., 2009; Saad e Luque, 2009).

O presente trabalho teve como objetivo registrar a ocorrência de larva de Hysterothylacium deardorffoverstreetorum em bijupirá criado e alimentado com ração e "trashfish" em fazendas marinhas localizadas no Rio de Janeiro, Brasil, alertando para possíveis riscos zoonóticos.

CASUÍSTICA

No período entre janeiro de 2014 e maio de 2015, foram necropsiados 15 espécimes de bijupirá R. canadum, de diferentes tamanhos, provenientes de criação na Baía de Ilha Grande, Rio de Janeiro, Brasil. Após a coleta, os peixes foram conduzidos em caixas isotérmicas com gelo para o Laboratório de Amostragem Biológica da Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (FIPERJ), em São Gonçalo, Rio de Janeiro, Brasil. Os parasitas encontrados foram coletados, fixados e posteriormente conservados em álcool a 70°GL e processados de acordo com Eiras et al. (2006), sendo encaminhados para o Laboratório de Tecnologia e Inspeção do Pescado, Faculdade de Veterinária, UFF. A identificação do nematoide foi realizada conforme Felizardo et al. (2009) e Knoff et al. (2012). O parasito foi observado por microscópio óptico Olympus BH-2, sendo realizadas medições por meio de ocular milimetrada (mm), exceto quando indicado de outra forma. Os registros das imagens foram feitos utilizando-se o microscópio óptico Zeiss Axiophot, com aparelho de contraste por interferência diferencial de Nomarski (DIC - Differential Interference Contrast), e as fotomicrografias foram tiradas por uma câmera digital Canon acoplada.

De todos os peixes necropsiados, apenas um espécime estava parasitado com uma larva de terceiro estágio de H. deardorffoverstreetorum (Fig. 1 e 2) na serosa do fígado.

Figura 1 Fotomicrografia da larva de terceiro estágio de Hysterothylacium deardorffoverstreetorum por contraste de interferência diferencial (DIC), destacando esôfago, ventrículo, apêndice ventricular e ceco intestinal. 

Figura 2 Fotomicrografia da larva de terceiro estágio de Hysterothylacium deardorffoverstreetorum por contraste de interferência diferencial (DIC), sendo destacado pela seta o mucron na porção posterior.  

A morfologia da larva de terceiro estágio H. deardorffoverstreetorum encontrada no presente estudo é semelhante à descrita por Knoff et al. (2012), obtida de Paralichytys isosceles do litoral brasileiro, que apresentou dados morfométricos de comprimento total 10,6mm, largura 0,23, comprimento do esôfago 0,59, comprimento do ventrículo 0,10, apêndice ventricular 0,78, ceco intestinal 0,18, cauda 0,25 e mucron 4,4µm. Knoff et al. (2012) registraram o comprimento total de 3,62-16,7 (10,1), largura 0,11-0,40 (0,25), comprimento do esôfago 0,23-1,16 (0,69), comprimento do ventrículo 0,05-0,15 (0,10), apêndice ventricular 0,35-1,37 (0,86), ceco intestinal 0,05-0,32 (0,18), cauda 0,10-0,32 (0,20) e mucron 3-8 (5µm), dados similares aos achados no presente estudo.

DISCUSSÃO

Também no litoral brasileiro foi registrado H. deardorffoverstreetorum em Cynoscion guatucupa (Fontenelle et al., 2013). Larvas de Hysterothylacium sp. foram relatadas em Trichiurus lepturus (Borges et al., 2012) e também em Chaetodipterus faber e Trachinotus carolinus (Ribeiro et al., 2014). O gênero Hysterothylacium já foi registrado em diversos peixes marinhos de várias partes do mundo, como em Saurus indicus (Gupta e Begum, 2007), Sparus aurata, Diplodus vulgaris (Kalay et al., 2009), Gadus morhua (Skovgaard et al., 2011), Alosa caspia persica (Barzegar et al., 2012).

Larvas da família Anisakidae, Anisakis sp. e Anisakis simplex, foram relatadas em criação de bijupirá (Arthur e Te, 2006; Shih et al., 2010). O primeiro registro de larva de H. deardorffoverstreetorum em bijupirá encontra-se relatado nesta pesquisa.

CONCLUSÕES

De acordo com os resultados obtidos, conclui-se que a presença do parasitismo por Hysterothylacium deardorffoverstreetorum em bijupirá de criação usando "trashfish", pode estar associada à alimentação, indicando, assim, um potencial risco zoonótico. Torna-se necessária a intensificação da investigação parasitária nesse tipo de criação e de alternativas de conservação do rejeito de pesca destinado à alimentação animal.

AGRADECIMENTOS

À Faperj, pelo apoio financeiro ao projeto; à Capes, pela bolsa de doutoramento; e aos produtores, por permitirem a necropsia dos animais.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 10 de Junho de 2016; Aceito: 06 de Julho de 2016

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