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Revista Brasileira de Estudos de População

versão impressa ISSN 0102-3098

Rev. bras. estud. popul. vol.29 no.2 São Paulo jul./dez. 2012

https://doi.org/10.1590/S0102-30982012000200016 

NOTAS DE PESQUISA

 

Perfil dos indivíduos diagnosticados com depressão maior no Estado de Minas Gerais, Brasil

 

 

Fernando Machado Vilhena DiasI; Ana Paula de Andrade VeronaII; Bárbara Avelar GontijoIII; Bárbara Roberto EstanislauIV; Cláudio Santiago Dias JúniorV

IMédico psiquiatra, doutor em Neurociências (UFMG), professor adjunto do Departamento de Medicina e Enfermagem, Universidade Federal de Viçosa
IIEconomista, doutora em Demografia (The University of Texas at Austin), professora adjunta do Departamento de Demografia, Universidade Federal de Minas Gerais
IIISocióloga, mestranda em Demografia (UFMG), Departamento de Demografia, Universidade Federal de Minas Gerais
IVSocióloga, mestranda em Demografia (Unicamp), Departamento de Demografia, Universidade de Campinas
VSociólogo, doutor em Demografia (UFMG), professor adjunto do departamento de Sociologia e Antropologia, Universidade Federal de Minas Gerais

 

 

Introdução

A depressão maior constitui um transtorno mental com alta prevalência na população geral. Segundo Kessler, Chiu e Demler (2005), a doença acomete cerca de 15% das pessoas ao longo da vida, sendo que as consequências repercutem negativamente em todas as esferas da vida do paciente, sejam psíquicas, biológicas ou sociais.

A etiopatogenia da depressão maior compreende uma relação, ainda não muito clara, entre predisposição genética e vulnerabilidade ambiental (CHARNEY; MANJI; KEELER, 2004), que, dependendo da sua intensidade e forma de apresentação, pode desencadear um processo depressivo em pacientes com uma carga genética susceptível (COSTELLO et al., 2003; WEISSMAN et al., 2005).

Poucos estudos buscaram caracterizar amplamente aspectos sociais de uma população com depressão maior no Brasil (LOPES et al., 2002; CAVALCANTI; OLIVEIRA GUERRA, 2006; SILVA et al., 2010). Acredita-se que a caracterização social dos pacientes com depressão maior pode possibilitar a identificação de estressores ambientais atrelados ao desenvolvimento do transtorno (McEWEN, 2007; DALY et al., 2010). Desta forma, o objetivo do presente estudo é descrever características sociais e econômicas, assim como o acesso a serviços de saúde, de pacientes deprimidos de todo o Estado de Minas Gerais em 2009.

 

Demografia da depressão

Diversos estudos mostram certo padrão demográfico no que se refere aos pacientes com depressão (MÁXIMO, 2010). De maneira geral, a depressão é mais prevalente entre as mulheres, independentemente da idade (YONKERS; STEINES, 2001). Algumas hipóteses são levantadas para tal cenário, tais como maior facilidade em expor seus sentimentos, o que pode facilitar no diagnóstico, diferenças fisiológicas e hormonais em relação aos homens e maior prevalência da pobreza entre as mulheres (MÁXIMO, 2010).

A pobreza é, sem dúvida, um fator associado à prevalência da depressão. Aspectos como baixa renda, baixa escolaridade e desemprego são variáveis importantes identificadas em diversos estudos (HOLMES, 2001; SOLOMON, 2002; BÓS; BÓS, 2005; MÁXIMO, 2010).

Em relação à estrutura etária da população com depressão, existe uma variedade de achados tanto na literatura nacional quanto na internacional. Atualmente observa-se que a depressão pode ocorrer em qualquer idade, ao contrário do que se acreditava na década de 1970 (MÁXIMO, 2010), embora dados de diversos estudos mostram que a doença é mais comum entre adultos e idosos. Dados da PNAD 2008 revelam que a prevalência de depressão entre os maiores de 60 anos é mais do que o dobro daquela observada na população geral (MÁXIMO, 2010).

 

Material e métodos

No presente estudo, foi utilizado o banco de dados da Pesquisa por Amostra de Domicílios de Minas Gerais (PAD) de 2009, coordenada pela Fundação João Pinheiro, o qual dispõe de informações de 55 mil indivíduos e 18 mil domicílios. A pesquisa foi realizada em 308 municípios de Minas Gerais e é representativa para as 12 mesorregiões do Estado, para as 11 regiões de Planejamento e para o local de residência (urbano/rural). Os dados foram coletados entre junho e novembro de 2009. O questionário foi dividido em oito seções, sendo que aquela referente à saúde foi aplicada a todas as pessoas da amostra. Para a elaboração deste estudo, foram selecionados os indivíduos diagnosticados com depressão maior. No total, a amostra contou com 314 indivíduos.

 

Resultados

De acordo com a Tabela 1, pode-se observar que a maior parte dos indivíduos com depressão diagnosticada no Estado de Minas Gerais é do sexo feminino. Outra informação importante identificada por esse estudo é a alta concentração de pessoas com depressão maior no grupo etário de 60 anos e mais. Além disso, verifica-se maior concentração na população negra e nas áreas urbanas.

A Tabela 2 informa que 75% dos domicílios com moradores diagnosticados com depressão maior recebem periodicamente a visita de agentes comunitários de saúde. É possível observar que a renda mensal desses domicílios é bastante baixa, uma vez que cerca da metade recebe até um salário mínimo e 20% são beneficiados pelo programa Bolsa Família.

A Tabela 3 apresenta a caracterização socioeconômica, a autopercepção da saúde e hábitos saudáveis da população de 15 anos e mais de idade com depressão maior em Minas Gerais, em 2009. De maneira geral, a grande maioria dessa população é alfabetizada, sendo elevada a concentração de indivíduos com até ensino fundamental completo. Um fato que chama a atenção é o percentual de pessoas que não trabalham (57,7%), ou seja, não exercem uma atividade produtiva. No geral, a percepção da saúde é negativa, uma vez que 65,7% dos entrevistados relataram a condição de saúde como regular, ruim ou muito ruim. Outro ponto é que apenas 21,5% dos entrevistados que relataram ter depressão maior possuem algum tipo de plano de saúde, mas, por outro lado, 75% relataram receber visitas dos agentes comunitários de saúde de maneira regular. Em relação aos hábitos saudáveis de vida, apenas 14,5% dos entrevistados mencionaram a prática regular de alguma atividade física. Por fim, a ingestão de bebidas alcoólicas é recorrente em quase 20% dos entrevistados e cerca de 1/3 afirmou ser fumante.

 

Discussão

Os resultados desta nota de pesquisa corroboram achados anteriores sobre a maior incidência de mulheres diagnosticadas com depressão maior (CARTER et al., 2000; HILDEBRNDT, 2003). Vários fatores podem justificar essa associação com o sexo feminino, tais como causas hormonais, gestação, puerpério e maior busca pelos serviços de saúde (SOARES; ZITEK, 2008). Outros estudos sugerem que a maioria dos indivíduos desenvolve o episódio de depressão maior entre 20 e 50 anos de idade (KESSLER; BERGLUND; DEMLER, 2003). Segundo os resultados apresentados neste trabalho, esse comportamento também é observado em Minas Gerais. Além disso, 26,4% das pessoas com depressão maior no Estado têm 60 anos ou mais de idade. Tal resultado pode indicar uma carência nos serviços de saúde e de suporte social, pois a prevalência é maior do que a verificada em populações de países desenvolvidos (McCUSKER et al., 2005). Também é alta a prevalência de depressão maior na população jovem (10 a 29 anos): 22,3%. Esse achado corrobora resultados de estudos prévios, que evidenciam uma tendência de aumento na prevalência de depressão maior entre os jovens, provavelmente, refletindo a banalização do uso de substâncias psicoativas (DAVIS et al., 2008).

Uma parcela importante dos pacientes com depressão maior em Minas Gerais em 2009 está em uma situação econômica de vulnerabilidade. É provável que um poder aquisitivo baixo aumente a chance de incidência de depressão maior (RITSHER et al., 2001). Além disso, a alta proporção de deprimidos com 15 anos e mais que não trabalham pode sinalizar as dificuldades de indivíduos com depressão em exercer atividades produtivas (LUO et al., 2010).

Percebe-se ainda que a maioria da população de deprimidos depende do SUS e de seus programas de atenção à saúde, o que exige uma melhor capacitação técnica dos agentes em saúde mental para facilitar o diagnóstico das pessoas com depressão maior e otimizar o acompanhamento terapêutico (BLANQUES, 2010). Os dados da PAD de Minas Gerais de 2009 permitem observar que programas governamentais em áreas sociais precisam avançar para melhorar a saúde dos indivíduos.

 

Conclusão

A depressão maior constitui um modelo de agravo à saúde que afeta, claramente, o indivíduo em suas relações sociais. A identificação da maneira como as relações sociais são prejudicadas, resguardando as particularidades de cada sociedade, possibilita o avanço no conhecimento sobre os transtornos mentais e a elaboração de estratégias específicas para a prevenção e o tratamento. Nesse sentido, é muito importante saber como esse agravo à saúde se distribui na sociedade, segundo variáveis sociais e econômicas, principalmente. Os próximos passos da pesquisa é aprofundar o entendimento dessas relações, buscando algumas associações que possam fornecer mais informações para elaboração de políticas públicas, por exemplo, na área da saúde mental no Brasil. Além disso, espera-se trabalhar com outros bancos de dados para efeitos de comparação dos resultados aqui mostrados.

 

Referências

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Recebido para publicação em 03/09/2012
Aceito para publicação em 01/10/2012

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