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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.28 no.12 Rio de Janeiro dez. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012001400022 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

História da saúde em São Paulo: instituições e patrimônio arquitetônico (1808-1958)

 

 

Claudio Bertolli Filho

Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciência, Universidade Estadual Paulista, Bauru, Brasil. cbertolli@uol.com.br

 

 

HISTÓRIA DA SAÚDE EM SÃO PAULO: INSTITUIÇÕES E PATRIMÔNIO ARQUITETÔNICO (1808-1958). Mott ML, Sanglard G, organizadoras. Barueri: Manole/Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2011. 219 p.

ISBN: 978-85-786-8034-3

Este livro é mais um fruto do projeto Inventário nacional do patrimônio cultural da saúde: bens edificados e acervo, coordenado pela Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, desde 2007. Após iniciativas semelhantes referentes aos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, agora é a vez da apresentação do patrimônio de São Paulo ser contemplado com um estudo importante e original.

Para apresentar as instituições médico-hospitalares e o patrimônio arquitetônico bandeirante, o livro é composto de seis capítulos assinados por destacados pesquisadores na história da saúde e da arquitetura. No primeiro capítulo, realiza-se um estudo de caráter praticamente etnográfico que explora várias dimensões do funcionamento de um hospital, relacionando os cuidados prestados com uma atividade de guerra, isto é, de cuidados e combates às doenças, como uma empresa que carece de articulação máxima dentre suas múltiplas atividades e resultados o máximo possível eficientes, e também como uma instituição que emerge entre a ficção e a realidade em suas realizações.

O segundo capítulo, que se constitui no principal eixo orientador do livro, tem como objeto os padrões arquitetônicos típicos dos hospitais paulistas, enfatizando as articulações entre a arquitetura hospitalar e as concepções médico-sanitárias vigentes no período de suas construções. Nessa trajetória, três modelos ganharam destaque, cada um deles representado por um engenheiro-arquiteto. O primeiro deles foi Ramos de Azevedo – o mais importante arquiteto paulista das últimas décadas do século XIX e do início do século seguinte –, que elaborou projetos baseados no modelo pavilhonar, baseando-se nos princípios higienistas, sendo as construções erigidas em áreas verdes e espaçosas. O edifício da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, cuja construção foi concluída em 1885 com sensíveis alterações para abrigar enfermarias especializadas, constitui-se no exemplo mais marcante dos projetos assinados por este arquiteto.

Tal vertente arquitetônica foi superada pela adoção do modelo norte-americano de estilo monobloco, representado pelo médico e engenheiro Ernesto de Sousa Campos. Segundo a nova proposta, os edifícios hospitalares deveriam primar pela higiene, mas também conceder destaque à funcionalidade e à integração das atividades, abandonando o princípio de serem construções isoladas, sendo integradas ao espaço urbano. Também com alterações na proposta original, assim foi construído o prédio do Hospital das Clínicas de São Paulo.

A partir de meados do século XX, Primo Levi representou um novo paradigma da arquitetura hospitalar, a qual se aproxima da proposta estética emblematizada por Le Corbusier. O monobloco modernista, ou complexo de blocos independentes, mas interligados, foi construído sob arranjo que variava de um H a uma estrela e tinha como objetivo viabilizar uma maior integração entre as seções hospitalares e favorecer ampla viabilidade de fluxo para os profissionais, pacientes e visitantes. Exemplares deste período são os projetos do Hospital do Câncer e a Maternidade do Hospital das Clínicas.

Os dois próximos capítulos exploram temas ainda pouco contemplados pela historiografia nacional, referindo-se um à concepção de saúde e doença invocada nos debates parlamentares paulistas travados no século XIX e o outro à assistência à saúde e às sociedades civis em funcionamento na cidade de São Paulo entre 1893 e 1929.

No referente à concepção de saúde e doença, a questão manteve-se no século XIX como um tema dominado pelos políticos, portanto como um desafio repleto de disputas e negociações entre os diferentes grupos da elite. O fato de a capital dos paulistas contar com uma população diminuta em relação a outras cidades brasileiras impunha a noção de que a defesa sanitária mostrava-se mais importante que as instalação de novos nosocômios, que eram de regra avaliados como redutos dos mais pobres e daqueles que em pouco tempo chegariam a óbito. A ameaça sempre presente da varíola em estado epidêmico e a proliferação dos hansenianos instigaram a ação e os debates parlamentares, sobretudo disponibilizando verbas para a instalação de um instituto vacínico e de locais distanciados do centro urbano para o abrigo dos leprosos.

As repostas da sociedade à precariedade do atendimento aos enfermos e ao reduzido número de hospitais deu-se com o rápido incremento das associações civis que, em nome da filantropia, ofereciam algum tipo de assistência à saúde para seus filiados. A cidade de São Paulo, bafejada pelos lucros da economia cafeeira, transformava-se e ampliava rapidamente sua população, sobretudo formada de imigrantes. Coube às sociedades de imigrantes, aos trabalhadores que se engajavam nas novas atividades urbanas e também a grupos religiosos, como os evangélicos – que não eram bem recebidos na católica Santa Casa – organizarem seus serviços assistenciais, que ofereciam desde pequenas indenizações até assistência básica à saúde. Essas tarefas foram sendo ampliadas até a inauguração de hospitais de alguns desses grupos, sendo o pioneiro deles o dos imigrantes lusitanos, que já no século XIX criaram um hospital próprio, exemplo seguido no século seguinte pelos italianos, alemães, sírios-libaneses e japoneses, dentre outros.

Os dois últimos capítulos do livro dedicam-se a dois ícones da medicina e do atendimento médico paulistano: o Hospital das Clínicas e as Santas Casas.

No texto referente ao Hospital das Clínicas, aborda-se a trajetória das tentativas de construção de um hospital da Faculdade de Medicina de São Paulo que, inaugurada em 1913, desde logo pautou pela necessidade de um hospital próprio para o treino de seus alunos. Na ausência dele, recorreu-se à Santa Casa de São Paulo como hospital-escola, única opção possível naquele momento. Desde o início dessa atividade, foram inúmeros os relatórios que indicavam a ausência de recursos físicos e monetários para que o ensino se realizasse com a eficiência necessária, cobrando-se a construção de um hospital de clínicas. A morte do fundador da Faculdade de Medicina, Arnaldo Vieira de Carvalho, interrompeu por alguns anos os contatos que o finado diretor estava estabelecendo com a Fundação Rockfeller e, quando foram reinstaurados, a instituição norte-americana concedeu amplo apoio financeiro, permitindo o aprimoramento do ensino, inclusive com a concessão de bolsas de estudos para os jovens médicos de São Paulo, cobrando em contrapartida que o governo estadual construísse um hospital exclusivo da Faculdade de Medicina. As discussões e negociações políticas alongaram-se até a década de 1940, e somente em 1944 o Hospital das Clínicas foi inaugurado, já sob a rubrica de maior hospital da América Latina, deixando claro de vez que, tanto a arquitetura hospitalar quanto o ensino médico seguiam não mais os modelos preconizados na Europa, mas sim os dos Estados Unidos.

O livro é fechado com um capítulo sobre as Santas Casas bandeirantes. Oriundas do modelo português das Irmandades de Misericórdia, desde o período colonial que São Paulo, assim como as principais cidades e vilas brasileiras encontravam nas Santas Casas uma das poucas instituições responsáveis pela assistência à saúde da população. Em São Paulo, no decorrer do tempo, várias cidades passaram a contar com Santas Casas locais, constituindo a principal rede hospitalar do estado. Já no século XX, mesmo com a expansão do número de hospitais públicos e privados, as Santas Casas continuaram a ampliar o número de leitos e de profissionais da saúde, persistindo, mediante seguidas reorganizações administrativas, a serem uma das principais instituições de atendimento à saúde, apesar da histórica carência de verbas.

Acompanha o livro impresso um CD-ROM que apresenta ao leitor dados históricos e características das edificações de 90 instituições voltadas ao ensino, pesquisa e atendimento da saúde dos paulistas, algumas delas localizadas fora do território da capital estadual. Tal complemento não só comporta novos dados, mas oferece ao leitor instigantes exemplos da multiplicidade de instituições paulistas, ilustrando muito do que foi abordado nos textos que dão forma ao livro impresso.

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