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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311XOn-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.31 no.5 Rio de Janeiro May 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00137814 

REVISÃO

Roger Bastide: a construção do social na fronteira das disciplinas. A doença mental como campo de estudo

Roger Bastide: la construcción de lo social en la frontera de las disciplinas. La enfermedad mental como campo de estudio

Everardo Duarte Nunes 1  

1Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil.


RESUMO

O artigo trata das contribuições de Roger Bastide (1898-1974) para o campo da loucura e da doença mental, recuperando seus trabalhos em psiquiatria social, psicanálise, psicologia e sociologia das doenças mentais. Destaca o caráter interdisciplinar desses trabalhos, marca dos estudos de Bastide também presente em outros temas como religião, arte, literatura. O trabalho apresenta dados biográficos e o legado de Bastide para o campo da sociologia da saúde/doença. Analisa a obra de Bastide à época da sua produção e aspectos atuais da sociologia das doenças mentais.

Palavras-Chave: Sociologia Médica; Psiquiatria Comunitária; Saúde Mental; Domínios Científicos

RESUMEN

El trabajo explora las contribuciones de Roger Bastide (1898-1974) en el campo de la locura y la enfermedad mental. Versa sobre la recuperación de su trabajo en la psiquiatría social, el psicoanálisis, la psicología y la sociología de las enfermedades mentales. Resalta el carácter interdisciplinario de estas obras, también presente en otras temáticas como la religión, el arte, la literatura. El artículo muestra datos biográficos y el legado de Bastide en el campo de la sociología de la salud/enfermedad. Además, analiza la obra de Bastide en el momento de su producción y los aspectos actuales de la sociología de la enfermedad mental.

Palabras-clave: Sociología Médica; Psiquiatría Comunitaria; Salud Mental; Dominios Científicos

ABSTRACT

The paper explores the contributions of Roger Bastide (1898-1974) to the field of insanity and mental illness, revisiting his work in social psychiatry, psychoanalysis, psychology and, sociology of mental disorder. It highlights the interdisciplinary nature that marks Bastide’s works, that also include religion, art, literature. The paper presents biographical data and highlights the importance of Bastide to the field of sociology of health/illness. The analysis situates Bastide’s work at the time of its development, comparing it with the development of the sociology of mental illness today.

Key words: Medical Sociology; Community Psychiatry; Mental Health; Scientific Domains

Introdução

Na apresentação que Maria Isaura Pereira de Queiroz 1 escreveu para a coletânea de estudos de Roger Bastide (1898-1974), por diversas vezes o sociólogo é visto como aquele que trabalhou na interface dos saberes. Ao situarmos as suas contribuições para a área da medicina e da doença mental, da psicanálise e da psiquiatria social, sem dúvida, essa é uma ideia que aflora de imediato, como foi claramente retomada por Ravelet 2. Essas áreas apresentam uma série de estudos que vão de 1941 a 1972 e que são as fontes para as nossas análises. Neste trabalho, selecionamos textos com base na bibliografia levantada por Ravelet 3 e subsidiada pelas coletâneas de artigos, discussões e memórias organizadas por Pereira de Queiroz 1, Ravelet 2 e Instituto de Estudos Brasileiros 4. O objetivo deste trabalho, primeiramente, é o de revisitar essa produção, cotejá- la com as análises já realizadas e, em segundo lugar, resituá-la, criticamente, frente às mais recentes produções no campo da sociologia das doenças mentais.

Autor e obra

Roger Bastide nasceu em Nîmes, na França, em 1 o de abril de 1898, em uma família de tradição calvinista. Após a escola primária, cursou o liceu de Nîmes, de 1908 a 1915, quando obteve uma bolsa de estudos para se preparar para l’École Normale Supérieure. Segundo Ravelet 3, os estudos foram interrompidos pela guerra, quando faz o serviço militar e prepara-se para uma licenciatura em Filosofia, mas, em 1917, parte para o front como telegrafista e, em 1919, ao ser desmobilizado, acompanha as sessões especiais de preparação para École Normale Supérieure, que eram oferecidas aos soldados. Em seguida, muda-se para Bordeaux, onde irá cursar a universidade e travar contato com a vida literária da cidade. Em 1921, apresenta o seu trabalho para a obtenção do DES (Diplôme d’Études Supérieures) de Filosofia.

A partir de 1924 até 1938 lecionou sucessivamente em Cahors, Lorient, Valence e Versailles. Nesse ano, recebeu o convite do médico e psicólogo francês Georges Dumas (1866-1946) para ocupar a vaga deixada por Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e lecionar sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, criado em 1934, aqui permanecendo até 1954. Ao voltar à França, redige as duas teses de doutorado, defendidas em 1957: a “grande tese” Les Religions Africaines au Brésil, e a tese subsidiária, Le Candomblé de Bahia, vindo a ocupar, a partir de 1958, o posto de titular de Etnologia Social e Religiosa na Sorbonne. Lecionou também na École Pratique des Hautes Études e no Institut des Hautes Études d’Amérique Latine. Criou, em 1961, um Centro de Psiquiatria Social que dirigiu até sua morte. Faleceu em Paris em 10 de abril de 1974.

A obra de Bastide é bastante extensa e alguns estudos procuraram situá-la e classificá-la. Ravelet 3 aponta a enorme diversidade temática da obra de Bastide abrangendo os seguintes campos: sociologia geral; sociologia religiosa; antropologia; psiquiatria social; sociologia brasileira; literatura francesa e brasileira; arte e sociologia da arte, em particular, sobre o folclore e a arquitetura; reflexões filosóficas; educação; psicologia; psicanálise; doença mental; textos circunstanciais sobre a guerra; relações internacionais. Especificamente, em relação à psicologia, psicanálise, psiquiatria social, “loucura” e doença mental, a produção se mescla a temas como misticismo, sonho, transe.

Embora seja autor de uma obra bastante diversificada, Bastide é um pesquisador que procurou em seus trabalhos dar uma reposta às questões fundamentais que acompanhavam a sua vida, sem a “necessidade de falar de si próprio”, construindo uma obra que se caracteriza pelo rigor teórico e metodológico 5 (p. 4). Segundo Pereira de Queiroz 6 (p. 216): “O vasto leque de seus conhecimentos teóricos operava uma expansão extraordinária de perspectivas para quem o ouvia, mostrando a multiplicidade dos pontos de vista e dos sistemas de pensamento dos diversos autores de variadas correntes e de muitos países: as diferenças entre a Sociologia de Durkheim e a de seu contemporâneo Gaston Richard, a ampliação trazida por Max Weber ao estudo das sociedades; as pesquisas de Radcliffe-Brown; Karl Mannheim e o início da Sociologia do Conhecimento; as contribuições da Antropologia Cultural Americana”.

Peixoto 7 (p. 17) analisa que, “durante a sua estada brasileira, Bastide forja um ponto de vista teórico e metodológico particular, dissonante dos padrões de seu tempo”. Essa perspectiva deve- se às tradições das ciências sociais francesas, o contato com as produções sociológicas e antropológicas norte-americanas e “as linhagens intelectuais nacionais”. Nesse sentido, os diálogos com Mário de Andrade, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes são exemplares que a autora analisa na formação das ideias de Bastide. Retoma a postura teórica situada por Pereira de Queiroz 1 quando anota: “Poderíamos dizer que Bastide exercitou a interdisciplinaridade num momento em que tal postura não era praticada como nos dias de hoje. Sua localização nas áreas de fronteiras entre as disciplinas converteu-se em uma posição privilegiada, da qual ele soube tirar farto proveito teórico7 (p. 202). Seu trabalho com os temas das doenças mentais, psicanálise, sonho, transe e outros exemplificam claramente esse posicionamento, como mostraremos neste estudo. Acrescente-se que, embora Peixoto não trate desses aspectos da obra de Bastide, suas ideias iluminam a nossa maneira de entender este autor; especialmente quando aponta que Bastide “exercita uma sociologia sensível à complexidade do social, evitando reduzi-lo a uma única dimensão ou atribuir-lhe um sentido unívoco7 (p. 20).

Psicanálise, psicologia, psiquiatria social, sociologia das doenças mentais: um caminho e um retorno

A obra de Bastide que trata da temática psi é extensa e mescla diversos subtemas que estão distribuídos da psicanálise à sociologia das doenças mentais, passando pela psicologia e psiquiatria social, com uma variante fundamental em seu pensamento e pesquisas, a da etnopsiquiatria. Esses subtemas atravessam a sua produção intelectual e são tratados sem esse ordenamento, mas como veremos, o autor procurou em alguns livros sintetizar o seu pensamento nesses diversos campos de conhecimento.

Bastide chegou ao Brasil em 1938, com uma produção que, iniciada em 1920, incluía trabalhos de caráter histórico, sobre a vida mística e sociologia religiosa. Aqui, o seu primeiro trabalho foi Psicanálise do Cafuné e Estudos de Sociologia Estética Brasileira, publicado em 1941 8. Somente em 1948 publicaria Sociologia e Psicanálise 9 e logo em seguida Introducción a la Psiquiatría Social 10.

Christian Lalive d’Epignay (1938), analisando os primeiros trabalhos de Bastide, diz que “três figuras atravessam e unem a sua obra: l’etranger, le fou (l’alienus), le dieu (...) Estas três figuras são também fundadoras do indivíduo e da sociedade , elas são impostas sobre ele, como as três manifestações do Alter11. Para ele, “[n]a análise das mutações de um rito”, em Psicanálise do Cafuné, já aparecem as relações psicologia/sociologia que irão se completar em obras posteriores 11. Ao sintetizar a abordagem de Sociologia e psicanálise diz que Bastide ao discutir as conquistas da psiquiatria e, especialmente, o pensamento de Sigmund Freud que, se ele,“reintroduziu o social na psicologia, trata-se agora de reintroduzir a psiquê na sociologia e Bastide empresta do grande vienense o conceito de libido para torná-lo uma categoria operacional de sua sociologia11 (ênfase do autor). Com isso, constroi uma compreensão do indivíduo como “um ser de impulsos, sonhos, desejos e temores” e a psicanálise como “la tentation de l’abyssal11. Recordamos que essa análise já havia sido feita por Vírginia Leone Bicudo (1915-2003) ao assinalar que Bastide, sobrepondo-se a preconceitos, “particularmente ao preconceito científico”, irá relacionar as “contribuições recíprocas entre a psicanálise e a psicologia social, esta última constituindo em um elo entre a psicologia e a sociologia12 (p. 168). Destacamos as observações de Bicudo quando afirma que “para repensar as teorias sociológicas, Roger Bastide propunha o reexame da organização da família sob o vértice das teorias psicanalíticas, com referência à censura e à sublimação da libido no processo da vida infantil12 (p. 169).

Louis Moreau de Bellaing (1932) ao sintetizar as relações entre sociologia e psicanálise, aponta quatro polos: a história conjunta das duas disciplinas (ambas nascem na mesma época, 1896); os elos entre o biológico, a libido, o psíquico e o social; a interpenetração e a reciprocidade do social e da libido; a autonomia das duas disciplinas e sua complementaridade. Trata-se de um guia para a leitura de Bastide, chamando a atenção para o fato de que “muitas passagens do livro são consagradas à etnologia, especialmente aquelas sobre racismo13 (p. 130-3). Ao apontar os limites da análise de Bastide, situa: a redução do inconsciente de Freud à libido, citando as polarizações encontradas em seu trabalho – cultural/libido, social/libido; esquecimento da démarche e do método freudiano, ou seja, que deve-se “pensar a obra freudiana a psicanálise e suas relações com as outras ciências sociais de dentro dela mesma a partir de seus próprios pressupostos, o que, no fundo, é verdade para toda ciência”; a tendência à analogia, citando a relação feiticeiro/divindade, ao generalizar as características atribuídas ao feiticeiro, igualando-o aos deuses, não é precisa 13 (p. 136-8). Para esse autor, a fecundidade dos estudos das relações psicanálise, sociologia e etnologia são as seguintes: pioneirismo, nos anos 1950, das reflexões sobre o tema; não ter hesitado em aproximar noções que eram “em geral descartadas pela maior parte dos pesquisadores separando-as ou confinando-as nas disciplinas, elas mesmas concebidas como separadas e pouco associadas”, citando como exemplo ilustrativo o estudo sobre a sexualidade em que antropologia, sociologia e psicanálise estão manifestamente presentes 13 (p. 139); ter conferido um lugar especial à psicanálise no quadro das ciências sociais, mas que “a psicanálise não pode se confundir, se misturar (méler) injustificadamente com a antropologia, sociologia, direito, história etc.”, porém, ressalta que “sem ela, as ciências sociais e esta ciência humana que é a filosofia ficariam literalmente amputadas de uma parte de sua investigação13 (p. 140).

Certamente, Sociologia e Psicanálise 9 e Introducción a la Psiquiatría Social 10 constituem os dois trabalhos mais importantes da década de 1940, que antecedem muitas ideias que serão ampliadas por Bastide em outros momentos.

Em Introducción a la Psiquiatría Social, Bastide inicia o trabalho revisitando ideias que estiveram presentes no século XIX sobre degenerescência – “a desintegração das vias nervosas se convertiam na causa da desintegração dos vínculos sociais10 (p. 11) – e sua substituição pelo conceito de regressão – “os transtornos sociais são a consequência dos transtornos da vontade e da personalidade...10 (p. 11). Para Bastide, são duas ideias mais gerais do que as que separam as doenças em lesivas e não lesivas, sendo estas últimas de interesse do sociólogo. Para entender a causalidade e não apenas as correlações – doenças e fatores sociais – propõe, à la Durkheim, uma apresentação inicial das estatísticas por estado civil, confissões religiosas, profissões etc., como também com a criminalidade. Em todos os casos “as cifras indicam uma correlação, nada mais10 (p. 14) entre fatos sociais e fatos de patologia mental. Volta-se, então, para a distribuição das patologias nos espaços geográficos (método ecológico), o que ajudaria a estabelecer correlações menos vagas do que as anteriores, embora, ainda, sem que se avance no sentido da causalidade, às vezes, “entrevemos em certos casos privilegiados que a probabilidade move-se no sentido de uma causalidade sociológica...10 (p. 26). Abandonar provisoriamente a sociologia e caminhar em direção à psiquiatria é o que aponta o autor. Analisa de forma geral as teorias de Freud, Pierre Janet que “nos conduzem ao conceito de subjetividade”, assinalando que foi Blondel quem mais “insistiu nesse conceito para dar conta das doenças mentais10 (p. 39). Volta-se para o método comparativo “experimentação indireta10 (p. 43) e revê alguns clássicos da antropologia (Mead, Malinowski), mas comenta que este método não pode alcançar o grau de certeza quando utilizado em outras ciências como a física e a química. Pensa que, talvez, isso possa ser melhor observado em Moreno e a sociometria. A seguir, Bastide discute que o interesse está em saber se a sociologia pode ser útil à psiquiatria e não o contrário. Recupera em dois capítulos seguintes as representações coletivas dos delírios e os “delíros dos estrangeiros”, a indução ao delírio, loucura simultânea (entre dois ou mais indivíduos).

Nas décadas de 1950 e 1960, Bastide vai consolidando algumas temáticas e ampliando outras; a psicanálise continua presente, assim como a psiquiatria social e, além das relações sociologia e psicanálise, são especificadas as relações etnologia e psicanálise.

Selecionamos desse período, início dos anos 1950, o curso ministrado no Hospital do Juqueri e publicado como A Psiquiatria Social 14. O curso foi realizado por meio de uma série de palestras que abordaram: objeto e métodos, formação e desenvolvimento da psiquiatria social, os problemas da psquiatria social, antropologia cultural e psiquiátrica, mentalidade mágica e consciência mórbida, imigração e doenças mentais.

O curso foi ministrado a convite do Dr. Osório Cezar (1895-1979), psiquiatra do Hospital Juqueri durante quatro décadas, desde 1925, e autor, junto com Bastide, de um artigo sobre as relações pintura, loucura e cultura 15.

Alguns aspectos desse curso chamam a atenção, e embora apresente temas já tratados anteriormente, essa versão sobre a psquiatria social é mais completa do que a de 1940. Mostra a psiquiatria social como criação posterior à sociologia e suas relações com a psicologia e antropologia cultural, ressaltando a falta de trabalhos metodológicos em pesquisas colaborativas. Destaca pesquisas multidemensionais e o que se produzia nos Estados Unidos nas chamadas area studies realizadas entre geógrafos, historiadores, juristas, economistas, sociólogos, antropólogos e linguistas, quando há entre os pesquisadores um “objetivo comum a todos14 (p. 65). O autor prossegue apontando que esses estudos além de serem apropriados para uma “fecundação cruzada” possibilitam uma interdisicplinaridade a partir da identificação do mesmo problema pelos diversos especialistas. Lembra que toda a colaboração é uma “colaboração crítica” e que isto se aplica ao campo da psiquiatria social 14 (p. 66-9). Também aponta a correlação entre os fenômenos sociais e as doenças mentais em lugar da busca da causalidade. Para isso utiliza o “princípio da reciprocidade de perspectivas” de Georges Gurvitch, para quem “a sociologia em profundidade concebe todo fato psíquico, consciente ou não, que descobre na sociedade como situação no ser e particularmente no ser social (...) O vivido é sempre ao mesmo tempo coletivo, intermental e individual (...) recobrem reciprocamente14 (p. 71).

Não se pode deixar de mencionar que esse curso foi realizado na década de 1950, quando o Hospital do Juqueri entra em processo de superlotação de pacientes, passando de 7.099, em 1957, para 11.009, em 1958, cerca de 16 mil pacientes internados nos anos 1960 16, e sobre este fato ou outros das condições em que viviam os internados, inclusive crianças, não ter merecido observações e análises de Bastide.

Não trataremos dos diversos trabalhos de Bastide dos anos de 1950 e 1960, mas destacaremos, por ser um trabalho de síntese, a publicação de Sociologie de Maladies Mentales 17. Trata-se de um período especialmente rico na produção sobre a psiquiatria, loucura e doença mental. Ressaltem- se os trabalhos de Foucault (1926-1984), Laing (1927-1989), Cooper (1931-1986), Szasz (1920-2012) que, de diferentes maneiras, lançaram uma nova conceituação sobre a doença mental e suas práticas, inaugurando o que Cooper 18 denominou de antipsiquiatria, mas que não aparecem na obra de Bastide. Lembramos que apenas tangencialmente, Bastide cita Foucault 17 , 19.

O fundador da etnopsiquiatria Georges Devereux (1908-1985) apontou que essa obra 17 era indispensável a quem se aproximava da sociologia das doenças mentais pela primeira vez. Chamou a atenção para a vasta erudição do autor, sua compreensão das teorias e métodos, pela simplicidade e elegância da “lógica concisa” e originalidade, tratando pela primeira vez “o conjunto de uma nova ciência em plena evolução20 (p. 657, ênfase do autor). Não faz nenhuma referência ao fato de Bastide não ampliar a sua análise aos autores (antes citados) – da geração que fez a crítica à psquiatria institucionalizada e hegemônica.

Ampliando temas anteriormente tratados, Bastide parte de uma detalhada caracterização do encontro entre a psiquiatria e a sociologia, como ele diz, estimulante, mas carregado de indecisões, quando as fronteiras se aproximam da constituição de um novo campo – a psiquiatria social. Revisando autores dos anos 1920, 1950 e início dos 1960, expõe os diversos sentidos atribuídos à psiquiatria social: vencer as doenças mentais que proliferam na sociedade e se tornam um problema social, formar profissionais para atuar nos cuidados psiquiátricos de reinserção social do paciente, estudar métodos de tratamento na formação de comunidades terapêuticas. Mais prática do que teórica, aproxima- se mais dos psiquiatras e menos dos sociólogos. Bastide não deixa de assinalar que há lugar para a construção teórica e isto irá ocorrer na medida em que os pesquisadores se deparam com a questão dos fatores sociais na etiologia das doenças mentais, num cruzamento de variáveis familiares, econômicas, profissionais, religiosas etc. e que foram reveladas pelos primeiros estudos com populações urbanas e nativas, num sentido, e em outro, com o estudo das “coletividades mórbidas”.

Para Bastide, a compreensão dos fatores sociais relacionados à doença mental passa por três vertentes: a psiquiatria social, a sociologia das doenças mentais e a etnopsiquiatria. Considerando a questão com base na sociologia, Bastide diz que se poderia buscar na própria origem da sociologia os primeiros momentos de uma sociologia das doenças mentais, presente no pensamento positivista de Augusto Comte (1798-1857), que de forma bastante geral tratou das relações entre sociedade e loucura. Para Comte, “o aumento dos casos de loucura está em relação com a passagem de um período de crise; desenvolve-se ao mesmo tempo e pelas mesmas razões do individualismo17 (p. 24). Essas razões estão associadas ao pensamento “egoísta”, a revolta do indivíduo contra a humanidade, o abandono do altruísmo e a entrega à “subjetividade”. A influência comtiana é estendida a outros autores como Audiffrend, Blondel, Morel, mas será com Durkheim que “o problema das origens sociológicas da loucura (...) será posto em termos novos, em termos de anomia social17 (p. 25).

Segundo Durkheim, anomia tem dois significados: ausência de regulamentação e falta de controle, que aparece, respectivamente, na Divisão do Trabalho Social e no Suicídio e, embora ele não o tenha utilizado em relação às doenças mentais, seria um conceito chave da literatura norte-americana sobre a sociogênese das perturbações psíquicas.

Bastide aponta o marxismo como a segunda corrente importante para o campo da sociologia das doenças mentais, com a sua perspectiva de que os problemas do homem derivam das “transformações técnicas, materiais ou morais” advindas dos “conflitos gerais da sociedade capitalista”. O autor passa, ainda, em revista, como a psiquiatria soviética adotou o pavlovismo como a sua fundamentação teórica. Uma terceira vertente é constituída pelas contribuições trazidas pela psicanálise à psiquiatria e à sociologia. “À primeira vista poderia parecer que não”, escreve Bastide 17 (p. 32), especialmente pelo fato de que Freud “anula o papel dos fatores sócio-econômicos e em particular o da luta de classes, para conceder o papel decisivo aos fatores biológicos e especialmente aos fatores sexuais17 (p. 32). O sociólogo destaca que não se pode esquecer que a psicanálise trouxe importantes contribuições para a compreensão dos fatores familiares, da constelação infantil, para o problema da comunicação (diálogo paciente/analista) e de outras questões, canalizando para o interior do discurso sociológico técnicas, sugestões teóricas e vocabulário psicanalítico, tais como: racionalização, frustração, complexo de inferioridade, sublimação e muitos outros. Mesmo reconhecendo o valor dessa contribuição, é cuidadoso em recolocar as questões da teoria psicanalítica no quadro dialético de interpretação sociológica dos fatores sociais na compreensão da doença mental. Lembra, ainda, que um prolongamento da psicanálise está na socioanálise, que seria objeto de diversos desdobramentos pós-anos 1960, época da publicação do livro de Bastide.

A questão da teoria geral e da pesquisa empírica no estudo das doenças mentais será um ponto de relevância para o entendimento do campo da sociologia das doenças mentais, especialmente no caso dos Estados Unidos que deram à época grande destaque aos trabalhos de campo e surveys. Bastide situa o fato de que a grande diversidade de estudos empíricos podia ser “sistematizada” e desta forma não reduzida a um conjunto desordenado de achados, pois no fundo havia “uma mesma concepção gestáltica da doença mental: a cultura, o sistema social, a personalidade são variáveis funcionais, interdependentes e interligadas17 (p. 38).

Essas colocações que abrem a discussão sobre o campo serão acompanhadas de cuidadosa revisão da literatura produzida até a data da pesquisa realizada por Bastide. Antes de realizar a revisão, Bastide apresenta um quadro circunstanciado dos métodos de pesquisa e seus problemas. Alinha o método estatístico, as histórias de casos, a pesquisa interdisciplinar e o método experimental. Para o autor, assumem posição importante, pois estão assentados na perspectiva de Gastón Bachelard quando afirma: “Não se atinge um objeto preciso sem um pensamento preciso. E um pensamento preciso é um pensamento que se oferece às discussões da precisão. Se se vai até à raiz das tendências, não há dúvida de que a precisão é uma instância do eu-tu17 (p. 63).

Para Bastide 17 (p. 122) “a ecologia traz como contribuição à sociologia das doenças mentais o reconhecimento de uma distribuição espacial particular das psicoses, orgânicas e funcionais”. Segundo o autor, a regularidade na distribuição não é obra do acaso, mas a ecologia não chega a apreender as causas desta regularidade e somente levanta hipóteses; dentre elas, a desorganização social de certos setores do habitat e a espacialização do isolamento. Bastide faz restrições a essas questões dizendo que devem ser estudadas outras variáveis, como classes sociais, tipos de famílias, religião etc. e dedica extenso capítulo no sentido de apreender aquilo que constitui uma vertente fundamental para a sociologia das doenças mentais – as consequências da industrialização e da estratificação dos homens em classes sociais. Para tal, revisa: a psiquiatria das categorias profissionais; classes e estratificação social; psiquiatria da sociedade industrial. Ao estudar a psquiatria dos grupos sociais separa os grupos religiosos e os grupos étnicos, tratados não tanto como grupos culturais, mas como grupos minoritários.

Destaques dessa obra são os três capítulos finais – Pausa no Fim do Caminho, O “Louco” e a Sociedade e O Mundo da “Loucura” – fato que Devereux 20 apontou com extrema perspicácia. Mas, por quê? Em nossa análise, primeiramente, porque neles Bastide 17 (p. 202) situa a sua posição teórica frente à loucura e à doença mental – “as perturbações do espírito exprimem as influências da cultura, da organização da sociedade e do meio humano”, em segundo lugar, porque chama a atenção para a grande diversidade das investigações e da quase impossibilidade de comparações dos resultados frente à diversidade dos diagnósticos e das técnicas de coleta de dados. Define-se Bastide por uma sociologia das doenças mentais, na qual a loucura, como o crime e o suicídio, “continua a ser essencialmente coisa social”. Para Bastide 17 (p. 217) existem duas vias para se fundar (sic) uma sociologia das doenças mentais “fora de todo o problema etiológico”: “complementaridade da atividade simbólica dos doentes e dos não doentes nas estruturas da mentalidade coletiva”; a outra, na “complementaridade das pessoas doentes e das pessoas não doentes nas estruturas da sociedade global”. Dessa forma, ressitua o “louco’ no plano da sociedade, no penúltimo capítulo do livro, não deixando à margem as relações médico/doente, mas redefinindo-as no encontro de “duas perigosas virtualidades”, na expressão parsoniana – a da busca de legitimidade do seu papel, por parte do doente, e o do controle, por parte do médico. Nesse plano de análise, como afirma “Uma sociologia da loucura deve articulá-la na totalidade do nosso sistema social17 (p. 233). Ao encerrar o livro, assume que as três contribuições importantes para a construção de uma sociologia das doenças mentais são: o estruturalismo, a história e a etnologia. Ponto de destaque nesse capítulo é o estabelecimento do “diálogo entre a sociedade e o louco”, pois em Bastide 17a dinâmica da desordem mental inscreve-se num sistema em que colaboram ao mesmo tempo o desviante e a sociedade” (p. 244) pois “o mundo da loucura faz parte do sistema global” (p. 255) e “o problema do doente mental na sociedade não é apenas o problema do doente, mas o problema da própria comunidade” (p. 257).

Para Devereux 20 (p. 657), o grande mérito desse livro é o de “ter traçado com clareza as fronteiras entre os diversos métodos de encarar e estudar a mesma série de fatos” vistos por campos distintos como a psiquiatria, a psicologia social, a psicopatologia social e outros. Permite, dessa forma, articular as diferentes ciências que estudam a doença mental numa perspectiva que enfatiza “o quadro social e cultural”, mas sem a preocupação de oferecer “uma metodologia sistemática e unificada” (p. 658).

Segundo François Sicot 21 (p. 226), o “bel avenir” que Bastide antevia para a pesquisa sobre a sociogênese das perturbações mentais e para psiquiatria social em sua Sociologia das Doenças Mentais, que deveria constituir um programa para futuras pesquisas, não se cumpriu, especialmente quando se compara a produção sociológica francófona e a anglo-saxônica.

Na década de 1970, Bastide realiza duas viagens: uma para o Canadá junto com Henri Desroche, e outra para o Brasil, em 1973. Essa é a segunda viagem, pois em 1962 já havia estado aqui a convite da Universidade de São Paulo. Nessa viagem permaneceu apenas de julho a setembro 22. Ravele 3 relata que Bastide encontrava-se com a saúde bastante abalada, o que não o impede de apresentar até a sua morte em 1974 uma produção menor, mas expressiva em vários temas.

No campo de nosso estudo, Bastide inicia a década de 1970 – que denomino de retorno – publicando um artigo que continua a sua busca para entender as relações entre a psicanálise e a sociologia, nesta ocasião usando a palavra “cooperação23; prefacia o livro de Devereux Essais d’Ethnopsychiatrie 24; escreve sobre a sociologia do sonho 25, as relações sonho e cultura 26 e epidemiologia das doenças mentais 27; organiza Les Sciences de la Folie e a introdução da coletânea 19 , 28; aborda as causas sociais e culturais da doença mental 29 e um estudo inédito, sobre “imagens das doenças mentais3. Mesmo conservando uma grande diversidade de temas na área psi, o que se percebe, nessa fase da sua vida, é que Bastide faz uma espécie de balanço do que havia estudado mais profundamente nesse campo.

Como ele próprio relata, os acontecimentos de maio de 1968 serão motivadores para repensar a questão da loucura, estabelecendo um paralelo com os movimentos europeus da primeira metade do século XIX. Nesse sentido, “as duas grandes mutações do capitalismo industrial – a de sua formação e a de sua atual metamorfose – corresponderam ao romantismo e à agitação dos estudantes de 1968, fenômenos análogos; entre outras semelhanças, levou à descoberta ou à redescoberta do imaginário. Assim como da loucura como criação manipuladora desse imaginário19 (p. 9). Esse foi o ponto de partida para Bastide organizar uma série de conferências, em 1969, no Centro de Psiquiatria Social, de Paris, revisando o pensamento sobre a loucura, publicadas como Les Sciences de la Folie 19.

Bastide hesita entre “ciências da loucura” e “loucuras como ciências” como título dos trabalhos; a expressão “ciências da loucura” traz o significado de ser “um estudo científico, objetivo, imparcial, das diversas doenças mentais – a constituição da psiquiatria como uma disciplina de mesma natureza que os outros ramos da medicina” ou “a utilização da medicina como modelo a fim de inventar um novo domínio da sociologia19 (p. 16). Sem dúvida, como esclarece Bastide, são estudos que “fazem a transição entre uma psiquiatria, digamos, filosófica, e uma psiquiatria definitivamente científica”. Do confronto da semiologia médica (clínica) com a semiologia geral, que Barthes 30 apresenta, à objetivação orgânica da “perturbação da alma”, na interpretação de Buchez, que Isambert 31 reconstitui, há a visão da loucura de Comte, por Arbouse-Bastide 32, calcada no que Bastide 19 (p. 24) chama “concepção romântica do positivismo”. Mas, é com Fourier que aflora a “ciência da loucura”, conforme o texto de Debout-Oleszkiewicz 33, não a “loucura” no “sentido que lhe dá a medicina, mas no sentido popular”, como anota Bastide 19 (p. 27), e no texto de Baruk 34 emerge o fator social e moral das neuroses do nosso tempo, sem esquecer, como analisa Durand 35, as relações sonho-espiritualidade.

Sem dúvida, Bastide prosseguia na construção de uma sociologia das doenças mentais e para isto buscava elementos que permeavam o seu trabalho anterior – trabalhar uma perspectiva sociológica, na interface com a história, antropologia, semiótica, mas como lembra com muita propriedade Braga 36o olhar bastidiano voltou-se mais para os problemas que para as disciplinas, procurando em diferentes lugares as respostas para as suas inquietações sobre o outro”.

Certamente, essas “inquietações sobre o outro” remetem-nos ao seu trabalho em que coligiu antigos estudos sobre o sonho, o transe e a loucura, que considero uma espécie de testamento de uma obra que se estende por centenas e centenas de páginas e na qual ele se debruça com base nos seus primeiros trabalhos. Trata-se de Le Rêve, la Transe et la Folie 37 em que na Introdução Geral expõe toda a paixão pelos temas abordados, que se repete nas introduções das três partes do livro.

Em Le Rêve, inicia dizendo “es tamos sempre interessados em nossos sonhos. E sempre lamentamos que ainda não haja nenhuma biografia dos homens noturnos, uma vez que existem tantas dos homens diurnos. (...) Desta sedução do mundo dos sonhos, que data das mais longínquas lembranças da infância, há apenas o simples interesse científico de constituir uma sociologia dos sonhos37 (p. 9). Reproduz uma série de trabalhos escritos no início dos anos 1930, “ponto de partida das pesquisas realizadas para o conjunto sobre a sociologia do sonho”; sonhos de negros, parte da pesquisa sobre negros e brancos do Estado de São Paulo, de 1950; as conferências sobre a sociologia do sonho, de 1967, e sonho e cultura, de 1970.

Na seleção dos textos sobre La Transe, Bastide recolhe um escrito datado de 1953, com o expressivo título de Le Chateau Intérieur de l’Homme Noir, no qual ele que antevia a possibilidade de uma “sociologia do transe”, nas leituras antropológicas vai encontrá-la no candomblé brasileiro. O texto seguinte é sobre o fenômeno da possessão na interface do transe místico, da psicopatologia e da psquiatria, datado de 1967, mas que se completa com a conferência, de 1968, que intitulou Prolégoménes a l’Étude des Cultes de Possession. Bastide encerra essa parte da coletânea com um texto apresentado na Dinamarca, intitulado Discipline et Spontanéité dans les Transes Afro-Américaines, seguido de um longo posfácio no qual retoma a introdução a esses estudos ao anotar que “no transcorrer dos últimos anos, os cultos de possessão, em vez de permanercer localizados em certas etnias, multiplicaram-se de modo que sua análise torna- se hoje um dos capítulos mais elaborados da nova etnologia religiosa37 (p. 57).

A terceira parte da coletânea é composta sob o título de La Folie, na qual reúne os seguintes trabalhos: o significado da psicose na evolução do homem e das estruturas sociais, de 1969; a abordagem interdisciplinar da doença mental, de 1967; a sociologia durkheimiana e a conceituação de doença mental, de 1966; um artigo inédito sobre as doenças mentais dos negros na América do Sul; uma introdução aos estudos afro-brasileiros, de 1948; suicídio entre negros brasileiros, de 1952; as conferências sobre “civilizações e doenças mentais” (1971); “simetria no pensamento mórbido” (1970); e o artigo em que aborda a psicanálise e a sociedade tecnicista, de 1967.

O legado de Bastide

Não seria melhor dizer que ‘a loucura é um fenômeno social’, em vez de dizer: ‘a loucura tem causas sociais’?17 ( p. 212).

Laplantine 38 (p.150) escreveu que “Roger Bastide foi, e provavelmente é – com Lévi-Strauss – o pesquisador francês de maior influência no Brasil no domínio das Ciências Sociais”. Certamente, essa proximidade com aquele que é considerado um dos maiores antropólogos da história da antropologia, confere a Bastide um papel destacado nas pesquisas antropológicas que, segundo Laplantine, trouxeram uma “abordagem plenamente sociológica, quer dizer analítica das relações sociais38 (p. 141). Para ele, como analisa Laplantine, as culturas existem dentro das sociedades globais.

Essa ideia é muito oportuna porque percorre a preocupação de Bastide em relação à loucura, doença mental e suas relações com a sociedade. Em realidade, a sua abordagem da doença mental e de um campo do conhecimento que lhe deu estrutura, no pensamento dos anos 1960, em termos sociológicos é, sem dúvida relevante. A revisão por ele realizada é detalhada e somente no final da década de 1960 apareceria outra revisão bibliográfica sobre o campo. Trata-se do estudo de Dufrancatel 39 que analisa a produção de 1950 a 1967 (totalizando 826 referências), enfatizando os trabalhos americanos, e, como assinala Samuel Lézé 40, assume uma perspectiva diferente daquela de Bastide, para quem “o objeto da sociologia era aceito como dado pela psiquiatria”, ao passo que Dufrancatel “propôs uma introdução crítica e uma bibliografia anotada muito útil da sociologia da doença [illness, no original] mental... colocando abaixo, como primeira condição, uma ruptura epistemológica com o que é denominado como ‘desordem mental’ e a ênfase de sua precedência sobre a construção sociológica do objeto40 (p. 321).

Do ponto de vista de estudos gerais, poucos são os trabalhos que trataram do campo antes do livro de Bastide 17. Citem-se: Clausen 41 e a primeira antologia estudando diversos aspectos da saúde/doença mental, reunindo diversos autores e editada por Rose 42, publicada nos Estados Unidos. Assim, o estudo de Bastide tornou-se referência para a compreensão do campo como um todo, relacionando a expressiva quantidade de pesquisas empíricas que já haviam sido realizadas sobre doença mental, até aquele momento. De certa forma, Bastide também, ao codificar a área, busca as informações mais atuais na época, tanto epidemiológicas como sociológicas, em torno das variáveis e suas associações com a doença mental, mas não se limita a esta exposição; há em seu livro um aprofundamento da perspectiva teórica traçando um panorama das relações entre o “louco” e a sociedade e do “mundo da loucura”, o que não o transforma, na opinião do autor deste texto, em sua totalidade, em um texto datado. A expressão “the book is very dated” foi usada por Kathleen Jones (1922-2010) quando resenhou a tradução em inglês de Sociology of Mental Disorder, publicada em 1972 43. Além dessa observação, acentua que Bastide foi mal traduzido e não cita Thomas Szasz, Freud, Reid, concluindo que o livro não cumpre o que o título promete e pode enganar o principiante.

Ressaltamos, ainda, o fato de Bastide ter sido o introdutor da Escola de Chicago na França e suas críticas ao “sociologismo” durkheimiano 44, embora, como salienta Pereira de Queiroz 1, tenha usado amplamente as noções de anomia e representações sociais.

Cotejar uma obra escrita precisamente há cinquenta anos não é simples. Para isso é necessário retomá-la dentro de novos cenários. Nesse sentido, são oportunas as observações de alguns autores, como Sicot 21, que optaram por análises que consideram as profundas mudanças que os estudos sobre a doença mental e a psiquiatria sofreram na França nessas últimas cinco décadas. Mudanças essas que estão associadas primeiro ao peso que hoje se confere à saúde mental; segundo, pela reorganização da própria psiquiatria frente ao sucesso das neurociências e da farmacologia. Para ele, essas questões não são exclusivas da França, com inflexões diferentes atingem todos os países ocidentais. Para Sicot, essa nova estruturação se institucionaliza por intermédio da Organização Mundial da Saúde (OMS) e se impõe por meio de um modelo nosográfico – o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Na revisão que elabora, distingue no conjunto da produção recente grandes temas: a organização dos sintomas, as representações sociais, as relações entre a saúde mental, o sistema penal e o crime, a produção de dados epidemiológicos, a reflexão sobre os diagnósticos e as relações entre doença mental e os vínculos sociais. A reflexão de Sicot é importante não somente ao atualizar a literatura francesa sobre o tema, mas pelo espírito crítico que perpassa a sua análise. Diferentemente da visão otimista de Bastide na década de 1960, Sicot mostra que a produção sociológica francófona atual sobre a doença mental é muito frágil, especialmente quando comparada com a literatura anglo-saxônica. O autor destaca a ausência do tema nas revistas francesas de sociologia, depois dos anos 1970, e mesmo livros como Asile (Goffman) e Histoire de la Folie (Foucault) não produziram descendência 21.

Lézé 40 submete o campo da sociologia da doença mental a um forte crivo crítico, destacando as diversas fases pelas quais ela passou na França. A primeira, que se caracteriza pela proposta de uma definição e identificação do campo (1965-1968); a segunda, pela descrição e críticas às funções sociais das instituições psiquiátricas (1968-1989); e a terceira, pela emergência da saúde mental no campo da sociologia (1990-2006). Dentre os diversos aspectos abordados por Lézé que servem para redimensionar a sociologia da saúde mental, destacamos os desafios epistemológicos e metodológicos, quando pergunta: A partir de que pontos pode ser definido o campo? Será por meio dos métodos estatísticos? Ou por uma abordagem qualitativa? Outro destaque nos desafios epistemológicos é o da “natureza da saúde mental”, que não se enquadra como uma questão médica, mas no campo da sociologia da saúde. Bastide destaca-se especialmente na primeira fase definindo e demarcando o campo da sociologia das doenças mentais.

Considerações finais

Se o ponto de partida era encontrar a multi e interdisciplinaridade nas obras de Bastide, isto se concretiza à proporção que revisitamos suas pesquisas. Essa questão é tão forte em Bastide que ele próprio forneceu em alguns momentos as bases teóricas dessas dimensões e de sua codificação 45 , 46.

Em trabalho datado de 1958, Bastide mostra que as relações entre a sociologia e a psicologia eram difíceis, pois “se procurava tal aproximação pela subordinação46 (p. 105) que se reestrutura num sistema de “integração do psíquico e do cultural em planos sobrepostos” (p. 106). Para Bastide, a ideia de colaboração de psicólogos e sociólogos pode ser buscada em Marcel Mauss que, na década de 1920, criou a noção de “fenômenos sociais totais”, e em Gurvitch, que definiu baseando-se nessa noção o que denomina “os fenômenos psíquicos totais”.

Dez anos depois, Bastide retoma a discussão e estabelece as seguintes distinções: pesquisa interdisciplinar – articulações entre diversas ciências, obra de um indivíduo ou de uma equipe de trabalho; pesquisa comparativa internacional ou transcultural – com base em um tema entre psiquiatras de diversos países; pesquisa multidisciplinar – trabalho numa mesma equipe de pesquisadores pertencentes a disciplinas diversas ou se em uma mesma disciplina a interação entre especialistas sobre um determinado aspecto do problema. Anota que essa última pode ser ao mesmo tempo interdisciplinar e transcultural, mas nem toda pesquisa com estas duas características é “forçosamente multidisciplinar”. Ponto alto desse trabalho é a tipologia das pesquisas multidisciplinares criada por Bastide 45 (p. 446-7), que apresenta quatro tipos: (i) coexistência igualitária – com base no princípio da indeterminação (Heisenberg) “um mesmo ‘acontecimento’ pode ter duas explicações completamente satisfatórias, quanto mais o compreendemos psicologicamente, menos o compreendemos sociologicamente, e inversamente”; (ii) coexistência estratificada – cada disciplina mantém sua autonomia, cabendo ao coordenador da equipe fazer a integração, por exemplo, ao psiquiatra cabe preencher as fichas e fazer o diagnóstico e ao sociólogo fazer as correlações; (iii) integração multidisciplinar prática – embora a abordagem de cada disciplina seja feita sucessivamente, não se estabelece nenhuma dominação de uma ou outra: o sociólogo faz estudos sociográficos, o psicólogo realiza os testes, o psiquiatra avalia os diagnósticos, podendo se contar com a colaboração de assistentes sociais e estatísticos; e (iv) pesquisa integrada teórica – vai além da aplicação dos métodos de cada disciplina, forçando a “criação de novos métodos, novos tipos de experiências (...) passa do diálogo em torno do objeto empírico à singularidade do objeto conceitual”.

Ao lado da interdisciplinaridade que perpassa toda a sua obra, o segundo grande destaque nestas considerações finais e que desenvolvemos ao longo deste trabalho é a contribuição sociológica de Bastide para as pesquisas no campo das doenças mentais. Tomamos como referência Henri Desroche (1914-1994) e sua análise da obra de Bastide Anthropologie Apliquée 47. Nessa análise, aponta as diversas sociologias que podem ser encontradas em seus trabalhos: uma sociologia da aplicação (sociologie d’application), uma sociologia da explicação (sociologie d’explication) e uma sociologia da implicação (sociologie d’implication), que se completam com uma sociologia da escuta (sociologie de l’écoute), seguida de uma sociologia do pluralismo (sociologie du pluralisme) 48. Embora referidas ao campo da sociologia religiosa, podem, em nossa opinião, ser estendidas aos outros campos da sociologia e revelam a atualidade do pensamento bastidiano, e sua inclusão nas discussões mais recentes sobre a sociologia como campo teórico, aplicado, prático e público, pois, como escreve Laplantine 37 (p. 148), o seu pensamento “nos permite ultrapassar uma concepção estabilizada e solidificada do social”.

Nesse sentido, citamos as contribuições trazidas por Duarte 49, na medida em que elas nos fornecem elementos preciosos para entendermos a expressão usada por Bastide quando se refere ao “castelo interior” (p. 168) como “modo de constituição da interioridade psicológica” (p. 170). Mais ainda, Duarte desvenda os meandros sutis da “psicologização” em nossa cultura e a participação das “ciências sociais’ neste processo. Para o autor, Bastide constitui uma ilustração acabada na análise que se manifesta na experiência mística, no êxtase, no transe, nos estudos psicossociais, apresentando “fundamentalmente, um valor metodológico” 49 (p. 178).

Pereira de Queiroz que havia destacado a forte interdisciplinaridade dos trabalhos de Bastide, irá também situar a sua contribuição às ciências sociais – antropologia e sociologia – quando assinala o que denomina “uma nova interpretação do Brasil”. Para ela, os conceitos herdados principalmente de Mauss (globalidade e totalidade) e Gurvitch (dialética da completaridade) foram fundamentais para que ele interpretasse o nosso país de forma diversa àquela consagrada em outros estudiosos, por exemplo, Gilberto Freyre e Euclides da Cunha. A análise de Pereira de Queiroz 50 (p. 117) é refinada e profunda e dela extraímos somente um trecho marcante para os nossos propósitos: “A noção de integração que se depreende das análises de Roger Bastide é, pois, totalmente diversa da noção de integração existente nas obras dos pesquisadores brasileiros do passado. Para estes, a integração não podia existir senão com a anulação das divergências, das contradições, da heterogeneidade. Para Roger Bastide, a heterogeneidade constitui o próprio fundamento da integração, que só pode ser tentada a partir da diferença”.

Com essas observações completamos a nossa perspectiva de ao revisitar a obra de Bastide e cotejá-la com diversos autores destacar a sua atualidade tanto para questões metodológicas como teóricas da sociologia e da sua aplicação ao campo da sociologia da saúde. Em síntese: os trabalhos de Bastide permitem visualizar um esquema no qual a interconexão com os diversos campos de conhecimento – sociologia, antropologia, etnologia, psicologia, psicanálise, subsidia as possibilidades de compreensão de diferentes temáticas – experiência mística, transe, possessão, loucura, doença mental, ritos, secularização – e, remete à construção de “campos interdisciplinares” – a psiquiatria social, a sociologia das doenças mentais, a etnopsiquiatria, a antropologia psiquiátrica, a sociologia dos sonhos, a sociologia dos delírios, a psicologia dos povos.

Agradecimentos

Ao CNPq pelo apoio ao Projeto História da Sociologia da Saúde – Bolsa de Produtividade (processo nº 305.809/78-4).

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Recebido: 11 de Setembro de 2014; Revisado: 19 de Janeiro de 2015; Aceito: 05 de Fevereiro de 2015

Correspondência: E. D. Nunes. Universidade Estadual de Campinas. Cidade Universitária, Campinas, SP 13081-970, Brasil. evernunes@uol.com.br

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