SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.36 issue7Work and psychological distress: stories that make HistoryErratum: Fernandes CJ, Lima AF, Oliveira PRS, Santos WS. Índice de Cobertura Assistencial da Rede de Atenção Psicossocial (iRAPS) como ferramenta de análise crítica da reforma psiquiátrica brasileira. Cad Saúde Pública 2020; 36(4):e00049519. author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311XOn-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.36 no.7 Rio de Janeiro  2020  Epub July 03, 2020

https://doi.org/10.1590/0102-311x00064120 

RESENHA

Saúde mental infantojuvenil e desastres: um panorama global de pesquisas e intervenções

Mental health in children and adolescents and disasters: a global overview of research and interventions

Salud mental infantojuvenil y desastres: un panorama global de investigaciones e intervenciones

Orli Carvalho da Silva Filho 1 
http://orcid.org/0000-0002-5268-6097

Simone Gonçalves de Assis2 
http://orcid.org/0000-0001-5460-6153

Joviana Quintes Avanci2 
http://orcid.org/0000-0001-7779-3991

1 Instituto Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

2 Escola Nacional da Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

AN INTERNATIONAL PERSPECTIVE ON DISASTERS AND CHILDREN’S MENTAL HEALTH. Hoven, CW; Amsel, LV; Tyano, S. Cham: Springer, 2019. 439p. (, Series: Integrating Psychiatry and Primary Care, ), ISBN: 978-3-030-15872-9.


Saúde mental infantojuvenil e desastres são os conceitos basilares que norteiam o tom e o contexto de An International Perspective on Disasters and Children’s Mental Health, livro sem tradução para o português. Partindo da abordagem de diferentes desastres globais por heterogêneos grupos de pesquisa e equipes de intervenção, é tecida uma perspectiva internacional sobre a relação entre eventos traumáticos em larga escala e saúde mental de crianças e adolescentes. A produção do livro é inspirada em pesquisas norte-americanas desenvolvidas após o atentado de 11 de setembro. O livro, contudo, permite democraticamente 1 que vozes do Norte e do Sul relatem múltiplas histórias e intervenções em saúde mental infantojuvenil após catástrofes mundiais vivenciadas nas últimas décadas.

Desastres são explicados como eventos traumáticos em larga escala, como catástrofes naturais, guerras e acidentes, capazes de afetar os sujeitos individual e coletivamente, ou seja, em suas histórias de vida e de maneira micro e macrossociais. Embora não seja possível predizer precisamente tais eventos, mudanças ecológicas, desigualdades sociais e múltiplas violências são contextos que servem de alerta para sua ocorrência.

Partindo de uma perspectiva ecológica e desenvolvimental para abordar as questões de saúde debatidas no livro, os autores enfatizam aspectos biológicos, comportamentais e sociais 2 num continuum do curso de vida individual, em que fatores pré, peri, pós-natais e que seguem todo o ciclo de desenvolvimento, da infância à velhice, são compreendidos longitudinalmente. O enfoque na saúde mental se dá por sua grande carga de morbimortalidade no mundo, pela correlação comórbida entre as dimensões física e mental e por ser mais sensível às influências da (des)organização social.

A correlação entre os dois conceitos índices do livro segue esta premissa: desastres podem influenciar diretamente a saúde mental de um indivíduo, sendo também sua saúde mental, ao longo da vida, uma proxy da repercussão desses desastres em sua comunidade. Os autores discutem o grande impacto que os desastres representam para a saúde mental de crianças e adolescentes pela vulnerabilidade e dificuldade de compreensão que apresentam e pelas repercussões não apenas imediatas, mas a médio e longo prazo, sejam para si, familiares, pares e eventuais descendentes.

Composto por vinte capítulos e organizado em oito partes, a obra objetiva fornecer informações que podem ajudar comunidades e colaborar com intervenções em saúde mental infantojuvenil durante e após grandes emergências. Nesse sentido, o conteúdo apresentado propõe-se a incentivar estudos e a fomentar políticas públicas de proteção para crianças e adolescentes.

Na primeira parte, dois capítulos apresentam um panorama sobre os desastres na população infantojuvenil; o capítulo um aborda o impacto e as repercussões pré e pós-natais do trauma, apontando bases moleculares e biológicas, com base em modelos animais e humanos. Enfatiza a gravidez como um dos períodos vitais mais vulneráveis, pela repercussão negativa dos diferentes eventos traumáticos na saúde mental na gestante, no concepto, na maternagem e na transgeracionalidade 3. Define-se que um evento precisa ser “estressante o suficiente” para explicar os desfechos negativos e as individualidades orgânicas e subjetividades, argumentando que as variáveis “momento e cronicidade do estressor” são críticas para o seu surgimento. Ainda que seja identificado como desastre a alta prevalência das violências física e sexual em certas comunidades, critica-se aqui o pouco destaque dado no livro à magnitude das violências interpessoal e do Estado, naturalizando-se um cenário cotidiano violento e iníquo.

O capítulo dois complementa essa sessão abordando respostas em saúde pública e intervenções terapêuticas, expondo dados sobre o impacto de desastres e a incidência de transtornos mentais. Ainda que a maioria das crianças demonstre resiliência aos traumas, a magnitude dos desastres (naturais, tecnológicos e complexos) configuram-nos como um problema de saúde pública. O capítulo corrobora o que é descrito pelos relatos posteriores: desastres com lenta recuperação resultam em efeitos agudos e crônicos, alterando a trajetória desenvolvimental esperada. De forma geral, em crianças menores, prevalecem a dificuldade na aquisição de novos marcos, perdas daqueles adquiridos e reações externalizantes; em crianças maiores e adolescentes: depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, comportamento suicida e uso abusivo de substâncias. Não é possível definir um padrão de desfecho à tipologia do desastre; porém, é essencial a compreensão de que a vulnerabilidade infantojuvenil é intensificada diante das desigualdades econômicas e de acesso à saúde, da exposição a múltiplas violências e de problemas comportamentais preexistentes.

Outros 16 capítulos descrevem experiências regionais, compondo a parte mais rica do livro. Estão organizados em seis partes, segundo temas: II - terrorismo (insurgência do Boko Haram na Nigéria; o massacre contra uma escola pública militar no Paquistão; atentado de 11 de setembro e o bombardeio na maratona de Boston, ambos nos Estados Unidos); III - terremoto e tsunamis (catástrofe de 2010, no Chile; terremoto de Wenchuan, China; terremoto de 2010, Haiti); IV - eventos nucleares (acidente de Fukushima, Japão; desastre de Chernobyl em 1986, na atual Ucrânia); V - catástrofes climáticas e geografia (furacão Katrina, Estados Unidos; uso de sistemas de informação geográfica na pesquisa sobre trauma); VI - guerra (genocídio e efeitos transgeracionais, Armênia; conflito armado, Síria; prisioneiros de guerra, Israel); VII - refugiados e direitos humanos (crianças refugiadas; crianças e conflitos armados). Apesar da diversidade de situações, não há nenhuma referência a emergências sanitárias como pandemias. Encontram-se duas breves citações sobre epidemias: a de cólera no Haiti (2010) deflagrada após as destruições por um terremoto; e a experiência japonesa com o acidente nuclear em Fukushima (2011), cujo manejo foi facilitado por uma infraestrutura criada para o enfrentamento da epidemia de SARS (2002). De modo que se observa uma lacuna na obra acerca do impacto na saúde mental infantojuvenil diante de epidemias ou pandemias, como a atual COVID-19.

A última parte do livro é dedicada a abordagens futuras e inicia com um capítulo sobre a intervenção na radicalização juvenil como estratégia de prevenção do terrorismo. Propõe-se uma correlação entre trauma, violência e radicalização juvenil, sugerindo-se ser esta última um fenômeno complexo e precursor do engajamento terrorista. Recorrendo ao modelo ecológico, adota-se a intervenção sistêmica como modelo promotor da resiliência e de prevenção da violência. Embora não descrito, destaca-se que essa radicalização se concentra no mesmo grupo etário no qual estão as maiores taxas de suicídio no mundo 4, o que reforça a compreensão do comportamento suicida como expressão de sofrimento psíquico, mas também de violência.

O livro estimula que as perspectivas, lições e críticas apresentadas sejam abstraídas e sirvam de base para a construção de modelos teóricos que capturem a essência comum dos diferentes desastres, e que comportem os vetores de prevenção e intervenção sobre a saúde mental infantojuvenil. Dois paradigmas são apresentados e apontados como promissores nesse desafio: Teoria Geral dos Sistemas e Economia Comportamental. Ainda que em bases teóricas e percursos empíricos diferentes, a sugestão é que juntos tais paradigmas poderiam colaborar para a abordagem crítica e o manejo inovador diante das grandes tragédias mundiais.

Esta resenha foi escrita durante o isolamento recomendado pelo Ministério da Saúde à população brasileira (março/2020), compreendendo a relevância de pesquisas em saúde mental infantojuvenil que abordem a temática dos desastres. Ainda que o livro não tenha contemplado realidades brasileiras, os recentes desastres de mineradoras, o genocídio da juventude negra e a atual pandemia COVID-19 são situações críticas que precisam ser analisadas para o investimento no bem-estar de crianças e adolescentes. Como sinalizado, por serem assustadores, inesperados e caóticos, a tendência pós-desastre é a geração de resposta caótica. É cedo para afirmar como e quando o Brasil e o mundo sairão desta nova pandemia, mas é certo que novos desastres virão e que a garantia da saúde mental das crianças e adolescentes é uma estratégia crítica e um trunfo à manutenção da humanidade.

Referências

1. Lopes AMH. Múltiplos olhares sobre história única. Tempo e Argumento 2018; 25:385-409. [ Links ]

2. Bronfenbrenner U. Environments in developmental perspective: theoretical and operational models. In: Friedman SL, Wachs TD, editors. Measuring environment across the life span: emerging methods and concepts. Washington DC: American Psychological Association; 1999. p. 3-28. [ Links ]

3. Serpeloni F, Radtke KM, Hecker T, Sill J, Vukojevic V, Assis SG, et al. Does prenatal stress shape postnatal resilience? An epigenome-wide study on violence and mental. Front Genet 2019; 10:269. [ Links ]

4. World Health Organization. Preventing suicide: a global imperative. http://www.who.int/mental_health/suicide-prevention/world_report_2014/en/ (acessado em 23/Mar/2020). [ Links ]

Recebido: 31 de Março de 2020; Aceito: 06 de Abril de 2020

orli.filho@iff.fiocruz.br

Colaboradores

Todos os autores participaram da leitura do livro, elaboração e revisão da resenha.

Informações adicionais

ORCID: Orli Carvalho da Silva Filho (0000-0002-5268-6097); Simone Gonçalves de Assis (0000-0001-5460-6153); Joviana Quintes Avanci (0000-0001-7779-3991).

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons