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Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306On-line version ISSN 1677-941X

Acta Bot. Bras. vol.18 no.3 São Paulo July/Sept. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062004000300026 

Briófitas da Ilha de Germoplasma, reservatório de Tucuruí, Pará, Brasil

 

Bryophytes of Ilha de Germoplasma, Tucuruí Reservoir, Pará, Brazil

 

 

Anna Luiza Ilkiu-BorgesI,1; Ana Cláudia Caldeira TavaresII; Regina Célia Lobato LisboaIII

IDoutoranda da George August University, Göttingen, Alemanha
IIUFRA/Museu Paraense Emílio Goeldi. Bolsista CAPES (anabotanica@ig.com.br)
IIMuseu Paraense Emílio Goeldi, Departamento de Botânica, C. Postal 399, CEP 66040-170, Belém, Pará, Brasil (regina@museu-goeldi.br)

 

 


RESUMO

A Ilha de Germoplasma, localizada no Reservatório de Tucuruí, Pará, é utilizada para manter espécies resgatadas de áreas que foram inundadas pelo represamento do Rio Tocantins em 1984. Neste trabalho foi estudada a brioflora dessa ilha, tendo sido identificadas 12 espécies de musgos e 13 de hepáticas. Estes resultados refletem baixa diversidade de briófitas ocorrendo nessa ilha, em comparação com outras áreas já estudadas no Estado do Pará.

Palavras-chave: briófitas, diversidade, Tucuruí, Pará, Germoplasma


ABSTRACT

The "Ilha de Germoplasma", an island located in the Tucuruí Reservoir, Pará state, Brazil, is used to keep some of the species rescued from areas which were flooded by the Tocantins River, after the construction of the dam, in 1984. In this work we studied the bryophytes of this island, where identified 12 species of mosses and 13 liverworts were found. This result reflects the low diversity of bryophytes species occurring at the island, in comparison to other areas already studied in Pará State.

Key words: bryophytes, diversity, Tucuruí, Pará, Ilha de Germoplasma


 

 

Introdução

Por ocasião do represamento do rio Tocantins, foi formado um lago com aproximadamente 2.840km2, que cobriu cerca de 200 mil hectares de floresta primária. Com a formação do reservatório, as áreas mais elevadas transformaram-se em ilhas, das quais uma foi eleita para servir de banco de germoplasma, onde as espécies restritas às áreas inundadas e espécies consideradas raras e/ou com valor econômico foram mantidas.

A Ilha de Germoplasma está localizada a aproximadamente 3km da barragem de Tucuruí e apresenta 100ha de área, onde são preservadas cerca de 15 mil árvores de 46 espécies diferentes (Costa 2000).

No levantamento florístico realizado para a avaliação do impacto ambiental pela construção da barragem, as briófitas não foram incluídas. Entretanto, esse grupo de plantas apresenta aproximadamente 4.000 espécies (musgos, hepáticas e antóceros) em toda a região neotropical, ou um terço da diversidade de briófitas do mundo (Gradstein et al. 2001) e possui grande importância ecológica, considerando sua capacidade de retenção de água, por servirem de abrigo para diversas espécies de insetos e substrato para germinação de sementes de vários grupos vegetais (Ilkiu-Borges 2000). Além disso, algumas de suas espécies podem ser utilizadas como bioindicadoras de substâncias químicas, poluição, umidade e distúrbio ambiental devido à sensibilidade das briófitas a mudanças de qualidade da água e do ar, umidade disponível, sombra e intensidade de luz (Glime & Saxena 1991; Lisboa & Ilkiu-Borges 1995).

O objetivo desse estudo foi inventariar as briófitas da Ilha de Germoplasma, avaliando sua representatividade nesta reserva fitogenética, e contribuir para o conhecimento da brioflora do Estado do Pará.

 

Material e métodos

As amostras estudadas foram coletadas na Ilha de Germoplasma, Reservatório de Tucuruí, Pará, posicionada geograficamente a 3 º51'58,3''S e 49º38'25,8''W.

O material foi coletado em setembro/2000, de acordo com as técnicas adotadas em Lisboa (1993), sendo as amostras secas ao sol e, após as devidas identificações, depositadas no herbário "João Murça Pires" (MG).

As espécies foram classificadas de acordo com os tipos de substratos onde foram coletadas, segundo o proposto por Robbins (1952): corticícola (tronco vivo), epíxila (árvore morta) e epífila (folha viva).

A identificação baseou-se nas chaves, descrições e ilustrações de Dauphin (2000), Florschutz (1964), Florschütz-De Waard &Veling (1996), Reiner-Drehwald (1998), Schuster (1980), Lisboa (1993), Gradstein (1994) e Ilkiu-Borges (2000).

 

Resultados e discussão

Dentre os 130 espécimes coletados, foram identificadas 25 espécies de briófitas, sendo 13 hepáticas e 12 musgos (Tabela 1).

As 13 espécies de hepáticas estão distribuídas em nove gêneros e apenas uma família, Lejeuneaceae. O número de ocorrências destas espécies foi de 52, onde 47 são corticícolas e cinco epíxilas, não havendo ocorrência de espécies epífilas.

As espécies epífilas são consideradas de "sombra" e particularmente vulneráveis a distúrbios no ecossistema (Gradstein 1997), o que as coloca entre as primeiras briófitas a desaparecer quando a cobertura das florestas é aberta (Gradstein 1992; Pócs 1996). No caso da Ilha de Germoplasma, esse dado demonstra a diferença entre um ambiente primário e uma área de reflorestamento de cerca de 16 anos (na época da coleta do material), que até em termos florestais já resulta em estádio inicial de regeneração. Como exemplo, pode-se comparar com os resultados obtidos na Estação Científica Ferreira Penna, localizada na Floresta Nacional de Caxiuanã, onde foram coletadas 32 espécies de Lejeuneaceae sobre folhas em ecossistemas primários de várzea e terra firme e em uma floresta secundária já em alto estádio de regeneração, sendo encontradas até 12 espécies por folha (Ilkiu-Borges 2000; Ilkiu-Borges & Lisboa 2002).

As 13 espécies de Lejeuneaceae coletadas são comuns e estão amplamente distribuídas na região neotropical e algumas podem estar presentes até em outros continentes, como Cheilolejeunea rigidula que apresenta distribuição afro-americana e Lejeunea flava, Lopholejeunea subfusca, Mastigolejeunea auriculata e Pycnolejeunea contigua que são pantropicais. Ocorrem em diversos tipos de ecossistema, variando de florestas úmidas tropicais em diferentes níveis de altitude a vegetação xeromórfica, incluindo vegetação secundária, podendo desenvolverse em diversos tipos de substrato (Gradstein 1994; Gradstein et al. 2001; Ilkiu-Borges 2000; He 1999; Lücking 1995; Reiner-Drehwald 2000; Schuster 1980).

Lejeunea laetevirens, Lopholejeunea subfusca e Mastigolejeunea auriculata são xerotolerantes (Schuster 1980; Gradstein 1994) e Pycnolejeunea contigua é uma espécie típica de copas de árvores (He 1999), local mais exposto à dessecação em ambiente de floresta.

Todos esses dados levam a um grupo de espécies tolerantes a qualquer tipo de ambiente, não importando o tipo de substrato, o que não surpreende em diversidade específica para uma área de reflorestamento, mas tendo em vista a sua função de banco de germoplasma, torna-se dado de relevância.

Quanto aos musgos, foram registradas 12 espécies, distribuídas em oito gêneros e oito famílias. Quanto ao substrato: 45 foram corticícolas, 29 epíxilas, duas rupestres e duas terrestres, totalizando 78 espécimes (Tabela 1). A espécie mais freqüente foi Sematophyllum subsimplex, comum em madeiras em decomposição e base de árvores do sub-bosque em florestas de terra firme, sendo encontrada também em ramos abaixo do dossel e em vegetação seca de cerrado (Florschütz-De Waard & Velling 1996).

De um modo geral, os musgos também apresentaram resultado semelhante às hepáticas, sendo também espécies comuns estando presentes em diversos inventários realizados no Estado do Pará (Lisboa 1993; Lisboa & Ilkiu-Borges 1995; 2001; Lisboa & Ilkiu-Borges, F. 1996; Lisboa & Nazaré 1997).

A diversidade de briófitas dessa ilha revela-se extremamente baixa quando comparada com resultados obtidos na reserva Mocambo, área de mata secundária dos arredores de Belém, Pará, onde foram identificadas 113 espécies, sendo oito famílias de hepáticas e 13 de musgos (Lisboa & Ilkiu-Borges no prelo).

Devido a ilha estar próxima a áreas com vegetação primária mantidas pela Eletronorte, com o tempo e o estabelecimento da vegetação na ilha as briófitas poderão migrar para esse local, uma vez que apresentam capacidade de dispersão a longas distâncias através de correntes de ar. Portanto, ressalta-se a importância da preservação dessas áreas remanescentes.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem à Companhia Eletronorte, por intermédio dos Srs. Rubens Ghilardi Junior, Valter Roma e Edward Elias Junior, pelo apoio logístico durante o período de excursão à área da Represa de Tucuruí, viabilizando esse trabalho e garantindo a segurança da equipe; ao Sr. Carlos da Silva Rosário, pela assistência técnico-científica durante as coletas.

 

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Recebido em 13/10/2003. Aceito em 28/02/2004

 

 

1 Autor para correspondência: ilkiuborges@yahoo.com.br

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