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Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306On-line version ISSN 1677-941X

Acta Bot. Bras. vol.20 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2006

https://doi.org/10.1590/S0102-33062006000100005 

Florística e fitogeografia da vegetação arbustiva subcaducifólia da Chapada de São José, Buíque, PE, Brasil1

 

Floristics and phytogeography of semideciduous vegetation on the São José plateau, Buíque, Pernambuco State, Brazil

 

 

Ana Paula de Souza Gomes; Maria Jesus Nogueira Rodal2; André Laurênio de Melo

Universidade Federal Rural de Pernambuco, Rua Dom Manuel de Medeiros s/n, CEP 52171-900, Recife, PE, Brasil

 

 


RESUMO

Foi realizado o levantamento da flora angiospérmica de um trecho de vegetação arbustiva subcaducifólia na Chapada de São José, Buíque, Pernambuco, com a finalidade de ampliar o conhecimento sobre a flora daquela chapada, bem como compreender suas relações florísticas com outros conjuntos vegetacionais do Nordeste, especialmente no semi-árido. A flora angiospérmica foi composta por 192 táxons, distribuídos em 130 gêneros e 60 famílias. Euphorbiaceae, Caesalpiniaceae, Myrtaceae, Mimosaceae, Fabaceae e Cactaceae foram as mais representativas em número de espécies. A análise de agrupamento revelou que o tipo de substrato exerce uma forte influência na repartição espacial das espécies dentro do semi-árido e confirmou a existência de um conjunto de espécies indicadoras das áreas sedimentares, formado por Caesalpinia microphylla Mart. (Caesalpiniaceae), Bocoa mollis (Benth.) R.S. Cowan (Fabaceae), Byrsonima gardneriana A. Juss. (Malpighiaceae) e Zanthoxylum stelligerum Turic. (Rutaceae). A flora da área de estudo é relacionada com a da caatinga do cristalino, caatinga de áreas sedimentares e carrasco. Todavia, o alto número de espécies de Myrtaceae, raras na caatinga, o carácter subcaducifólio da vegetação e a presença de Cactaceae e Bromeliaceae, típicas da caatinga, sugerem que a área de estudo representa o final de um gradiente que se inicia em áreas sedimentares situadas em menores altitudes.

Palavras-chave: florística, chapada sedimentar, semi-árido, Nordeste do Brasil


ABSTRACT

A floristic survey was carried out in a semideciduous vegetation on São José plateau with the objective of amplifying the knowledge of its angiospermic flora and establishing its relationship with other vegetations types in the semi-arid region of Northeast Brazil. The flora was composed by 192 taxa belonging to 130 genera and 60 families. Euphorbiaceae, Caesalpiniaceae, Myrtaceae, Mimosaceae Fabaceae and Cactaceae were the families with the highest numbers of species. A cluster analysis indicated influence of the soil type in the distribution of species in the semi-arid region and separated a group of indicator species associated to sandy soils, composed of Caesalpinia microphylla Mart. (Caesalpiniaceae), Bocoa mollis (Benth.) R.S. Cowan (Fabaceae), Byrsonima gardneriana A. Juss. (Malpighiaceae) and Zanthoxylum stelligerum Turic. (Rutaceae). The flora of the area was related to that of the thorn (caatinga) and non thorn deciduous vegetation (carrasco) growing in areas with sandy soils. However, the high number of Myrtaceae species, unusual in caatinga, and the semideciduous character of the vegetation and presence of Cactaceae and Bromeliaceae suggest that the study area probably represents the end of a gradient that begins in sedimentary areas placed at smaller altitudes.

Key words: floristics, sedimentar plateau, semi-arid, Northeastern Brazil


 

 

Introdução

O semi-árido do nordeste brasileiro ocupa cerca de 800.000 km2 e possui flora e vegetação muito diversificadas, em virtude da interação do clima marcadamente azonal, caracterizado por duas estações, uma chuvosa (3-5 meses) e outra seca (7-9 meses), com outros fatores mesológicos (solo, relevo e altitude) e processos geológicos estabelecidos principalmente no Terciário e Quaternário (Andrade 1977; Souza et al. 1994). Durante o Terciário prevaleceram sucessivas e intensas etapas erosivas na superfície da região, desgastando-a profundamente até o limite do embasamento cristalino, deixando, porém, relevos residuais dispersos na depressão interplanáltica, por efeito da erosão diferencial (Ab'Saber 1962). No decorrer daquelas modificações geomorfológicas, formações não florestais, caducifólias e espinhosas se estabeleceram principalmente na depressão enquanto as formações florestais ou arbustivas estacionais não espinhosas ocuparam os relevos residuas (serras e chapadas).

A maioria dos trabalhos quantitativos e qualitativos realizados no semi–árido ocorreu na vegetação da depressão interplanáltica (Tavares et al. 1969, 1975; Souza 1983; Santos 1987; Araújo et al. 1995; Ferraz et al. 1998, entre outros). Os levantamentos realizados nas áreas sedimentares mostram que a flora e a vegetação desses ambientes são muito diversificadas e ainda pouco conhecidas (Andrade et al. 2004).

As áreas sedimentares do semi-árido, que basicamente envolvem bacias e chapadas, apresentam padrões de vegetação bastante complexos, compostos por vegetação ora caducifólia, ora perenifólia, com flora e fisionomia distintas da formação vegetacional circundante, a caatinga. Um exemplo desses padrões pode ser observado na Chapada de São José, no município de Buíque, estado de Pernambuco. Nessa chapada, cujas cotas altitudinais variam de 600 a 1.000 m, foram reconhecidas duas tipologias distintas: a vegetação arbustiva perenifólia, na vertente a barlavento (Rodal et al. 1998), e a vegetação arbustiva caducifólia espinhosa, na vertente a sotavento (Figueirêdo et al. 2000). Todavia, não são os únicos tipos vegetacionais ali encontrados, já que, nos altiplanos daquela chapada ocorre também uma vegetação com flora e fisionomia distintas dos tipos já mencionados.

Assim, o objetivo deste trabalho é ampliar o conhecimento da flora da Chapada de São José, bem como estabelecer suas relações com outras áreas sedimentares do Nordeste, especialmente no semi-árido e, desta forma, contribuir para o conhecimento da região.

 

Material e métodos

Área de estudo – Localiza-se na propriedade do Sítio Pititi, a 15 km da sede do município de Buíque, (8º35'S e 37º15'W), na Chapada de São José, em altitude aproximada de 835 m, tendo como via de acesso principal a estrada Buíque-Catimbau. O clima é do tipo BS'hW (clima quente e seco), típico do semi-árido nordestino, com temperatura e precipitação médias anuais de 26 ºC e 600 mm, respectivamente, com maor precipitação entre os meses de abril a junho (SUDENE 1990).

As serras e morros desse município, localmente denominados Chapada de São José, pertencem à Formação Tacaratu, que repousa discordantemente sobre o cristalino e aflora em diversos pontos da bacia sedimentar do Jatobá, onde se localiza a área de estudo. Aquela formação apresenta arenitos quartzíticos grosseiros e conglomerados, cinza-claro ou arenitos finos cinzentos, amarelos ou róseos (Jacomine et al. 1977). As serras apresentam topos suaves com vales abertos e encostas abruptas em cotas altitudinais que variam de 600 a 1.000 m (Rodrigues, dados não publicados). Nas vertentes a barlavento, ocorre uma vegetação perenifólia arbustiva (Rodal et al. 1998), enquanto nas vertentes a sotavento, há registro de uma vegetação caducifólia arbustiva espinhosa (Figueirêdo et al. 2000). Além desses dois tipos vegetacionais, bastante distintos do ponto de vista florístico e ou fisionômico, merece destaque a vegetação das áreas mais elevadas e planas, a qual possui um conjunto florístico particular.

Coleta e tratamento dos dados – Durante o período de um ano foram realizadas excursões mensais para coleta de ervas, epífitas, trepadeiras, suculentas, parasitas, subarbustos, arbustos e árvores, através de métodos usuais (Mori et al. 1989). O material foi identificado com auxílio de bibliografia especializada (Rudd 1955; Barroso et al. 1978; 1984; 1986; Irwin & Barneby 1978; 1982; Lewis 1987) e por comparação com material previamente identificado por especialistas, incorporado no herbário Professor Vasconcelos Sobrinho (PEUFR).

Todas as espécies coletadas foram listadas por ordem alfabética de família, segundo o sistema de Cronquist (1981). A grafia dos gêneros foi verificada no Brummitt (1992) e a abreviação dos autores das espécies no Brummitt & Powell (1992) e Stafleu & Cowan (1976-1988). Em seguida, foi observado o registro dessas espécies em uma área de cerrado nordestino e em diversos levantamentos realizados em diferentes tipos vegetacionas do nordeste, especialmente do semi-árido.

Para realizar comparações florísticas entre o componente lenhoso (árvores e arbustos) da área de estudo e outros levantamento realizados no nordeste do Brasil, foi elaborada uma matriz binária com a presença-ausência de espécies totalizando 23 listas, incluindo a da área de estudo: uma no cerrado (Castro, dados não publicados); quatro em formações florestas estacionais montanas, os brejos de altitude (Correia, dados não publicados; Ferraz et al. 1998; Moura & Sampaio 2002); sete nas formações caducifólias espinhosas sobre o cristalino de Pernambuco, a caatinga (Rodal, dados não publicados; Ferraz et al. 1998; Alcoforado-Filho et al. 2003); duas listas nas formações caducifólias espinhosas sobre áreas sedimentares do sertão de Pernambuco, a caatinga de areia (Rodal, dados não publicados; Rodal et al. 1999); três em formações caducifólias espinhosas (caatinga) e subcaducifolias/perenifólias não espinhosas (este trabalho e refúgio vegetacional) situadas na Chapada de São José (Rodal et al. 1998; Figueirêdo et al. 2000; este trabalho); três em formações caducifólias não espinhosas localizadas no planalto da Ibiapaba, o carrasco (Araújo et al. 1998a) e três em formações caducifólias espinhosas sobre áreas sedimentares no Piauí, a caatinga de areia (Emperaire 1991; Oliveira et al. 1997; Lemos & Rodal 2002). Foram excluídos os táxons identificados apenas no nível de gênero ou de família.

Os dados da matriz binária foram analisados pelos programas MATRIZ, COEF e CLUSTER, do pacote FITOPAC (Shepherd 1995), sendo aplicados o índice de similaridade de Jaccard e a técnica de ligação média de grupo (UPGMA), em função do seu maior índice de correlação cofenética (COEF). A mesma matriz foi utilizada para a análise das espécies indicadoras pelo método de divisão-ordenação (Hill 1979). Adicionalmente, foi observado o registro das espécies listadas na área de estudo (todos os hábitos) em diversos levantamentos realizados em diferentes tipos vegetacionas do nordeste, especialmente do semi-árido.

 

Resultados e discussão

Nas 350 coletas realizadas durante o levantamento florístico, foram identificadas 192 espécies, distribuídas em 130 gêneros e 60 famílias (Tab. 1). As espécies com populações mais freqüentes foram: Jatropha mutabilis (Euphorbiaceae), Caesalpinia microphylla (Caesalpiniaceae) e grande parte das espécies de Myrtaceae (Eugenia biflora, E. candolleana, Myrcia aff. bellata, Psidium personii e P. riparium), que permaneceram com folhas durante todo o ano, caracterizando a vegetação como subcaducifólia ou semidecídua, de acordo com IBGE (1992). As famílias que mais se destacaram em número de espécies foram: Euphorbiaceae (19), Caesalpiniaceae (11), Myrtaceae (10), Mimosaceae e Fabaceae com nove espécies cada e Cactaceae com sete espécies.

Dentre as espécies arbóreas (15% do total), houve destaque para Mimosaceae (Acacia bahiensis, Piptadenia obliqua, P. stipulacea e P. viridiflora) e Caesalpiniaceae (Caesalpinia ferrea, C. microphylla, Hymenaea courbaril, Peltogyne pauciflora e Senna cana), por sua maior riqueza de espécies.

As arbustivas responderam por 39% das coletas, totalizando 72 espécies. Euphorbiaceae (Cnidoscolus obtusifolius, C. vitifolius, Croton adenodontus, C. glandulosus, C. micans, Croton sp. 1 e Croton sp. 2), Myrtaceae (Campomanesia aromatica, Eugenia biflora, E. candolleana, E. flavescens, Myrcia aff. bellata, Psidium luridum, P. myrsinioides, P. personii e P. riparium) e Caesalpiniaceae (Bauhinia acuruana, B. pentandra, Caesalpinia calycina, Senna rizzini e S. spectabilis), foram as famílias mais expressivas em número de espécies.

No componente subarbustivo, 13% do total das espécies, estiveram bem representadas as famílias Euphorbiaceae (Acalypha multicaulis, Argythamnia sp., Cnidoscolus urens, Croton glutinosus, C. lobatus, C. pedicellatus e Euphorbia comosa) e Malvaceae (Gaya gaudichaudiana, Herissantia tiubae, Pavonia varians, Sida cf. rubifolia e Sidastrum paniculatum).

As herbáceas contribuíram com 19% das espécies coletadas, sendo representadas por Cyperaceae, Poaceae, Commelinaceae (Commelina sp.) e Capparaceae (Cleome diffusa e C. microcarpa).

As trepadeiras, epífitas e hemiparasitas contribuíram com 10%, 3% e 1% das espécies, respectivamente. As trepadeiras pertencem às famílias Asclepiadaceae (Ditassa capillaris e Scubertia sp.), Apocynaceae 0(Skytanthus hancorniaefolius), Bignoniaceae (Anemopaegma laeve, Arrabidea cf. limae e Cuspidaria sp.), Convolvulaceae (Ipomoea subincana e Jacquemontia confusa), Combretaceae (Combretum hilarianum) e Fabaceae (Chaetocalix scandens e Dioclea grandiflora). Como representantes das epífitas haviam: Anthurium affine (Araceae), Catasetum barbatum e Vanilla palmarum (Orchidaceae), Tillandsia recurvata, T. streptocarpa e T. tenuifolia (Bromeliaceae). Na categoria hemiparasita foram encontradas apenas duas espécies Struthanthus polyrhyzus e S. syringifolius (Loranthaceae).

Comparando as espécies da área de estudo com as registradas em diferentes tipos vegetacionais do Nordeste: vegetação caducifolia espinhosa, caatinga (Ferraz et al. 1998; Figueirêdo et al. 2000; Alcoforado-Filho et al. 2003), cerrado (Castro, dados não publicados), vegetação caducifolia não espinhosa, carrasco (Araújo et al. 1998a) e vegetação arbustiva perenifólia, refúgio vegetacional (Rodal et al. 1998), observou-se que, com relação às Mimosaceae, das nove espécies coletadas, cinco (Acacia piauhiensis, Calliandra aeschynomenoides, Mimosa lewisii, Piptadenia obliqua e P. stipulacea) foram citadas no levantamento realizado por Figueirêdo et al. (2000) em uma caatinga de areia. A similaridade com os demais levantamentos se restringiu apenas às espécies Chloroleucon foliolosum, Piptadenia obliqua e P. stipulacea. Com exceção da segunda espécie, as demais não apresentaram uma distribuição preferencial por substrato arenoso, ocorrendo tanto em áreas sedimentares quanto no cristalino.

Piptadenia obliqua parece estar relacionada com o substrato arenoso, visto que ocorreu apenas nos levantamentos realizados em áreas sedimentares (Castro, dados não pulicados; Araújo et al. 1998b; Rodal et al. 1998), fato já observado por Bigarella et al. (1975). Esses autores afirmaram tratar-se de uma espécie típica da maioria das caatingas de substrato arenoso, embora também ocorra em outros habitats. Andrade-Lima (1978) assinalou que a espécie é muito freqüente no carrasco, embora nem sempre a sua presença caracterize esse tipo vegetacional.

Várias espécies de Caesalpiniaceae também ocorreram nos levantamentos realizados nas formações caducifólias (Figueirêdo et al. 2000) e perenifólias (Rodal et al. 1998) da Chapada de São José. O registro de Bauhinia acuruana, Caesalpinia microphylla, Chamaecrista flexuosa, Hymenaea courbaril, Senna cana e S. rizzini nos levantamentos daquela chapada indica que essas espécies estão mais ligadas ao substrato arenoso que propriamente às condições topográficas ou pluviométricas, o que é confirmado pela análise dos rótulos de exsicatas, os quais indicam a presença dessas espécies em áreas com substrato arenoso em diferentes pontos do semi-árido, como a Chapada do Araripe, entre Pernambuco e Ceará, Serra Velha, no Piauí, e Ibiapaba, entre Piauí e Ceará.

Das 19 espécies de Euphorbiaceae encontradas na área, a maioria ocorre em áreas de caatinga sobre o cristalino ou sedimentos arenosos (Ferraz et al. 1998; Figueirêdo et al. 2000; Alcoforado-Filho et al. 2003).

O grande número de espécies de Myrtaceae reforça a importância dessa família nas chapadas sedimentares nordestinas, como as estudadas por Araújo et al. (1998b) e Rodal et al. (1998). Ressaltase, todavia, que as espécies são distintas, com exceção de Campomanesia aromatica.

Das nove espécies de Fabaceae, Bocoa mollis e Dalbergia cearensis foram citadas por Araújo et al. (1998b) em carrasco, enquanto Zornia sericea foi listada por Rodal et al. (1998) em um refúgio vegetacional e Lonchocarpus araripensis citada por Figueirêdo et al. (2000) em caatinga sobre sedimentos arenosos. Apenas B. mollis foi comum ao carrasco, ao refúgio vegetacional e à caatinga sobre sedimentos arenosos.

Todas as espécies de Cactaceae encontradas na área de estudo foram citadas para caatinga (Ferraz et al. 1998; Figueirêdo et al. 2000; Alcoforado-Filho et al. 2003). Apenas Cereus jamacaru foi listada por Araújo et al. (1998b) para a vegetação de carrasco, confirmando as observações de Andrade-Lima (1978) sobre a baixa ocorrência de Cactaceae naquele tipo vegetacional.

Pilosocereus tuberculatus foi considerada por Andrade-Lima (1989) como típica de vegetação caducifólia espinhosa com substrato arenoso, fino e alvo, enquanto Zappi (1994) comentou que P. pachycladus possui ampla distribuição geográfica, podendo ser encontrado em caatingas sobre solo arenoso ou pedregoso. Apesar de Cactaceae e Euphorbiaceae do Sitio Pititi ocorrerem nas áreas de caatinga instaladas sobre o cristalino, o alto número de Myrtaceae, táxon pouco comum na caatinga, revela a complexidade florística da área.

A Fig. 1 mostra, por meio de um dendrograma, as relações florísticas do componente lenhoso da área de estudo com 22 áreas pesquisadas em formações do semi-árido e cerrado nordestinos. Em um primeiro nível de agrupamento, houve uma separação em dois grandes grupos: A - englobando uma única área de cerrado e B  as demais formações do semi-árido nordestino, onde adicionalmente, podem ser reconhecidos três conjuntos de áreas. B1 - formações florestais estacionais montanas; B2.1 - formações caducifólias, subcaducifólias e perenifólias assentadas em áreas sedimentares da Chapada de São José em Pernambuco e do planalto da Ibiapaba, entre o Ceará e o Piauí e B2.2 - formações caducifólias espinhosas do cristalino e do sedimento, localizadas no sertão pernambucano.

 

 

Tais resultados indicam a influência do substrato na repartição espacial dos tipos vegetacionais do semi-árido. Além disso, a altitude parece ser um aspecto importante na repartição dos diferentes conjuntos florístícos. Um exemplo dessa influência pode ser constatada quando se considera a separação das florestas montanas e do fato dos levantamentos realizados por Rodal (dados não publicados) e Rodal et al. (1999) não se reunirem ao grupo dos levantamentos da Chapada de São José, da qual estão próximos. Embora ainda haja poucos levantamentos em áreas sedimentares (bacias e chapadas), é possível supor que, pelo menos ao norte do rio São Francisco, a flora das áreas situadas em bacias sedimentares já bastante erodidas e de menores altitudes (> 600 m), como a estudada por Rodal et al. (1999), tenham maior influência da flora do embasamento cristalino, situado em menores altitudes. Tal observação se confirma quando se considera que os levantamentos realizados nos terrenos mais elevados como os da Chapada de São José, bastante próximos das áreas estudadas nos terrenos de menor altitude da bacia do Jatobá (Rodal et al. 1999), tiveram maior similaridade com os levantamentos realizados no planalto de Ibiapaba, entre o Ceará e o Piauí.

A análise das espécies indicadoras (divisão-ordenação), baseada nas 495 espécies registradas em 23 listas, incluindo a deste trabalho, confirma os resultados da análise de agrupamento. Em um primeiro nível, separa: 1 - o grupo das áreas da vegetação caducifólia espinhosa instalada no cristalino/sedimento e da floresta montana e 2 - o grupo do cerrado piauiense, as formações espinhosas e não espinhosas da Chapada de São José e do planalto da Ibiapaba.

Em um segundo nível, a análise de espécies indicadoras do primeiro grupo mostra que Albizia polycephala, Casearia mariquitensis, Machaerium angustifolium e Randia nitida entre outras, podem ser consideradas indicadoras da florestas, enquanto Aspidosperma pyrifolium, Cnidoscolus vitifolius, Jatropha mollissima, Ziziphus joazeiro dentre outras, indicadoras da caatinga. Como espécies indicadoras do segundo grupo podemos citar, entre outras: Bocoa mollis, Byrsonima gardneriana, Caesalpinia microphylla, Zanthoxylum stelligerum. Assim como na análise de agrupamento, a de espécies indicadoras também sugere que a flora lenhosa das áreas de caatinga situadas em bacias sedimentares já bastante erodidas (Rodal et al. 1999) tem maior influência da flora da caatinga instalada no cristalino.

Os resultados acima apresentados mostraram que o tipo de substrato exerce uma forte influência na repartição espacial das espécies dentro do semi-árido, e confirmou existência de um conjunto de espécies ligadas aos diferentes tipos vegetacionais das chapadas e bacias sedimentares, formado por Bocoa mollis, Byrsonima gardneriana, Caesalpinia microphylla, Zanthoxylum stelligerum, freqüentemente encontradas nas formações vegetacionais instaladas em substrato arenoso.

A presença e riqueza de cactáceas e bromeliáceas na área de estudo, indica uma maior afinidade com a vegetação caducifólia espinhosa (caatinga). Por outro lado, a riqueza de Myrtaceae é incomum para áreas de caatinga, mesmo naquelas situadas em áreas sedimentares. Com relação à flora do carrasco, é possível observar que, embora também tenha um elevado número de Myrtaceae, são praticamente ausentes às cactáceas e bromeliáceas. Como já foi mencinado anteriormente, as Myrtaceae da área de estudo e do carrasco são distintas.

Tais resultados mostram que a flora das formações não florestais caducifólias, espinhosas ou não, situadas em áreas sedimentares, compartilham espécies, havendo uma substituição das espécies em função da altitude Todavia, vale ressaltar que são espécies distintas, dependendo dos tipos vegetacionais comparados. Essa mudança da flora em função das variáveis ambientais não indica necessáriamente que a flora dessas áreas tenha a mesma história evolutiva. A estreita relação florística entre as formações caducifólias das chapadas sedimentares nordestinas, mesmo considerando as distâncias que as separa, sugere que tenham tido ligações anteriores ao intenso processo de aplainamento ocorrido a partir do Terciário.

Do mesmo modo, não se pode supor que a vegetação não florestal caducifólia espinhosa do cristalino (caatinga) e das florestas estacionas montanas (brejos de altitude), situadas em áreas não sedimentares represesentem a mesma flora. Mais uma vez, parece mais plausível supor que sejam conjuntos florísticos residuais de outras épocas geológicas e que hoje se mantem no semi-árido devido às condições ecológicas atuais serem distintas daquelas presentes nas áreas mais baixas e que as circundam (caatinga).

Vale destacar a necessidade de mais estudos em caatingas instaladas em áreas sedimentares situadas em cotas altitudinais inferiores a 600 m para que melhor se possa compreender a caatinga como um todo.

 

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Recebido em 14/10/2004. Aceito em 22/06/2005

 

 

1 Parte da dissertação de mestrado da primeira Autora
2 Autor para correspondência: mrodal@terra.com.br

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