SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.23 issue2Reproductive success of four species of Eugenia L. (Myrtaceae)A new species of Coussarea Aubl. (Rubiaceae) from the atlantic forest of Bahia state, Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306On-line version ISSN 1677-941X

Acta Bot. Bras. vol.23 no.2 São Paulo Apr./June 2009

https://doi.org/10.1590/S0102-33062009000200025 

ARTIGOS

 

Composição florística de florestas estacionais ribeirinhas no estado de Mato Grosso do Sul, Brasil1

 

Floristic composition of seasonal riparian forests in Mato Grosso do Sul state, Brazil

 

 

Vivian Ribeiro Baptista-MariaI,2; Ricardo Ribeiro RodriguesII; Geraldo Damasceno JuniorIII; Fabrício de Souza MariaV; Vinicius Castro SouzaIII

IEscola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Departamento de Ecologia Aplicada, Centro de Energia Nuclear Universidade de São Paulo, Piracicaba, SP, Brasil (endereço para correspondência: Rua 02 de Outubro 165, Vila Recreio, 79290-000 Bonito, MS, Brasil)
IIUniversidade de São Paulo, Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Departamento de Ciências Biológicas, C. Postal 09, 13418-900 Piracicaba, SP, Brasil
IIIUniversidade Federal de Mato Grosso do Sul, Departamento de Biologia, C. Postal 549, 79070-900 Campo Grande, MS, Brasil
IVInstituto de Ensino Superior da Funlec, Av. Cel. Rebuá s.n., Vila Recreio, 79290-000 Bonito, MS, Brasil

 

 


RESUMO

O presente estudo teve como objetivos caracterizar a composição florística em dois trechos de floresta estacional semidecidual associada ao rio Formoso, Bonito, MS, e em três trechos de florestas estacionais deciduais e semideciduais associadas aos rios Salobra, Salobrinha e Perdido ocorrentes no Parque Nacional da Serra da Bodoquena (76.481 ha) - única unidade de Conservação Federal de Proteção Integral implantada no Estado de Mato Grosso do Sul. O levantamento florístico foi realizado mensalmente entre o período de outubro/2004 a março/2006, onde foram coletadas fanerógamas em fase reprodutiva (flores e frutos), através do método de tempo de avaliação. O levantamento florístico resultou em 56 famílias, 184 gêneros e 307 espécies. Do total das espécies, 68% apresentaram hábito arbóreo, 17% arbustos, 14% foram lianas e apenas 1% palmeiras. A família Fabaceae (Leguminosae), representada por 51 (16,6%) espécies, foi a de maior riqueza. Os resultados obtidos neste trabalho contribuíram para o conhecimento da flora sul-mato-grossense e sua distribuição geográfica, reforçando a necessidade de conservação destas matas ribeirinhas e fornecendo subsídios para os planos de restauração das áreas degradadas do entorno da unidade de conservação e das áreas de proteção permanente (APP's) dos rios ocorrentes na região.

Palavras-chave: flora sul-mato-grossense, floresta estacional, Parque Nacional da Serra da Bodoquena


ABSTRACT

This study aimed to characterize the floristic composition in two stretches of seasonal semideciduous forest associated with the Formoso River, Bonito, Mato Grosso do Sul State, and in three stretches of seasonal deciduous and semideciduous forests associated with the Salobra, Salobrinha and Perdido rivers in Bodoquena Plateau National Park (76,481 ha) - the only Federal Conservation unit with Integral Protection in the state of Mato Grosso do Sul. The floristic survey was carried out monthly from October/2004 to March/2006, where flowering and fruiting phanerogams were collected by the method of evaluation time. The floristic survey resulted in 56 families, 184 genera and 307 species. Of the total number of species, 68% were trees, 17% shrubs, 14% lianas and only 1% palms. The Fabaceae family (Leguminosae), represented by 51 (16.6%) species, was the most species-rich. These results increase our knowledge of the Mato Grosso do Sul flora and its geographic distribution, thus emphasizing the need for conservation of these riparian forests and providing subsidies for restoration projects of the degraded areas around the conservation unit and permanent protection areas (APPs) of regional rivers.

Key words: seasonal forest, flora, Bodoquena Plateau National Park


 

 

Introdução

As formações savânicas, variando de campos limpos até cerradões (Cole 1986; Ribeiro & Walter 1998) predominam no Brasil Central compondo o bioma Cerrado em 65% do território. Porém, as formações florestais são expressivas mesmo cobrindo menor extensão. As florestas estacionais ribeirinhas apesar de estreitas, formam uma extensa malha dendrítica envolvendo os cursos d'água de modo que, mesmo ocupando apenas 5% da área, contém 2.031 espécies de fanerógamas (Felfili et al. 2001a), representando 30% da flora fanerogâmica do Brasil Central (Mendonça et al. 1998). Assim, a importância de conhecer estes ambientes e entender os mecanismos de conservação, composição, estrutura, diversidade e ecologia das espécies vegetais e a sua relação com os fragmentos a que estão ligados.

As informações resultantes de levantamentos florísticos (Oliveira Filho & Ratter 1995) tem sido importantes para compreensão dos padrões biogeográficos da vegetação, determinando áreas prioritárias para a conservação e restauração. Os levantamentos estritamente florísticos permitem comparações relativamente simples e eficientes entre um grande número de áreas geograficamente próximas e/ou florísticamente parecidas (van den Berg & Oliveira Filho 2000).

Entretanto, são poucos os estudos florísticos sobre as florestas decíduas e semidecíduas no Brasil Central (Felfili 2003; Marimon et al. 2001), em especial na Serra da Bodoquena, localizada na região sudoeste de Mato Grosso do Sul, onde encontra-se um dos últimos remanescentes de floresta estacional semidecidual e decidual de grande extensão, com qualidade preservada (Pott & Pott 2003). As florestas estacionais encontradas nessa região, na sua grande maioria estão presentes nas margens dos rios ou topo de morros, porém mesmo protegidas por legislação específica, estas formações foram e continuam sendo drasticamente eliminadas em função da expansão pecuária e agrícola, e da exploração madeireira, destinadas ao uso civil e industrial (na forma de carvão). Desta forma, as constantes ameaças e a escassez de estudos sobre a flora da Serra da Bodoquena e áreas consideradas de entorno reforçam a necessidade urgente de levantamentos florísticos em trechos de matas ribeirinhas, visando subsidiar ações voltadas ao manejo, preservação e recomposição dessas formações (Battilani et al. 2005).

Neste contexto, este trabalho tem por objetivo estudar a composição florística em dois trechos de floresta estacional semidecidual associada ao rio Formoso, Bonito, MS, bem como em quatro trechos de florestas estacionais deciduais e semideciduais associadas aos rios Salobra, Salobrinha e Perdido ocorrentes no Parque Nacional da Serra da Bodoquena (76.481 ha), única unidade de Conservação Federal de Proteção Integral implantada no Estado de Mato Grosso do Sul, e que abriga amostras significativas de florestas estacionais ribeirinhas. Os resultados obtidos permitiram produzir uma lista de espécies vasculares existentes nas áreas amostradas, contribuindo assim para o maior conhecimento da flora sul-mato-grossense, sua distribuição geográfica e no fornecimento de subsídios para os planos de restauração das áreas degradadas do entorno da unidade de conservação e das áreas de proteção permanente (APP's) dos rios ocorrentes na região.

 

Material e métodos

Área de estudo - O estudo foi desenvolvido em duas unidades de relevo distintas, a Serra da Bodoquena, onde encontra-se inserido o Parque Nacional da Serra da Bodoquena e a Zona Serrana Oriental a leste da Serra da Bodoquena, a qual está inserida a Bacia Hidrográfica do rio Formoso (21º-21ºS e 56º-56ºW). O clima da região é do tipo Tropical Chuvoso de Savana (Aw) segundo Köppen (1948). A precipitação média anual varia de 1.400 a 1.600 mm, apresentando dois períodos distintos: um chuvoso (outubro a março) e outro seco (abril a setembro). As temperaturas médias anuais estão entre 22 º e 26 ºC. De maio a agosto a temperatura média está abaixo de 20 ºC e em junho-julho pode ficar abaixo de 18 ºC. A média das máximas anuais fica entre 27 º e 32 ºC, com máximas absolutas entre 35 º e 40 ºC. As mínimas absolutas podem chegar a 0 ºC. A umidade relativa do ar é baixa, raramente atinge 80%. De acordo com o sistema Brasileiro de Classificação de Solos (Embrapa 1999), na bacia do rio Formoso, predominam os solos do tipo Argissolos, de textura arenosa, média, profundos, monofásicos, não hidromórficos, apresentando fertilidade natural baixa e horizonte A moderado. No PARNA da Serra da Bodoquena há predominância de solos do tipo rendzina, caracterizados por serem pouco desenvolvidos, com horizonte A chernozênico sobre a rocha calcária ou sobre um horizonte C derivado desta. O Parque Nacional da Serra da Bodoquena é dividido em dois grandes blocos geomorfológicos com características distintas: um ao norte com área de 27.793 ha e outro ao sul, com 48.688 ha. Ao norte, onde a drenagem converge para o rio Salobra, as feições fluviais são mais marcantes do que as cársticas, havendo a ocorrência de rios entalhados (cânions), onde a borda ocidental da serra apresenta escarpas íngremes e reentrâncias profundas e estreitas. A vegetação é caracterizada pelo contato de fisionomias florestais e savânicas. Ao sul, as águas drenam principalmente para o rio Perdido, e as feições cársticas são mais comuns que as fluviais. Ambos os compartimentos apresentam calcários calcíticos e acredita-se que as diferenças entre eles sejam atribuídas ao maior soerguimento tectônico da parte norte (Sallun et al. 2004; Alvarenga et al. 1982). As coletas de materiais botânicos foram realizadas em seis propriedades rurais, sendo duas associadas ao rio Formoso, duas ao rio Perdido (fragmento sul do Parque), uma ao rio Salobrinha e uma ao rio Salobra, sendo os dois últimos situados no fragmento norte do Parque Nacional da Serra da Bodoquena (Fig. 1):

 

 

Área 1 - Fazenda Baía Bonita (21º09'S e 56º26'W), propriedade do Sr. Luiz Alberto Chemin e Nelson Izidoro Chemin Junior, localizada as margens do rio Formoso. Vegetação ribeirinha, composta por Floresta Estacional Semidecidual Ribeirinha (Rodrigues 2004).

Área 2 - Fazenda América (21º14'S e 56º33'W), propriedade do Sr. Luiz de Brito, localizada as margens do rio Formoso. Vegetação ribeirinha, composta por Floresta Estacional Semidecidual Ribeirinha (Rodrigues 2004).

Área 3 - Fazenda Harmonia (21º13'S e 56º45'W), propriedade da Associação das Famílias para a Unificação e Paz Mundial, localizada as margens do rio Perdido. Vegetação ribeirinha, composta por Floresta Estacional Decidual Ribeirinha (Rodrigues 2004).

Área 4 - Fazenda Campo Verde (21º18'S e 56º43'W), propriedade do Sr. Marcelo Barros, localizada as margens do rio Perdido. Vegetação ribeirinha, composta por Floresta Estacional Semidecidual Ribeirinha (Rodrigues 2004).

Área 5 - Fazenda Santa Laura (20º46'S e 56º44'W), propriedade do Sr. Antônio Amado, localizada as margens do rio Salobra. Vegetação ribeirinha, composta por Floresta Estacional Semidecidual Ribeirinha (Rodrigues 2004).

Área 6 - Fazenda Rancho Branco (20º40'S e 56º46'W), propriedade do IBAMA (desde 2006), localizada as margens do rio Salobrinha. Vegetação ribeirinha, composta por Floresta Estacional Semidecidual Ribeirinha (Rodrigues 2004).

Amostragem - O levantamento florístico foi realizado mensalmente entre o período de outubro/2004 a março/2006, nas florestas ribeirinhas ocorrentes no rio Formoso, Perdido, Salobra e Salobrinha. O método utilizado foi o tempo de avaliação, ou seja, cronometrando a amostragem em caminhadas previamente estabelecidas cortando todo o trecho florestal, até não aparecer novas espécies em 15 minutos de amostragem contínuas (Kotchetkoff 2003; Santin 1999). A suficiência da amostragem foi verificada através da curva do coletor, com base no número acumulado de novas ocorrências em função dos meses de coleta. O mesmo número de horas amostrais foram utilizadas em todas as áreas em estudo. Durante as caminhadas de coleta, foram amostradas espécies em fase reprodutiva e predominantemente de porte arbustivo-arbóreo, lianas e palmeiras. Houve repetição de coletas de uma mesma espécie quando esta foi encontrada em diferentes fases reprodutivas (com flores ou frutos). Foram percorridas trilhas no interior e bordas das florestas visando à amostragem da vegetação em diferentes fases sucessionais. A coleta do material botânico foi realizada com o auxílio de uma tesoura de poda alta, adaptada a duas varas ajustáveis de alumínio, chegando a atingir 8 m de altura. As árvores de maior porte foram escaladas com esporas por profissional habilitado. Durante as coletas com podão e espora o cronômetro foi zerado, para não interferir no método utilizado. O material coletado de cada indivíduo foi agrupado com fita crepe, numerado e transportado em sacos plásticos. Posteriormente, o material foi prensado e herborizado pelos procedimentos usuais e identificado com auxilio de literatura especializada e comparações com exsicatas existentes em herbários (ESA, CGMS e COR) ou ainda a consulta a especialistas. Os espécimes foram agrupados em famílias de acordo com o sistema APG II (APG II 2003; Souza & Lorenzi 2005). Os autores das espécies foram confirmados nas bases de dados disponíveis na internet (Missouri Botanical Garden 2007). Após a identificação, o material foi incorporado ao herbário da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz"/USP (ESA), com duplicatas na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/UFMS (CGMS). As espécies foram classificadas de acordo com o hábito, visando mostrar a distribuição da riqueza florística da área de estudo. Para isto foram consideradas as definições apresentadas em Dislich (1998): i) Árvore - Planta lenhosa que ramifica acima de 0,5 m; ii) Arbusto-Planta pequena, de base lenhosa, que ramifica abaixo de 0,5 m de altura; iii) Palmeira - Planta que apresenta caule do tipo estipe, pertencentes à família Arecaceae; e iv) Liana - toda planta de hábito escandente de forma ampla, tanto herbácea quanto lenhosa. A similaridade florística entre as áreas foi verificada através dos índices qualitativos de Jaccard (1912) e Sørensen (1948) descritos em van Tongeren (1995). Para verificar a similaridade estrutural entre as áreas utilizou-se a Análise de Correspondência (CA), que realiza a ordenação das espécies e das áreas de amostragem simultaneamente, permitindo o exame das relações entre ambas numa única análise.

 

Resultados e discussão

O levantamento florístico das áreas florestais ribeirinhas presentes no Parque Nacional da Serra da Bodoquena e no rio Formoso resultou em 609 coletas, distribuídas em 56 famílias, 184 gêneros e 307 espécies (Tab. 1). A curva do coletor mostrou uma tendência à estabilização de acréscimo de espécies a cada coleta realizada nas áreas amostradas (Fig. 2). As dez famílias de maior riqueza florística (Fig. 3) contribuíram com 53,09% das espécies amostradas, e as demais 46 famílias com 46,91% das espécies. A família Fabaceae, representada por 51 espécies, foi a de maior riqueza, perfazendo 16,61% do total de espécies registrada. Dentro desta família, obtivemos 19 espécies para subfamília Mimosoideae (6,19%), 14 espécies para Faboideae (4,56%), 18 para Caesalpinioideae (5,85%). Seguida tivemos a família Myrtaceae, representada por 21 espécies (6,84%), Sapindaceae e Euphorbiaceae que representaram 14 espécies cada (4,56%), Moraceae representada por 13 espécies (4,23%), Meliaceae com 12 espécies (3,90%), Rutaceae e Rubiaceae com dez espécies (3,25%) e por fim com 09 espécies cada foram registradas as famílias Bignoniaceae e Malvaceae (2,93%). Onze famílias (19,64%) foram representadas por somente uma espécie. Estes resultados são semelhantes aos obtidos por Battilani et al. (2005), Felfili et al. (2001b), Rodrigues & Nave (2004) e Salis et al. (1994) que citam as famílias Fabaceae, Myrtaceae, Meliaceae, e Rutaceae como as mais representativas em número de espécies arbustivo-arbóreas nas matas ribeirinha. A família Myrtaceae sempre contribuiu com muitas espécies nas matas ribeirinhas (Nunes et al. 2003). Dados evidenciam a importância das Fabaceae nas formações vegetacionais do Mato Grosso do Sul e sudeste do Brasil. Nas florestas estacionais semideciduas submontanas e ribeirinhas do Mato Grosso do Sul, as Fabaceae são citadas como uma família que apresenta maior riqueza em Sciamarelli (2005) e Romagnolo & Souza (2000). O mesmo foi verificado para as florestas estacionais semideciduas do interior de São Paulo (Cavassan et al. 1984; Bertoni & Martins 1987; Pagano & Leitão Filho 1987; Rodrigues et al. 1989), nas florestas ribeirinhas da serra da Bodoquena (Damasceno-Junior et al. 2000) e por Pagotto & Souza (2006) no inventário biológico do Complexo Aporé-Sucuriú/MS. Leitão Filho (1982), descrevendo a estrutura das matas ciliares, relata que nos estratos superiores existe clara dominância de Fabaceae, principalmente por Mimosoideae. Nota-se o predomínio de famílias constituídas predominantemente por espécies de hábito arbóreo (Tab. 2). Nas florestas estacionais ribeirinhas estudadas, as espécies arbóreas representaram 68% do total de espécies amostradas, os arbustos totalizaram 17%, as lianas somaram 14%, e as palmeiras apenas 1%. O destaque de lianas na comunidade deve ser ainda maior do que foi constatado neste estudo, considerando que as lianas estão subamostradas, pois a grande dificuldade de coleta e visualização destas formas de vida em áreas com dossel em torno de 16 m. Os gêneros que mais contribuíram com o número de espécies foram Eugenia, com 11, Ficus com 10, Trichilia com oito, Piper com sete espécies, seguidos por Aspidosperma,Machaerium e Inga representados por cinco espécies cada. Ao longo de toda a área estudada foi observada elevada abundância de Attalea phalerata Mart. ex Spreng. (Arecaceae) e freqüentes agrupamentos de Guadua cf. chacoensis (Rojas) Londõno & P.M. Peterson (Poaceae). Estas espécies predominam em determinados locais devido principalmente as características edáficas, e topográficas e, possivelmente, como resultado de perturbações sofridas em passado recente (Battilani et al. 2005).

 

 

 

 

Considerando que duas áreas podem ser florísticamente semelhantes quando o índice de Jaccard é superior a 25% (Mueller-Dombois & Ellemberg 1974; Saiz, 1980), as seis áreas amostradas apresentaram-se muito semelhantes, com mais de 30% de similaridade no índice de Jaccard e acima de 45% no índice de Sørenson (Tab. 3). Neste contexto, as pequenas diferenças na comparação florística, constatadas pelos índices de similaridade, também foram observadas na comparação estrutural, revelada pela análise de correspondência (Fig. 4). As pequenas diferenças observadas entre as áreas 4 -Campo Verde e 5 - Santa Laura, podem ser devido às preferências das espécies ao habitat, por aleatoriedade na reocupação de áreas com histórico de degradação intenso ou aspectos biogeográficos comprovados no parágrafo subseqüente.

 

 

Verificou-se nos trechos de florestas estacionais ribeirinhas estudadas uma composição florística mista, onde várias espécies encontradas são citadas por Prado & Gibbs (1993), como sendo parte das formações pleistocênicas residuais, associadas a paleoclimas secos, que ocorrem em três núcleos na América do Sul. Algumas espécies encontradas no presente estudo ocorrem nessas formações pleistocênicas mais restritas a áreas secas, como Celtis pubescens Spreng. (Cannabaceae), enquanto outras são comuns nas partes mais úmidas dessas formações como Hymenaea courbaril L. (Fabaceae), espécie de distribuição Amazônica. Outras espécies são encontradas em áreas de várzea sazonalmente inundáveis nos rios da Amazônia e nas áreas de mata de galeria em savanas inundáveis da bacia amazônica na Bolívia, como Casearia gossypiosperma Briq. (Salicaceae) e Vitex cymosa Bertero ex Spreng. (Lamiaceae) (Klinge et al. 1990). Espécies, como Tabebuia heptaphylla (Vell.) Toledo (Bignoniaceae), são freqüentes no eixo Argentina-Paraguai, nas áreas úmidas do Chaco, atingindo o Sul do Brasil indo até o Nordeste via Mata Atlântica (Gentry 1992). Sterculia apetala (Jacq.) H. Karst. (Malvaceae) e Guibourtia hymenifolia (Moric.) J. Leonard (Fabaceae) são espécies típicas da caatinga arbórea (Pott & Pott 2003). Enterolobium contortisiliquum (Vell.) Morong (Fabaceae), típicas das áreas de matas semidecíduas. Unonopsis lindmanii R.E. Fr. (Annonaceae), é uma espécie ombrófila de distribuição geográfica restrita ao Brasil Central (Oliveira Filho & Ratter 2002). Nos terrenos planos contém certas árvores da Mata Atlântica, de distribuição mais ampla, como Parapiptadenia rigida (Benth.) Brenan (Fabaceae), Patagonula americana L. (Boraginaceae) e Myrcianthes pungens (O. Berg) D. Legrand (Myrtaceae) (Pott & Pott 2003). Existem também espécies das matas de "palo-branco", que fazem parte das matas de transição do Chaco, na Argentina, como Calycophyllum multiflorum Griseb. (Rubiaceae) (Pott & Pott 2003).

Os resultados obtidos neste trabalho contribuem para o conhecimento da flora sul-mato-grossense, e sua distribuição geográfica, reforçando a necessidade de conservação destas matas ribeirinhas, além de fornecer subsídios para os planos de restauração das áreas degradadas do entorno da unidade de conservação e das áreas de proteção permanente dos rios ocorrentes na região. Entretanto, existe a necessidade de estudos complementares em outros trechos de florestas estacionais ribeirinhas, com as mesmas características físicas das áreas estudadas, de forma a possibilitar comparações quanto à riqueza florística.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem ao IBAMA - regional de Bonito, MS, em especial ao Dr. Adílio Valadão de Miranda (Chefe do Parque Nacional da Serra da Bodoquena), Ivan Salzo e Alexandre Matos Pereira, pelo apoio logístico, auxílio na caracterização das áreas amostradas e levantamento de campo; ao Sr. Nelson Izidoro Chemin Junior e Luiz de Brito por autorizar a realização deste estudo em suas propriedades; a Profa. Dra. Ângela Lúcia B. Sartori, ao Marcos Sobral, Carol Polido, Flávio Alves e Fiorella F.M. Capelo, pela ajuda na identificação do material botânico.

 

Referências bibliográficas

Alvarenga, S.M.; Brasil, A.E. & Del'arco, D.M. 1982. Projeto RADAMBRASIL, Folha SF-21 - Campo Grande, 2- Geomorfologia. Rio de Janeiro. v. 28, 125-18 p.         [ Links ]

APG II. 2003. An update of the Angiosperm Phylogeny Group classification for the orders and families of flowering plants: APG II. Botanical Journal of the Linnean Society 141: 399-436.         [ Links ]

Battilani, J.L.; Scremin-Dias E. & Souza, A.L.T. 2005. Fitossociologia de um trecho da mata ciliar do rio da Prata, Jardim, MS, Brasil. Acta Botanica Brasilica 19: 597-608.         [ Links ]

Bertoni, J.E.A. & Martins, F.R. 1987. Composição florística de uma floresta ripária na Reserva Estadual de Porto Ferreira, SP. Acta Botanica Brasílica 1: 17-16.         [ Links ]

Cavassan, O.; Cesar, O. & Martins, F.R. 1984. Fitossociologia da vegetação arbórea da Reserva Estadual de Bauru, estado de São Paulo. Revista Brasileira de Botânica 7: 91-106.         [ Links ]

Cole, M.M. 1986. The savannas. Biogeography and geobotany. London, Academic Press.         [ Links ]

Damasceno Junior G.A.; Nakajima J.N. & Rezende U.M. 2000. A floristic survey of the Rio Negro, Rio Aquidauana, and Rio Miranda watersheds (headwaters) of the Pantanal, Mato Grosso do Sul, Brasil.Pp. 34-43. In: P.W. Willink; B. Chernoff; L.E. Alonso; J.R. Montambaut & R. Lourival (eds.). A biological assessment of the Aquatic Ecosystems of the Pantanal, Mato Grosso do Sul, Brasil. RAP. Bulletin of Biological Assessment 18. Conservation International, Washington, DC.         [ Links ]

Dislich, R. & Mantovani, W. 1998. A flora de epífitas vasculares da reserva da Cidade Universitária "Armando Salles de Oliveira" (São Paulo, Brasil). Boletim de Botânica da Universidade de São Paulo 17: 61-83        [ Links ]

Embrapa, 1999. Sistema brasileiro de classificação de solos. Rio de Janeiro, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Centro Nacional de Pesquisas de Solos.         [ Links ]

Felfili, J.M. 2003. Fragmentos florestais estacionais do Brasil central: diagnóstico e proposta de corredores ecológicos. Pp. 139-160. In: Costa, R. B. Fragmentação florestal e alternativas de desenvolvimento rural na região Centro-Oeste. Campo Grande, UCDB.         [ Links ]

Felfili, J.M. & Silva Junior, M.C. (orgs.). 2001a. Biogeografia do bioma cerrado. Estudo fitofisionomico na Chapada do Espigão Mestre do São Francisco. Brasília, UnB.         [ Links ]

Felfili, J.M.; Mendonça, R.C.; Walter, B.M.T.; Silva Junior, M.C.; Nóbrega, M.G.G.; Fagg, C.W.; Sevilha, A.C. & Silva, M.A. 2001b. Flora Fanerogâmica das Matas de Galeria e Ciliares do Brasil Central. Pp. 195-263. In: J.F. Ribeiro; C.E.L. Fonseca & J.C. Souza-Silva. Cerrado: caracterização e recuperação de Matas de Galeria. Planaltina, EMBRAPA/Cerrados.         [ Links ]

Gentry, A. 1992. Tropical forest biodiversity:distribution patterns. Oikos 63: 19-28.         [ Links ]

Jaccard, P. 1912. The distribution of the flora the alpine zone. New Phytologist 11: 37-50.         [ Links ]

Klinge, H.; Junk, W.J. & Revilla, C.J. 1990. Status and distribution of forested wetlands in tropical South America. Forest Ecology and Management 33/34: 81-101.         [ Links ]

Koppen, W.P. 1948. Climatologia. México, Fondo de Cultura Econômica.         [ Links ]

Kotchetkoff, H.O. 2003. Caracterização da Vegetação Natural de Ribeirão Preto, SP: Bases para Conservação. Ribeirão Preto. Tese de Doutorado, São Paulo, Universidade de São Paulo.         [ Links ]

Leitão Filho, H.F. 1982. Aspectos taxonômicos das florestas do estado de São Paulo. Silvicultura em São Paulo 16: 197-206.         [ Links ]

Marimon, B.S.; Felfili J.M. & Haridasan, M. 2001. Studies in monodominant forests in eastern Mato Grosso, Brasil: I. A forest of Brosimum rubescens Taub. Edinburgh Journal of Botany 58: 123-137.         [ Links ]

Mendonça, R.C.; Felfili, J.M.; Silva Jr., M.C.; Rezende, A.V.; Nogueira, P.E.; Walter, B.M.T. & Filgueiras, T.S. 1998. Flora vascular do cerrado. Pp. 289-539. In: S.M. Sano & S.P. Almeida (eds.). Cerrado: Ambiente e Flora. Planaltina, Embrapa - CPAC.         [ Links ]

Missouri Botanical Garden, 2007. Missouri Botanical Garden W3 Tropicos. Vascular Trópicos Nomenclatural Database no ar desde 1995. Disponível em <http://www.mobot.org/W3T/Search/vast.html>. (Acesso em: 25/02/2007).         [ Links ]

Mueller-Dombois, D. & Ellemberg, H. 1974. Aims and methods vegetation ecology. New York, Wiley.         [ Links ]

Nunes, Y.R.F.; Mendonça, A.V.R.; Botezelli, L.; Machado, E.L.M. & Oliveira Filho, A.T. 2003. Variações da fisionomia, diversidade e composição de guildas da comunidade arbórea em um fragmento de floresta semidecidual em Lavras, MG. Acta Botanica Brasílica 17: 213-231.         [ Links ]

Oliveira Filho, A.T. & Ratter, J.A. 1995. Study of Origin of Central Brazilian Forest by the analysis of Plant Species Distribuition Patterns. Edinburgh Journal of Botany 52: 141-194.         [ Links ]

Oliveira Filho, A.T. & Ratter, J.A. 2002. Vegetation physiognomies and woody flora of the Cerrado Biome. Pp. 91-120. In: The Cerrados of Brazil: ecology and natural history of a Neotropical savanna. New York, Columbia University Press.         [ Links ]

Pagano, S.N. & Leitão Filho, H.F. 1987. Composição florística do estado arbóreo da mata mesófila semidecidua, no município de Rio Claro (estado de São Paulo). Revista Brasileira de Botânica 10: 37-47.         [ Links ]

Pagotto, T.C.S. & Souza, P.R. 2006. Biodiversidade do Complexo Aporé-Sucuriú. Campo Grande, UFMS.         [ Links ]

Pott, A. & Pott, V.J. 2003. Espécies de Fragmentos Florestais em Mato Grosso do Sul. In: COSTA, R.B. Fragmentação Florestal e Alternativas de Desenvolvimento Rural na Região Centro-Oeste. Campo Grande, UCDB.         [ Links ]

Prado, D.E. & Gibbs, P.E. 1993. Petterns of species distribution in the dry seasonal forests of South America. Annals of Missouri Botanical Garden 80: 902-927.         [ Links ]

Ribeiro, J.F. & Walter, B.M.T. 1998. Fitofisionomia do bioma Cerrado. Pp. 89-152. In: M.S. Sano & S.P. Almeida. Cerrado: ambiente e flora. Planaltina, Embrapa.         [ Links ]

Rodrigues, R.R. 2004. Uma discussão nomenclatural das formações ciliares. Pp. 91-99. In: R.R. Rodrigues & H.F. Leitão Filho. Matas ciliares: conservação e recuperação. São Paulo, EDUSP.         [ Links ]

Rodrigues, R.R. & Nave, A.G. 2004. Heterogeneidade Florística das Matas Ciliares. Pp. 45-71. In: R.R. Rodrigues & H.F. Leitão Filho (orgs.). Matas Ciliares: conservação e recuperação. São Paulo, EDUSP.         [ Links ]

Rodrigues, R.R.; Morellato, L.P.C.; Joly, C.A. & Leitão Filho, H.F. 1989. Estudo florístico em um gradiente altitudinal de mata estacional mesófila semidecidua, na Serra do Japi, Jundiaí, SP. Revista Brasileira de Botânica 12: 71-84.         [ Links ]

Romagnolo, M.B. & Souza, M.C. 2000. Analise floristica e estrutural de florestas ripárias do alto Rio Paraná, Taquaruçu, MS. Acta Botanica Brasilica 14: 163-174.         [ Links ]

Saiz, F. 1980. Experiencias en el uso de criterios de similaritud en el estudio de comunidades. Experimental Biology and Medicine 13: 387-402.         [ Links ]

Salis, S.M.; Tamashiro, J.Y. & Joly, C.A. 1994. Floristica e fitossociologia do estrato arbóreo de um remanescente de mata ciliar do rio Jacaré-Pepira, Brotas, SP. Revista Brasileira de Botânica 17: 93-103.         [ Links ]

Sallun Filho, W.; Karmann, I. & Boggiani, P.C. 2004. Paisagens Cársticas da Serra da Bodoquena, MS. In: V. Mantesso Neto; A. Bartorelli; C. Dal Ré Carneiro & B.B. Brito-Neves (orgs.). Geologia do Continente Sul-Americano 1: 423-433.         [ Links ]

Santin, D.A. 1999. Fragmentos Florestais do município de Campinas (SP): Mapeamento, Caracterização Fisionômica e Florística visando a Conservação. Tese de Doutorado, Campinas, Universidade Estadual de Campinas.         [ Links ]

Sciamarelli, A. 2005. Estudo florístico e fitossociológico da "Mata de Dourados" Fazenda Paradouro, Dourados, Mato Grosso do sul, Brasil. Tese de Doutorado, Campinas, Universidade Estadual de Campinas.         [ Links ]

Souza, V.C. & Lorenzi, H. 2005. Botânica Sistemática: Guia Ilustrado para identificação das famílias de Angiospermas da flora brasileira, baseado em APG II. Nova Odessa, Instituto Plantarum.         [ Links ]

van den Berg, E. & Oliveira Filho, A.T. 2000. Composição florística e estrutura fitossociologica de uma floresta ripária em Itutinga, MG, e comparação com outras áreas. Revista Brasileira de Botânica 23: 231-253.         [ Links ]

van Tongeren, O.F.R. 1995. Cluster analysis. Pp. 174-212. In: R.H.G. Jongman; C.J.F. Ter Braak & O.F.R. van Tongeren. Data analysis in community and landscape ecology. Cambridge, University Press.         [ Links ]

 

 

Recebido em 24/09/2007
Aceito em 9/10/2008

 

 

1 Parte da Tese de Doutorado da primeira Autora
2 Autor para correspondência: vrbmaria@gmail.com

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License