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Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306

Acta Bot. Bras. vol.26 no.4 Feira de Santana Oct./Dec. 2012

https://doi.org/10.1590/S0102-33062012000400001 

OBITUÁRIO OBITUARY

 

George Eiten - 1923 - 2012

 

 

Sueli Maria GomesI; Bruno Machado Teles WalterII; Augusto César FrancoI

IUniversidade de Brasília Departamento de Botânica
IIEmbrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia

 

 

 

Na manhã de terça-feira, 25 de setembro de 2012, a Botânica perdeu o Professor George Eiten, que faleceu aos 88 anos de idade. Pelo pioneirismo e influência de sua obra, Eiten já está eternizado entre os autores de maior destaque da segunda geração de estudiosos da vegetação do Cerrado brasileiro, seguindo-se a nomes como Warming, Löfgren e Rawitscher.

Nascido em 23 de novembro de 1923, em Morristown (Nova Jérsei), George Eiten era filho de imigrantes europeus. Concluiu sua graduação em 1949, na "Cornell University", e tornou-se mestre e doutor em Botânica pela "Columbia University", em 1958 e 1959, respectivamente. Durante seu doutoramento, aprofundou-se na área de Taxonomia Vegetal, estudando a família Oxalidaceae. Ainda nos Estados Unidos foi curador do Herbário do "Missouri Botanical Garden", no período 1955 a 1956, e foi professor de Biologia na "Hofstra University", entre1958 e 1959.

Desejando trabalhar em um país tropical, Professor Eiten veio para o Brasil em 1959, radicando-se inicialmente em São Paulo. Passou então a atuar nos quadros do Instituto de Botânica de São Paulo, o que fez até 1971. Neste período, publicou em 1963 um clássico estudo sobre a vegetação da Fazenda Campininha, uma área localizada em Mogi Guaçu (SP), hoje uma Reserva, cuja vegetação predominante é o Cerrado com suas variações fisionômicas. Talvez neste período tenha fixado seu olhar detalhista nas formas de vegetação e sua incrível variação espacial e riqueza de formas de vida, que passariam a ser temas constantes em sua carreira.

Em 1968, trouxe a público uma proposta integral e complexa de classificação da vegetação mundial, no volumoso trabalho bilíngue "Formas de vegetação", divulgado no Boletim do Instituto de Botânica de São Paulo. Os princípios desta sua proposta ele passou então a divulgar e aplicar, posteriormente fazendo-o com um empenho especial para a vegetação do Cerrado. No final dos anos 1960, publicou mais trabalhos sobre São Paulo e Mato Grosso (Serra do Roncador), quando divulgou artigos como o de uma análise crítica a um texto de Löfgren, que ilustra bem seu incrível cuidado com o detalhe, zelo com a terminologia e a minúcia com que fez ciência.

Em 1971, foi contratado pela Universidade de Brasília (UnB) e fixou residência em Brasília, cidade onde morou até seu falecimento. Foi Professor Titular da UnB até 1993, ano em que se aposentou, mas sem encerrar seus estudos e vínculos com a ciência. Prosseguiu na universidade como Pesquisador Colaborador e, em 2004, foi-lhe conferido o título de Professor Emérito. Eiten foi um dos fundadores do Departamento de Biologia Vegetal da UnB, atual Departamento de Botânica. Atuando nas áreas de Ecologia Vegetal, Taxonomia e Fitogeografia, publicou estudos densos sobre vegetação, sempre com um foco especial na vegetação do Cerrado e do Brasil.

Não há como tratar apropriadamente o Cerrado sem mencionar suas ideias e conceitos. Entre suas publicações sobre o bioma, sem dúvida, a mais importante e influente é a intitulada "The cerrado vegetation of Brazil", que foi publicada no The Botanical Review, em 1972. Após Lagoa Santa, de Warming, trata-se do texto mais relevante sintetizando aspectos ecológicos do Cerrado, com uma visão contemporânea que é muito útil até os dias de hoje.

O Professor Eiten discutiu profundamente o conceito de Cerrado em artigos como "Delimitação do conceito de Cerrado/Delimitation of the Cerrado concept", "A sketch of vegetation of Central Brasil", "Formas fisionômicas do Cerrado", "Brazilian savannas" e "Vegetação do Cerrado", revelando a incrível riqueza florística e fisionômica da vegetação do Brasil Central e suas áreas periféricas, registradas em trabalhos como "Vegetation near Santa Terezinha, NE Mato Grosso" e "Duas travessias na vegetação do Maranhão". Chegou a propor a separação do Cerrado do conceito de savana, tendo em vista sua flora fora do comum.

Além do Cerrado, analisou a vegetação da América do Sul ("An outline of the vegetation of South America") e do Brasil, publicando textos importantes como "Classificação da vegetação do Brasil" e "Natural brazilian vegetation types and their causes". Sobre Brasília, sua base por mais de 40 anos, deixou os importantes "Vegetation of Brasilia" e "Vegetação natural do Distrito Federal", além de estudos fitossociológicos que faziam uso de seus principais conceitos, sumarizados no polêmico artigo de 1979, "Formas fisionômicas do Cerrado". Criticado pelo número de formas fisionômicas propostas, com mais de 70 termos e expressões, na verdade este artigo apenas desvendava o olhar acurado e a escala detalhada com os quais enxergava a natureza e que, inúmeras vezes, foi motivo de incompreensões, recebendo críticas pouco refletidas. Na escala em que trabalhava ele sempre esteve correto!

Sobre terminologia, são belíssimos seus artigos "The use of the term savanna" e "How names are used for vegetation", pouco divulgados hoje, mas que novamente revelam a sua visão detalhista e precisa sobre o uso de termos na ciência.

Eiten também foi um grande coletor de plantas, tendo atuado muito com sua primeira esposa, a também botânica Liene de Jesus Teixeira Eiten, maranhense de nascimento e falecida em outubro de 1979. Porém, a morte da esposa repercutiu no processamento de suas coleções, uma vez que era ela quem o auxiliava nas tarefas de herborização. Atualmente o Herbário da Universidade de Brasília (UB) tem feito esforços para incorporar sua extensa coleção, que atinge cerca de 15.000 espécimes, coletados principalmente entre os anos 1960 e 1980, durante aproximadamente 23 anos. Isto significa uma taxa de mais ou menos 650 coletas por ano, o que revela sua propensão em coletar amostras botânicas, notadamente de plantas do Cerrado. É notável a riqueza de detalhes com que registrava as informações bióticas e abióticas das suas coletas em longíssimos rótulos.

Eiten provavelmente foi o último botânico a perambular por muitas áreas virgens e intocadas mundo afora, particularmente na América do Sul e no Brasil Central, e os materiais de sua coleção são valiosos tanto científica quanto historicamente. Eles são testemunhos da vegetação de diversas regiões do mundo, especialmente do Cerrado, muitas das quais hoje estão profundamente alteradas ou foram eliminadas pelo ser humano. Sua coleção, hoje aos cuidados do herbário UB, assim que processada e incorporada ao acervo tornará este herbário uma referência em Cyperaceae e Oxalidaceae.

Outro legado importantíssimo do Professor Eiten, foram as centenas de alunos que com ele estudaram. Seu modo de ensinar era clássico, o do verdadeiro e experiente mestre, em que seus alunos ouviam-no e observavam-no ensinando em meio às caminhadas por trechos de vegetação, identificando espécies de plantas e reconhecendo fitofisionomias, como quem anda entre amigos. Sempre fez questão de reservar muitas horas de aula para atividades de campo, que sabia ser onde realmente se aprendem os temas que ensinava. Produziu uma série de apostilas mimeografadas sobre os assuntos de aula, versando sobre matérias diversas, como formas de crescimento das plantas, conceitos de vegetação, clima e Fitogeografia, grande parte delas infelizmente nunca publicadas. Vários de seus colegas, professores nos Departamentos de Botânica e Ecologia da Universidade de Brasília, o descrevem como "a referência do Cerrado" na área de Botânica. Na sua fase final, o herbário foi a sua vida.

Os volumosos documentos pessoais e materiais botânicos deixados pelo Professor Eiten, doados por sua família, refletem um pouco da história da ciência no Brasil. São preciosidades que incluem fotografias de fitofisionomias de todo o mundo, muitas das quais lhe foram enviadas por especialistas em Fitogeografia de vários países, planos de aula e cartazes ilustrados, além de um acervo com fotografias de militares. O Professor Eiten sempre foi alvo de muita conversa à boca pequena, que o colocavam como participante de um conflito armado, provavelmente a Segunda Guerra Mundial e que lhe deixou sequelas. Era reconhecido por sua circunspecção e timidez, com lapsos de memória que o tornaram uma figura lendária.

Sem nenhum demérito, pode-se dizer que Eiten foi um pesquisador à moda antiga, que trabalhou duro, sem as facilidades que hoje a informática proporciona. Já nos anos 80 nutria total desconfiança em relação às máquinas de calcular, um avanço incrível, que surgira na década anterior; e o Professor refazia, à mão, as complexas contas de longas tabelas fitossociológicas. Contudo, quase no final da vida se rendeu ao computador, e ficava horas digitando seus artigos na secretaria do Departamento de Botânica da UnB, e muitos foram os que o ajudaram na sua luta inglória para compreender o funcionamento e a lógica dos processadores de texto.

Sua produção científica, que sob o olhar atual pode não ser considerada volumosa, por outro lado é constituída por substanciosos artigos científicos, livros e capítulos de livros. Seu pensamento teve muita repercussão científica. Prova disto é que até 2012 seus trabalhos alcançaram mais de 2.200 citações no Google e 576 na Web of Science. Isto é de admirar, considerando-se que seus dois últimos artigos datam de 1992 (vinte anos atrás) e seu último livro foi publicado em 2001. Tal informação é no mínimo reveladora. Denota a importância e relevância científica da obra do Professor Eiten, que tem atravessado os anos. Acima de tudo, é uma produção que por um longo tempo ainda permanecerá ensinando e influenciando as novas gerações.

Por sua contribuição, o Professor Eiten foi homenageado com muitos nomes de plantas como Eitenia R.M.King & H.Rob., um gênero de Asteraceae endêmico do Brasil. Espécies, como Calea eitenii H.Rob., Campuloclinium eiteniorum R.M.King & H.Rob., Koanophyllon eitenii R.M.King & H.Rob., Vernonia eitenii H.Rob., Bromelia eitenorum L.B.Sm., Chamaecrista eitenorum (H.S.Irwin & Barneby) H.S.Irwin & Barneby, Pera eiteniorum Bigio & Secco, Panicum eitenii Renvoize, Paspalum eitenii Swallen, Portulaca eitenii D.Legrand, Mitracarpus eitenii E.B.Souza & E.L.Cabral, Esterhazya eitenorum Barringer, Solanum eitenii Agra, Helicteres eitenii Leane e Lantana eitenorum Moldenke, também foram publicadas em sua homenagem.

Após a morte de sua esposa Liene, o Professor Eiten passou por um período conturbado e difícil, até encontrar Aparecida Maria de Jesus, com quem partilhou os últimos 32 anos da sua vida. Aparecida foi seu esteio na doença, apoiando-o até o final.

Acidentes vasculares cerebrais sucessivos causaram-lhe a perda da fala nos últimos anos. Mesmo assim não esmoreceu e nem se entregou à doença, e se comunicava com as pessoas utilizando a linguagem escrita. Infelizmente as complicações decorrentes da doença levaram ao seu falecimento. Sem dúvida uma perda lastimável e uma pessoa insubstituível para todos aqueles que têm fascínio por esta vegetação tão surpreendente e tão rica que é o Cerrado brasileiro – o Cerrado que por vários anos contou com o olhar atento de George Eiten, um de seus grandes estudiosos.

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