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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450On-line version ISSN 1678-460X

DELTA vol.15 n.1 São Paulo Feb./July 1999

https://doi.org/10.1590/S0102-44501999000100001 

A Estrutura da Oração em Línguas Indígenas Brasileiras*

(The Structure of the Clause in Brazilian Indigenous Languages)

 

Marcus MAIA, Bruna FRANCHETTO, Yonne de Freitas LEITE, Marília Facó SOARES & Marcia Damaso VIEIRA
(Universidade Federal do Rio de Janeiro)

 

 

ABSTRACT: This paper compares a set of interrelated phenomena concerning the syntax/morphology interface in four brazilian indigenous languages: Kuikúro, Guarani, Karajá and Tikuna. The role of functional categories and the general structure of the clause are investigated in the languages. Problems for the SOV linearization are discussed and alternative analyses are proposed.

RESUMO: Compara-se neste artigo um conjunto de fatos relacionados a interface sintaxe/morfologia em quatro línguas indígenas brasileiras, a saber, Kuikuro, Guarani, Karaja e Tikuna. Investiga-se o papel das categorias funcionais na derivação da estrutura básica da oração nessas línguas. Discutem-se os problemas que se colocam para a linearização da ordem SOV, propondo-se análises alternativas.

KEY WORDS: Minimalism; Word Order; Functional Categories; Subject; Indigenous Languages.

PALAVRAS-CHAVE: Minimalismo; Ordem de Constituintes; Categorias Funcionais; Concordância; Sujeito; Línguas Indígenas.

 

 

0. Introdução

Neste artigo discutimos exploratoriamente a arquitetura da oração nas línguas indígenas brasileiras Karajá, do tronco Macro-Jê, Mbyá Guarani, da família Tupi-Guarani, Kuikúro, da família Karib, e Tikuna, isolada. Avaliamos ainda as línguas indígenas em questão face às duas possibilidades consideradas em Chomsky (1993) para analisar a combinação entre o verbo e seus afixos: a teoria da incorporação e a teoria de checagem. De acordo com a primeira, os afixos são adquiridos na sintaxe visível por verbos não flexionados através de movimento X° de V para o núcleo da categoria funcional relevante. A teoria de checagem, por outro lado, prediz que os verbos são inseridos na sintaxe completamente flexionados, checando seus morfemas contra os traços correspondentes das categorias funcionais para as quais se movem.

Conforme observamos em Maia et al. (1998), os dados das línguas indígenas examinadas propõem um problema para o modelo teórico de Chomsky (1993): como é possível ao sujeito gerado na posição de especificador do SV alçar-se acima do especificador de AgroP, sem que o verbo se eleve do núcleo de TP para criar a eqüidistância que evitaria a violação do Princípio do Movimento Mais Curto?

As soluções possíveis para essa questão seriam as seguintes: a) o sujeito não é gerado internamente ao SV; b) o sujeito é gerado internamente ao SV, mas sua posição de base está acima da posição derivada do objeto; c) modificação do conceito de domínio mínimo. Assumir a opção em (a) implica recusar a Hipótese do Sujeito Interno ao SV (Kitagawa, 1986; Kuroda, 1988; Sportiche, 1988), amplamente aceita e assumida inclusive em Chomsky (1993), quadro teórico utilizado neste artigo. Além disso, seria necessário explicar como se faria a atribuição temática fora do extrato lexical (SV), isto é em IP, que é tipicamente a camada frasal onde se licenciam as propriedades morfo-sintáticas. Não parece haver evidências, nas línguas examinadas, que justifiquem propor o licenciamento temático no âmbito de alguma categoria funcional do sistema IP. A possibilidade, no entanto, de recuperar a relação temática entre os SN's e o predicado através do sistema proposto em Baker (1995) é considerada para o Tikuna em 1.1. A alternativa em (b) apresenta diferentes versões. Uma das primeiras versões da própria hipótese do sujeito interno ao SV (Koopman & Sportiche, 1985), propunha que o argumento externo não fosse gerado no especificador de SV, e sim adjungido ao SV. Koizumi (1993) propõe a hipótese do SV cindido, em que o conteúdo de V é dividido em duas projeções: um Ve, responsável pelo argumento externo e um Vi, responsável pelo argumento interno. Entre as duas estaria a projeção AgroP. Note-se que tais possibilidades não parecem ser justificadas pela análise adotada para os dados aqui examinados. A análise adotada para os auxiliares em Karajá e Mbyá Guarani, em Maia et alii (1998a), por exemplo, prevê que os auxiliares subcategorizem um complemento SV, de acordo com análise corrente na literatura gerativa (cf. Dobrovie-Sorin 1993). Se adotada, a análise de Koizumi, inviabilizaria a linearização da ordem SOVAux, tanto em Karajá quanto em Mbyá Guarani.

A proposta de Bobaljik (1994), que caracteriza a opção (c) acima, parece ser, então, a mais apropriada, diante dos dados das línguas aqui examinadas. Considerando a existência em Irlandês da operação chamada "Object Shift", sem o pré-requisito da elevação do verbo na sintaxe visível (generalização de Holmberg), Bobaljik argumenta ser possível existirem outros exemplos, além do Irlandês, que demonstrem que a vinculação rígida do movimento do verbo ao licenciamento do movimento visível de SN seja demasiadamente forte empiricamente. Aparentemente, os dados das línguas indígenas aqui considerados oferecem evidência adicional em favor da proposta de Bobaljik de reconceituar as noções de domínio mínimo e de eqüidistância, caracterizadas em Chomsky (1993) a partir de uma operação de adjunção de V ao núcleo funcional acima, em termos de uma noção mais básica na gramática, a noção de adjacência. A adoção da proposta de Bobaljik (1994)1 permite que se conceba a saída do SN sujeito do interior do SV, sem que se tenha como pré-condição a subida do V para o núcleo de TP, licenciando a saída do sujeito, mas desfazendo a linearização SOV.

Consideraremos inicialmente fatos da língua Tikuna.:

 

1. Tikuna

1.1. A posição de origem do sujeito em Tikuna

Em Tikuna, que é uma língua em que são freqüentes as ordens SOV, SVO e OVS, há situações em que somente a ordem é suficiente para a explicitação de funções sintáticas. Tais situações ocorrem sob a ordem SOV. Nessa ordem, o que se poderia considerar como sujeito aparece, muitas vezes, seguido da partícula, como se vê nos exemplos em (1). Essa partícula também aparece, facultativamente, em orações intransitivas após o agente como em (2). Nas orações transitivas essa mesma partícula pode não aparecer após o agente, como acontece em (3), tudo indicando que ela não é identificadora de um sujeito. Em Soares (1992a) nós a consideramos como marca de tópico:

(1) a. Maria rü Elisa-si i-dau
Maria tóp. Elisa-piolho 3p.f.- procurar
(Maria, piolho da Elisa catou)
'Maria catou piolho da Elisa'

b. airu rü ãtape na-bü'ü
cachorro tóp. cobra 3p-morder
(O cachorro, cobra mordeu)
'O cachorro mordeu a cobra'

c. Elisa rü Luiza'-ü, iya-wü-para
Elisa tóp Luiza-dativo 3p.f- riscar-perna
(Elisa, à Luiza coça a perna)
'Elisa está coçando a perna da Luiza'

(2) Reinaldo rü ni-fene i ngewa
top. 3p-caçar x hoje
(Reinaldo, foi caçar, hoje)
'Reinaldo foi caçar hoje'

(3) a. Maria pacara i-'ü ga ine
cesto 3p.f.-fazer x ontem
'Maria fez cesto ontem'
b. Gracila airu i-yau
cachorro 3p.f-pegar
'Gracila pegou o cachorro'

c. Reinaldo airu ni-ma'
cachorro 3p-matar
'Reinaldo matou o cachorro'

A favor da existência de um tópico sentencial em Tikuna marcado através de uma partícula, tem-se o fato de que há itens que ocupam a posição inicial da sentença sem que se possa demonstrar que são, necessariamente, um argumento do verbo - tal como se vê em (4). Algumas observações referentes aos sintagmas que ocupam a posição de tópico são necessárias. Em Tikuna, não há uma situação única, na qual um argumento qualquer simplesmente ocupa a posição de tópico - uma posição não argumental. Deve-se considerar o tipo de argumento que está nessa posição e a necessidade ou não de cópia desse argumento no interior da sentença. A esse respeito, podem ser constatadas as seguintes situações: a) sintagmas que não são argumentos do verbo ocupam a posição de tópico (situação comum); não há cópia do sintagma no interior da sentença:

(4) a. wea rü napa wa i-pe i Luiza
velha tóp. rede locativo 3p.fem.-dormir x
([Na] velha, na rede dormiu, a Luiza)
'Luiza dormiu na rede velha'

b. ãpa rü na-nore ga nai nhumã rü
antes tóp. 3p-pouco x árvore agora tóp

na-muu)tchi i nai
3p-muito x árvore
(Antes, tinha pouco, árvore; agora, tem bastante, árvore)
'Antes tinha pouca árvore, agora tem bastante'

c. mo'ü, rü ta-powae-gü
amanhã tóp. 1p.pl- pescar-pl
(Amanhã, vamos pescar)
'Amanhã vamos pescar'

b) o agente está na posição de tópico (situação comum); aqui também não é necessário haver cópia no interior da sentença:

(5) a. airu rü ãtape na-büü
cachorro tópico cobra 3p-morder
(Cachorro, cobra mordeu)
'O cachorro mordeu a cobra'

b. yatü rü powae wa na-u)
homem tóp. pesca locativo 3p-ir
O homem, na pesca foi)
'O homem foi pescar'

c) a posição de tópico é ocupada por um argumento que não é o agente e não há cópia desse argumento no interior da sentença nem marca de caso no interior do tópico; aqui as sentenças são agramaticais ou de gramaticalidade duvidosa, como em (6):

(6) a. *Dapü rü ya yatü
Terra Vermelha tóp x homem

ya powae-cü na-'u
x pescar- nom. 3p-ir
(Terra Vermelha, o homem que pesca foi)
'O homem que pesca foi na Terra Vermelha'

b. * ãtape rü i-moü, i Luiza
cobra tóp. 3p-temer x Luiza
(Cobra, tem medo a Luiza)
'Luiza tem medo de cobra'

c. ? ãtape rü Luiza i-moü
cobra tóp. 3p-temer
(Cobra, Luiza tem medo)
'Luiza tem medo de cobra'

d) na posição de tópico está um argumento que não é o agente e há cópia desse argumento dentro da sentença; nesse caso, as sentenças são consideradas gramaticais, como em (7):

(7) a. Dapü rü ya yatü ya powae-cü
Terra Vermelha tóp x homem x pescar- nom.

ngema na-'u)
lá 3p-ir)
(Terra Vermelha, o homem, o que pesca, lá ele foi)
'O homem que pesca foi na Terra Vermelha'

b- ya nasi rü na-ca' tcha-dau
x piolho tóp. 3p-por 1p-procurar
(Piolho, eu cato = Piolho, por ele procuro)
'Eu cato piolho'

A partir dessas situações, constatamos que: a) quando é o agente que ocupa a posição de tópico, a posição que pode ficar vazia, sem cópia, é a posição de sujeito; b) aparentemente, o vazio estrutural livremente permitido é o da posição de sujeito; quanto às outras posições, pode haver restrições e são essas restrições que impedem que um argumento ocupe simplesmente a posição de tópico.

Uma observação importante a ser feita é aquela referente à situação em (b). Quando o agente ocupa a posição de tópico, a posição que fica vazia, isto é, sem cópia, é aquela do sujeito. Com isso poder-se-ia concluir que em Tikuna o tópico é gerado em dois lugares: há o tópico seguido de uma partícula e há o tópico comum da sentença, que seria o sujeito.

Conferindo a essa conclusão o status de hipótese, diremos que, se a posição de sujeito admite um vazio estrutural, é possível pensar em um sujeito que não seja gerado internamente ao SV. Nesse caso, para que se possa pensar em uma recuperação da relação do sujeito com o verbo, poder-se-ia considerar - como Baker (1995:189-190) - que os papéis temáticos do núcleo devem ser expressos morfologicamente na palavra. No caso Tikuna, o morfema que indica o agente deveria estar presente no interior da palavra verbo para licenciar um pronome nulo interno ao SV (posição de especificador), o que, por sua vez, satisfaria o critério theta. Além disso, como o morfema que indica o agente no verbo pode ser considerado como um morfema de concordância que absorve as propriedades de Caso do núcleo (de acordo com Baker ,1995), ter-se-ia uma motivação para que o sintagma nominal aberto interpretado como sujeito esteja em posição tematicamente não licenciada - a posição de tópico ou a posição que seria a de especificador de IP.

No caso de não se desejar pensar em uma recuperação da relação do sujeito com o verbo nos termos de Baker (1995) - que segue com princípios deixados de lado no âmbito do Programa Minimalista (como o Princípio de Projeção e o critério theta) -, fica o problema, para o Tikuna, da conciliação do Princípio da Projeção Estendida (PPE - que exige que todo predicado deva ter um sujeito) com a posição de geração do sujeito: as posições possíveis para gerar esse último (tópico ou especificador de IP) esbarram na impossibilidade de satisfação do PPE sem movimento do verbo.

Num caso ou no outro, vale ressaltar que a hipótese de ser o sujeito em Tikuna gerado fora do SV encontra uma evidência indireta a partir do que seriam, à primeira vista, quantificadores flutuantes nessa língua. Quantificadores têm aí uma característica que os diferencia de outras línguas: em Tikuna, os quantificadores são nomes que se relacionam a outros nomes através das partículas que marcam adjunção. Assim:

(8) a. tamaepü ya yatü-gü 'três homens'
três x homem-pl

b. * tamaepü yatü-gü 'três homens'
três homem-pl

c. gu'üma i to-gü i mayu-gü rü
todos x outro-pl x índio-pl top

nu'ü na-ngema i norü nacuma-gü
3p-"dat" 3p-existir x dele costume-pl
(Todos os outros índios, para eles, ela existe, a cultura deles)
'Todos os indígenas possuem a sua própria cultura'

Em face de uma tal característica, não é possível sustentar, a partir dos quantificadores, a idéia de que sujeitos em Tikuna são gerados internamente ao SV: o teste por meio de quantificadores flutuantes do tipo "todos" não funciona, uma vez que as diferentes posições que ocupa o quantificador não marcam necessariamente a posição por onde se move o sujeito - como bem o demonstram as construções em (9), que são possíveis em Tikuna:

(9) a. gu'üma i boü-gü i-na-ngu
todos x criança-pl aspecto-3p-chegar

'Todas as crianças chegaram'

b. boü-gü i-na-ngu i gu'üma
criança-pl aspecto-3p-chegar x todos

(As crianças chegaram, todas)
'As crianças chegaram todas'

Para a satisfação do PPE, adotamos, então, a hipótese de Baker acima mencionada, afirmando que o sujeito em Tikuna é gerado fora do SV, nas posições de tópico e especificador de IP - esse último sendo equivalente a [Spec, AgrsP]. Vale ressaltar que, em Tikuna, AgrsP revela-se um nódulo sintaticamente inerte, na medida em que é apenas uma posição para geração do sujeito.

 

1.2. Tempo como operador em Tikuna

No que diz respeito à questão do nódulo TP, em Tikuna, dados comprovam que o nódulo de que faz parte o tempo não é uma projeção situada no interior de um IP. Alguns desses dados seguem abaixo:

(10) a. Üpa rü na-nore ga nai nhumã rü na-mo-õtchi
antes tóp. 3p-pouco x pau agora tóp. 3p-muito-intens.
i nai
x pau
'Antes tinha pouca árvore aqui, agora tem bastante.'

b. Yeguma Hilda na-na-gu
dêitico (naquele tempo) 3p-OI-assar

ga tchoni rü Reinaldo na-na-ngo'
x peixe tóp. 3p-OI-comer
"Quando Hilda moqueou o peixe, Reinaldo o comeu'

c. Ngeguma Hilda na-na-gu
dêitico (nesse tempo) 3p-OI-assar

i tchoni rü Reinaldo na-na-ngo'
x peixe tópico 3p-OI-comer
'Quando Hilda moquear o peixe, Reinaldo vai comer"

Nos dados acima estão presentes partículas que identificam construções em adjunção. A relação dessas partículas com o tempo é clara para ga, sempre ligada à idéia de passado. Quanto às outras partículas (i / ya), elas teriam seu significado de base determinado por sua oposição a ga, o que permitiria considerar seu significado como sendo `não passado'. Em (10a) é um dêitico temporal na posição de tópico que determina a forma dessas partículas. Em (10b) e (10c) é um dêitico que, funcionando como complementizador, determina a forma dessas mesmas partículas, sendo ele próprio atingido pelo tempo (yeguma está ligado ao tempo passado e ngeguma ao não passado). Ao excluir o nódulo TP como projeção situada no interior de um IP, os dados acima estão, na verdade, excluindo um diagrama como o que se vê em (11) (diagrama em que mantemos em aberto o rótulo da categoria funcional irmã de T):

0001i01.gif (496 bytes)

Com uma tal exclusão, os dados apontam para uma situação em que TP estaria funcionando como operador de proposição. Uma maneira de dar conta desse funcionamento seria postular um diagrama como (12), no qual T - no interior de um TP não ramificado - tem escopo sobre S2:

0001i02.gif (343 bytes)

Esse último diagrama apresenta uma possibilidade teoricamente já levantada em Stowell (1981), que, em fase anterior da teoria gerativa, sustentava a conexão entre marcação temporal e sistema complementizador. Transposta para um momento mais recente da teoria gerativa, essa possibilidade não necessitaria ser formulada através de uma configuração em que se tem um operador fora da sentença. Por exemplo, para o caso Tikuna é possível levar em consideração proposta de Rizzi (1997), que vê o conteúdo proposicional como encaixado no sistema complementizador, o qual, por sua vez, realiza a interface entre o conteúdo proposicional (IP) e a estrutura superordenada (uma oração mais alta ou a articulação do discurso). A proposta de Rizzi (1997) supõe uma cisão do sistema complementizador, que tem entre os seus componentes os sintagmas Força, Tópico, Foco e Finitude (sendo que uma oração admite mais de um tópico e uma única posição estrutural de foco). Um caminho promissor de análise da marcação temporal em Tikuna através da proposta de Rizzi está, de um lado, na interface realizada pelo sistema complementizador e, de outro, na visão de que esse não é uma extensão análoga do sistema IP e, ultimamente, de VP (cf. Rizzi 1997: 284). Como indicativo da diferença substancial entre tais sistemas, Rizzi aponta o fato de que as propriedades flexionais de C (complementizador) não estão codificadas na forma da morfologia verbal, vindo expressas em morfemas funcionais livres - fato que aproximadamente se ajusta aos dados Tikuna.

Como última observação em relação ao nódulo TP, cabe registrar que não está demonstrado que o verbo em Tikuna concentra a maior parte das informações sobre aspecto. E que, mesmo que TP seja concebido como categoria inteiramente abstrata (que pouco ou nada tenha a ver com o tempo gramatical e que englobe apenas uma parte do sistema aspectual), a postulação de uma categoria TP no interior de um IP em Tikuna não resolverá os problemas relativos à posição do verbo nem propiciará uma explicação adequada para a forma assumida pelas partículas vistas acima.

 

2. Mbyá Guarani

2. 1 A ordem OV e a categoria AgroP

Para dar conta da linearização da ordem OVAux em Mbyá Guarani, postulamos uma categoria funcional - AgroP- , localizada acima de VP (ou de AuxP ), cujo núcleo contém traços N e V fortes, que provocam o movimento do objeto e do verbo lexical para as suas posições de especificador e de núcleo respectivamente. A existência de Agro com traços fortes explica também a ocorrência de sujeitos de construções de Regência Excepcional para Caso na posição de objeto na oração matriz. A postulação de AgroP acima de SV em Mbyá Guarani é motivada , então, para abrigar o objeto e o verbo deslocados.

 

2.2. O movimento do sujeito e as categorias TP e AgrsP

A fim de justificar o fato de que nem o verbo auxiliar nem o verbo lexical são alçados acima de Agro em sintaxe visível, assumimos que tanto Agrs quanto T possuem traços V fracos em Mbyá Guarani. Só em Forma Lógica é que o verbo lexical irá checar os seus traços de tempo e de concordância de sujeito nos núcleos funcionais apropriados.

Conforme discutiu-se na introdução do artigo, a linearização do sujeito na estrutura SOV acarreta problemas para o quadro teórico aqui adotado, uma vez que, sem o movimento do complexo [Agro Verbo+ Agro] para T, as posições [Spec, TP] e [Spec, AgroP] não se tornam eqüidistantes da posição de sujeito em [Spec, VP ]. Como se mencionou na introdução, existem propostas alternativas a serem examinadas a fim de que se possa chegar a uma solução para a derivação do movimento de sujeito, sem a violação da Condição de Movimento Mais Curto.

 

2.2.1 A hipótese do SV cindido

Uma dessas propostas é a de Koizumi (1993), que postula uma representação oracional onde a posição de base do sujeito é mais alta do que a posição derivada do objeto; isto porque, AgroP é gerado internamente ao SV. Sendo assim, o movimento do sujeito para fora de SV não viola a Condição de Movimento mais Curto, uma vez que não atravessa [Spec,AgroP] preenchida pelo objeto.

Para comprovar a sua hipótese, Koizumi utiliza, entre outros, o teste dos quantificadores flutuantes3. Como o sujeito é gerado em uma posição acima da posição derivada de objeto, os quantificadores flutuantes com escopo sobre ele não podem ocorrer após o objeto. Os dados do Mbyá Guarani revelam, todavia, que o quantificador pãve ("todos") pode ocorrer após o objeto deslocado, indicando, assim, que o sujeito não é gerado acima de AgroP:

(13) ava-kwe g-oo o-moxi pãve
homem-pl. 3refl.-casa 3-pintar de branco todos
'Todos os homens pintaram as suas casas de branco'

Note-se também que o quantificador flutuante pãve não pode aparecer após o objeto quando este permanece in situ, como mostra o exemplo (14):

(14)* kunhã-gwe o-'u o-kwapy pira pãve
mulher-pl. 3-comer 3-aux. peixe todas
'Todas as mulheres estão comendo peixe'

Dados como esses revelam que: (i) o sujeito é gerado abaixo de AgroP, isto é, abaixo da posição derivada de objeto, como mostra o exemplo (13); e (ii) o objeto permanece in situ em construções do tipo SVAuxO, ao passo que, em SOVAux, ele aparece deslocado, na posição de [Spec, AgroP], permitindo, então, que o quantificador com escopo sobre o sujeito possa ocorrer à sua direita. Estruturas como (13) constituem evidência contra a hipótese de Koizumi sobre a geração do sujeito acima de AgroP. Além desse fato, a representação oracional postulada por Koizume não daria conta da posição dos auxiliares em Mbyá Guarani, visto que esses sempre ocorrem após o objeto e o verbo.

 

2.2.2.A reformulação da noção de domínio mínimo

Uma outra possível análise para dar conta do movimento do sujeito na ordem SOV em Mbyá Guarani é adotar a proposta de Bobaljik (1994), mencionada acima, que redefine a noção de domínio mínimo, fazendo com que a noção de eqüidistância não seja mais estabelecida em termos de adjunção. Bobaljik reconhece que é problemático vincular a noção de eqüidistância ao movimento do verbo,uma vez que há línguas, como o Irlandês, em que o movimento do objeto não está condicionado ao movimento do verbo. Com base no fato de que, em certas línguas, a associação entre a flexão e o radical verbal exige adjacência , o autor sugere que o movimento do objeto só está vinculado ao movimento do verbo, caso o primeiro venha a interromper a exigência de adjacência entre o afixo e o verbo. Do contrário, não é preciso que o verbo se desloque quando houver movimento de objeto para AgroP.

Sendo assim, Bobaljik abandona a definição de eqüidistância em termos de derivação, e reformula a noção de domínio mínimo (cf. nota 18). Para ele, o especificador de um núcleo e o especificador do núcleo de seu complemento são sempre eqüidistantes. Dessa maneira, quando TP é acrescentado à estrutura oracional , [Spec,TP] e [Spec, AgroP] tornam-se, por definição, eqüidistantes para o sujeito em [Spec,VP]. O sujeito, então, pode ser deslocado para [Spec, TP] sem que haja violação da Condição de Movimento mais Curto. Adotando a definição de domínio mínimo de Bobaljik, pode-se derivar, então, a ordem SOV em Mbyá Guarani, sem que haja a necessidade do verbo se mover para T antes de Spell-Out.

 

2.2.3 Movimento do sujeito para [Spec,TP]

Em línguas com o deslocamento de objeto, postula-se que a posição [Spec,TP] é licenciada (cf. Bobaljik e Jonas, 1996) para o sujeito aterrisar em sintaxe visível. O movimento do sujeito para [Spec, Agrs] só se dá, então, em Forma Lógica, porque, se ele fosse alçado diretamente para AgrsP haveria a violação da Condição de Movimento mais Curto.

Em Mbyá Guarani, assumimos também que, antes de Spell-Out, o sujeito se move para o especificador de TP. Nessa configuração, ele checa os seus traços de caso nominativo com o núcleo de TP. O sujeito não se move antes de Spell-Out para [Spec,AgrsP] , visto que a checagem dos traços de concordâcia só será efetuada quando o verbo for alçado para Agrs em Forma Lógica. Lembramos aqui que Agrs tem traços V fracos em Mbyá Guarani e, por isso, o verbo não se move para o seu domínio antes de Spell-Out.

Temos, então, o seguinte quadro de categorias funcionais em Mbyá Guarani: Agro com traços V e N fortes, T com traços N fortes e traços V fracos e Agrs com traços N e V fracos. Agrs em Mbyá Guarani é fraco, uma vez que nem o sujeito, nem o verbo são alçados para o seu domínio em sintaxe visível. Resta-nos um problema relacionado à checagem de traços de concordância de sujeito dos verbos auxiliares que permanecem in situ na sintaxe visível. Observe-se que, em uma estrutura como (15), tanto o verbo lexical quanto o verbo auxiliar apresentam marcas de concordância de sujeito:

(15) xee kya a-japo a-iny
eu rede 1sg.-fazer 1sg.-aux.

Para a checagem desses traços de concordância, há duas possibilidades. A primeira, proposta por Demuth e Gruber (cf. Collins, 1997), sugere que em construções com concordância múltipla, cada verbo é dominado por um AgrsP e um TP, sendo o T mais alto o núcleo com a propriedade [+ finito] e com traços de caso nominativo. Os traços de concordância são , então, checados quando o sujeito se move sucessivamente para a posição de especificador do AgrsP que domina cada verbo.

Esta proposta, embora atraente, não está isenta de problemas, tais como: (i) justificar o movimento do sujeito para [Spec,AgrsP] que domina cada um dos verbos auxiliares (como se viu, Agrs tem traços N e V fracos em Mbyá Gurani); (ii) postular vários AgrsPs e TPs torna a representação oracional ainda mais complexa, o que é contrário ao espírito do Programa Minimalista.

A outra possibilidade é a de que a checagem dos traços de concordância de sujeito tanto no verbo lexical quanto no verbo auxiliar seja realizada em Forma Lógica. O verbo lexical deve subir para T e para Agrs, a fim de checar os seus traços de tempo e de concordância de sujeito.O verbo auxiliar, por ter apenas traços de concordância a serem checados, deveria adjungir-se a Agrs. Existem, porém, dois problemas referentes à checagem dos traços do auxiliar em Forma Lógica. Em primeiro lugar, para que Aux se mova para Agrs , ele deve atravessar dois núcleos funcionais preenchidos: Agro e T, violando a Condição do Movimento mais Curto. Em segundo lugar, como Agrs tem apenas um papel mediador, servindo para checar se os traços de seu especificador e os traços dos núcleos em adjunção a ele são compatíveis, ele desaparece após realizar a sua função. Sendo assim, Agrs não pode checar dois núcleos com os mesmos traços de concordância.

 

2.4 Checagem vs Incorporação da morfologia verbal

Como nem o verbo lexical, nem o verbo auxiliar ultrapassam a posição de Agro em sintaxe visível, a sua morfologia flexional não pode ter sido adquirida na sintaxe por meio de movimentos sucessivos dos verbos para os núcleos de T e/ou de Agrs, conforme a teoria da incorporação de flexão verbal. Portanto, em Mbyá Guarani, a flexão verbal só pode ser adquirida no léxico, de acordo com a teoria da checagem de traços morfológicos .

Passamos em seguida a fatos da língua Karajá:

 

3. Karajá

O argumento empírico que fundamenta a proposta de que a posição de base do sujeito é mais baixa do que a posição derivada do objeto (Sportiche 1988 e outros), está baseado no comportamento dos chamados quantificadores flutuantes. Observe-se que, em Karajá, o quantificador pode estar imediatamente à direita ou à esquerda do SN que quantifica, podendo ainda estar relacionado a um SN não adjacente4. É o que se observa nos exemplos em (16):

(16) a. Hãbu ijõ benora rimyra detimy
homem todos tucunaré pegou rapidamente
"Alguns homens pegaram tucunaré rapidamente"

b. Ijõ hãbu benora rimyra detimy
alguns homens tucunaré pegaram rapidamente

c. Hãbu benora rimyra ijõ detimy
homem tucunaré pegaram alguns rapidamente

O fato de que (c) é gramatical em Karajá viabiliza a interpretação de que o quantificador assinale a posição de base do sujeito, conforme proposto por Sportische (1988). Por outro lado, o fato de que uma frase como (17) é agramatical indica que o sujeito, se gerado em Spec de SV, não poderia ficar nesta posição:

(17) * Hawò riwinyra kua habu ywimy.
canoa fez aquele homem vagarosamente

Embora haja evidências em Karajá para a postulação de Spec TP, pois, como vimos acima, tempo e concordância apresentam posições próprias, justificando uma fixação positiva do parâmetro do Spec TP, conforme proposto em Bures (1993) e Bobaljik e Jonas (1996), não dispomos, no entanto, de evidências positivas que justifiquem a geração do sujeito nesta posição. Face ao teste com quantificadores apresentado acima, parece-nos mais apropriado, portanto, adotar a hipótese do sujeito gerado internamente ao SV, assumindo a proposta de Bobaljik (1994) resumida na introdução da seção II, a fim de explicar o alçamento do SN sujeito para fora do SV, sem o requisito de que o verbo tenha de se mover do núcleo de Agro. Postulamos, no entanto, que o sujeito se mova de [Spec, SV] para o especificador de TP na sintaxe visível a fim de checar os seus traços de caso nominativo com o núcleo de TP, possibilitando a linearização SOV. Em nossa análise, portanto, TP tem traços N fortes e traços V fracos, já que, como vimos acima, o verbo pode procrastinar qualquer movimento de sua posição derivada em Agro para a sintaxe invisível. AgrsP, por outro lado, tem traços N e V fracos em Karajá, permitindo que tanto o verbo quanto o SN sujeito só tenham que mover-se para o seu domínio após Spell-Out. Assim, assume-se que há em Karajá um contraste marcante entre as categorias funcionais AgrsP e AgroP. Enquanto o sistema de concordância de objeto parece ser ativo ao nível da sintaxe visível, seja através da relação especificador/núcleo (nominais e clíticos), seja por adjunção do verbo ao núcleo de AgroP (desinências de objeto internas ao verbo), o sistema de concordância de sujeito parece ter traços N e V fracos em Karajá5, procrastinando sua checagem para FL.

A análise do fragmento de estrutura oracional do Karajá que discutimos aqui implica claramente que o movimento sintático é apenas invocado no caso dos nominais e de Agro. O inteiro conjunto de afixos verbais (sujeito, aspecto, plural, negação, tempo/modo) só precisa ser checado em FL.

 

3.1. AgrsP e o sistema de dêixis direcional

Observa-se em Karajá ainda a ocorrência de um sistema de dêixis espacial e empática que é implementado nos verbos através de alternâncias fonológicas que têm lugar primariamente no âmbito do sistema de concordância de sujeito, atingindo os prefixos de concordância de sujeito ativo, e espalhando-se para posições que podem indicar a pessoa nos sufixos de plural e nos sufixos de tempo. Basicamente, a marcação de direção assinala que uma entidade ou situação discursiva está orientada em direção ao falante, ou seja, é concebida como ocorrendo de lá para cá (cislocativamente), opondo-se à orientação espacial daqui para lá ou à orientação dali para lá, que são indistintas em Karajá. Assim, por exemplo, em (41a), a raiz -hony- "sair", não está marcada direcionalmente, devendo ser interpretada como "eles saíram" daqui para lá ou dali para lá. Já a forma verbal em (41b), marcada direcionalmente indica que a ação de sair é exercida em direção ao falante, devendo, portanto, ser interpretada como "eles saíram de lá para cá":

(18) a. r-o-hony-reny-re "Eles saíram"
3A-tema-sair-plural-passado

b. d- o-hony-deny-de "Eles saíram"
3A(dir)-tema-sair-pl. (dir)-pass.(dir)
(marcado direcionalmente)

Observe-se que a marcação direcional em Karajá não tem um locus próprio, mas é implementada por meio de alternâncias fonológicas nos afixos de pessoa, número e tempo. Claramente, trata-se de uma operação gramatical computada na sintaxe, pois tem reflexos em FF , bem como em FL. A representação da direção como uma categoria funcional independente não se justificaria por duas razões. Em primeiro lugar, a direção não parece ser um traço forte, que requeira checagem na sintaxe visível em Karajá. É o que parece ser demonstrado pelo fato de que a direção pode ser marcada nos verbos auxiliares que, segundo nossa análise acima, não se movem antes de Spell-Out. Exemplo (19):

(19) Uladu mahadu waximy d-o-i-deny-de.
criança grupo pescar 3dir-tema-locomover-pl(dir)-pass(dir)
"As crianças vieram pescar"

Além disso, como já notamos, a marcação morfológica dos direcionais não requer uma posição própria afixada à raiz, mas é implementada através de alternâncias que têm lugar sobre afixos do sistema de Agrs, não se justificando a postulação de uma categoria funcional específica. A proposta de representar a direção em Karajá como implementada sintaticamente através de Agrs parece, portanto, mais adequada.

Em resumo, a língua Karajá apresenta movimento do verbo principal para fora do SV para checar traços fortes de Agro e permitir o alçamento do SN objeto por cima do especificador de SV, a fim de licenciar a checagem do Caso acusativo para o SN objeto via relação especificador/núcleo. Assumindo-se a noção de eqüidistância de Bobaljik (1994), permite-se que o SN sujeito mova-se para o especificador de TP para checar caso nominativo na sintaxe visível. Os verbos auxiliares são concatenados ao núcleo de Agro acima de SV e não precisam elevar-se na sintaxe visível para checar quaisquer traços, pois os únicos afixos fortes em Karajá são os prefixos objetivos que, sintomaticamente, não ocorrem nos auxiliares. Após Spell-Out propõe-se que os auxiliares movam-se primeiro para o núcleo de TP e, subseqüentemente, para o núcleo de AgrsP, onde checam, respectivamente, seus traços de tempo e de concordância. Assim, ao contrário do francês, que exibe movimento do verbo lexical bem como movimento do verbo auxiliar e ao contrário do inglês que exibe movimento do auxiliar, mas não movimento de verbo lexical, a língua Karajá apresentaria movimento do verbo lexical, mas não movimento do auxiliar na sintaxe visível.

Conclui-se, assim, que, ao contrário do sistema de concordância de objeto, o sistema de concordância de sujeito em Karajá, com suas indicações de pessoa e de direção, bem como o inteiro conjunto de afixos verbais, (sujeito, aspecto, plural, negação, tempo/modo) só precisem ser checados em FL. Além disso, postula-se para o Karajá um sistema CP, responsável, por exemplo, pela checagem das construções interrogativas e de um sistema TopP para as construções de tópico, conforme analisado em Maia et al. (1997).

 

4. Kuikúro

Pelo menos dois problemas se colocam para a língua Kuikuro a respeito do SN heke, o agente-causa, a sua posição de base, e da existência de uma categoria funcional acima de Agro. Os exemplos mostram a necessidade de postular que, na sintaxe visível, o sujeito Agente, SN heke, permanece in situ, em posição de especificador de SV. Postulamos, assim, que seu movimento é procrastinado para FL e é para uma categoria funcional TP mais alta com traços fracos. Explicar-se-iam, dessa maneira, a ordem OVA, o comportamento ambíguo do SN heke, um sintagma posposicional com propriedades de sujeito, bem como a fraqueza das marcas verbais propriamente temporais. Propomos, então, as seguintes representações frasais para o Kuikúro:

0001i03.gif (2202 bytes)0001i04.gif (2356 bytes)

 

Note-se que retomamos parcialmente para a nossa análise propostas de Chomsky (1993), de Bobaljik (1993) e de Murasugi (1992) para as línguas ergativas. Em concordância com os primeiros, o paralelismo entre S e O é epifenômeno do movimento de S para especificador de uma mesma categoria funcional, imediatamente acima de SV (AgroP ou AspP). É o movimento de S (o argumento de verbo intransitivo gerado em [Spec,VP]) que é parametrizado, dados os traços fortes de Agro. Em concordância com Murasugi, não postulamos Agrs, mas sim um TP, inerte na sintaxe visível. O argumento de verbo transitivo gerado em [Spec, VP] permanece in situ, sendo que a posposição heke é inserida como recurso para atribuição de Caso.

A ocorrência do SN heke (agente-causa) em posição que antecede linearmente o complexo S/O-V, ou seja na ordem AOV, tem sido caracterizada, em trabalhos anteriores e em descrições de outras línguas karib, como resultado de topicalização. Em Kuikúro, apenas um dos seguintes constituintes pode ser topicalizado em cada frase: um advérbio ou um adjunto ou o próprio SN heke. Dêiticos e partículas aspectuais geralmente demarcam a fronteira do tópico. Vejam-se os exemplos abaixo:

(21) tüheinhi akatsege kügamuke etimpe-tagü
de pressa ENF crianças chegar-T/A
"de pressa as crianças chegaram"

kuge heke-ha ige-i ngüne ha-tagü tüheinhi
pessoal A-ENF DEIT-COP casa fazer-T/A de pressa
"o pessoal está fazendo a casa de pressa"

Consideramos que a ordem AOV é derivada através do movimento do SN heke (ex. ) para a categoria TopP, que, por sua vez, pode ser vista como parte da camada de complementizador cuja função seria a de interface com o discurso e a força ilocucionária (Rizzi, 1997). Embora não seja possível desenvolver aqui uma análise daquilo que Rizzi chama de "estrutura da periferia esquerda", a representação da configuração frasal em Kuikúro identifica tres camadas: a lexical (SV), cujo núcleo é o verbo e onde se dá a atribuição theta; uma camada "flexional" composta por uma única categoria funcional ativa na sintaxe visível (AgroP ou AspP), significativa para as especificações morfológicas do verbo e responsável para a checagem de Caso; uma camada de complementizador composta minimamente por TopP e CP.

 

5. Conclusões

As conclusões da comparação dos aspectos gramaticais das línguas indígenas examinadas neste trabalho são resumidas no quadro em (22). Há evidências em algumas das línguas examinadas que parecem indicar que as categorias AgroP e AgrsP (se postulada) tenham conteúdos com características distintas daquelas postuladas no modelo de Chomsky (1993). Em Kuikúro, conforme apresentado acima, a categoria imediatamente acima do SV poderia estar relacionada também à checagem do sistema aspectual da língua. Em Karajá, o conteúdo de Agrs deve de alguma forma licenciar o sistema de dêixis direcional e empática existente na língua e que é especificado em relação ao sistema de Agrs, mas não ao de Agro. Em Mbyá Guarani, a existência de Agro com traços fortes explica também a ocorrência de sujeitos de construções de Regência Excepcional para Caso em [Spec,AgroP] na ordem OV da oração matriz.

Em Karajá parece haver uma categoria AgrsP inerte sintaticamente, isto é, com traços N e V fracos cuja checagem pode ser procrastinada para a FL. Em Kuikúro, seguindo-se a análise de Murasugi (1992) para línguas ergativas, preferiu-se postular uma categoria TP ao invés de AgrsP. Em Tikuna adota-se a hipótese de geração do SN sujeito fora do SV, diretamente em tópico ou em especificador de AgrsP, que teria, assim, traços N e V fracos. Em Mbyá Guarani, postula-se uma categoria AgrsP inerte na sintaxe visível, já que a sua presença não é motivada nem por fatores estruturais - nada é gerado ou se move para o seu domínio - e nem permitiria explicar a checagem de concordâncias múltiplas.

Quanto ao elenco de categorias funcionais presentes na arquitetura da frase, além das categorias de concordância, parece haver em todas as línguas examinadas, evidências para a postulação de uma categoria TP e de uma categoria CP. Além dessas categorias comuns, apresentaram-se evidências em favor de uma categoria de Tópico, TopP, em Tikuna e em Kuikuro. Em Tikuna, propôs-se ainda que TP seja de fato um operador.

No que se refere à posição de geração do sujeito, considerou-se que em Karajá e em Guarani este é gerado internamente ao SV, movendo-se para TP na sintaxe visível para checagem de caso nominativo. A adoção da análise de Bobaljik (1994) propiciou a base teórica para legitimar a subida do SN sujeito do interior do SV sem a pré-condição da subida de V, que desfaria a ordem SOV. Em Tikuna, por outro lado, apresentaram-se evidências em favor da hipótese de que a posição de geração do sujeito seja a posição de tópico ou especificador de AgrsP, uma vez que não parece possível sustentar, a partir dos testes com quantificadores flutuantes, a idéia de que os sujeitos nesta língua sejam gerados internamente ao SV. Já em Kuikuro consideraram-se duas possibilidades: a ordem SOV e a ordem OVS. Para ambas propôs-se que o sujeito seja gerado internamente ao SV, sendo que em SOV considerou-se que o sujeito se move na sintaxe para um Sintagma de Tópico (TopP), enquanto que em OVS, o sujeito procrastina seu movimento para a Forma Lógica, onde é alçado para TP.

Finalmente, as análises desenvolvidas para a arquitetura oracional das quatro línguas examinadas eliminou a possibilidade de se ter um sistema flexional incorporativo, em que a afixação seria explicada via movimento sintático de núcleo. Como o verbo não sobe além de Agro, não seria possível à raiz verbal anexar os diferentes afixos que, segundo o sistema incorporativo, deveriam ser adquiridos pela raiz verbal não flexionada nas categorias funcionais relevantes. Sendo assim, tem-se evidência em Mbyá Guarani, Kuikuro, Karajá e Tikuna em favor da teoria de checagem, segundo a qual o verbo já sai do léxico integralmente flexionado.

 

(22) Quadro

Traço/Língua Mbyá Guarani Kuikúro Karajá Tikuna
SOV Agro tem traços N e V fortes
Agrs tem traços N e V fracos
Agro tem traços N e V fortes
Não tem Agrs
TP tem traços N e V fracos
Agro tem traços N e V fortes
Agrs tem traços N e V fracos
Agro tem traços N e V fortes
Agrs tem traços N e V fracos
AUX Gerado acima de SV
Checagem problemática
Transparente para movimento longo de núcleo
SVAux problemática

-

Gerado acima de SV
Move-se em FL
Transparente para movimento longo de núcleo
SVAux problemática

-

Clíticos Simples

-

Simples: distribuição complementar com SN
Paralelo a alçamento de objeto
Redobro de clítico
Subcategorização morfológica
Sujeito Gerado em SV
Move-se para TP na sintaxe visível
OVS: Gerado em SV
Move-se p/ TP em FL
SOV: Gerado em SV
Move-se p/ TopP na sintaxe
Gerado em SV
Move-se para TP na sintaxe visível
Gerado fora do SV (em TopP ou em AgrsP)
Categorias
Funcionais
CP, TP, AgrsP, AgroP TopP, CP, TP, AgroP TopP, CP, TP, AgrsP, AgroP TopP, CP, TP, AgrsP, AgroP, TP como operador
Combinação Verbo+Afixos Checagem Checagem Checagem Checagem

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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NOTAS

1 Bobaljik (1994) propõe substituir a definição de domínio mínimo adotada em Chomsky (1993) e em Bures (1993), abaixo delineada em (a), pela definição em (b):

(a) Let [Spec,XP] be the closest position of the relevant type for an element a .
Either (i) or (ii) may apply:

(i) a may move to Spec,XP
(ii) a may move to Spec, YP, where X has adjoined to Y

(b) Let [Spec,XP] be the closest position of the relevant type for an element a .Either (i) or (ii) may apply:

(i) a may move to Spec,XP
(ii) a may move to Spec, YP, where XP is the complement of Y.

2 Como não está definida, para o Tikuna, a categoria funcional específica da qual resulta a arquitetura da sentença, referimo-nos a essa última provisoriamente como S em (5).

3 Não parece ser o caso do quantificador pãve em Mbyá.

Autores como Bobaljik (1995) assumem a posição de que os quantificadores adverbiais possuem natureza adverbial e só aparecem em uma posição à esquerda de um PP ou predicado secundário que seguem o SV. Eles são também verificados em posições em que nenhum vestígio de NP pode ser postulado. Esse Guarani que obedece a certas exigências estruturais e nunca pode ocorrer em SV abaivo do objeto não-deslocado.

4 Note-se, no entanto, que a possibilidade de separar-se o quantificador do SN quantificado não está disponível para todos os quantificadores da língua Karajá.

5 Uma interpretação alternativa seria a de se especular que os traços-fi de concordância de sujeito que não são checados na sintaxe visível, possam ser visíveis na interface com o componente morfológico de FF, disparando processos morfofonêmicos, parte da maquinaria pós-sintática disponíveis no componente morfológico de FF. É o que se exemplifica em (a) e em (b). Note-se que a marca t- de segunda pessoa espalha-se para os morfemas de plural e de tempo, mas não para a raiz. Especulamos sobre a possibilidade de que os traços-fi de sujeito inseridos na forma verbal na numeração sejam enviados para o componente morfológico de FF depois de Spell-Out, além de checados em FL. Não se trata, obviamente de um processo em que os traços fossem checados apenas em FL, pois do contrário não se poderia constatar o efeito morfofonêmico que se verifica no componente morfológico da Forma Fonética, uma vez que não há relação direta entre FF e FL. Note-se que não é apenas um processo fonológico que ocorre em (a e (b), pois a raiz verbal que também inicia com [r] não é afetada pelo espalhamento:

(a) r-a-rybè-reny-re
3S-tema-falar-PL-Pass
"They spoke"

(b) t-a-rybè-teny-te
2S-tema-falar-2S/PL-2S/Pass

Embora tal quadro de divisão de tarefas entre a morfologia e a sintaxe pareça ser compatível com os princípios de economia que singularizam o programa minimalista, a caracterização do componente morfológico ainda é um ponto muito confuso na teoria sintática, conforme apontado por um revisor anônimo da Revista D.E.L.T.A.

* Este trabalho foi apresentado inicialmente no III Encontro de Gramática Gerativa, na Faculdade de Letras da UFRJ em agosto de 1995. Uma segunda versão foi apresentada no Simpósio Teoria da Gramática/Línguas Indígenas Brasileiras no XI Encontro Nacional da ANPOLL em junho de 1996. O primeiro autor é o principal autor da publicação, sendo os demais autores listados em ordem alfabética pelo último sobrenome. Todos desenvolvem projetos individuais sobre as línguas em comparação. Bruna Franchetto estuda o Kuikúro, Yonne Leite e Marcia Damaso Vieira pesquisam línguas da família Tupi-Guarani, Marcus Maia estuda a língua Karajá e Marília Facó Soares estuda a língua Tikuna.

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