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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

versão impressa ISSN 0102-4450versão On-line ISSN 1678-460X

DELTA vol.32 no.4 São Paulo out./dez. 2016

https://doi.org/10.1590/0102-445016622919802652 

ARTIGOS

A posição do quantificador universal e suas implicações para o diagnóstico do movimento do verbo*

The position of the universal quantifier and its implications on the diagnosis of verb movement

Aquiles TESCARI NETO1 

1 (Unicamp) E-mail: tescari@iel.unicamp.br


RESUMO

Neste trabalho, propõe-se uma análise para o fenômeno da quantificação flutuante e se problematiza a sua relevância nas discussões sobre o movimento do verbo. É feita uma revisão de duas abordagens teóricas sobre o fenômeno da quantificação flutuante, visando a compreender como cada uma trata da questão do movimento do verbo. Mostra-se que, para ambas, os quantificadores flutuantes são diagnósticos para a subida do verbo, pelo fato de ocuparem uma posição à margem esquerda da fase baixa (vP). Com base na distribuição de quantificadores flutuantes e advérbios altos em inglês, argumenta-se contra essas duas análises e se sugere que os quantificadores flutuantes, por ocuparem uma posição muito alta na hierarquia da oração, não podem ser considerados diagnósticos para o fenômeno do movimento do verbo.

Palavras-chave: quantificadores flutuantes; movimento do verbo; hierarquia da oração; Cartografia

ABSTRACT

The paper proposes an analysis of the phenomenon of floating quantification, by discussing its relevance to the theory of verb movement. Two theories of floating quantification are compared in order to see how they treat the issue of verb movement. It is shown that for both theories floating quantifiers are diagnostics for verb raising, since they occupy a left-edge position in the lower phase. By taking the distribution of floating quantifiers and higher adverbs in English, it is shown that these two theories make wrong predictions. It is suggested that universal floating quantifiers occupy a high position within the Middlefield and for this reason they cannot be considered reliable diagnostics for verb raising.

Key-words: floating quantifiers; verb movement; funtional hierarchy; Cartography

"Be careful where you float your quantifiers." (Bošković, 2004)

1. O problema

Em Sintaxe Gerativa, há (pelo menos) duas grandes abordagens teóricas para o fenômeno da quantificação flutuante, quais: (i) a teoria do Encalhe ('Stranding Theory') - também chamada 'Teoria do Movimento' - e a (ii) teoria Adverbial. A primeira encontra as suas bases em Sportiche (1988) e Koopman & Sportiche (1991). Muitos outros autores tem assumido essa análise, alguns propondo ligeiras modificações à proposta inicial (cf. dentre tantos outros, Giusti 1990, 1991; Cardinaletti & Giusti 1991; Boskovic 2004; Harwood 2011; e, para os estudos do português brasileiro, Vicente 2006, Lacerda 2012; Vicente & Gomes 2013 1). Já para a teoria adverbial, que encontra suas origens em Kayne (1975), Pollock (1989), etc., os quantificadores flutuantes seriam constituintes de natureza adverbial e se adjungiriam a VP ou a alguma porção da projeção estendida do verbo (cf. Bobaljik 1995, 2001; Doetjes 1997; Brisson 1998; 2000; Fitzpatrick 2006, cap. 2, dentre outros).

Estudos sobre o movimento do verbo à flexão têm-se valido quer de uma quer da outra teoria indiferentemente, tomando os quantificadores flutuantes como diagnósticos. Conforme se mostrará na seção 4, para ambas as teorias, os quantificadores flutuantes (doravante QFs) são, de fato, diagnósticos fidedignos para o movimento do verbo à flexão, em vista de (ambas) considerarem que ocupam uma posição à margem esquerda da fase baixa (vP). Embora Pollock (1989) tenha-se valido de uma análise adverbial para o fenômeno da quantificação flutuante, a ideia de que esses itens poderiam indicar a subida de V para I (i.e., do movimento do verbo à flexão) é preservada ainda que se considere a proposta clássica de Sportiche (1988), segundo o qual os quantificadores seriam soldados (merged) junto com o seu DP associado em [Spec,vP], sendo a flutuação o resultado do movimento do DP associado e encalhe do quantificador.

Esses quarenta anos de discussões sobre o fenômeno da quantificação flutuante em Sintaxe assistiram a um embate teórico bastante frutífero sobre a estrutura da oração pelos 'partidários' duma ou outra das escolas teóricas acima mencionadas. Retomam-se aqui algumas das críticas trocadas entre essas Escolas para mostrar que ambas as teorias sobre a quantificação flutuante ainda apresentam problemas empírico-conceituais. A importância desse exercício é fundamental para a proposição de uma nova análise teórica para o fenômeno da quantificação flutuante. Assim, o trabalho é organizado da seguinte forma: na seção 2, apresenta-se a teoria do encalhe. Na seção 3, sumarizam-se as ideias principais da teoria adverbial. Na seção 4, mostra-se por que não há grossas diferenças na assunção de uma ou outra dessas duas propostas. Na seção 5, apontam-se algumas vantagens da teoria do encalhe. Em seguida, apresentam-se algumas desvantagens dessa abordagem (seção 6). Na seção 7, argumenta-se em favor da teoria adverbial, que será assumida aqui, muito embora com drásticas modificações (seções 8, 9 e 10). Um mergulho em dados empíricos do inglês sobre a distribuição de QFs e advérbios modais altos (seção 8) sugerirá que mesmo a análise adverbial precisaria ser revista. Assumindo desenvolvimentos recentes do Programa Cartográfico e a teoria de Kayne (1998) sobre a atribuição de escopo semântico, propor-se-á uma nova linha de análise para o fenômeno da quantificação flutuante, análise esta que considera os QFs como elementos associados ao escopo ou indutores de escopo, de tal sorte que é possível estender a análise da focalização por advérbios de Kayne (1998) a QFs (seções 9 e 10). Como conclusão, mostra-se que QFs não são diagnósticos fidedignos para a subida do verbo à flexão (seção 10), o que, consequentemente, aponta para a inadequação das teorias adverbial e do encalhe no tocante às previsões sobre o movimento de V. Encerra-se com algumas conclusões (seção 11).

2. A teoria do Encalhe

Para a teoria do Encalhe (doravante TE), os quantificadores são Soldados (Merged) junto com o seu nominal associado. A flutuação seria o resultado de um encalhe pelo movimento desse DP associado (Sportiche 1988, Giusti 1990, Cardinaletti & Giusti 1991, Bošković 2004, Vicente 2006; Harwood 2011; Lacerda 2012). O objetivo da Teoria do Encalhe é dar conta da aparente ausência de diferença semântica entre QFs (5b) e quantificadores não-flutuantes (5a):

(1) a. [All the students] have had lunch.

('Todos os estudantes almoçaram')

b. [The students] have all had lunch. (Fitzpatrick 2006: 14)

Para explicar a quantificação nominal em (5b), partidários dessa teria sugerem que all e the students teriam entrado na derivação como constituintes da projeção estendida do nome, i.e., teriam sido 'constituent-mates' em algum ponto da derivação, conforme sugere (6a). Assim, o DP-agente (incluindo naturalmente o quantificador) pode-se mover a [Spec,IP] para checar Caso (ver a derivação sugerida em (6b)) ou apenas o nominal associado (ver a derivação sugerida a seguir em (7)).

(6) a. [IP_____[I' have [VP [DP all the students] had lunch]]]

b. IP [DP All the students] [I' have [VP t had lunch]]]

(7) a. [IP_____[I' have [VP [DP all [DP the students]] had lunch]]]

b. [IP [DP The students]I [I' have [VP [DP all ti] had lunch]]]

Desse modo, a flutuação do quantificador seria explicada pelo movimento de seu nominal associado (7b), o qual viria a ser o Sujeito da sentença, que deixaria o quantidicador encalhado na sua posição de Soldagem ('Merger'), como em (7b) ou em posições intermediárias no "caminho" do DP-Agente rumo à posição em que seria linearizado como Sujeito (cf. as posições "entre parênteses" em (8), onde o quantificador pode ser linearizado):

(8) We (all) could (all) have (all) been (all) running a marathon by now. (Harwood 2011: 2)

Nós (todos) poderíamos (todos) ter estado (todos) correndo na maratona desde já.

'Nós poderiamos estar já correndo a maratona.'

Não é difícil entender qual o papel da TE nos estudos sobre a subida de V à Flexão: se se assume que o Sujeito é interno a VP (Koopman & Sportiche 1991), i.e., que o sintagma que vem a ser o Sujeito da sentença é externamente Soldado (externally Merged) em [Spec,vP], uma vez que o nominal associado ao quantificador sobe 'sozinho' a [Spec,IP], deixando o quantificador "encalhado" em sua posição de Soldagem, esse quantificador pode indicar se o V subiu à Flexão (I°) ou não (ver fig. 1).

Figura 1 elaboração própria. 

Os dados (9-10) poderiam ser tomados pela TE para defender o alcance dessa teoria no tocante ao movimento de V. A tradição pós-Pollockiana sugere que não há subida de V à flexão no inglês. De fato, o verbo deve-se encontrar à direita do quantificador (cf. (9a), o que sugere, dada a estrutura apresentada na fig.1, a ausência de movimento de V para I. Movimento de V a I gera agramaticalidade (ver (9b)). Em francês, a adjacência Sujeito-Verbo não pode ser quebrada em sentenças com V-finito e entonação plana, sendo o movimento de V obrigatório (Pollock 1989; Belletti 1990; Chomsky 1995).2 Isso pode ser capturado pelos dados (9'a,b): (9'a) é agramatical e o advérbio/QF se encontra à esquerda de V; (9'b), que sugere movimento de V para I (por sobre o quantificador/AdvP), é gramatical: em francês há movimento de V a I.

(9) a. The children all ate chocolate.

('As crianças todas comeram chocolate')

b. *The children ate all chocolate.

(9') a. *Les enfants tous mangent le chocolat.

('As crianças todas comeram chocolate')

b. Les enfants mangent tous le chocolat.

3. A teoria adverbial

A teoria Adverbial (doravante TA) propõe que os QFs não são Soldados juntos com o DP. São, na verdade, modificadores da projeção estendida do verbo (à semelhança de adverbiais) e, como tal, se adjungem a VP ou a alguma porção da projeção estendida de V (cf. Bobaljik 1995, 2001; Doetjes 1997; Brisson 1998, 2000; Fitzpatrick 2006). QFs e AdvPs aparecem exatamente nos mesmos contextos em inglês e francês:

(10) a. My friends all/probably will leave. (Inglês)

Meus amigos todos/provavelmente vão sair (Bobaljik 2001:4)

b. *Les enfants tous/bientôt vont partir. (French)

As crianças todas/cedo partirão.

(Pollock 1989:368; Bobaljik 2001: 4)

A representação da estrutura, para os estudiosos da TA seria, grosso modo, próxima à sugerida na figura a seguir:

Figura 2 elaboração própria. 

Assim, se o QF é adjunto de VP, fica explicado por que também a TA tem algo a dizer sobre a subida de V à Flexão. O quantificador nesse caso nada mais seria do que um advérbio de VP, i.e., adjunto de VP (cf. Jackendoff 1972). Sendo um adjunto de VP, o raciocínio aplicado à TE acima (no tocante ao movimento de V) pode-se repetir aqui com alguns ajustes: se o quantificador aparece à esquerda de V na superfície, tal fato indica 'ausência' de movimento de V para I (e os dados (9a) e (9'a) acima podem ser explicados); se, por outro lado, o quantificador se lineariza à direita de V (9b, 9'b), isso indica o movimento de V a I (por sobre o quantificador), uma vez que a teoria de modo geral já não assume lowering (abaixamento).

4. Trocar seis por meia dúzia...

Tanto na teoria adverbial como na teoria do movimento, os QFs se posicionam na margem esquerda (left-edge) da fase baixa (vP), motivo pelo qual poderiam indicar a presença ou ausência do movimento de V para I (flexão) (ver o arco da fig. 3, a seguir). Para a TE, o quantificador nasce em [Spec,vP], onde ele é Soldado junto com o seu nominal associado (ver a representação na fig. 1). Para a TA, o quantificador é gerado em adjunção a VP (conforme a representação sugerida na figura 2). À parte detalhes não importantes ao presente contexto - como, por exemplo, qual a categoria do XP que se Solda em [Spec,vP] para a TE (um DP ao qual um QP se adjunge? um QP que toma um DP por complemento? Ou ter-se-ia nesse caso simplesmente a projeção estendida do nome?) -, ambas as teorias fazem exatamente as mesmas previsões no tocante ao movimento de V a I. Do ponto de vista da teoria do movimento do verbo, não seria, então, possível decidir, pelo menos até o momento, por uma dessas duas propostas sobre a quantificação flutuante. A escolha por uma ou pela outra, ou melhor a troca de uma teoria pela outra equivaleria, no presente contexto, a um "trocar seis por meia dúzia", se o interesse do pesquisador é pura e simplesmente a questão do movimento de V e a validade do diagnóstico do quantificador flutuante como indicador desse movimento.

Figura 3 elaboração própria. 

A tarefa das sessões seguintes será apresentar as vantagens que partidários de cada uma dessas teorias têm apresentado. Não significa naturalmente dizer que todos os estudiosos da TE compartilham as mesmas opiniões no tocante, por exemplo, à categoria que entra na derivação em [Spec,vP] - no caso de um DP-agente - quando da presença de um quantificador. Não significaria nem mesmo dizer que todos os estudiosos da TE concordam que o quantificador é Soldado junto com o nominal associado já em [Spec,vP]3. Não significa tanto mais ou menos dizer que todos os teóricos da TA tem as mesmas opiniões concernentes à estrutura interna do adverbial QP (se teriam um pro (Doetjes 1997) ou não dentro de sua estrutura interna). A tarefa das sessões seguintes será apenas a de mostrar quais as vantagens (e desvantagens) comuns a essa e àquela teoria em conjunto. Inicia-se com as 'vantagens' que os estudiosos da TE apontam para essa teoria (seção 5). Passa-se então às vantagens que os teóricos da TA mencionam relativamente a esta última. Acrescentam-se também algumas vantagens ainda não observadas anteriormente pelos teóricos da TA que, acredita-se, um tratamento dos quantificadores como modificadores da projeção estendida de V poderia trazer para a compreensão do fenômeno da quantificação flutuante. Uma vez que a balança penderá para a TA, optar-se-á por essa orientação teórica, mas propor-se-á, todavia, uma nova versão a ela, que estende, aos QFs, o tratamento dado em Kayne (1998) ao focalizador only 'só'. A vantagem dessa nova proposta será cobrir não somente os dados que a TE e a TA já conseguem explicar, mas também prover uma explicação para dados do inglês (cf. seção 8) que não poderiam ser naturalmente explicados por nenhuma dessas duas teorias.

5. Vantagens da TE

Teóricos da TE mencionam algumas vantagens dessa teoria para a explanação do fenômeno da quantificação flutuante. Uma delas se refere ao fato de a TE ser compatível com a "hipótese do Sujeito interno a VP", de Koopman & Sportiche (1991). Se o DP que vem a ser o Sujeito sintático da Sentença nasce internamente ao VP - no caso de um DP com papel-temático Agente, ele nasceria em [Spec,vP] -, seria possível encontrar um quantificador flutuando na posição em que esse DP seria gerado, uma vez que, para a TE, como se viu anteriormente, os quantificadores são Soldados junto com o DP a eles associado.

A TE também explica, por exemplo, a similaridade semântica entre estruturas em que o Q flutua e estruturas em que o Q não flutua. A sentença (7b) dada acima apresenta um quantificador em flutuação. Do ponto de vista semântico, esse quantificador está associado ao nominal que ocupa a posição de Sujeito da sentença, do mesmo modo que o quantificador em (6b) também se associa a esse mesmo DP. Se o quantificador entra na derivação inicialmente junto com o DP associado e se se aceita a ideia de que a quantificação flutuante é resultado do encalhe do quantificador pelo movimento do seu DP associado, consegue-se entender a similaridade semântica entre estruturas com flutuação e estruturas sem flutuação do quantificador.

Outra vantagem geralmente mencionada na literatura sobre a TE refere-se aos padrões de concordância frequentemente emergentes em estruturas com QFs. Em francês (e no PB padrão, por exemplo), o quantificador concorda, dentro da expressão nominal, com o seu nominal associado (ver (10a,c)). O mesmo padrão é observado em um contexto com flutuação do quantificador (10b,d).

(10) Francês (Fitzpatrick 2006: 17)

a. Toutes/*tous les femmes sont arrivées.

todo-FEM/*-MASC as mulheres são chegadas

'Todas as mulheres chegaram'

b. Les femmes sont toutes/*touts arrivées.

As mulheres são-FEM/*-MASC chegadas

'As mulheres todas chegaram'

c. Tous/*toutes les hommes sont arrives.

todos-MASC/*FEM os homens são chegados

'Todos os homens chegaram'

d. Les hommes sont tous/*toutes arrivés.

Os homens são todo-MASC/*-FEM chegados

'Os homens todos chegaram'

A TE explica esses padrões de concordância com base no fato de o quantificador e o nominal associado terem sido Soldados juntos na posição temática relevante. Se o quantificador e o DP associado formam um constituinte nalgum ponto da derivação, é natural a emergência da concordância.

Por último, vale mencionar uma vantagem observada em Bošković (2004): os quantificadores aparecem na posição em que foram Soldados ou em posições intermediárias de XPs nominais/argumentais, cf. (6-8) acima.

Não é, contudo, difícil mostrar que esses fatos geralmente arrolados como "vantagens" à TE não possam receber uma outra explicação por teorias alternativas. Em relação à primeira "vantagem", i.e., à compatibilidade entre a TE e a 'hipótese sobre o Sujeito interno a VP', embora essa hipótese de Koopman & Sportiche (1991) pareça integrar o cânone da Teoria de Princípios e Parâmetros (ver Chomsky 1995 e trabalhos sucessivos), de tal sorte que se tenha tornado consensual entre a maioria dos gerativistas a ideia de que o DP-agente, por exemplo, nasça internamente a VP, mais precisamente em [Spec,vP] - basta para isso apanhar uma meia dúzia de manuais de introdução à Sintaxe para concluir que a maioria deles comunga com essa hipótese -, não é todo claro que o DP que vem a ser o Sujeito da Sentença necessariamente seja interno ao vP/VP. Vejam-se, por exemplo, os trabalhos de Cinque (2006), especialmente o capítulo seis daquele volume, onde se sugere que os DPs argumentais na verdade nascem em posições de especificadores necessariamente acima do VP, ideia que explicaria com maior naturalidade a hierarquia temática. Veja-se também Barbiers (2010) para quem o inglês, por exemplo, seria subjacentemente uma língua SOV. Se se estende a ideia de Barbiers a todas as outras línguas, pode-se-ia pensar que SOV seria a estrutura de base, a partir da qual, por movimentos sintáticos, seriam derivadas as demais ordenações atestadas. Tal proposta poria talvez em cheque a tradicional e canônica hipótese sobre o Sujeito interno a VP, consequentemente questionando de imediato a "validade" teórico-conceitual da TE.4

Em relação à segunda vantagem, a da "similaridade semântica" entre estruturas com o quantificador em flutuação e estruturas em que o quantificador não flutua, uma proposta como a TA também conseguiria explicar tal similaridade recorrendo, por exemplo, à ideia sobre os paralelismos entre a expressão nominal e a oração. Abney (1987), Giusti (1993, 2006), Laenzlinger (2011), Cinque (2010) dentre outros assumem haver paralelismo(s) entre a expressão nominal (ou projeção estendida do nome) e a oração (ou projeção estendida do verbo). Assim, haveria, por exemplo, também na projeção nominal, uma "área temática", próxima à posição do NP à semelhança do que ocorre na oração. Cinque (1994, 2010), Scott (2002), Laenzlinger (2011) mostram que na projeção estendida do nome há uma série de posições para adjetivos em modificação direta que guarda semelhanças com a posição dos AdvPs no IP cindido da oração (Cinque 1999). Se o quantificador universal todos e seus correspondentes nas demais línguas ocupam, conforme Cinque (2012, 2013) e Rizzi & Cinque (2016), uma posição muito alta dentro da projeção nominal, é bastante razoável pensar, numa perspectiva de 'paralelismos', que também na oração haveria uma posição para o quantificador universal todos. Conforme será mostrado na próxima seção, com base em dados do italiano, a co-ocorrência de um quantificador a nível da projeção estendida do nome e de um quantificador homônimo a nível da oração é possível, ratificando a ideia dos paralelismos. Assumir que a projeção estendida do verbo tenha um quantificador não significa negar que a projeção estendida do nome também o possa ter. Sob a ótica dos paralelismos isso é bastante natural. Teóricos da TA não negam o fato de haver um Q também interno à expressão nominal.

Sobre os padrões de concordância que se observam em estruturas com flutuação do quantificador (ver os dados em (10), acima), remete-se o leitor à literatura sobre o assunto, especialmente Doetjes (1997) e Fitzpatrick (2006, cap. 2), onde se postula uma categoria vazia pro interna ao sintagma do quantificador (QP), que seria o responsável pela concordância (ver também Tescari Neto 2013, capítulo 6, apêndice 1 para uma síntese dessas ideias).

O fato de os QFs poderem aparecer entremeando auxiliares como em (8), repetido mais adiante, o que sugeriria o "caminho" do DP até a posição de Sujeito da Sentença, também encontraria motivação e explicação numa abordagem adverbial para o fenômeno da quantificação flutuante. Conforme se verá na seção 8, a TA explica a similaridade distribucional entre advérbios modais altos e QFs não só no inglês (Bobaljik 1995, 2001; Brisson 1998, 2000; Fitzpatrick 2006, cap. 2), mas também no francês e no PB (Tescari Neto 2013, cap. 6).

Tudo somado, mesmo as vantagens que os teóricos da TE apresentam ganhariam explicação em propostas alternativas. Na seção seguinte, são apresentados alguns problemas para a TE, que poderiam invalidar análises que tratam da quantificação flutuante como produto de encalhe.

6. Motivos para não assumir a TE

Lembre-se de que a TE aponta o fato de QFs poderem preceder ou seguir (quase todos os) auxiliares (cf. (8)) como evidência de que eles são o resultado de um encalhe pelo movimento do seu NP/DP associado a posições mais altas da oração.

(8) We (all) could (all) have (all) been (all) running a marathon by now.

Nós (todos) poderíamos ter estado correndo uma maratona desde já.

Há, todavia, contextos em que os QFs não podem ser considerados indicadores reais de vestígio (de movimento), simplesmente porque eles podem aparecer em contextos onde, segundo as teorias de Encalhe, não poderiam aparecer; há também contextos onde, segundo a TE, eles deveriam aparecer, mas, na verdade, geram agramaticalidade se figurarem nessas posições (ver a discussão em Bobaljik 1995, cap. 4; Fitzpatrick 2006, § 2.2.1). A seguir, apresentam-se alguns desses casos.

O sujeito sintático de inacusativos e passivos é, na verdade, o objeto lógico, i.e., o constituinte que recebe o papel-temático atribuído a objetos. Certas construções intransitivas (passivas, inacusativas) apresentam uma posição de complemento pós-verbal que é relacionada à de sujeito. Construções passivas do tipo de be arrested (cfr. (11a)) e inacusativas (11b) seriam uma prova disso (ver Bobaljik 1995, cap. 5; Fitzpatrick 2006, cap. 2). Verbos inergativos não apresentam essa posição pós-verbal para o DP, já pelo fato óbvio de o sujeito desses verbos não ser gerado como complemento de V (11c)):

(11) a. There were arrested over five-hundred protesters. (Passiva)

'Foram presos mais de quinhentos manifestantes'

b. There arrived a letter for you today. (Inacusativa)

'Chegou uma carta para você hoje'

c. *There danced many students on the floor. (Inergativa)

'Dançaram muitos estudantes no piso

O italiano também apresenta evidências nesse sentido. A cliticização do partitivo ne só é possível com formas passivas (12) e inacusativas (13), mas não com verbos inergativos (14).

Italiano (Fitzpatrick 2006: 20ff.)

(12) a. Furono arrestati molti studenti.

Foram presos muitos estudantes

('Muitos estudantes foram presos')

b. Ne furono arrestati molti (Passiva)

Deles foram presos muitos('Muitos deles foram presos')

(13) a. Arrivarono molti studenti.

Chegaram muitos estudantes ('Muitos estudantes chegaram')

b. Ne arrivano molti

Deles chegam muitos('Muitos deles estão chegando')

(14) a. Telefonano molti studenti.

Telefonam muitos estudantes

('Muitos estudantes estão telefonando')

b. *Ne telefonano molti.

Deles telefonam muitos (Leitura pretendida: 'Muitos deles estão telefonando')

Quais seriam as previsões da TE? Que um QF não pudesse aparecer em posição pós-verbal com verbos inergativos. Isso de fato ocorre, no inglês (ver (15e)). No entanto, mesmo em construções com V inacusativo e em construções passivas, um QF não pode aparecer em posição pós-verbal (Bobaljik 1995, cap. 4; Fitzpatrick 2006: 36ff), contrariamente às expectativas da TE (cfr. 15a,c).

(15) a. *The suspects have been arrested all. (Passive)

Os suspeitos tem sido presos todos

('Os suspeitos foram todos presos')

b. The suspects have all been arrested.

c. *The students have arrived all. (Unaccusative)

d. The students have all arrived.

e. *The finalists have danced all. (Unergative)

Os finalistas tinham dançado todos ('Os finalistas todos dançaram')

f. The finalists have all danced. (Fitzpatrick 2006: 39)

Dados do francês confirmam que a TE teria problemas para explicar a distribuição de QFs em posições argumentais: um QF pode sempre ser encontrado, pelo menos para Sportiche (1988), em posição pós-verbal, independentemente do tipo de V (cfr. Fitzpatrick 2006: 39-40):

(16) Francês (Sportiche 1988: 437; Fitzpatrick, 2006: 40)

a. Les enfants on été vus ?tous/presque tous (Passiva)

As crianças foram vistas todas

b. Les enfants sont venus ?tous/presque tous. (Inacusativa)

As crianças vieram todas/quase todas

c. Les enfants ont dormi ?tous/presque tous. (Inergativa)

As crianças tinham dormido todas/quase todas

Guglielmo Cinque (com. pessoal) aponta um outro motivo interessante para descartar a hipótese do encalhe. Se QFs fossem o resultado de encalhe pelo movimento do DP-associado, sentenças como (17a,b,c), em que o QUniversal tutti 'todos' aparece como o constituinte mais alto da projeção estendida de N e o mesmo quantificador aparece dentro do Middlefield (IP), deveriam ser agramaticais, contrariamente aos fatos.

(17) Italiano (G. Cinque, c.p.)

a. Tutti i bambini sono usciti tutti alle 5.

Todas as crianças são saídas todas às 5.

('Todas as crianças saíram [ às 5]5')

b. Tutti i ragazzi volevano uscire tutti con Maria.

Todos os garotos queriam sair todos com a Maria

'Todos os garotos queriam sair [F com a Maria].'

c. Tutti i ragazzi sono usciti tutti con Maria.

Todos os garotos são saídos todos com Maria.

'Todos os garotos saíram [F com a Maria].

Em (17), para a teoria adverbial, um Q é Soldado na projeção estendida de N e o outro na oração. Veja que não é possível ter dois Qs homônimos Soldados no Middlefield (cf. (17')):

(17') *I ragazzi sono tutti usciti tutti con Maria.

(Italiano - G. Cinque, com.pessoal)

Os garotos são todos saídos todos com a Maria.

'Os garotos tinham todos saído todos com a Maria'

Para encerrar, a TE não explica por que QFs não podem aparecer em qualquer posição-theta (Bobaljik 1995; Fitzpatrick 2006, chapter 2). Se eles entram na derivação junto com o seu NP/DP associado, deveriam (poder) aparecer em posições-theta também. (18e) e (19) mostram que eles não podem aparecer exatamente em posições argumentais baixas, que são posições potenciais para a sua emergência, segundo as previões da TE. ((18) e (19) são de Fitzpatrick 2006: 42s.)

(18) a. The vegetables all will have been being roasted for an hour by the time you arrive.

Os vegetais todos vão ter estado sendo assados por uma hora quando você chegar

'Os vegetais todos vão ter sido assados por uma hora quando você chegar'

b. The vegetables will all have been being roasted for an hour by the time you arrive.

c. The vegetables will have all been being roasted for an hour by the time you arrive.

d. ?*The vegetables will have been all being roasted for an hour by the time you arrive.

e. *The vegetables will have been being all roasted for an hour by the time you arrive.

(19) a. ?*The students could have been all intelligent.

Os estudantes poderiam ter sido todos inteligentes.

b. The students could have all been intelligent.

Atribuição de papel-theta não pode ser a razão para a agramaticalidade de sentenças em que o quantificador fica encalhado em posições temáticas. Eles são agramaticais mesmo em outras posições baixas, mas não temáticas (ver 18d).

7. Vantagens da TA

A maioria dos fatos arrolados pelos teóricos da TA para mostrar as vantagens dessa abordagem viriam da distribuição de QFs e AdvPs. Tanto QFs quanto AdvPs tem comportamento similar no que diz respeito à sua posição relativa a V em francês e inglês. Em inglês, a adjacência sujeito V/primeiro auxiliar pode ser interrompida quer por advérbios quer por QFs. Em francês, tal adjacência não pode ser rompida nem por uma nem pela outra categoria:

a. My friends all/probably will leave.

Meus amigos todos/provavelmente vão partir

b. *Les enfants tous/bientôt vont partir. (Francês) (=a)

As crianças todas/logo vão partir

A TA também explica melhor outros fatos distribucionais: o QUniversal tem a mesma distribuição que advérbios modais altos em inglês (Bobaljik 1995, cap. 4; Fitzpatrick 2006, cap. 2), ver a tabela a seguir:

Tabela 1 A posição de advérbios/QF all relativa ao V e auxiliares (Fitzpatrick 2006: 43) 

Não somente em inglês, mas também no PB, o QF tem a mesma distribuição que o AdvP alto provavelmente. A tabela 2 ilustra a distribuição desses itens.

Tabela 2 A distribuição do AdvP epistêmico provavelmente e o QF todos no PB (Tescari Neto 2013: 345)6  

Também em francês, o modalizador epistêmico e o QF tem a mesma distribuição na sentença (cf. tabela 3):

Tabela 3 A distribuição do AdvP modal probablement e do QF tous em francês (Tescari Neto 2013: 346) 

No conjunto, a análise das tabelas (1-3) sugere uma abordagem unitária para AdvPs altos e QFs, o que é uma vantagem para a teoria adverbial que os trata do mesmo modo. Na seção 9 e 10, propor-se-á um tratamento alternativo para a quantificação flutuante: com a TA, será mantida a ideia de que tal paralelismo é possível; no que diz respeito à altura em que o QF entra na derivação, haverá entretanto diferenças em relação à TA (cf. Seção 8).

Mais uma razão para a assunção da TA vem do fato de o QF all em inglês não poder ocorrer em posições onde não exista uma 'margem esquerda' (left-edge) de um predicado XP, ainda que haja razões independes para postular um vestígio de DP em tal posição (Bobaljik 1995: 193). (21a,b) ilustram sentenças passivas e inacusativas para as quais, conforme se viu, há evidência de uma posição pós-verbal associada ao DP. No entanto, um QF não pode ocorrer em tal posição.

(21) a. *The suspects have been arrested all. (Passiva)

Os suspeitos tem sido presos todos

('Os suspeitos tem sido todos presos')

b. *The students have arrived all. (Inacusativa)

(Fitzpatrick 2006: 39)

Os estudantes tem chegado todos

('Os estudantes todos chegaram')

Além das razões já expostas, vale lembrar que a TA consegue explicar por que QFs não podem aparecer em posições-theta em inglês: essa posição não é possível para advérbios altos também (ver o quadro assinalado na tabela 1, acima).

Por fim, a TA não descarta, conforme se viu, a possibilidade de haver um QUniversal dentro da projeção estendida do N e um na sentença, em uma posição 'adverbial'. Ver a discussão sobre (17-17') acima.

Na próxima seção, mostra-se a distribuição do QF all 'todo' no Middlefield. Sugere-se que os dados do inglês são inesperados quer pela TE, quer pela TA. Dadas, entretanto, as vantagens da TA sobre a TE, propõe-se, na próxima seção, um refinamento dessa proposta teórica.

8. A distribuição do QFUniversal no Middlefield

Tanto a TE quanto a TA não contam com explicações naturais para um fato aparentemente ainda não observado pela literatura: o posicionamento do QFUniversal em relação a advérbios de ato de fala (honestly) e advérbios mirativos (surprisingly). Sugere-se que a chave para o entendimento desse posicionamento inesperado por ambas as teorias deriva da própria natureza dos QFs como elementos associados ao escopo. Disso decorre uma nova abordagem teórica para o fenômeno da quantificação flutuante que se apresenta nas seções 9-10, com apoio em uma versão modificada de Kayne (1998).

Teóricos da TA argumentam que os QFs gozam de uma certa liberdade relativamente a advérbios altos como certainly, dada a sua posição na superfície (Bobaljik 1995; Brisson 1998, 2000; Fitzpatrick 2006):

(22) a. The thieves have all certainly been apprehended.

Os ladrões tem todos certamente sido apreendidos.

'Os ladrões foram todos certamente apreendidos'

b. The thieves have certainly all been apprehended.

(Bobaljik 1995: 31)

Os ladrões tem certamente todos sido apreendidos

(23) a. The thieves could all easily have opened the safe.

(easily modal)

Os ladrões poderiam todos facilmente ter aberto o cofre.

'Os ladrões poderiam todos facilmente terem aberto o cofre.'

b. The thieves could easily all have opened the safe.

(Bobaljik 1995: 31)

Os ladrões poderiam facilmente todos terem aberto o cofre.

(24) a. The girls all bravely fought the lions

(bravely: orientado para o Sujeito)

As meninas todas bravamente lutaram os leões

'As meninas todas bravamente domaram os leões'

b. The girls bravely all fought the lions. (Brisson 2000: 19)

As meninas bravamente todas domaram os leões.

(OK leitura orientado para o Sujeito (significado coletivo);

*advérbio de modo)

(25) a. The players all skillfully climbed the wall. (Brisson 2000: 19)

Os jogadores todos habilmente subiram o muro.

b. The players skillfully all climbed the wall.

Os jogadores habilmente todos subiram o muro

(OK Orientado para o Sujeito (leitura coletiva);

*advérbio de modo)

Contudo, tal liberdade de posicionamento parece estar em desacordo com a máxima Cartográfica segundo a qual a GU tornaria possível uma e apenas uma estrutura de base para a oração e seus sintagmas principais (Cinque 1999, 2005, 2006). Parece também estar em desacordo com Jackendoff (1972: 87), Bellert (1977) e Cinque (1999: 8,11), segundo os quais AdvPs da mesma classe semântica não podem co-ocorrer.

Que o QFUniversal all não é um "adjunto de VP" (contra, portanto, a análise tradicional da TA (Bobaljik 1995; Brisson 1998, 2000; Fitzpatrick 2006, cap. 2)) fica evidente pelo fato de all não poder aparecer à direita de advérbios de VP bem baixos (por exemplo, advérbios de modo (ver (26a,b)) e advérbios AspCompletive(I) ((26c,d)). All deveria no mínimo ocupar uma posição interna a IP.

(26) a. The buildings were all loudly destroyed.

Os edifícios foram todos abruptamente destruídos

b. *The buildings were loudly all destroyed.

c. The buildings were all completely destroyed.

d. *The buildings were completely all destroyed.

(Harwood 2011: 6)

(27) a. These thieves could have all easily opened the safe.

(Bobaljik 1995: 229)

(OK easily = modal; OKeasily = advérbio de modo)

Estes ladrões poderiam ter todos facilmente aberto o cofre

b. These thieves could have easily all opened the safe.

(OK easily = advérbio modal; * easily = advérbio de modo)

Se a posição do QFUniversal não é, portanto, uma posição de adjunção a VP, i.e., uma posição às margens da fase baixa, qual seria a sua posição no Middlefield/hierarquia de Cinque? Reproduz-se a hierarquia universal de Cinque para o espaço IP no quadro a seguir:

(28) A hierarquia de Cinque para o Middlefield

[frankly MoodSpeechAct > [luckily MoodEvaluative > [allegedly MoodEvidential > [probably ModEpistemic > [once TPast > [then TFuture > [perhaps MoodIrrealis > [necessarily ModNecessity [possibly Modpossibility > [usually AspHabitual > [finally AspDelayed > [tendentially AspPredispositional > [again AspRepetitive(I) > [often AspFrequentative(I) > [willingly ModVolition > [quickly AspCelerative(I) > [already TAnterior > [no longer AspTerminative > [still AspContinuative > [always AspContinuous > [just AspRetrospective > [soon AspProximative > [briefly AspDurative > [(?) AspGeneric/Progressive [almost AspProspective > [suddenly AspInceptive > [obligatorily ModObligation > [in vain AspFrustrative > [(?) AspConative > [completely AspSgCompletive(I) > [tutto AspPlCompletive > [well Voice > [early AspCelerative(II) > [? AspInceptive(II) > [again AspRepetitive(II) > [often AspFrequentative(II) > ... (Cinque 1999: 106, modificado em Cinque 2006)

Como se sabe, para chegar à hierarquia acima, Cinque parte de testes de transitividade envolvendo advérbios de classes semânticas distintas. Assim, se um AdvPA qualquer precede um AdvPB que, por seu turno, precede um AdvPC, infere-se, por transitividade, que o AdvPA também precede o AdvPC. Cinque observa o mesmo padrão para a contraparte nuclear: os núcleos funcionais de sua hierarquia universal também se encontram rigidamente ordenados, o que lhe permite (ver Cinque 1999, cap. 4) propor que esse 'pareamento' não é trivial, mas uma consequência do fato de os advérbios ocuparem a posição de especificadores dos núcleos semanticamente correspondentes.

Se os testes de transitividade permitiram a Cinque precisar a posição das diversas classes de AdvPs em termos de uma estrutura de base, pode-se pensar igualmente que esse tipo de teste possa lançar alguma luz sobre a questão da posição de base de QFs também em termos de uma hierarquia funcional. É justamente o que se pretende fazer a seguir. Como disse Hilda Koopman em conferência (Koopman, 2013), sabe-se onde os constituintes vão parar (i.e., onde são linearizados); a tarefa do linguista é tentar descobrir a posição em que foram gerados (i.e., a posição que ocupam em termos de uma estrutura de base da qual derivariam as mais diversas ordenações lineares nas línguas). Essa é a grande tarefa da Cartografia (cf. Cinque & Rizzi 2010), Escola que floreceu na Itália nos anos 90, sobretudo com os trabalhos de Cinque (1994, 1995, 1999, etc.) e Rizzi (1997, 2001, etc.). O grande objetivo da Cartografia é desenhar mapas da estrutura da oração e dos seus principais sintagmas, mapas esses que, dado o princípio da Uniformidade (Chomsky 2001), teriam validade universal.

Os dados a seguir, do inglês, parecem sugerir que QFs como all tem uma posição rígida e fixa nas hierarquias, posição essa que, conforme se argumentará, é muito mais alta do que a posição sugerida pelos teóricos da TA.

(29) a. The police honestly all left. (Brisson 2000)

'Honestamente, os policiais todos saíram'

b. *The police all honestly left.

(Brisson 2000, see also Brisson 1998: 201)

Em termos de transitividade, (29) sugere que:

(30) MoodSpeechActP > FQall.

Lembre-se (de Cinque 1999) que MoodSpeechActP (honestly 'honestamente') precede MoodEvaluativeP (unfortunately 'infelizmente'):

(31) a. Honestly I am unfortunately unable to help you.

(Cinque 1999: 33)

'Honestamente eu infelizmente sou incapaz de te ajudar'

b. *Unfortunately I am honestly unable to help you.

Até o momento, temos o seguinte quadro:

(30) MoodSpeechActP > FQall.

(31') MoodSpeechActP > MoodEvaluativeP

Descendo a árvore, a projeção imediatamente dominada por MoodSpeechAct seria MoodEvaluative (ver (29)). Acontece que os juízos em relação a dois advérbios que parecem, à primeira vista, representarem essa projeção (amazingly 'surpreendentemente' e unfortunately (cf. (32-33)) são distintos: o primeiro indubitavelmente precede o quantificador all (32); o segundo parece segui-lo (33).

(32) a. The girls amazingly all quit smoking.

As garotas surpreendentemente todas largaram de fumar

b. (??)The girls all amazingly quit smoking.

(D. Pesetsky, com. pessoal)

As garotas todas surpreendentemente largaram de fumar.

(33) a. The girls have unfortunately all left.

As garotas tem infelizmente todas saído

'As garotas infelizmente todas saíram'

b. (?)The girls have all unfortunately left.

(D. Pesetsky, com. pessoal)

As garotas todas infelizmente saíram

Os dados em (32-33) parecem trazer à luz uma questão interessante dos estudos tipológicos da década de 90. De Lancey (1997) já havia observado a existência nalgumas línguas de partículas que codificavam "admiração", ao que ele denominou "modo mirativo". Embora no trabalho de 1999 não coloque essa categoria no rol de projeções funcionais da hierarquia, Cinque reconhece que o modo avaliativo poderia na verdade ser explodido em duas projeções, um ModEvaluative propriamente dito e um ModoMirativo. Os juízos de D. Pesetsky para o inglês capturam com clareza o comportamento de advérbios mirativos e avaliativos relativamente ao quantificador universal, sugerindo que, em termos hierárquicos, apenas os primeiros precederiam o quantificador. Nesse sentido, MoodEvaluative deveria ser cindido em duas outras projeções funcionais, ocupando o QFUniversal uma posição entre essas duas projeções, conforme sugere (34):

(34) MoodMirativeP > FQall > MoodEvaluative

Dados do italiano (35) e mesmo do PB (36) confirmam a previsão de que o assim chamado "Modo mirativo" precede o "modo avaliativo" na hierarquia. Assim, apenas as sentenças dadas em (a) são possíveis, por apresentarem essa ordenação hierárquica:

(35) Italiano (Tescari Neto 2013: 316)

a. Gianni sorprendentemente si è purtroppo dimenticato di chiudere la cassaforte

'Gianni surpreendemente se esqueceu infelizmente de fechar o cofre'

b. *Gianni purtroppo si è sorprendentemente dimenticato di chiudere la cassaforte.

(36) a. O Zé surpreendentemente felizmente chegou em tempo. (Tescari Neto 2013: 317)

b. *O Zé felizmente surpreendentemente chegou em tempo.

Sumariando, a posição da projeção onde o quantificador universal all ('todos') é Soldado no Middlefield - a saber, FQUniversalP - seria entre o modo admirativo (MoodAdmirativeP) e o modo avaliativo (MoodEvaluativeP):

(32) MoodSpeechActP > MoodAdmirativeP > FQUniversal > MoodEvaluativeP > ModEpistemicP > ... > V

Resta agora explicar os dados apresentados nessa seção, comparando a proposta da TA com a que aqui se apresenta. A TA tradicional (cf. Bobaljik 1995, 2001; Brisson 1998, 2000; Fitzpatrick 2006, cap.

2) explicaria que em (22-25) os AdvPs modais altos e o QUniversal all

ocupam a mesma posição. Causa estranhamento tal afirmação por duas

razões: os teóricos da TA assumem Jackendoff (1972) para quem advérbios de mesma classe não podem co-ocorrer. Dizer que os advérbios em (22-25) e (33) são livremente ordenados em relação ao QFUniversal all por pertencerem à mesma 'classe' seria no mínimo paradoxal, se se assume Jackendoff, haja vista a premissa acima. Segundo, ocupar a mesma posição é no mínimo estranho, se se assume que duas categorias não podem aparecer no mesmo contexto, por força do que quer que seja que decorra de um princípio de distribuição complementar. A TA não oferece, portanto, explicação para os fatos. E, pior, não teria nada a dizer sobre o porquê de advérbios de ato de fala e advérbios mirativos terem necessariamente de preceder o QFUniversal.

A proposta aqui apresentada (que se pode denominar "Cartográfica") entende que o QUniversal all ocupa uma posição alta no Middlefield e uma série de transformações para a atribuição de escopo garante-lhe a posição superficial. Essa alternativa será apresentada nas seções seguintes, recapitulando de início a análise de Kayne (1998) sobre a atribuição de escopo.

9. A teoria da atribuição do escopo de Kayne (1998)

Na tradição gerativa, a atribuição de escopo a expressões quantificadas tem sido tratada por anos em termos de movimento em Forma Lógica (ver, por exemplo, May, 1977, Longobardi, 1992), de tal sorte que esse processo se assemelharia a movimentos-wh que se dão na Sintaxe visível. Voltando a atenção a expressões quantificadas como NegPs e o focalizador only 'só', Longobardi (1992) propõe que há um movimento em LF, que é paralelo ao movimento-wh na "estrutura-S" (o que ele denominou de "hipótese da Correspondência"). Kayne (1998) vai um passo além, propondo que este forte paralelismo entre movimentos sintáticos e interpretação do escopo é uma consequência do fato de que não existem movimentos cobertos. Em vez disso, o processo de atribuição escopo sempre ocorre, segundo ele, na Sintaxe visível, graças a uma série de movimentos.

Kayne sugere que em uma sentença como (38), only 'só' não se combina diretamente com o DP Bill (Kayne 1998: 134), mas com o VP (ou alguma porção de sua projeção estendida). Noutros termos, uma projeção contendo only entraria na derivação em uma posição acima do VP; only, um núcleo (X°) em Kayne, atrairia o constituinte sob o seu escopo ao seu especificador, se moveria em seguida a um núcleo acima, e esse movimento ulterior atrairia o remanescente ao seu especificador, reestabelecendo a ordem "V only DP" (cf. (38) e a derivação sugerida na fig. 4), criando a ilusão de que only e o constituinte sob o seu escopo foram Soldados juntos.7

(38) John criticized only Bill. (Kayne 1998: 134)

'O John criticou só o Bill'

(38) seria, portanto, derivada de (48'):

(38') John only criticized Bill.

e a derivação passo a passo poderia ser representada como segue:

(38")

... only criticized Bill → (only atrai "Bill" a seu Spec)

... Billi only criticized ti → (only sobe a W°)

... onlyj Billi tj criticized ti → fronteamento do VP ('movimento do remanescente'))

... [criticized ti]k onlyj Billi tj tk

Figura 4  Tescari Neto 2013: 74. 

Kayne assume que todas as vezes que o only atrai algum XP ao seu Spec, necessariamente todo esse XP ou uma parte dele é focalizado por only (Kayne, 1998: 156). Isso explica por que em uma sentença como (39) o foco pode ser todo o XP que segue only, ou então subpartes desse XP, começando necessariamente pelo constituinte mais encaixado, i.e., a book deve estar em [Spec,only] caso Bill e gave também sejam focalizados, o que lembra o tratamento de Chomsky (1971) para a focalização.

(39) John only gave Bill a book. (Kayne 1998: 157)

Em Tescari Neto (2013, capítulo 3), sugere-se que o tratamento de Kayne dispensado a only pode ser estendido a todos os advérbios da hierarquia de Cinque, por duas razões: (i) advérbios, enquanto modificadores, tomam por escopo constituintes da oração ou partes dela; (ii) advérbios são apenas modificadores da projeção estendida de V (diferentemente do tratamento de Ernst (2000) e Zyman (2012)); (iii) advérbios são rigidamente ordenados em termos de uma estrutura de base (Cinque 1999).

Tomados conjuntamente, (i), (ii) e (iii) sugerem um tratamento sintático unificador para os advérbios: uma vez que ocupam uma posição rígida e fixa na oração (propriedade (iii)) e uma vez que são modificadores apenas da projeção estendida de V,8 o seu 'escopo' pode ser 'calculado' tendo em vista o constituinte que se move ao Spec do núcleo atrator associado ao AdvP. Desenvolve-se a seguir essa ideia, que consiste numa modificação ligeira da análise de Kayne.

Em Kayne, trata-se only e outros adverbiais associados a escopo como núcleos, não como sintagmas. Aqui, pretende-se tratar os advérbios como XPs, à la Cinque (1999, cap. 1), em virtude de algumas propriedades sintáticas que os caracterizariam como sintagmas9 (cf. Tescari Neto 2013: 92ss.):

1. AdvPs podem ser modificados:10

(40) a. molto probabilmente (=b) (Italiano)

b. muito provavelmente

2. AdvPs podem ser focalizados:

(41) a. SEMPRE credo che l'abbia visto.

(Italiano - G. Cinque, com. Pessoal)

SEMPRE eu-acredito que o tenha visto

'Eu acho que ele sempre o viu'.

b. é SEMPRE que a Carolzinha quebra as coisas.

3. AdvPs podem ser coordenados:

(42) João comprou sempre e regularmente livros na FNAC.

(Porutuguês Europeu)

Há, portanto, razões empíricas para alocar os advérbios em Spec, dada a sua natureza sintagmática. Isso significa dizer que, uma vez que se estende a teoria de Kayne a todos os advérbios e, conforme se fará aqui, ao QFUniversal todos, algumas modificações no "design" das derivações originais de Kayne deverão ser feitas, de modo que o novo quadro esteja quites com a natureza sintagmática dos AdvPs e do QF todos, consequentemente. Um modo seria aproveitar-se da própria análise de Kayne (2000) sobre preposições, que é muito semelhante à sua proposta para os advérbios. Em Kayne (2002: 72ss.; 2005: 97-98, 137), o autor entende que também as preposições não são diretamente Soldadas com o seu complemento (último), mas entram na derivação em uma posição acima de VP. Antes da Soldagem da preposição, entretanto, um núcleo atrator e atribuidor de Caso ("K°") sonda o constituinte que virá a ser o complemento da P. Esse constituinte se move a [Spec,K], onde checa Caso, a P é inserida no núcleo seguinte, acima, e tal inserção atrai o remanescente a [Spec,P], de modo que apenas o complemento da preposição seja realizado a sua direita. Assim, ha tentato di cantare (italiano) 'ele tentou cantar' seria derivada como segue:

(43)... tentato cantare → Soldagem de K

... K tentato cantare → atração de InfinP a [Spec,K]

... cantarei K tentato ti → Soldagem de P

... di [cantarei K tentato ti] → movimento do remanescente a [Spec,P]

... [tentato ti]j di [cantarei K tj]

Poder-se-ia, então, pensar - para o caso dos AdvPs e dos QFs (conforme se verá adiante) - que, sendo os AdvPs (only inclusive) XPs - e não X°s -, um núcleo atrator11 faria as vezes da Sonda e entraria na derivação antes de o AdvP ser inserido. Esse núcleo atrairia o constituinte sob o escopo do AdvP ao seu Spec. Em seguida, o AdvP seria Soldado, em concordância com a hierarquia de Cinque, seguido pelo movimento do remanescente à esquerda do AdvP:

(44) John criticized only Bill. (Kayne 1998: 134)

(44'') ... criticized Bill → atração pelo núcleo probing/atribuidor de escopo12,13

... Billi K criticized ti → Soldagem de only

... only Billi K criticized ti → movimento do remanescente

... [criticized ti]j only Billi K tj

Assim, se AdvPs altos também podem ser tratados como elementos associados ao escopo, é natural tratá-los da mesma forma que only. Estende-se, portanto, a mesma derivação proposta acima a casos como (45):

(45) George will have probably read the book.

(45') ... George will have read the book → Soldagem do núcleo-sonda associado a probably

... K° George will have read the book → atração de "read the book" a [Spec,K°]

... [read the book]j K° George will have tj → Soldagem do núcleo que licencia probably

... probably Y° [read the book]j K° George will have tj → Soldagem de W°

... W° [probably Y° [read the book]j K° George will have tj] → movimento do remanescente

... [George will have tj W° [probably Y° [read the book]j K° tk]]

Aqui se toma o Spec desse núcleo-sonda como sendo uma posição criterial (Rizzi 2004, 2007, 2012). Ou seja, assim que um XP se move ao Spec desse núcleo, tal constituinte fica congelado naquela posição (cf. Tescari Neto 2013).14

Uma vez que, conforme se viu na seção 7, há um nítido paralelismo distribucional entre AdvPs altos e o QFUniversal, seria interessante estender o tratamento Kayneano de only também ao QFUniversal.

A principal motivação para tratar o QFUniversal como um elemento associado ao escopo (à semelhança de advérbios focalizadores, negação, etc. (cf. Longobardi 1992 , Kayne 1998)) vem da observação que ele geralmente tem escopo sobre o constituinte à sua direita, à semelhança dos focalizadores. Assim, mesmo que em (46a) e (46b) o QF esteja associado com o nominal precedente (por meio da Vinculação (Doetjes 1997; Fitzpatrick, 2006, cap. 2; Tescari Neto, 2013, cap. 6)), essas frases diferem em interpretação. Enquanto em (46a) é o PP à direita do QF que fica focalizado ("as crianças foram convidadas para a festa, não para a cerimônia"), em (46b) é todo o VP que é focalizado ("o convite para a festa é que é para todas as crianças").

(39) Italiano (G. Cinque , com. pessoal )

a. I bambini sono stati invitati tutti alla festa.

As crianças foram convidadas todas para a festa

b. I bambini sono stati tutti invitati alla festa.

As crianças foram todas convidados para a festa

É mister lembrar que o quantificador flutuante todos, por exemplo, pode se associar a DPs com os quais ele pode não ter formado um único constituinte na história derivacional. (47a) e (47b) ilustram esse fato:

(47) a. Os garotos comeram todos aquelas três pizzas.

b. A água saiu toda[tudo-A.T.N] pelo ladrão da caixa.

(Pinto Jr. 2006)

Em (47a), todos modifica o "evento". Todos liga o material a sua esquerda, i.e., os garotos (comeram), ao DP à sua direita, i.e., "aquelas três pizzas". Todos estabelece essa relação de maximização em que aquelas três pizzas é afetado pelo evento "os garotos comerem". O mesmo é o caso de (49b), em que o QF toda/tudo, apesar de estar associado ao DP "a água", toma o PP "pelo ladrão da caixa" sob o seu escopo, ou seja, o evento de a água escapar ocorreu exclusivamente através do ladrão da caixa". Assim, os dados discutidos acima, de Pinto Jr. (2006), também favorecem uma análise que trata QFs em termos de (uma versão modificada de) Kayne (1998).

A vantagem de estender essa análise de Kayne para QFs - e assim tratá-los como outros elementos associados ao escopo (focalizadores, NegPs, advérbios, etc.) - é capturar melhor a crença de que "a sintaxe é fortemente invariante" ( Sportiche 1998), pelo menos se se olhar à atribuição de escopo.

Resta na próxima seção explicar as diferentes ordenações apresentadas em (23-26; 30; 32-33), em termos da teoria aqui revisitada de Kayne (1998).

10. A distribuição dos QFs e o porquê de não serem diagnósticos para movimentos

Os dados (23-26) e (33) apresentam um advérbio alto e o QF quer na ordem AdvP-QF (as sentenças (a)), quer na ordem QF-AdvP (as sentenças (b)). (30, 32), por outro lado, apresentam apenas a ordenação AdvP-QF como possível. A TE e a TA não teriam uma explicação natural para tal fato empírico. Se se estende a proposta de Kayne aos QFs é possível explicar essas ordenações superficiais com mais naturalidade.

Parece ser correto dizer que o QFUniversal all - e seus correspondentes nas diferentes línguas - é Soldado entre ModAdmirativeP e ModEvaluativeP, conforme sugerem os testes de transitividade em (30-32). All aparece quer à esquerda quer à direita dos advérbios modais altos que o seguem na hierarquia (cf. 23-26). Essa aparente liberdade de posição é devida à natureza de all, que tem associado a si um núcleo atrator/probing/Sonda no sentido de Kayne (1998). Os AdvPs que se encontram acima de all na hierarquia devem necessariamente precedê-lo quando a sentença é linearizada (cf. (30) e (32)). Deste modo, antes da Soldagem de all - em uma posição alta do IP, i.e., entre MoodMirativeP e MoodEvaluativeP como se viu -, um núcleo-sonda atrai uma porção da estrutura (que contém o constituinte a ser modificado) a seu próprio Spec. Na sequência, o QF all é Soldado no Spec imediatamente acima.15 Um movimento do remanescente coloca o DP-associado à esquerda do QF.

A aparente 'ordenação livre' (23-26) poderia ser explicada com base na porção da estrutura que é atraída ao Spec do núcleo probing associado ao QFUniversal. Assim:

(i) Se o advérbio alto é atraído (dentro de um constituinte maior) ao Spec do núcleo-sonda, teremos a ordem de base como output, i.e., a ordenação hierárquica de (37) (cfr. (23a) e as figuras 5 e 6, que representam os passos de sua derivação));

(23) a. The thieves have all certainly been apprehended.

(Bobaljik 1995: 231)

(ii) Se o AdvP alto não é atraído ao Spec do núcleo-sonda mas se move junto com o remanascente (depois da Soldagem do quantificador), temos a ordem reversa, i.e., AdvP - Q, que não corresponde àquela hierárquica, muito embora seja dela derivada (cfr. (23b) e a sua derivação na fig. 7. (A fig. 5 representaria os passos iniciais também da derivação de (23b)).

(23b) The thieves have certainly all been apprehended.

Figura 5. 

Figura 6. 

Figura 7. 

O fato de o AdvP alto ser movido como parte do remanescente nos dá a ilusão de que os modais são livremente ordenados em relação ao QUniversal.

Uma vez que o QFUniversal entra na derivação em uma posição muito alta, conforme se viu, não se pode dizer que QFs sejam diagnósticos para a subida do verbo, haja vista o fato de o V não poder se mover, não só em português, mas também em inglês, francês, italiano, etc., acima de AdvPs altos (compare as sentenças (a) de (48, 48'), em que um advérbio alto não pode aparecer em posição final (a menos que de-acentuado (48b,48'b)), com (49, 49'), que mostram um advérbio baixo em posição final). QFs - em sentenças com V inergativos -, a julgar por Modesto (2000), também não podem aparecer em posição final (cf. (22a), repetido a seguir como (50)).

(48) a. *Gianni mente probabilmente

b. Gianni mente, probabilmente.

(48') a. *O Pedro mente provavelmente.

b. O Pedro mente, provavelmente.

(49) Gianni mente sempre/bene/ancora.

(49') O Pedro mente sempre/bem/ainda

(50) *Os caras viajaram todos.

Dois pontos devem ficar claros com base na discussão e conclusões a que se chegou após o exame dos dados das seções 7-10. Em primeiro lugar, advérbios altos e o QFUniversal são passíveis de um mesmo tratamento sintático, à la Kayne (1998): ambos são elementos associados ao escopo e, como tal, sua Soldagem na estrutura implica a Soldagem de um núcleo-probing que 'Sonda' o XP a ser modificado pelo AdvP/QF. Por ter o traço "modificação" não interpretável, este XP se eleva ao especificador do núcleo K. Na sequência, o AdvP/QF é soldado no Spec imediatamente acima, respeitando a hierarquia em (28/37). O movimento do remanescente garante que apenas o XP sob o escopo do AdvP/QF se linearize à sua direita. Em segundo lugar - e tal observação tem consequências diretas aos propósitos do presente trabalho -, os dados do inglês, discutidos na seção 8, sugerem que o QFUniversal ocupa uma posição muito alta entre os advérbios da hierarquia de Cinque. Uma vez que o V temático não pode subir, como se viu em (48-50), à esquerda de AdvPs altos, sendo o QFUniversal um modificador alto na hierarquia (diferentemente do que se pensava na TE ou na TA em suas versões originais - ver seção 4), não é correto, portanto, tomar o QFUniversal todos/all como diagnóstico para o movimento do verbo à flexão.

11. Considerações finais

O artigo examinou duas teorias para a quantificação flutuante, a TE e a TA. Mostrou-se as vantagens de cada uma dessas alternativas e se optou pela segunda, naturalmente sugerindo modificações bastante drásticas. Argumentou-se, com base na distribuição de AdvPs altos e o QFUniversal, que esses constituintes devem receber o mesmo tratamento sintático. Com apoio em Kayne (1998), sugeriu-se que os QFs devem ser tratados como elementos associados ao escopo. Dados do inglês, que não receberiam nenhuma explicação pelas teorias TE e TA, foram explicados, com base num tratamento Kayneano para o fenômeno da quantificação flutuante. Uma vez que o QFUniversal se posiciona em uma projeção muito alta no Middlefield, não se pode tomá-lo como diagnóstico para a subida de V à flexão, haja vista o fato de V não poder se mover por sobre advérbios altos.

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*. Este trabalho foi desenvolvido durante o doutorado realizado na Università Ca' Foscari di Venezia, sob a orientação de Guglielmo Cinque, com bolsa GDE do CNP (processo 200762/2008-7). O "grosso" das ideias aqui apresentadas aparecem no capítulo 6 da tese (Tescari Neto, 2013). Para algumas das reformulações que aqui faço daquele capítulo, beneficio-me de reflexões feitas durante o período pós-doutorado, realizado no Instituto de Estudos da Linguagem, da UNICAMP, com apoio da FAPESP (processo 2013/04001-1). Agradeço a um dos pareceristas pela cuidadosa leitura do trabalho, por suas críticas, perguntas e sugestões. Agradecimentos também a Guglielmo Cinque por ter guiado a execução dessa pesquisa por esses quatro anos e a Richard Kayne e Sonia Cyrino pelos questionamentos levantados durante a discussão da tese. Agradecimento especial a Giuliana Giusti pela leitura de uma versão anterior do trabalho que aqui apresento e pelo seu ceticismo e perguntas sempre muito intrigantes. Agradecimentos também às vozes que se pronunciaram na apresentação de um colóquio no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP em 27 de agosto de 2013.

1As autoras propõem um sistema híbrido, em que não só a proposta por encalhe é necessária, mas também aquela adverbial, nos moldes de Fitzpatrick (2006).

2Há diferenças, no tocante ao movimento do verbo à flexão, relativamente à finitude do verbo: verbos finitos obrigatoriamente se movem ao núcleo funcional mais alto de IP, em francês, ao passo que verbos não-finitos podem permanecer dentro do VP ou mesmo se mover a posições intermediárias do Middlefield, conforme Pollock (1989) - ver também a discussão em Shlonsky (2010: 419) -. Não se avança mais na questão, aqui, por ser ortogonal aos objetivos do trabalho.

3Ver, por exemplo, Harwood (2011) para quem o quantificador pode entrar na derivação tardiamente, i.e., adjungir-se ao DP associado depois que este foi Soldado em [Spec,vP] e dali se moveu para, por exemplo, checar/valorar Caso.

4A Hipótese do Sujeito interno ao VP precisa contornar o problema de sua dependência estrita de uma estrutura em conchas à la Larson (1988). Conforme apontado em Tescari Neto (2013), a estrutura de conchas de VP larsoniana é menos econômica de que uma estrutura como a de Cinque (2006), pelo fato de aquela necessitar de duas estruturas diferentes para dar conta da Soldagem ('Merge') de argumentos do verbo: a abordagem de Larson depende essencialmente da presença ou ausência de um objeto indireto. Quando presente, o objeto direto é Soldado no Spec do VP mais baixo e o indireto como complemento de V. Na ausência de um objeto indireto, o objeto direto é Soldado como complemento do verbo mais baixo. Posto dessa forma, a análise larsoniana precisa jogar necessariamente com duas estruturas, abandonando a UTAH de Baker (1988). A abordagem apresentada em Cinque (2006) não "sofre" do mesmo problema, já por propor que todas as categorias são sempre Soldadas acima do VP, respeitando uma hierarquia subjacente. Não haveria, portanto, razões para recorrer à Hipótese sobre o 'Sujeito Interno a VP'.

5F, aqui, indica o constituinte sob o escopo do quantificador.

6Na tabela, "DP-int", posto na intersecção da primeira coluna e da segunda linha, i.e., em referência ao QF, significa que o quantificador faz parte da projeção estendida de N naquela posição (ver seção 3).

7O mecanismo de valoração/checagem de traços, em Kayne (1998), não é muito explícito. Mas poder-se-ia pensar que Bill se moveria ao especificador de only para valorar um traço de escopo - chamemos este traço de "[modifição]", pelo fato óbvio de os advérbios serem modificadores na projeção estendida do verbo -. A relação spec/head (entre o constituinte em [Spec,only], neste caso Bill, e o advérbio only) garantiria a valoração do traço [modificação], interpretável no núcleo, only, e não interpretável no NP/DP Bill. Após a Sondagem de Bill e seu movimento a [Spec,only], only se move ao núcleo imediatamente acima e atrai o remanescente a seu Spec. Este movimento de only garante que o NP/DP Bill seja o único constituinte c-comando por ele. No modelo de Kayne, escopo é definido por c-comando; deste modo, o movimento do remanescente garante que Bill seja c-comandado pelo advérbio.

8Não se estenderá aqui a uma argumentação detalhada para o por quê de insistir que AdvPs são apenas modificadores da projeção estendida do Verbo. Remete-se o leitor a Tescari Neto (2013) para algumas razões empírico-conceituais. Nos casos em que um AdvP modifica apenas um DP, como em (i), a seguir, em que se tem um escopo estreito, há vantagens não só conceituais para entender que o provavelmente não é gerado junto com o DP por ele modificado, mas é inserido numa posição alta em IP, de acordo com a hierarquia de Cinque (1999). Se provavelmente fosse soldado diretamente como um adjunto do DP arroz, esperar-se-ia que fosse igualmente retomado, em (ii), pelo VP elíptico, contrariamente aos fatos (cf. (ii)a,b). (i) O Zé comeu provavelmente arroz (, não feijão). (ii) O Zé comeu provavelmente arroz e a Maria também comeu [-]. a. [-]: *provavelmente arroz; b. [-]: arroz

9Cf., no entanto, Costa & Castro (2002), para quem alguns advérbios (p.ex., já) deveriam ser tratados como formas fracas.

10Mesmo um dos correspondentes de only em PB, somente, deveria ser tratado como um XP e não como um X°, dado o fato de somente poder ser modificado (cf. (i)). Agradecimentos a Guglielmo Cinque por essa observação, feita com base no comportamento de soltanto 'only' em italiano, que é também válida ao português. (i) Ele come quase somente feijão.

11Há evidência morfossintática para a assunção desse núcleo atrator K em Sintaxe, toda a vez que um elemento associado a escopo (p.ex., advérbios focalizadores, advérbios em geral, etc) entra na derivação. Segundo Shu (2011: 132), há, em mandarim, um marcador de concordância, CAI, que pode aparecer com um advérbio focalizador.: (i) Chinese (Shu 2011: 132) A: - zhangsan changchang mai xigua 'Zhangsan frequentemente compra melões' [B: - bu. ta zhi(you)1 [ouer2]F1 cai mai xiguaF2. Não ele só algumas vezes CAI compra melões 'Não. Ele só1 compra melões F2 ocasionalmente [occasionalmente2]F1.' O ponto interessante aqui é que essa partícula cai aparece sempre imediatamente à direita do foco, i.e., ela sinaliza a borda direita do constituinte focalizado. Pode-se, portanto, tomar essa partícula como sendo o núcleo atrator do foco, que se associa necessariamente a um advérbio. Em PB, essa partícula é silente: não há - pelo menos não em minha variedade do PB - nehuma forma de realizá-la morfofonologicamente. Em chinês, pode ser expressa, como se viu em (i).

12Estamos chamando este núcleo de 'núcleo "K"', seguindo Tescari Neto (2013), por seu papel de probing/Sonda na derivação, à semelhança do núcleo atribuidor de Caso K, da derivação de (43) no espírito de Kayne (2000, 2002). É importante ressaltar que o constituinte que se move ao especificador de K - a saber, Bill, no caso de (44), a seguir - possui o traço [modificação] não interpretável. Como no Minimalismo, pode-se pensar que o movimento é desencadeado pela necessidade de um traço não interpretável ser valorado (ver nota 7). No espírito de Rizzi (2012), pode-se considerar o especificador deste núcleo K uma posição criterial.

13 Ambar (2008, § 5) propõe uma derivação bastante semelhante para mesmo em sua leitura confirmativa no português europeu.

14Um dos pareceristas questionou, a propósito da assunção do Programa Cartográfico coadunado à análise de Rizzi (2004, 2007) sobre o 'congelamento criterial': "Como alguma coisa proposta de um modelo representacional pode se juntar ao Minimalismo? Como seria possível a formalização disso?". É importante observar que a assunção de representações cartográficas não exclui a assunção, por adeptos da Cartografia, de mecanismos básicos de construção dos blocos da estrutura propostos no Programa Minimalista. As hierarquias cartográficas servem apenas para guiar o momento - na história derivacional - que determinada categoria, presente na numeração, deverá entrar na estrutura. As cartografias servem, então, apenas para guiar o momento em que determinado item deverá ser Soldado (externa ou internamente). Os princípios básicos de construção das estruturas são os mesmos do Programa Minimalista: Soldagem, Sonda(gem) e Movimento. Isso fica evidente nas explanações dos passos derivacionais das figuras do presente trabalho.

15Novamente é importante ter em mente que o núcleo-probing - silente em PB, pronunciado em chinês (ver nota 11) atrai o XP que porta o traço de "modificação" (ver notas 7 e 12), ainda não valorado, a seu especificador. Sendo o traço de modificação não-interpretável no XP que se lineariza à direita de all, essa porção da estrutura se move ao especificador de K para valorar esse traço e, consequentemente, uma vez realizado o movimento do remanescente, ser a única porção da estrutura linearizada em posição c-comandada pelo quantificador. Pode-se entender que o núcleo K seria um núcleo criterial, no espírito de Rizzi (2012).

Recebido: Janeiro de 2014; Aceito: Abril de 2016

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