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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450On-line version ISSN 1678-460X

DELTA vol.32 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-445082794980825023 

ARTIGOS

Heterogeneidade na pesquisa em Linguística Aplicada: dialogismo como princípio de construção de conhecimento

Heterogeneity in Applied Linguistics Research: dialogism as principle of knowledge construction

Anderson Salvaterra MAGALHÃES1 

Adriana Pucci Penteado de Faria e SILVA2 

1 (Universidade Federal de São Paulo - Unifesp) E-mail: asmagalhaes@unifesp.br

2 (Universidade Federal da Bahia - UFBA) E-mail: appucci@uol.com.br


RESUMO

Neste artigo, o objetivo é discutir a possível confluência epistêmica e metodológica entre postulados do chamado pensamento bakhtiniano e o atual estado da pesquisa no campo da Linguística Aplicada. Para tanto, destaca-se a heterogeneidade da pesquisa nesse campo nos dias de hoje e cotejam-se as propostas da orientação dialógica na relação entre investigador/investigado. Em seguida, analisam-se as especificidades dos processos de construção do objeto, seleção e delimitação de corpus bem como de mobilização de categorias analíticas em duas investigações inscritas no campo da Linguística Aplicada e fundamentadas no pensamento de Bakhtin e o Círculo.

Palavras-chave: Linguística Aplicada; dialogismo; metodologia de pesquisa; epistemologia

ABSTRACT

The aim of this article is to discuss the possible epistemic and methodological confluence between some postulates of the so-called Bakhtinian thought and the present state of research of the field of Applied Linguistics. In order to do so, the heterogeneity of research in this field on these days is highlighted. Also, some proposals of the dialogic orientation concerning the relation established between investigator/investigated are considered. After that, the specificity of construction of objects, selection and delimitation of corpora, as well as the mobilization of analytical categories are analyzed in two investigations based on Bakhtin and the Circle's thought in the field of Applied Linguistics.

Key-words: Applied Linguistics; dialogism; research design; epistemology

Considerações iniciais

Neste artigo, o objetivo é discutir questões epistemológicas e metodológicas em Linguística Aplicada (doravante, LA) na atualidade a partir de postulados de Mikhail Bakhtin acerca do desafio que as ciências humanas enfrentam por investigar um objeto que se revela um sujeito produtor de discurso. Certamente, a possível confluência entre as reflexões bakhtinianas e a produção de conhecimento em LA não resulta de uma proposta do autor russo própria para este campo do conhecimento, nem de uma aplicação mecânica do raciocínio dialógico às demandas da LA. Diferentemente, pretendemos identificar em que medida os encaminhamentos metodológicos que emergem da teoria dialógica refletem e refratam uma episteme (Foucault 1969) pertinente à produção de conhecimento em LA nos dias de hoje.

Para tanto, partimos de uma breve reflexão sobre o campo da LA identificando a diversidade de temas que lhe interessam e pontuando os desafios de linguagem no tratamento do objeto nesse campo. Em seguida, cotejamos postulados epistemológicos e metodológicos do pensamento bakhtiniano1 acerca da especificidade das ciências que fazem do humano um objeto de pesquisa. Com o intuito de resgatar relevante fonte inspiradora a partir da qual Bakhtin e o Círculo pensam as relações intersubjetivas inerentes à pesquisa em ciências humanas, abordamos, particularmente, o diálogo travado com dois representantes da chamada filosofia da vida (lebensphilosophie): Wilhelm Dilthey e Henri Bergson. Na sequência, discutimos os percursos de duas pesquisas de doutorado realizadas entre 2006 e 2010 no Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tomando-as como metonímia da heterogeneidade de investigação em LA nos dias de hoje.

O foco dessa discussão recai sobre a metodologia construída nas investigações pinçadas para delinear possíveis fios condutores que levam trabalhos voltados a temas díspares ao abrigo da área número 8.01.06.00-5 do CNPq, a da LA. Se a natureza aplicada desse campo implica o tratamento de um problema de linguagem em uso a partir do que se pode teorizar, e não o contrário, e se a LA nos dias de hoje enfrenta o desafio político de produzir conhecimento sem necessariamente reproduzir os saberes já balizados nas ciências ditas puras (não aplicadas), hipotetizamos que a pesquisa em LA enfrenta o desafio epistêmico de lidar com embates entre discursos e consciências evidentes na relação que o pesquisador estabelece com os objetos que constrói. Se há, por um lado, significativa diferença temporal entre a construção do pensamento bakhtiniano e os desafios hodiernos da LA, parecer haver, por outro, uma confluência epistêmica quanto à compreensão de como se dão as relações intersubjetivas próprias da pesquisa. Daí, perguntamos: como as relações dialógicas na pesquisa em ciências humanas, relações estas discutidas pelo Círculo desde a década de 1920 até 1970, contribuem para o desenho de pesquisa em LA nos dias de hoje?

Do ensino de idiomas às reflexões identitárias: heterogeneidade investigativa e produção de conhecimento

O termo LA refere-se a uma área do conhecimento que hoje abriga estudos voltados para a discussão de temas bastante heterogêneos. Dentro dessa área, reconhecem-se investigações que procuram entender as relações entre linguagem e diversas atividades do fazer humano, levando em conta os embates identitários e ideológicos implicados nessas relações.

A cadeia discursiva em que o termo LA se insere, no entanto, é marcada pelos sentidos inaugurais das condições de criação do próprio termo. Para Almeida Filho, na origem da constituição da área, essas condições apontam para uma forte ligação do desenvolvimento da LA como campo de conhecimento (Almeida Filho 2011:11), e, portanto, a uma inaugural aplicação de teorias linguísticas a uma atividade específica, o ensino de línguas. Analisando o percurso histórico da LA, o autor entende que a forma de denominação Linguística Aplicada a algo perde sua razão de ser, já que o foco da área deixa de ser a transposição de uma teoria linguística para a prática pedagógica e se torna "a pesquisa sobre questões de linguagem colocadas na prática social" (Almeida Filho 2011:16).

Num estudo que esmiúça as mudanças pelas quais o termo passou, Paiva, Silva e Gomes indicam a forte possibilidade de um "consenso de que o objeto da investigação da LA é a linguagem como prática social" (Paiva, Silva & Gomes 2009:25). Para os autores, não se excluem os contextos de aprendizagem de línguas estrangeiras ou de língua materna no campo da LA, mas incluem-se nele questões muito mais amplas, voltadas à reflexão sobre práticas sociais e linguagem. Eles ainda acrescentam que a relação do uso da língua com o contexto desse uso é o foco da LA e que isso acontece "independentemente das escolhas teóricas e metodológicas" (Paiva, Silva &Gomes 2009:25).

Moita Lopes lança novas luzes sobre a discussão ao pontuar que, contemporaneamente, se insere no campo da LA "um preocupação com novas teorizações calcadas em novos modos de entender a vida social [...]" (Moita Lopes 2013:86). Destaca que essa preocupação está associada a teorias diversas, como a Queer, as antirracistas e as feministas e cita, entre outros autores, Pennycook, Nelson e Cameron.

A reflexão de Moita Lopes (2013) aponta para uma crítica a um modo de olhar marcado pela identidade ocidentalizada. Dar voz a quem está à margem desse sistema de valores implica um movimento de compreensão dos envolvidos nos processos de inclusão/exclusão. Com base em estudos de Boaventura de Souza Santos (2004), Moita Lopes (2013) argumenta que considerar os implicados no processo que se investiga requer não olhar para o outro sempre do lugar do privilégio, mas aprender a buscar o lugar desse outro. Para o autor, devemos "pensar novas formas de construir conhecimento com base em outros olhares" (2013: 94), e essa busca deveria levar em conta o olhar de quem está à margem, ou seja, das "vozes do Sul", que, para o pesquisador, ecoam em quaisquer contextos de "marginalização e sofrimento humano" (Moita Lopes 2013:96).

Esse movimento de ouvir o outro a partir de um lugar que não é o do poder, o do mainstream, mas do lugar do próprio outro a quem se deseja ouvir parece, de algum modo, ecoar o movimento inerente às investigações discursivas de orientação dialógica tal como postulada por Mikhail Bakhtin e o Círculo. Isso porque, para esses pensadores russos, a tarefa das ciências humanas envolve o desafio de tomar como objeto de estudo um sujeito que se enuncia, que diz de si e, por isso, como bem pondera Amorim (2004), constitui um objeto não apenas falado - condição de qualquer objeto - mas também falante - especificidade do objeto em ciências humanas. Portanto, dessa perspectiva, na relação que o investigador estabelece com o objeto, há o desafio de aquele estabelecer uma trama dialógica que prevê justamente a sensibilidade de ser alterado pelo que o objeto diz de si sem, no entanto, perder-se de seu lugar de pesquisador. Mas como isso se dá? Visitemos algumas fontes do pensamento bakhtiniano para recuperar sua discussão epistemológica e preocupação metodológica.

O interesse pela relação entre pesquisador e pesquisado na produção de conhecimento em ciências humanas aparece em diferentes fontes do pensamento bakhtinano. Se assumirmos, como propõe Amorim (2006), que desde Para uma filosofia do ato responsável (Bakhtin 2010), primeiro ensaio filosófico de fôlego do pensador russo, estão esboçadas as principais ideias que seriam elaboradas ao longo da vida de Bakhtin, parece pertinente recuperar dali suas primeiras reflexões epistêmicas. Apesar de ser um texto de arquivo encontrado em mau estado de conservação e inconcluso, sua natureza programática é evidente e permite delinear também o esboço metodológico para o que se constituiria como orientação dialógica, o que interessa especialmente neste artigo.

Acredita-se que esse ensaio de Bakhtin seja o rascunho inacabado de uma obra sobre filosofia moral (Ponzio2010). Trata-se de uma obra em que, ao desenhar uma filosofia do ato responsável, Bakhtin articula ideias de diferentes filósofos que, de algum modo, respondem à emergência da singularidade no universo do conhecimento, no mundo teórico. Ao discutir a distinção entre a perspectiva daquilo que é singularmente vivido pelos sujeitos - mundo da vida - e aquilo que está posto independente dos sujeitos - mundo da cultura, do conhecimento, da teoria -, Bakhtin (2010) sustenta que não é possível dissociá-los na realidade concreta do existir. Isso porque se o desejo, o pensamento, o sentimento, o dizer etc. têm um aspecto inegavelmente singular e único, não configuram uma ilha fenomêmica, mas integram a cultura. Semelhantemente, o conhecimento teórico que independe do sujeito - a lei da gravidade, por exemplo - necessita que sujeitos o reconheçam e enunciem para validação como conhecimento ou teoria. O ato ético responsável figura, portanto, como interseção da dimensão singular da vivência do sujeito e a dimensão extra-subjetiva da teoria e do conhecimento (cf.: Bakhtin 2010).

Para a construção de conhecimento em ciências humanas, essa noção de ato traz um desafio particular, visto que a pesquisa implica agir sobre atos de outros sujeitos. Aquilo que é tomado como objeto é primeiramente um sujeito agente, e a pesquisa se dá não pela ação unidirecional de um sujeito diante de um objeto, mas pela interação de sujeitos, estando um em posição de investigador e o outro em posição de investigado (cf.: Bakhtin 2003c). Essa diferença de posição pode gerar dois percursos no fazer da pesquisa: um pautado pela interação, que prevê diálogo com os sujeitos tomados como objeto e, por isso, integra o ato do outro no desenho de pesquisa; e outro percurso orientado pelo saber do pesquisador que diz sobre o sujeito tomado como objeto, age sobre ele e não se lança num agir conjunto, ainda que guardadas as devidas posições (cf.: Amorim 2004). Esses dois percursos já de algum modo pontuados por Bakhtin no início do século XX vêm ao encontro dos desafios que se apresentam hoje para a LA. Para exame mais detalhado da questão, vale retomar as considerações sobre a relação entre mundo teórico e vida em devir a partir das ideias de dois representantes da filosofia da vida discutidas pelo Círculo.

Para os pensadores do Círculo, da perspectiva da filosofia da vida, o mundo teórico inclui-se na vida em devir, e isso, sem dúvida, influencia o entendimento daquilo que não se define nem como ciência natural nem exata. Sobre isso, no início do século XX, Dilthey (2010) já discutia que as ciências humanas, da cultura ou do espírito não se diferenciam das ciências naturais pelo tratamento do que é psíquico (interior, subtraído aos sentidos) ou do que é físico (exterior, disponível aos sentidos), respectivamente. Como o próprio filósofo alemão argumenta, há aspectos fisiológicos (físicos) que não escapam aos estudos da linguagem, mesmo não sendo tais estudos de orientação natural. Semelhantemente, as guerras entre nações se dão necessariamente via uma série de aspectos físico-materiais que lhes são constitutivos e nem por isso elas deixam de ser objeto da História. O autor pondera, então, que a característica que promove unidade ao que é tomado como objeto pelas ciências ditas humanas não é o desprendimento do objeto do mundo físico, material, e sim a vida. Esta é entendida como conexão entre a vivência - estados humanos vivenciados -, a expressão - manifestações vitais desses estados - e compreensão - juízos de valor projetados sobre essas manifestações vitais. Às ciências humanas caberia, então, estudar não o humano em si, mas a humanidade como vida, que emerge da conexão entre vivência, expressão e compreensão.

Desse ponto de vista, o objeto das ciências humanas não se restringe ao psiquismo, mas se orienta pelo crivo do indivíduo. A vivência singular deve necessariamente estar conectada à expressão (objetivação da vivência) e à compreensão (juízo de valor da expressão). Isso significa dizer que as relações de onde deriva a condição para o estabelecimento de juízo, bem como as condições materiais de expressão da vivência são inerentes ao objeto. Assim, Dilthey integra o mundo teórico na vida em devir e diferencia os grupos de ciências:

Tanto num caso como no outro [no das ciências humanas e no das ciências naturais], o objeto é criado a partir da lei dos estados de fato. Nisso coincidem os dois grupos de ciência. Sua diferença reside na tendência, na qual seu objeto é formado. Ela reside no procedimento que constitui esses grupos. No primeiro caso, um objeto espiritual surge no compreender; no segundo caso, o objeto físico no conhecer (Dilthey 2010:27 - grifos nossos).

O ato de compreender e o de conhecer funcionariam como vetores da constituição de objetos. Essa distinção entre vetores que gera diferentes objetos é reorganizada por Bakhtin (2003b) ao lançar o foco sobre a linguagem. De acordo com o pensador russo,

As ciências humanas são as ciências do homem em sua especificidade, e não de uma coisa muda ou um fenômeno natural. O homem em sua especificidade humana sempre exprime a si mesmo (fala), isto é, cria texto (ainda que potencialmente). Onde o homem é estudado fora do texto e independente deste, já não se trata mais de ciências humanas (anatomia, fisiologia do homem etc.) (Bakhtin 2003b).

Mais tarde, em Apontamentos de 1970-1971, Bakhtin retoma essa inspiração em Dilthey pontuando duas tarefas no tratamento metodológico daquilo que é próprio do humano: o texto. A primeira tarefa do pesquisador seria compreender o texto do lugar de seu contexto de produção, e a segunda seria se valer da distância temporal e cultural entre pesquisador e pesquisado para incluir à interpretação do que se estuda a compreensão que escapa ao sujeito que vive o contexto primeiro, o contexto que se investiga (cf.: Bakhtin 2003c).

No último texto revisado por Bakhtin, essa inspiração aparece sobremaneira elaborada:

[O conhecimento da coisa e o conhecimento do indivíduo. Cabe caracterizar os dois como limites: a pura coisa morta, dotada apenas de aparência, só existe para o outro e pode ser totalmente revelada por um ato unilateral do outro (o cognoscente). (...) A necessidade da livre auto-revelação do indivíduo. (...) ao abrir-se para o outro, o indivíduo sempre permanece também para si. Aqui o cognoscente não faz a pergunta a si mesmo nem a um terceiro em presença da coisa morta, mas ao próprio cognoscível. (Bakhtin 2003d:393-394).

Aqui parece flagrante a semelhança entre a distinção dos gestos que dão origem aos objetos - compreender/conhecer - de Dilthey e a relação bilateral - em que há interação entre cognoscente e cognoscível e a unilateral - em que há ação do cognoscente sobre o cognoscível - discutidas por Bakhtin. Enquanto Dilthey postula que em ciências naturais busca-se conhecer e nas ciências humanas procura-se compreender, Bakhtin destaca que a relação difere no direcionamento da ação. Nesse caso, o objeto das ciências humanas se distingue do das naturais porque é um objeto não apenas cognoscível, mas que também sabe de si e pode dizer de si. E mais: há aquilo que o objeto sabe de si e que permanece para si, independente do outro que o quer conhecer (ou compreender). Em uma frase, Bakhtin define, então, o objeto das ciências humanas: "o ser expressivo e falante" (Bakhtin 2003d:395 - grifos da edição consultada).

A inspiração em Dilthey, porém, não deve ser entendida como adesão total aos seus postulados sob pena de má interpretação da proposta bakhtiniana. Em 1929, Bakhtin/Volochínov já ponderara que se, por um lado, a preocupação de Dilthey com a significação (nos termos retomados anteriormente neste artigo, Dilthey trata de vida, que resulta da conexão entre vivência, expressão e compreensão) em ciências humanas é válida, por outro, a inclusão do mundo teórico na vida em devir parece mitigar sua produtividade para o estudo de aspectos ideológicos (cf.: Bakhtin/Volochínov 1999; Holquist 1995). Para os pensadores do Círculo, apesar de a significação ser o ponto de encontro entre os seus postulados e os de Dilthey, o pensamento do filósofo alemão estaria comprometido com uma concepção idealista, na qual é cabível a expressão propriamente dita, ou seja, a externalização do que é gestado no interior do indivíduo. Inclusive, esta seria um dos aspectos constitutivos da vida. Nesse caso, a significação seria devedora desse fluxo (do interior para o exterior), o que faria caber até mesmo a teoria no escopo que esse movimento prevê. Dito de outra maneira, se estudar a vida requer referendar que a significação deriva do interior do sujeito, a própria teoria só pode ser validada também por esse fluxo. Por essa razão, os postulados de Dilthey conflitariam com uma abordagem materialista dialética na qual a significação não pode seguir o direcionamento do interior para o exterior. Assim, a significação tal como postulada por Bakhtin/Volochínov não coincide plenamente com a vida tal como defendida por Dilthey, por rejeitarem a ideia de expressão propriamente dita.

Para os pensadores do Círculo, a significação implica a interdependência do material semiótico (simbólico) e das condições de organização de grupos sociais (ideologias). Aquilo que se exprime é, desde sua origem, de caráter social, posto que não há como simbolizar ou semiotizar sem o acabamento de um grupo social que projete o referencial a partir do qual é possível fazer sentido (e compreender). Portanto, em 1974, quando Bakhtin define o objeto das ciências humanas como o ser expressivo e falante (Bakhtin 2003d:395), o que defende ali é o tratamento de um ser que se constitui sujeito ao semiotizar, simbolizar, e não um ser individual que exterioriza sentidos particulares gestados em seu interior. Também é nesse sentido que Amorim (2004) embasada no pensamento bakhtiniano sustenta que o objeto em ciências humanas é não apenas falado (condição inerente à posição de objeto, que se apresenta em lugar de cognoscível), mas também falante (condição de todo aquele que integra e participa de um grupo social, sobretudo por meio da palavra, do discurso).

Diante do diálogo que Bakhtin e o Círculo estabelecem com Dilthey, é possível destacar uma curiosa confluência entre a proposta epistêmica e metodológica desses estudiosos russos e as demandas teórico-metodológicas da LA no século XXI. Ao tratar da linguagem como prática social, ao enfrentar o desafio de produzir conhecimento de um lugar diferente do lugar do mainstream, a LA parece retomar as relações dialógicas postuladas por Bakhtin e o Círculo ao longo do século XX, assumindo que ao seu objeto de estudo não cabe apenas a condição de falado, mas, necessariamente, a de também falante.

Ainda lança luz sobre as relações intersubjetivas na pesquisa em ciências humanas o diálogo que Bakhtin trava com outro destaque da filosofia da vida: Henri Bergson. Nesse diálogo, estão postas questões de percepção na atividade estética e pressupostas questões atinentes às relações intersubjetivas em outras atividades que não são estritamente estéticas, mas são necessariamente mediadas pela linguagem, independente de sua atualização material2. Neste artigo, a ideia de percepção e as relações sujeito-objeto que dela derivam ou nela estão implicadas têm especial relevância para, em consonância com o que já fora aqui retomado do diálogo com Dilthey, delinear como se dá a interação em pesquisa em ciências humanas em geral e em LA em particular.

Ao tratar da relação entre autor e personagem na atividade estética, Bakhtin (2003a)33 dá especial atenção à necessidade de aquele ter uma "compreensão simpática" para com este. Tal compreensão define-se como "uma valorização essencialmente nova, um emprego de minha posição arquitetônica na existência fora da vida interior do outro" (2003a:94).

A relação eu-outro como constituinte de objetos estéticos não foi pensada por Bakhtin de forma inaugural. Suas reflexões trazem vozes de inúmeros filósofos e estabelecem diálogo com correntes filosóficas anteriores e contemporâneas à sua produção. Uma das vozes presentes em muitos dos textos filosóficos do autor russo é a de Henri Bergson (1859-1941). Para Sampaio (2010), não há dúvida de que Bakhtin foi leitor de Bergson,

[...] o que pode ser observado não apenas pelas referências críticas que fez à concepção teórico-metodológica da chamada filosofia da vida, como pela ressonância que as ideias de Bergson tiveram no desenvolvimento de vários conceitos que o jovem Bakhtin (31 anos mais jovem que Bergson) viria a postular mais tarde na obra (Sampaio 2010:104).

De fato, em O autor e a personagem na atividade estética (Bakhtin 2003a), o pensador russo cita Bergson em suas ponderações sobre a função do vivenciamento empático eu-outro. Bakhtin traz o nome do filósofo, dentre outros, para construir sua própria concepção de percepção. O autor diferencia essa concepção tanto do que denomina estética impressiva, categoria que abarcaria nomes como Fielder, Hildebrang (cf.: Bakhtin 2003a:83) e toda a estética formalista, como da estética expressiva, em que enquadra uma série bastante heterogênea de pensadores, como Wundt, Gross e Bergson (cf.: Bakhtin 2003a:57). A diferença entre a concepção estética deste último para a concepção construída por Bakhtin ao longo de sua obra parece-nos essencial para o entendimento tanto da episteme quanto da metodologia de pesquisa de orientação dialógica. Se, para Bergson, a criação está ligada ao complexo conceito de consciência e para determinar se um ser é consciente "seria preciso penetrar nele, coincidir com ele, ser ele" (Bergson 1974:77); para Bakhtin, a crítica à estética decorrente de tal postulado é a de que "o objeto estético é o homem e tudo mais se personifica [...]" sem que se "admita uma contraposição do eu ao outro" (Bakhtin 2003a:58).

Bakhtin ressalta em suas reflexões como o objeto estético é construído por uma inter-relação indissociável entre forma, conteúdo, material, autor-contemplador e autor-criador: a forma arquitetônica. Conteúdo, nessa teoria, é entendido como o "mundo dos outros, suscetível de acabamento" (2003a:186).

Na atividade estética, para que um autor possa tratar de um conteúdo, de um "outro", deve realizar alguns movimentos. Primeiramente, perceber esse conteúdo de fora, de uma posição de quem tem um excedente de visão sobre o outro. Essa percepção já implica esteticização do conteúdo, posto que aquilo que se vê de fora permite a projeção de um acabamento inerente à atividade estética. Em seguida, o conteúdo estético deve ser conhecido do autor a partir do próprio lugar ideológico desse outro. Esse movimento é definido pelo pensador russo como "enformação" da consciência do autor na consciência do outro (Bakhtin 2003a:25) que é uma tentativa de ver o que o outro vê, de sentir o que ele sente. Finalmente, o autor deve retornar à sua posição exotópica, de onde, então, terá sobre o outro uma nova percepção, que inclui aspectos inerentes ao seu posicionamento externo, mas leva em conta os aspectos da visão desse outro. Para Bakhtin, esse seria o ciclo da atividade estética.

Nesse sentido, de modo mais pontual, notamos o distanciamento das ideias originais de Bergson, já que a relação proposta por Bakhtin não reduz a consciência do herói à do autor. De modo mais amplo, notamos que a noção bakhtiniana de enformação se coaduna com as tarefas interpretativas - já discutidas aqui - de compreender um texto a partir de seu contexto de produção para em seguida adjungir à interpretação aquilo que o distanciamento social, histórico, cultural pode promover (cf.: Bakhtin 2003c). Por isso, sustentamos que do conjunto da obra de Bakhtin, ainda que ocasionalmente seja focada a atividade estética, emerge uma episteme que organiza o modo de compreender as relações intersubjetivas no tratamento da linguagem.

Diante dessas considerações acerca do modo como Bakhtin e o Círculo concebem as relações intersubjetivas próprias da pesquisa em ciências humanas e das atuais investigações em LA, destacamos duas importantes confluências epistêmicas. A primeira concerne à natureza do objeto. A LA tem hoje o desafio de produzir conhecimento para além daquele saber já balizado no espaço acadêmico a fim de dar voz a outro lugar social que não o do mainstream. Isso implica assumir no fazer acadêmico sua dimensão política de modo a torná-la, a um só tempo, indisciplinar e interdisciplinar. Afinal, a linguagem como prática social tomada como objeto escapa ao constrangimento de uma disciplina rígida e/ou dita pura, já que a complexidade fenomêmica de uma prática social não se permite analisar apenas dentro dos limites disciplinares, mas invariavelmente mobiliza saberes que ultrapassam as fronteiras de um campo específico. Este parece ser um dos indícios de como o objeto em LA é participante ativo da pesquisa. É a partir das indicações dadas pelo objeto que se mobilizam saberes para abordá-lo. Inspirados nos postulados de Bakhtin e o Círculo e na discussão de Amorim (2004), dizemos, então, que o objeto em LA é necessariamente também falante, o que nos leva ao segundo aspecto a destacar.

A segunda confluência epistêmica que identificamos diz respeito à atitude do pesquisador face ao objeto. A posição de investigador e a condição de objeto pressupõem o agir daquele sobre este. Entretanto, dada a especificidade do objeto em ciências humanas em geral e em LA em particular, há significativa diferença epistêmica e também política se o pesquisador age com o objeto, e não apenas sobre o objeto. A decisão metodológica de assumir um percurso de orientação bilateral - em que há interação e não apenas ação - ao invés de um unilateral - em que ao objeto cabe apenas ser falado - parece inerente à constituição do campo in/interdisciplinar da LA. Dito de outro modo, a natureza do objeto em LA mobiliza uma atitude dialógica do pesquisador.

Isto posto, passamos ao cotejo de duas investigações em LA identificando aspectos epistêmicos e metodológicos que caracterizam o conhecimento que produzem e definem as pesquisas como pertencentes a este campo.

LA e produção de conhecimento (in/inter)disciplinar

Antes de esmiuçar os trabalhos selecionados, respondemos a duas perguntas.

1) Por que selecionar estes dois trabalhos?

Ano: 2006. Disciplina: Teoria Linguística: Subjetividade, Intersubjetividade e Discurso. Sujeitos: uma turma típica do Programa de Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (LAEL-PUCSP), com mais de 20 alunos em sala, entre mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos. Aquele grupo heterogêneo de pesquisadores reunia variados interesses de pesquisa. Citamos alguns temas das pesquisas que desenvolviam: a construção de sentidos na materialidade verbo-visual de capas da Revista Veja, o discurso sobre a atividade do trabalho de dentistas em processos civis, o discurso sobre a ergonomia num ambiente de trabalho de uma montadora no ABC paulista, o discurso do mestre de cerimônias, entre outros.

Um passeio virtual pelo site do Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da PUCSP (http:// pos.pucsp.br/lael) oferece uma página com títulos e acesso às teses e dissertações já defendidas pelo Programa. Nessa página, confirma-se: sob a égide de "Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem", ganham abrigo pesquisas que se interessam por um universo discursivo muito mais amplo do que o ensino de idiomas, tema que, como já discutido aqui, confundia-se com o campo da LA.

Os dois trabalhos selecionados para escrutínio neste artigo se originam daquele grupo heterogêneo de 2006. Trata-se de duas investigações alinhadas com demandas hodiernas da LA e que focam contextos diferentes dos tradicionais espaços de educação formal, especialmente, de línguas. Portanto, são trabalhos que evidenciam novos rumos assumidos como pertinentes à LA. Além disso, ambos assumem a trama dialógica como fundamento epistêmico e orientação metodológica. Lidam tanto com o fenômeno dialógico do objeto quanto com a dinâmica dialógica do próprio desenvolvimento da investigação.

2) Como abordar os trabalhos selecionados?

Os textos são aqui abordados a partir do formato final de tese de doutorado tal como apresentados à banca examinadora que os aprovou. A apresentação de cada pesquisa seguirá um percurso organizado em duas etapas. Na primeira, buscamos descrever o processo de construção do objeto. Tratar a linguagem como prática social implica rastrear as condições sócio-históricas que tornaram possível determinado contexto interacional. Esse rastreamento tem impacto direto naquilo que é assumido como objeto e, portanto, nos objetivos do trabalho, nas hipóteses etc. Na segunda etapa, cotejamos os critérios de seleção e delimitação do corpus de pesquisa. Tais critérios sinalizam como as decisões metodológicas resultam de um diálogo e não de uma determinação do pesquisador sobre o que estuda. Verificamos, portanto, como o objeto participa do encaminhamento da pesquisa.

Passemos, então, às investigações em LA selecionadas.

Retratos dialógicos de uma clínica: diálogo com o corpus

A tese Retratos dialógicos da clínica: um olhar discursivo sobre relatórios de atendimento psicopedagógico tem como objetivo amplo mostrar tensões discursivas reveladas por uma análise dialógica de relatórios de atendimento psicopedagógico. Compõem o corpus de pesquisa relatórios referentes a três casos atendidos por estagiários do curso de Especialização em Psicopedagogia da COGEAE-PUCSP.

Num primeiro momento da pesquisa, formavam o corpus relatórios referentes a um único caso. A hipótese norteadora inicial sustentava que os embates discursivos entre a voz da paciente e das figuras presentes em seu discurso poderiam corroborar com o diagnóstico clínico ou colocá-lo em xeque. As análises iniciais apoiavam-se no estudo dos tipos de discurso citado, partindo das considerações de Bakhtin/ Volochínov (2004) e Bakhtin (1997).

A autora da tese, em artigo publicado durante a pesquisa (cf.: Silva 2008), mostra como as formas de presença do discurso das figuras paterna e materna no discurso da paciente, identificada como A.C.44, indicam que não há uma submissão dessa paciente aos desejos dos pais, como previa o diagnóstico inicial do caso. As análises realizadas no início da pesquisa, de fato, apontam para um enredamento discursivo em que a voz de A.C., por vezes, questiona aqueles desejos e discursos.

A seleção dos excertos, num primeiro momento pautada pela busca de formas de presença do outro no discurso da paciente, cegou a pesquisadora para outros embates existentes nos documentos. No exercício de distanciamento exotópico, ou seja, de uma nova leitura dos relatórios, o diálogo com o corpus apontou para um segundo nível de análise, negligenciado nas primeiras investigações: o das tensões relativas aos parceiros discursivos do enunciado concreto.

No caso A.C., havia duas estagiárias envolvidas no atendimento: uma, a própria autora da tese, cumpria a função de terapeuta e outra, também estudante de Psicopedagogia, ficava numa sala contigua à do atendimento, da qual podia, sem ser vista, ver e ouvir tudo o que acontecia na cena clínica. Segundo a proposta dos estágios, as duplas de atendimento não poderiam trocar de papel: os estudantes que optaram por atender o paciente ou observá-lo manter-se-iam em tal tarefa durante todo o estágio. Observadores poderiam fazer sugestões durante a supervisão, mas não assumiriam o lugar de psicopedagogos no setting clínico. Os relatórios analisados relacionam-se a essa ampla atividade de formação de profissionais, e não apenas ao atendimento da paciente.

Os relatórios foram elaborados pela observadora e circularam no grupo de supervisão do caso, constituído por uma professora e seis estudantes. Muitas vezes, a estagiária que atendia a paciente acompanhava a elaboração dos relatórios em reuniões com a observadora, após o atendimento. Ao procurar, do lugar de pesquisadora, responder à inquietação sobre quem era de fato o narrador/autor dos relatórios, a autora da tese encontrou novos embates entre parceiros discursivos até então desconsiderados na pesquisa. Evidenciaram-se, assim, consciências em diálogo, e não a enformação da consciência do herói pela do autor.

Essa inquietação só aconteceu após uma minuciosa descrição de cada relatório, quando a autora da tese notou que um deles, o de número 7, apresentava características materiais e de conteúdo diferentes dos anteriores: tipo de fonte e uso de notas de rodapé para sinalizar reflexões pós-atendimento foram aquelas mais marcantes.

Ao investigar os motivos das mudanças, a pesquisadora deparou-se com o fato de aquele ter sido o único relatório produzido em sessão à qual a observadora não compareceu. Foi, portanto, um documento de descrição da sessão produzido pela estagiária responsável pelo atendimento. Isso explica o uso de notas de rodapé, que diferenciavam o relato da sessão do momento de escrita do relatório. A partir de tal constatação, a pesquisadora passou a ter olhos para embates discursivos entre as posições de trabalho "terapeuta" e "observador" na atividade de formação do psicopedagogo.

No já citado ensaio O autor e o herói na atividade estética, a posição de um autor que se deve representar como personagem num objeto estético é analisada por Bakhtin, que faz considerações sobre autorretratos de Rembrandt e Vrubel. Bakhtin destaca a difícil tarefa de se obter, no autorretrato, uma posição de extraposição que permita ao autor se conhecer como personagem (Bakhtin 2003a). Para que isso ocorra, deve haver um movimento de saída e volta (sair de si para ver o que o outro vê e voltar a seu lugar), movimento similar ao que faz um estagiário que atua como psicopedagogo e deve, ele mesmo, escrever o relatório sobre a sessão para o professor/supervisor.

O diálogo com o corpus mostrou que o tema dos relatórios não se restringia ao caso clínico, mas desdobrava-se pelos meandros da própria atividade psicopedagógica. A evidência de tal desdobramento indicou a necessidade de se incluir na pesquisa outros enunciados pertencentes ao mesmo gênero discursivo, em que embates de natureza semelhante pudessem se desvelar.

Foram eleitos, então, para a ampliação do corpus, relatórios de dois casos de atendimento psicopedagógico que a autora da tese havia acompanhado como supervisora. O atendimento nesses casos foi feito por alunos da disciplina Diagnóstico Psicopedagógico, do já citado curso de especialização.

A descrição dos relatórios seria inútil sem o entendimento sobre a arquitetônica desses objetos estéticos. Como já afirmamos, para Bakhtin (1990, 1997 e 2003a), na arquitetônica de um enunciado são indissociáveis forma composicional, material, conteúdo, autor e autor contemplador. O fio invisível que une esses momentos tece a forma arquitetônica, valorativa. Assim, uma metodologia dialógica exige do pesquisador a constante volta ao todo do enunciado. Olhar para aspectos da materialidade, como o tipo de fonte usado, o uso de recursos expressivos ou, ainda, evidenciar escolhas gramaticais e lexicais, como o emprego de marcas linguísticas de pessoa, tempo e modo, que foram fundamentais na pesquisa em questão para o estudo dos embates discursivos, é uma etapa de um trabalho que só ganha sentido quando articulado ao todo do enunciado. Esses movimentos de análise exigem que o pesquisador incorpore ao seu discurso vozes de autoridade sobre o aspecto textual e discursivo do corpus. Na tese, foram estabelecidos diversos diálogos com eminentes linguistas e pesquisadores como Authier-Revuz (2001; 2004), Fiorin (2005) e Dahlet (2006), entre outros.

Ao delimitar o enquadramento metodológico da pesquisa, a autora da tese deu prioridade ao estudo do discurso citado no nível discursivo que se ancora no evento das sessões e à forma arquitetônica no nível ancorado na interação entre os parceiros discursivos imediatos: o enunciador estagiário/aluno que redige os relatórios e seu leitor presumido, o supervisor/professor.

Ao eleger a arquitetônica como categoria, um pesquisador assume o compromisso de considerar a ligação entre múltiplos aspectos de seu outro, ainda que, por vezes, apenas alguns deles ganhem destaque nas análises. A forma arquitetônica não é resultado de uma fórmula padrão. Não se pode dizer que o uso de itálico em relatórios sempre gera o mesmo sentido, ou que a presença de pronomes pessoais de primeira pessoa sempre revelará um desejo, por parte do enunciador, de pertencer ao setting clínico, como indicaram algumas das análises apresentadas na tese.

Daremos dois exemplos dessas análises, extraídos dos relatórios dos casos AC e R, começando por excerto do caso AC:

Nossa primeira sessão de atendimento psicopedagógico começou pontualmente às 19h. Havia, sobre a mesa da sala, [...] um apontador. Adriana foi buscar a paciente na sala de espera enquanto eu aguardava atrás do espelho.

Ao entrarem na sala, Adriana apresentou-se e contou a A.C. que seríamos a dupla que irá atendê-la e que eu estava no espelho. [...]. (A.C., R01 - grifos nossos)

Como palavra inaugural do escrito, há um pronome possessivo na primeira pessoa do plural, que modifica o substantivo "sessão": a sessão não é de A.C. e Adriana, a estagiária que atende, é da dupla que atende. São apresentadas as personagens: "Adriana e a paciente" e o espaço do atendimento "Havia, sobre a mesa da sala...".

As posições diferenciadas entre a estagiária/observadora e a estagiária/psicopedagoga (entre autor e personagem) marcam-se pela natureza distinta dos verbos ligados a cada uma. Em "foi buscar a paciente", "apresentou-se e contou" e "pediu à paciente" há verbos no pretérito perfeito do indicativo, que indica ações num aspecto cessativo (Neves 1999). A sequência dessas ações indica um fazer constante por parte do sujeito - a estagiária/psicopedagoga -, e uma duração passiva nas atividades da observadora, marcada pelo uso do pretérito imperfeito do indicativo em "aguardava" e "estava".

Essas marcas enunciativo-discursivas, dentre muitas outras, apontaram, na pesquisa, para o nível de interação representado nos relatórios que extrapolava o setting clínico e abrangia a atividade de formação profissional. Quando as tensões se exacerbam, a observadora passa a utilizar, em notas de rodapé, construções hipotéticas sobre o que teria feito no momento em que está descrevendo caso fosse responsável pelo atendimento. O futuro do pretérito composto do indicativo aparece em diversos relatórios indicando o que a observadora "teria feito" e, mais do que isso, sua angústia por estar restrita à sala de observação.

Nos relatórios do caso R, há um embate de natureza similar. Não houve disputa entre enunciadores empíricos, já que esse atendimento foi feito durante o diagnóstico que antecede o estágio, em que os trabalhos são individuais, ou seja, não há alguém no papel de observador. Portanto, quem atende deve produzir o relatório. Mesmo sem a mudança empírica de estagiário, revelou-se, pelo uso de um marcador expressivo, uma oscilação enunciativa entre lugares de saber e não-saber que o enunciador ocupava.

A relação entre autor-criador e autor-contemplador nesses relatórios é fortemente marcada por questionamentos sobre a atuação da estagiária/psicopedagoga no setting clínico em passagens marcadas pelo uso da fonte em itálico intercaladas a trechos que descrevem da sessão. Em vários relatórios, entre trechos de descrição das atividades do paciente, escritos sem o uso de itálico, a autora (estagiária) sinaliza suas reflexões em itálico, como no trecho "Pareceu-me que R. está vivenciando apenas situações concretas [...] parecendo-me uma postura acomodatória." (Silva 2010:144).

Nos relatórios do caso R, esse recurso, em diálogo com os trechos que não estão em itálico, cria arquitetonicamente um contraste entre a posição enunciativa de quem descreve a sessão e transcreve os diálogos, e a outra posição desse mesmo enunciador, que se questiona constantemente sobre sua atividade clínica. As marcas discursivas da materialidade de cada relatório só ganham sentido quando todos os aspectos do enunciado concreto são levados em conta. Por isso, não se poderia afirmar que o uso do itálico teria sempre este ou aquele significado. O sentido desse aspecto se constrói na sua interação com os demais aspectos, diante dos olhos do pesquisador que se propõe a interagir com determinados enunciados.

As reflexões sobre procedimentos metodológicos e de análise de Retratos dialógicos da clínica: um olhar discursivo sobre relatórios de atendimento psicopedagógico sinalizam dois aspectos destacados neste artigo. Primeiramente, o alcance das questões que mobilizam a LA para além daqueles em torno do ensino/aprendizagem de idiomas. Além disso, apontam para a produtividade nos dias de hoje dos estudos que Bakhtin e os demais integrantes de seus círculos nos legaram, posto ser necessário estabelecer com esse outro que constitui objeto de pesquisa uma relação dialógica, na qual não se impõe ao objeto nem a teoria nem as categorias para dele tratar. Examinemos, na sequência, outra investigação de natureza diferente, mas que também empreende esses dois aspectos.

Uma escuta dialógica para conflitos do trabalho jornalístico na mídia impressa dos dias de hoje

O trabalho de Magalhães (2010), Subjetivação, jornalismo e ética: uma abordagem dialógica, trata de um dilema acirrado nos dias de hoje que resulta do encontro de três aspectos pontuados desde o título. Primeiramente, o pesquisador localiza o processo de subjetivação na história da cultura ocidental de modo a identificar seus vetores determinantes em três grandes paradigmas relacionais comumente caracterizados como períodos históricos: pré-modernidade, modernidade e pós-modernidade. Na condição de paradigmas relacionais, os termos não designam períodos estanques encerrados entre os domínios de datas específicas. Diferentemente, são tratados como acabamentos culturais cujos valores que ordenam o funcionamento das sociedades orientam a possibilidade de indivíduos - entidades materiais - se tornarem sujeitos - condição simbólica que garante pertença a uma coletividade. Subjetivação é, então, compreendida como processo de natureza histórico-cultural que, a partir de referenciais de valor determinantes da ordem social, definem o modo como é possível constituir sujeitos nos diferentes agrupamentos sociais. É, portanto, um processo contínuo dependente das condições histórico-culturais. A cada alteração na ordem social, novos modos de subjetivação podem ser deflagrados e referendados.

Em seguida, em consonância com tal concepção de subjetivação, baseado, sobretudo, em Ward (2004), Magalhães (2010) recupera na história do fazer jornalístico diferentes modos de o profissional (ou os profissionais pertencentes à cultura organizacional do jornalismo) atuar como sujeito. Se nos dias de hoje é discutível se cabe ou não ao jornalista assumir-se como sujeito em sua atuação profissional, nos primórdios da periodicidade da imprensa isso parecia ponto pacífico: o fazer jornalístico se definia, sim, pelo posicionamento do sujeito que enunciava. Isso mostra que se hoje o trabalho do jornalista é pautado por valores como "imparcialidade" e "objetividade", que tendem a camuflar índices de subjetivação, na história da esfera jornalística não foi sempre assim.

A abordagem histórico-cultural da subjetivação permite recuperar a construção social da esfera jornalística. Tal construção, por sua vez, viabiliza a compreensão de que a questão ética profissional no jornalismo é moldada a partir do cruzamento dos dois primeiros elementos. Isso significa dizer que ser ético no fazer jornalístico implica reconhecer dois aspectos inter-relacionados: a) os vetores de subjetivação que ordenam a sociedade que abraça a prática jornalística e b) os critérios de validação do modo de subjetivação autorizados por essa mesma sociedade para a prática jornalística e referendados na esfera jornalística. Assim, entrelaçam-se os três elementos decisivos para a construção do objeto que o pesquisador analisará: a linguagem como trabalho jornalístico na esfera periódica impressa.

Como qualquer prática social, esse objeto resulta de aspectos sócio-históricos que conduzem à determinada possibilidade de relações. Nesse caso específico, a linguagem não é meramente mediadora, mas o próprio constituinte da prática, uma vez que não se recupera nela um conteúdo para análise do trabalho jornalístico, mas sim seu próprio funcionamento constitui a prática estudada. Trata-se, portanto, de um objeto que é produção de discurso e, nessa condição, provém de sujeitos. Trata-se do agir discursivo de sujeitos em sua esfera profissional. No âmbito do Programa de Pós-Graduação em que a investigação se insere, este é um objeto pertinente à linha de pesquisa Linguagem e Trabalho. Mais detalhadamente, é um objeto que considera a linguagem como trabalho. No âmbito da LA, constitui um objeto possível, desde que seja levantada uma questão que considere a linguagem concretamente em uso. Dito de outro modo, para desenvolver uma pesquisa em LA com a linguagem jornalística no âmbito do impresso dos dias de hoje, é necessário flagrar atos concretos de sujeitos envolvidos com a produção jornalística.

Construído este objeto, o autor da tese aponta o problema que impulsionará sua investigação. Nos dias de hoje, imparcialidade e objetividade constituem, ainda que de modo polêmico, relevantes pilares da ética profissional jornalística. Como fica, então, o trabalho desse profissional no meio impresso, que está sempre "atrasado" em relação a outros meios de produção e divulgação de fatos jornalísticos (Ward 2004)? Até que a edição de um jornal impresso ou de uma revista alcance o público, o material noticioso em geral já foi distribuído via rádio, TV, internet, ou até mesmo via celulares (cf.: Eco 2007). O que resta de imparcial e objetivo a veicular pelo meio impresso? De acordo com Magalhães (2010), Eco (2007) sustenta que ao jornal impresso resta apenas a opinião, a avaliação e, portanto, a subjetivação diante do fato jornalístico. Mas como fica o desafio ético? O autor da tese, então, parte da seguinte hipótese: se organizado socialmente não há como o indivíduo prescindir da condição de sujeito, mesmo o trabalho jornalístico ético e responsável lida com o processo de subjetivação. Daí pergunta: como o fazer jornalístico eticamente comprometido articula o processo de subjetivação responsavelmente em atividades atinentes ao meio impresso nos dias de hoje? Orientada por tal pergunta, a tese visa à relativização da objetividade e imparcialidade jornalísticas a fim de rastrear no fazer de sujeitos concretos modos de articulação da linguagem que indiquem como a subjetivação nos dias de hoje é atualizada no trabalho com o meio impresso. A investigação busca contribuir para o delineamento operacional de um conceito tão caro para o trabalho responsável de jornalistas.

A natureza discursiva do objeto condiciona o percurso metodológico do estudo, pois interfere diretamente na hipótese, no objetivo da investigação e, consequentemente, na questão que a orienta. Em termos bakhtinianos, há um diálogo. As condições históricas da prática selecionada para estudo alteram os atos do pesquisador. A interrogação que o pesquisador se coloca constitui uma resposta ao agir discursivo do outro e, assim, o pesquisador se insere na cadeia discursiva do objeto, e não o contrário. Ao inserir-se na cadeia do outro, o autor da tese cumpre a primeira tarefa apontada por Bakhtin (2003c): compreender o texto (nesse caso, a produção de linguagem do jornalista) do contexto em que é produzido. O contexto do objeto e o agir dos sujeitos ali implicados são decisivos para o fazer da pesquisa. De outro modo, perder-se-ia a condição de compreender o problema levantado. Daí ser este objeto também falante.

Evidentemente, esta é a primeira tarefa. A realização da pesquisa requer também a contribuição do pesquisador nesse processo interacional, ou seja, a empatia orienta e guia a primeira tarefa, mas o pesquisador não pode assumir o lugar do pesquisado e destituir-se da condição de investigador. O olhar alteritário do pesquisador deverá, ao final do trabalho, contribuir com sua posição exotópica que permite dizer algo que o sujeito discursivo tomado como objeto não pode dizer de si, de modo que o fazer da pesquisa constitui uma ação conjunta. Nos termos de Bakhtin (2003c), esta é a segunda tarefa no tratamento do objeto em ciências humanas. Seguindo o percurso de leitura proposto neste artigo, vejamos como a seleção e delimitação de um corpus de análise revela mais dessa dinâmica interacional.

Dentre as variadas realizações concretas da prática social jornalística no meio impresso hoje, o autor da tese seleciona, em primeiro lugar, uma instituição que vinha trabalhando desde os anos 1980 na reconfiguração identitária da empresa. A empresa selecionada trabalhava no processo de alterar sua identidade sensacionalista em favor de uma identidade de empresa de informação responsável para que fosse assim reconhecia pela cultura organizacional jornalística. Isso implicava a relação com o público leitor, que não foi necessariamente alterado, mas sobretudo a relação entre os pares na própria esfera jornalística. Por essa razão, outro critério foi aplicado: o material a compor o corpus para estudo não foi selecionado do contexto de distribuição convencional, mas do contexto de premiação jornalística especializada. Nesse contexto, o trabalho do jornalista figura como conteúdo do ato institucional. Ao inscrever certa matéria em determinado concurso, os sujeitos que respondem pela empresa referendam com destaque aquele produto. O ato de inscrever enuncia, então, uma avaliação positiva da empresa em relação àquilo que veicula. A partir daí, o pesquisador recolheu as matérias que foram efetivamente premiadas, de modo a recuperar uma referenda da esfera externa à própria produtora do material. Assim se constituiu o corpus: conjunto de 3 séries de reportagens impressas de uma empresa de informação em processo de reconfiguração identitária selecionadas do contexto de premiação especializada.

Na seleção e delimitação do corpus, as decisões tomadas pelo pesquisador - a escolha de uma instituição, a delimitação de que material observar etc. - dependem daquilo que o objeto - instalado numa cadeia comunicativa discursiva em que se atualizam as práticas sociais atinentes ao problema investigado - vai dizendo de si. Os sujeitos implicados no caso estudado trabalham independente da investigação. Portanto, seus atos não se orientam para o pesquisador e funcionam a despeito daquilo que o investigador procura. Sendo assim, o investigador toma decisões do seu lugar, mas alterado por aquilo que funciona discursivamente antes mesmo sua pesquisa.

Selecionado e delimitado o corpus, é mister mobilizar categorias para abordagem do material recortado. Novamente, dialogicamente orientado, o pesquisador não pode determinar os instrumentos para manejo do objeto; precisa dialogar com ele para identificar as categorias que emergem da interação. Notamos que não se trata de um objeto autoritário que impõe ao pesquisador o que fazer e como fazer. Fosse assim, não se configuraria uma pesquisa. Todavia, não cabe ao pesquisador tampouco impor o tratamento desse objeto que é primeiro um sujeito expressivo falante.

Na condição de pesquisador, mesmo mergulhado na cadeia comunicativa discursiva do outro, o pesquisador cumpre a segunda tarefa descrita por Bakhtin (2003c) e se vale de seu lugar alteritário naquela esfera. Seu olhar de fora, olhar de quem não é jornalista e cujo trabalho não coincide com o trabalho do jornalista em análise, permite "estranhar" aquilo que está naturalizado na prática profissional dos jornalistas. Dito de outro modo, aquilo que os jornalistas não sabem necessariamente dizer de seu trabalho senão pela execução das tarefas ordinárias da profissão salta aos olhos do pesquisador justamente por sua posição exotópica. Daí as categorias começam a emergir.

Rastreando a prescrição do trabalho jornalístico, o autor da tese percorre a legislação de imprensa, o código de ética jornalística, o manual de redação da editoria estudada e as normas dos concursos que premiaram o material selecionado. O exame da prescrição sinaliza que, de fato, a cultura organizacional do jornal não delineia efetiva e operacionalmente aquilo que no trabalho com a linguagem funciona como objetivo e imparcial. Ainda que os diferentes documentos problematizem a questão da objetividade e imparcialidade, não dão conta de orientar os procedimentos responsáveis no fazer com a linguagem que garantam um trabalho ético. Isso justifica a contribuição de uma pesquisa em LA para uma esfera cujas práticas sociais têm impacto direto na sociedade urbana contemporânea. Analisada a prescrição, o autor da tese detém-se, então, no material jornalístico propriamente dito recortado do contexto de premiação.

As séries selecionadas esbarram necessariamente em tensões políticas. Uma série versa sobre o trabalho infantil, outra sobre problemas na educação pública formal no estado do Rio de Janeiro e a última sobre problemas de transporte público na região metropolitana do Rio de Janeiro. Nelas são tratadas as relações do poder público com empresas privadas e com a população, as relações entre as diferentes esferas do poder público (municipal, estadual e federal), as relações dos indivíduos implicados nos casos tomados como objeto da reportagem, entre outras relações sociais. A grande questão que se impõe ao jornalista do meio impresso nesse caso é: como tratar responsável e eticamente de temas carregados de tensão ideológica num meio cuja produção é "atrasada" em relação a outros meios?

Nesse âmbito do trabalho jornalístico realizado, o autor da tese conduz uma leitura do material da qual emergem categorias descritivo-analíticas. Das categorias levantadas, destacamos apenas uma para efeito de ilustração do que discutimos neste artigo: o modo como o jornalista articula o discurso de outrem em sua produção.

O autor da tese identifica dois grandes procedimentos na tarefa jornalística com impacto na organização discursiva do material. O primeiro procedimento é o recolhimento, por parte da equipe jornalística, de excertos de linguagem a partir de práticas sociais que independem daquela produção jornalística. Documentos autênticos, fotogramas não posados, dizeres que circularam primeiro em outra cadeia que não a matéria jornalística e que são de lá recortadas. A este procedimento, o autor da tese classifica como citação e analisa pelo viés do que Bakhtin e o Círculo postulam acerca da palavra na palavra, do discurso no discurso. O outro procedimento promove dizeres especialmente para a produção jornalística e, por isso, têm sua gênese já na cadeia comunicativa daquela produção. Depoimentos e fotos posadas são característicos desse ato que não recorta de outra cadeia discursiva o que é mobilizado na matéria. A este procedimento, o autor da tese chama de depoimento.

Notamos que o uso de aspas, a indicação de créditos etc. são gestos próprios do trabalho jornalístico que garantem o tratamento responsável do que o outro diz. Aquilo que não foi empiricamente dito ou escrito pela equipe precisa, de fato, de destaque textual, referência à origem. Entretanto, o que se produz discursivamente escapa aos constrangimentos dessa prescrição, e a diferença entre citação e depoimento mostra como a produção jornalística, por um lado, dá visibilidade ao fluxo discursivo já em processo na sociedade e, por outro, constrói um fluxo próprio daquela produção5. Embora pela orientação da prescrição os dois constituam atos éticos e responsáveis, discursivamente fica evidente como a citação tende a dar vista ao que corre num plano que de outro modo poucos teriam acesso, ao passo que o depoimento atende diretamente ao projeto enunciativo-discursivo do jornal. Assim, sem prescindir do que é referendado como responsável e sério pela prescrição jornalística, o impresso constrói espaços de subjetivação no fazer jornalístico.

Considerações finais

As duas teses sobre as quais refletimos neste artigo inserem-se, igualmente, num programa de LA. Nenhuma delas trata de questões de ensino, mas ambas têm o que caracteriza o campo: a preocupação com a linguagem em uso, com a interação verbal situada social e historicamente. Ambas estão filiadas a uma linha de pensamento inspirada na obra de Bakhtin e do Círculo, e, fiéis a esse pensamento, são emblemáticas da relação dialógica entre pesquisador e objeto/sujeito, em que tanto um quanto o outro fala. Tal pensamento, ao se inspirar na filosofia da vida, reconhece a especificidade de pesquisas que tomam como objeto o humano em suas relações das mais variadas, ou seja, em práticas sociais. Entretanto, ao negar incluir o mundo teórico no devir da singularidade da vivência do indivíduo, a orientação dialógica promove dispositivos para a abordagem teórica e o tratamento do objeto sem, respectivamente, fazer a teoria refém do indivíduo nem destituir o objeto de sua condição de sujeito produtor de discurso.

Os fundamentos metodológicos da orientação dialógica, ainda que empreendidos ao longo do século XX, parecem responder às demandas em pleno século XXI de um campo desconhecido do Círculo de pensadores russos. Todavia, o cotejo da construção de práticas sociais como objeto de pesquisa e do desafio de tratamento desse objeto como também falante revela que há confluência epistêmica entre o pensamento bakhtiniano e os desafios hodiernos da LA para produção de conhecimento in/interdisciplinar.

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WARD, Stephen J. A. 2004. The invention of journalistic ethics: the path to objectivity and beyond. Montreal: McGill-Queen's University Press. [ Links ]

1O termo pensamento bakhtiniano se refere às contribuições teóricas e metodológicas que derivam de um pensamento coletivo. Neste artigo, referimo-nos ao Círculo quando tratamos de aspectos postulados por diferentes pensadores russos que se ocuparam com a discussão em torno do dialogismo e fazemos referências específicas a autores quando remetemos a um título em particular. Para detalhamento acerca do que se tem entendido por pensamento bakhtiniano, sobretudo na recepção brasileira da obra do Círculo, ver, por exemplo, Brait & Magalhães (2014) e Magalhães (2012).

2Para detalhamento acerca da relação entre ética e estética no pensamento bakhtiniano, ver, por exemplo, Kogawa & Magalhães (2015).

3O ensaio O autor e a personagem na atividade estética foi escrito entre 1924 e 1927. Pertence, portanto, a um conjunto de obras que, elaboradas durante a década de 1920, versam sobre questões filosóficas que giram em torno ao ato ético e à responsibilidade do ser. A esse respeito, ver Brait & Campos (2009) e Morson & Emerson (2008).

4Como na tese analisada, são indicadas apenas as iniciais dos pacientes.

5Exemplos dessa diferenciação discursiva da mobilização da palavra de outrem podem ser cotejados à página 235 da tese, também disponível em: <http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=10718>

Recebido: Setembro de 2015; Aceito: Agosto de 2016

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