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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.2 no.4 São Paulo Mar. 1986

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451986000100018 

DOCUMENTO

 

Bom proveito

 

 

Ladislau Dowbor

Economista e professor da PUC-SP

 

 

No País das Maravilhas, Alice descobriu que é possível comemorar o dia do desaniversário. Se a história se passasse hoje, ela descobriria outra efeméride semelhante: o dia mundial da fome, que é o dia da criança ao revés. A morte de 10 milhões de crianças, por fome, é comemorada a cada ano que passa. Enquanto o dia da criança tem direito a um gigantesco movimento publicitário, o dia da fome é comemorado discretamente por poucos personagens cansados e roucos de falar do fenômeno mais escandaloso desse fim de século.

Vejamos: neste nosso pequeno planeta de 4,5 bilhões de habitantes, passam fome um pouco menos de um bilhão de pessoas. Desnutrição profunda, cerca de 500 milhões. Morrem de fome, anualmente, algo como 15 ou mais milhões de pessoas. As crianças de 0 a 5 anos de idade são as mais atingidas, cerca de 10 a 12 milhões. Os dados são de 1980.

Onde isto? Há um belíssimo esforça televisivo para identificar a fome com regiões distantes: Etiópia, Biafra e outros lugares que se localizam apenas na nossa imaginação. A realidade é mais precisa e concreta: a fome é nossa.

Vamos descartando. Dos 4,5 milhões de habitantes, 700 milhões vivem nos 24 países desenvolvidos capitalistas (Estados Unidos, Europa Ocidental, Japão e alguns mais). Representam 15% da população mundial e consomem 60% do produto mundial. A riqueza média anual por pessoa é da ordem de 10000 dólares. Há pobres, sem dúvida, nessa parte do mundo, mas não é aí que se situam a miséria e a fome.

O mundo socialistas é duas vezes mais amplo, com cerca de 1,4 milhão de habitantes, com a imensa presença da população chinesa. Trata-se de um terço da população mundial, que busca caminhos fora do capitalismo, mas iniciou a sua modernização com um século ou século e meio de atraso sobre os países capitalistas industrializados. Representam ainda um quarto da produção mundial, e o seu nível médio de produção por habitante é de 1700 dólares. Apesar da relativa pobreza dessa região, também não é aí que se situa a fome. Esses países se caracterizam pela redistribuição da renda e a concentração dos esforços na resposta às necessidades básicas da população. Os paises socialistas não generalizaram ainda o carro mundial nem o disco a laser, mas toda criança tem sapato no pé. Desculpem-me, mas botar um sapato no pé de cada criança representa um progresso muito maior do que instalar multinacionais de automóveis.

O problema situa-se, portanto, no nosso terceiro mundo da África, Ásia e América Latina. Em outros termos, o mundo capitalista, com três bilhões de habitantes, tem 700 milhões na área rica do capitalismo desenvolvido, algo como 300 milhões de minorias ricas dos próprios países do terceiro mundo, e dois bilhões de pobres. A fome, portanto, é um fenômeno característico do capitalismo subdesenvolvido.

E é um fenômeno recente. Antes de 1939, escreve o Banco Mundial, apenas a Europa Ocidental entre as regiões do mundo era um importador líquido de cereais, isto é, só essa região consumia mais cereais do que produzia. Hoje, só a América do Norte e a Oceania não importam cereais. Portanto, não se trata de problemas ainda não-resolvidos pelo capitalismo, mas de problemas criados pelo capitalismo. A FAO (seção da Organização das Nações Unidas que cuida da alimentação) estima que o número de subnutridos graves passou de 360 milhões em 1970 para 420 milhões em 1975. Estima-se que, atualmente, o número de subnutridos gira em torno de 800 a 900 milhões de pessoas.

Quem é atingido? Você já sabia: a maioria dos trabalhadores urbanos e rurais. Se você ainda não tiver certeza, veja estes dados da Organização Mundial de Saúde, sobre o Chile: na média, o nível de mortalidade para as crianças de famílias operárias é mais de três vezes superior ao índice da classe média, e a taxa sócio-econômica de mortalidade aumenta em razão de doenças infecciosas e parasitárias, alcançando um ponto máximo com a subnutrição. A taxa de mortalidade infantil entre filhos de operários é de 5 a 6 vezes maior do que entre filhos da classe média.

Enfim, só para completar esse quadro geral, lembremos que se produzem no mundo cerca de 1,5 bilhão de toneladas de cereais — o que permitiria assegurar 300 quilos de cereais por ano e por habitante, 10% acima das necessidades calculadas segundo os critérios mais amplos. O Banco Mundial e a FAO calculam que bastaria reorientar 2% da produção mundial de cereais para acabar com a fome. O problema, assim, não é de produção, e sim de distribuição. Esse é o quadro patético do capitalismo moderno: de um lado a sobrealimentação, com uma seqüência de doenças devidas à obesidade e elevada mortalidade por excessos. De outro, a fome.

E o Brasil? Muito bem representado, como seria de esperar. Esmagada entre a agroexportação, destinada a produzir divisas para pagar os juros da dívida externa, e a fantástica regressão tecnológica que constitui a utilização da agricultura para fazer andar o automóvel, através do programa do álcool, a agricultura alimentar simplesmente perde terreno. Como já se disse: estamos correndo o risco de desarticular aquilo que resta da chamada produção brasileira de alimentos. Em 13 anos (de 1967 a 1979), a nossa produção por habitante dos principais alimentos (arroz, feijão, milho, mandioca e batata) declinou de 20 a 25%.

Os dados gerais, em termos de efeitos sobre a alimentação, ainda são os do ENDEF de 1975: 67,2% da população estão abaixo do nível mínimo de calorias. Destes, 18,6% teriam um déficit diário de até 200 calorias; 31,3%, um déficit situado entre 200 e 400 calorias; e 17,3%, um déficit superior a 400 calorias. Ou seja, no Brasil, oitava potência, apenas 32,8% da população comem o suficiente.

Atingimos até o resultado fenomenal de poder diferenciar a classe alta e a baixa no país, no sentido próprio. Cerca de 50% das crianças pobres no Nordeste têm deficiências de estatura, e cerca de um quarto nas regiões rurais do Estado de São Paulo. Já pensaram na facilidade que isso representa para o serviço nacional de informações? Poder-se-ia também identificar os brasileiros de cima e os brasileiros de baixo pela idade, já que a OMS conclui que um pobre do Nordeste vive uma média de 42,8 anos, enquanto o rico de regiões Sul vive uma média de 67 anos. Os subversivos morrem cedo, e de morte natural, poupando trabalho. O nosso trabalho é muito mais limpo que o da Argentina.

A realidade é que o continente que representa a fome dentro do nosso país ainda é muito pouco estudado, e os que se têm debruçado sobre o problema têm recebido apoio muito insuficiente, quando não o conselho de cuidar de outra coisa.

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