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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.25 no.2 São Paulo Apr./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-67202012000200017 

CARTA AO EDITOR

 

Cisto mesentérico: relato de caso e revisão de literatura

 

Mesenteric cyst: case report and literature review

 

 

Carlos Magno-Junior; Carlos Augusto Marques Batista; Gerson França Leite; Hélio Alves de Lima; Joaquim Ferreira de Paula; Monika P. Kim; Wilker Benedetti Mendes

Endereço para correspondência

 

 

INTRODUÇÃO

Os cistos mesentéricos são tumores intra-abdominais raros1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13,14,15. Desde o primeiro relato feito por Benevienae em 1507, aproximadamente 800-900 casos de cistos mesentéricos foram descritos na literatura1,3,7,14. Sua incidência pode variar conforme os diferentes trabalhos, de um em cada 27.000 a 250.000 admissões hospitalares1,7,15, ou então de 1:20.000 crianças e 1:100.000 adultos9,12,14,15. A sua distribuição é igual em ambos os sexos1,5,7, predominando na fase adulta da vida1,4,11,12. A localização mais comum é no intestino delgado1,7,9,14,15. Normalmente são tumores assintomáticos ou com manifestações clínicas discretas e não específicas1,2,3,5,6,7,8,9,10,12,13,14,15. O diagnóstico é feito pela presença da massa abdominal, em investigações clínicas ou por quadro de abdome agudo, principalmente durante o ato cirúrgico 1,3,5,7,8,9,11,12,14,15. O tratamento de escolha é a enucleação do cisto, seja por laparotomia1,3,4,5,7,8,9,10,11,12,13,14,15 ou videolaparoscopia 2,3,6,9,11,12,13,14.

O objetivo deste trabalho foi apresentar um único caso de cisto mesentérico operado no Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Escola Luiz Gioseffi Jannuzzi e fazer revisão da literatura.

 

RELATO DO CASO

Mulher de 61 anos, branca, relatou que há aproximadamente um ano começou a apresentar quadro de dor abdominal de pequena intensidade em flanco direito e fossa ilíaca direita, sem outros sintomas associados. Há seis meses notou aparecimento de tumoração abdominal pouco dolorosa, móvel, de crescimento progressivo e localizada em flanco direito. Procurou ambulatório de ginecologia e ao exame apresentou massa abdominal em situação superior, sem pertencer a anexos, que estavam totalmente livres; ultrassonografia transvaginal evidenciou formação cística de 10,9 x 6,6 x 8,4 cm ocupando o flanco direito, sugerindo doença ovariana. Tomografia abdominal mostrou formação ovalar de aspecto cístico localizada no flanco direito, medindo 8,0 cm de diâmetro transverso, compatível com diagnóstico de cisto mesentérico (Figura 1A). Foi encaminhada ao ambulatório de cirurgia geral. Tinha história pregressa de hipertensão arterial; hipotireoidismo; cesareana e salpingectomia. Foi submetida à laparotomia mediana onde foi encontrado tumoração cística de paredes finas e lisas em mesentério de jejuno, de aproximadamente 12 x 8 cm com ovários normais. O cisto foi totalmente retirado sem lesão de sua cápsula (Figura 1B).

 

Evoluiu sem intercorrências, recebendo alta hospitalar no 2° dia de pós-operatório. O laudo anatomopatológico mostrou formação cística transparente, medindo 12 x 8 x 6 cm, com líquido incolor no seu interior; compatível com cisto mesentérico simples e sem sinais de malignidade. O acompanhamento tardio transcorreu sem complicações.    

 

DISCUSSÃO

"Os cistos mesentéricos estão entre as raridades cirúrgicas", esta frase escrita por Berkeley Moynihan em 1887, reflete a opinião da maioria dos autores que escrevem sobre o assunto1,15. Tem baixa incidência e escassez de publicações1.

Pode ser definido como qualquer lesão cística localizada no mesentério1. É a mais rara das lesões císticas do abdome, geralmente é única, podendo seu tamanho variar de alguns centímetros até 30 centímetros de diâmetro7,14.

Desde o primeiro relato feito pelo anatomista italiano Benevienae em 1507, aproximadamente 800-900 casos de cistos mesentéricos foram descritos na literatura1,3,7,14. A primeira excisão foi realizada por Tillaux em 18801.

Sua incidência pode variar de um em cada 27.000 a 250.000 admissões hospitalares1,7,15, ou de 1:20.000 crianças e 1:100.000 adultos9,12,15. Sua distribuição quanto ao gênero não é unânime, com relatos de incidência igual em ambos os sexos1,5,7, predominância no sexo feminino7,15 e outros trabalhos mostrando o sexo masculino como o mais acometido4,12. Predomina na fase adulta da vida1,4,11,12. Podem acometer o mesentério do duodeno ao reto1,7. A localização mais comum (60%) é no intestino delgado1,7,9,14,15, preponderantemente na região do mesentério ileal5,6,12, podendo ainda ser encontrado no mesoapêndice3 e no mesocolon1,2,3,4,7,8,14. Pode ser originado de tecido linfático, vascular, nervoso e conjuntivo7,12,15. Embora exista certa contradição1, os cistos mesentéricos podem ser classificados como provenientes dos canais linfáticos, de divertículos entéricos, da crista urogenital ou de seus derivados, de infecções circunscritas ou de origem maligna1,7,9,12,14,15. O tipo histológico mais comum é o cisto quiloso ou linfático8,15. São histologicamente malignos em aproximadamente 3% dos casos14.

Normalmente são tumores assintomáticos ou com manifestações clínicas discretas e não específicas1,2,3,5,6,7,8,9,10,12,13,14,15. Quando sintomáticos podem se apresentar com dor abdominal vaga, náuseas e vômitos, constipação, diarréia e massa abdominal1,3,5,7,9,14. Geralmente, trata-se de uma massa abdominal compressível com grande mobilidade no sentido transversal e ao redor de um eixo central - sinal de Tillaux1.

O diagnóstico costuma ser feito pela presença da massa abdominal, durante investigação de doenças abdominais ou outras doenças, em achados acidentais de laparotomias ou então por quadro de abdome agudo, principalmente durante o ato cirúrgico1,3,5,7,8,9,10,11,12,13,14,15.

Exames de imagem, como ultrassonografia, tomografia e ressonância magnética são os que propiciam melhor acuidade diagnóstica, mostrando a massa cística uni ou multiloculada, procurando estabelecer a natureza, a localização e o tamanho da lesão, como também a espessura de suas paredes1,2,3,5,7,8,9,11,12,14,15.

O diagnóstico diferencial dos cistos mesentéricos pode ser feito, nas formas crônicas, com hidronefrose, lipoma de mesentério, tumores de intestino, cisto pancreático, cisto ovariano, cisto renal, cisto esplênico, cisto de adrenal e aneurisma de aorta1,7,9,14 e nas formas agudas com apendicite aguda, volvo, invaginação intestinal e obstrução intestinal1,11.

As complicações encontradas, que levam a quadro de abdome agudo, podem ser infecção espontânea, ruptura, infecção peritonial, hemorragia, torção do cisto, herniação para bolsa escrotal, volvo, isquemia intestinal, e obstrução intestinal4,5,7,9,10,11,14. Alguns autores citam a transformação maligna como complicação da doença9.

Uma vez diagnosticado, todo cisto mesentérico deve ser ressecado, a fim de evitar suas complicações1. O tratamento de escolha é a enucleação do cisto, seja por laparotomia1,3,4,5,7,8,9,10,11,12,14,15 ou videolaparoscopia1,2,3,6,7,9,11,12,13,14,15. Marsupialização, drenagem interna, aspiração do cisto e excisão parcial com cauterização são outras formas de tratamento descritas na literatura1,7.

A mortalidade operatória varia em função do tipo de tratamento efetivado, condição do paciente, estrutura de suporte pós-operatório e localização do cisto. Atualmente, com o aprimoramento tecnológico e o surgimento das modernas medidas é esperada mortalidade  para a enucleação de 0% e de 3-5% com ressecção intestinal1,7.

A recidiva é rara e o tratamento pode ser considerado curativo2,11,15.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Carlos Magno Jr, e-mail: loscarmagno@hotmail.com

Fonte de financiamento: não há
Conflito de interesses: não há
Recebido para publicação: 16/09/2010
Aceito para publicação: 11/12/2011

 

 

Trabalho realizado no Hospital Escola Luiz Gioseffi Jannuzzi, Valença, RJ, Brasil.

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