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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.26 no.4 São Paulo Nov./Dec. 2013

https://doi.org/10.1590/S0102-67202013000400001 

EDITORIAL

 

Burrill Bernard Crohn (1884-1983): o homem por trás da doença

 

 

Fábio Guilherme M. C. de CamposI; Paulo Gustavo KotzeII

IUnidade de Cirurgia Coloretal, Departamento de Gastroenterologia. Hospital das Clínicas, Universidade de São Paulo, Brasil
IIUnidade de Cirurgia Coloretal, Hospital Cajuru, Universidade Católica do Paraná, Curitiba, PR, Brasil

 

 

Burrill Bernard Crohn nasceu em 13 de Junho 1884 na cidade de Nova Iorque, vindo de uma família européia de origem judaica cujos pais, Theodore e Leah Crohn, educaram um total de doze crianças como judeus ortodoxos em diversas gerações5.

Em Nova Iorque, ele estudou no City College (Classe de 1902), onde seu interesse pela carreira médica floresceu. De acordo com sua própria biografia, ele se decidiu por fazer medicina pelo fato de que seu pai tinha problemas digestivos terríveis, e ele desejava adquirir conhecimentos para ajudá-lo. Graduou-se no Columbia University's College of Physicians and Surgeons (1907) aos 23 anos3.

Nessa Universidade, Crohn desenvolveu muitas pesquisas experimentais relacionadas a hemorragia intra-abdominal, pelas quais logrou conquistar seu mestrado e doutorado. Entretanto, ele se sentiu obrigado a declinar desses títulos devido ao preço naqueles dias (US$35), além do que ele não desejava pedir dinheiro extra a seu pai8. Após esse período, foi admitido como um dos 120 candidatos para oito vagas como médico interno no Hospital Mount Sinai. Crohn permaneceu nessa posição por 2,5 anos, em sistema de rotação em cirurgia e doenças médicas, e um ano extra em patologia, monitorado pelo brilhante Dr. Emanuel Libman (1872-1946). Ele acreditava que esse estágio no Departamento de Patologia lhe permitiu conquistar o balanço adequado entre laboratório científico e medicina clínica8.

Muitas de suas atividades médicas se desenvolveram no Hospital Mount Sinai. Após o trabalho em patologia, ele trabalhou em química fisiológica no período de 1911 a 1923. Finalmente, juntou-se ao corpo clínico do hospital em 1926. Como médico local, ele referendava a maioria de seus pacientes ao Mount Sinai, hoje reconhecido como um hospital de prestígio nas áreas de ensino e pós-graduação3.

Uma curiosidade daqueles dias foi que Crohn se casou com Lucile Pels em 1912, tendo tido duas crianças, Ruth (nascida em 1912) e Edward (em 1917). Entretanto, não tendo tempo para se dedicar à família, muito devido às chamadas hospitalares quase todas as noites e à sua dedicação ao "Affections of the Stomach" (publicado em 1928), foi obrigado a terminar seu casamento8.

Seu especial interesse em doenças intestinais é claramente demonstrado em sua biografia: "Tem sido minha infortúnia (ou talvez minha sorte) despender grande parte de minha vida professional como um estudioso da constipação e diarréia. Algumas vezes eu poderia ter escolhido os ouvidos, nariz e garganta como especialidade, em vez da extremidade distal da anatomia humana ..." 3.

Existiam gastroenterologistas muito antes da gastroenterologia ser reconhecida e definida como uma das especialidades da medicina interna. Foi isso que ocorreu com Dr. Crohn, uma vez que muitas das divisões das doenças digestivas estavam nas mãos de cirurgiões naquela época. Ele foi reconhecido como membro da American Gastroenterological Association (AGA) em 1917, com a ajuda de William J. Mayo, que foi apresentado a Crohn pelo Dr. Libman8. Depois disso, passou a se dedicar aos estudos de funções e doenças do pâncreas até 1921. Estudou as funções fisiológicas do pâncreas usando a si mesmo como voluntário, ao introduzir um cateter de borracha de 36 polegadas e avaliar as secreções pancreáticas aspiradas depois de ingerir um copo de leite8.

Muito de sua dedicação ao tratamento das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII) se deve à sua estreita amizade com Dr. Jesse Shapiro, colega do Mount Sinai também acometido por essa doença. Outra razão foi que o hospital costumava admitir um grande número de judeus, que tinham grande incidência dessa afecção. Assim, devido a seus inúmeros esforços, foi nomeado o primeiro chefe da Clínica de Gastroenterologia do Hospital Mount Sinai, onde permaneceu como associado por 60 anos, despertando o interesse de gerações de médicos no estudo das DII8.

No começo do século 20, o eminente cirurgião Dr. A. A. Berg estimulou seu assistente Leon Ginzburg (professor de clínica cirúrgica) e seu colega Dr. Gordon David Oppenheimer (cirurgião consultor) a estudar doenças granulomatosas do intestino. Esses investigadores iniciaram um projeto para descrever e categorizar espécimes intestinais de tumores e estenoses. Como algumas delas não apresentavam nenhum padrão sintomatológico prévio, esses pesquisadores apresentaram seus resultados ao Dr. Burrill B. Crohn, que já tinha colaborado previamente com Dr. Berg em outras pesquisas. Realmente, foi Dr. Berg quem estimulou Crohn, Ginzburg e Oppenheimer a agrupar suas experiências e séries de casos a fim de atingir amostra significativa de pacientes, e assim desenvolver uma publicação final em um grande estudo 4, 8.

Crohn escreveu uma carta à American Gastroenterological Association - AGA com o seguinte texto: "Eu tenho uma importante contribuição científica que gostaria de apresentar antes do evento da associação no próximo mês de maio. Eu creio que descobri uma nova doença intestinal, que denominei ileite terminal. Eu deveria apresentar os fatos antes do evento em um resumo separado. Agradeço muito a gentileza..." 8.

Depois de Crohn ter adicionado algumas ideias interessantes ao manuscrito, Ginzburg apresentou um trabalho à AGA denominado "Non-specific Granulomata of the Intestine," em 2 de maio de 1932 na cidade de Atlantic City. Logo depois disso, ele documentou 14 casos em um trabalho entitulado "Terminal Ileitis: A new clinical entity" à Secção de Gastroenterologia do 83º American Medical Association Meeting, em 13 de maio de 1932. Como o Dr. Berg se recusou a ser incluído como primeiro autor (na verdade ele solicitou que seu nome não fosse citado no trabalho), Crohn, Ginzburg e Oppenheimer publicaram seu manuscrito seminal no JAMA, e o nome da doença foi modificada para "Regional Ileitis: A Pathologic and Chronic Entity" 2, 6.

Crohn acreditava que a doença estava confinada à parte distal do intestino delgado, mas o termo enterite regional era preferido em vez de ileite terminal, a fim de evitar confusão com a palavra terminal, que se associa a agonia e morte. Essa sugestão foi feita por J. Arnold Burger, e foi prontamente aceita pelos autores8. Assim, "Doença de Crohn" tornou-se o nome pelo qual ileite terminal ou regional era comumente conhecida, porque ele era responsável pela apresentação à audiência e porque seu nome era o primeiro em ordem alfabética na publicação.

Em suas apresentações e artigos, Burrill Crohn nunca denominou a doença com seu sobrenome, sempre preferindo o termo ileite regional. Ele também era relutante em aceitar o acometimento colônico pela mesma afecção, colocando-se contra uma resolução oficial durante a Conferência de Praga segundo a qual a ileite regional deveria ser designada Doença de Crohn. Apesar disso, sua objeção foi negada, e ele escreveu sobre isso: "Clínicos britânicos insistem em chamar esta nova afecção de Doença de Crohn do cólon, apesar de minha relutância em usar meu nome para uma segunda doença. Eles explicam e insistem que o uso de meu nome significa claramente, para os seus estudantes, a natureza patológica da doença como associada à ileite regional, ou seja, um processo granulomatoso"3. Crohn realmente acreditava que pacientes com ileite regional algumas vezes tendiam a ter inflamação concomitante do cólon, e pensava que a colite ulcerativa poderia ocorrer simultaneamente com ileite regional.

A história conta que manifestações de uma suposta Doença de Crohn foi reportada no ano 850 A.D. quando o Rei Alfred ("o querido da Inglaterra") sofria com uma anomalia que causava dor ao se alimentar e fístulas perianais. Naquela época, a doença era considerada como uma punição pelos pecados do Rei. Entretanto, pode-se admitir, retrospectivamente, que essa condição provavelmente era Doença de Crohn1. De fato, uma das primeiras descrições de ileite regional é atribuída ao médico italiano Giovanni Battista Morgagni de Padova em 1761, que era anatomista e patologista. No Reino Unido, Coombe e Saunders descreveram em 1813 uma "estenose singular com espessamento do íleo", enquanto o grande patologista Rudolph Virschow, em Berlin, tinha claramente visto essa condição em 1853, tendo descrito um "tumor inflamatório fibroso do colon" 1.

Mais ainda, T. Kennedy Dalziel descreveu 13 doentes que sofriam de obstrução intestinal no British Medical Journal em 1913. Esses pacientes apresentavam intestino inflamado com envolvimento transmural. Esse é considerado o mais completo relato de Doenca de Crohn antes do manuscrito do Mount Sinai em 1932. No mesmo contexto, o famoso chefe de Leeds, Lord Berkeley George Andrew Moynihan, realmente descreveu ileite não-específica em 1907, de acordo com Marvin Corman4. Este autor escreveu que, "sem denegrir o trabalho de Crohn e seus colegas, podemos imaginar se esta condição deveria ser conhecida como Doença de Moynihan".

Ainda assim, o trabalho essencial que levou ao reconhecimento da doença foi o clássico manuscrito de 1932, no qual Crohn e seus colegas colocaram em destaque essa entidade clínica e patológica7. Por outro lado, os autores enfatizaram que casos prévios tinham sido diagnosticados como tuberculose intestinal. Realmente, seu amigo britânico Brian Brooke, um conhecido cirurgião de Londres, utilizou o termo "Doença de Crohn" em seus editoriais na revista Lancet, ajudando a disseminar o famoso epônimo8. Mas ficou claro em muitos desses trabalhos que Crohn nunca se sentiu confortável com essa denominação da doença.

Durante sua longa vida, Burril B. Crohn recebeu numerosas homenagens. Em 1932, foi eleito Presidente da AGA. Foi também honrado com a Medalha Townsend Harris pelo City College (em 1948), com a Medalha Julius Friendenthal pela AGA (em 1953) e com a Medalha Jacobi pelo Hospital Mount Sinai (em 1962)3. Além disso, foi autor de quatro livros e mais de 150 artigos. Dentre essas inúmeras publicações, ele fez sua própria biografia em 1927 3, 8.

Como um respeitado gastroenterologista, Crohn atendeu durante sua carreira numerosos pacientes de todos os estados dos EUA, assim como de outros países. Praticou medicina até seus 90 anos de idade. Após sua aposentadoria, viveu em Nova Iorque com sua segunda esposa Rose Blumenthal Elbogen, que conhecera em New Milford, Connecticut, e com quem se casou em 19488.

Crohn era particularmente interessado na História da Guerra Civil Americana. Era um homem de fala tranquila, modesto e universalmente admirado que realmente merece ser sempre relembrado. Sabia como ser um cientista sem se esquecer do lado humano da prática médica. No centésimo aniversário de sua vida reconhecidamente produtiva, colegas, parentes, pacientes, amigos e familiares do Dr. Crohn sugeriram a criação de uma fundação para pesquisa da doença. Dessa forma, estabeleceu-se, em sua memória, a Burrill B. Crohn Research Foundation no Hospital Mount Sinai.

Crohn morreu em Connecticut aos 99 anos em 29 de Julho de 1983. Como sua morte completa três décadas em 2013, o ABCD e nós próprios decidimos desenvolver esse texto em honra de sua memória para relembrar suas grandes contribuições ao estudo das DII. Ao fazer isso, esperamos que os médicos jovens e pesquisadores que trabalham na área de gastroenterologia e cirurgia colorretal conheçam um pouco mais sobre o homem por trás da doença, assim como de sua impressionante dedicação ao desenvolvimento e avanços das afecções digestivas.

 

REFERÊNCIAS

1. Aufses Jr A: The history of Crohn's disease. Surg Clin North America 2001;81(1):1-11.         [ Links ]

2. Baron JH: Inflammatory bowel disease up to 1932. Mt Sinai J Med. 2000;67(3):174-89.         [ Links ]

3. Burrill B. Crohn (1884-1983): Available in: http://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Burrill_Bernard_Crohn&oldid=522862953        [ Links ]

4. Corman ML: Traditions, trials, and treatises. Dis Colon Rectum 1999;42(9):1130-1135.         [ Links ]

5. Crohn BB: Notes on the evolution of a medical specialist 1907-1965, pp 80. Burrill B. Crohn Research Foundation Inc. Division of Gastroenterology, The Mount Sinai Medical Center, NewYork, 1984, NY10029.         [ Links ]

6. Crohn BB, Ginzburg L, Oppenheimer GD: Regional ileitis: a pathologic and clinical entity. JAMA 1932;99:1323-9.         [ Links ]

7. Ellis H: Burrill Bernard Crohn. Journal of Perioperative Practice 2012:22(6),207. ISSN 1467-1026.         [ Links ]

8. Janowitz HD: Burril B. Crohn (1884-1983): life and work. Falk Foundation, 1st edition (2000). Freiburg, Germany pp 5-22.         [ Links ]

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