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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. v.21 n.61 São Paulo jun. 2006

https://doi.org/10.1590/S0102-69092006000200013 

RESENHAS

 

O legado intelectual de Celso Furtado: uma abordagem multidisciplinar e uma reflexão teórico-econômica sobre a teoria do subdesenvolvimento

 

 

Vera Alves Cepêda

 

 

Carlos MALLORQUIN. Celso Furtado: um retrato intelectual. Rio de Janeiro/São Paulo, Contraponto/Xamã, 2005. 366 páginas.

Inúmeros intelectuais brasileiros reportam a importância da obra de Celso Furtado na sua própria formação. Mais do que a Furtado, estes autores com certeza estão se referindo à grande onda de pensamento sobre o tema do subdesenvolvimento e do impacto que esta exerceu sobre as gerações nos anos de 1960 e 1970, em grande parte devido à relevância que o tema assumiu para se pensar o futuro da sociedade brasileira e da esmagadora maioria das nações do mundo no pós-guerra. Curiosamente a teoria do desenvolvimento problemático e tardio das economias definidas como subdesenvolvidas foi capaz de sintetizar, de maneira ímpar e inigualável, uma série de crises que finalizavam um momento da economia e das relações políticas mundiais e que foram caracterizadas, na primeira metade do século XX, pelas críticas às teorias e aos axiomas do liberalismo econômico. Por extensão lógica, esta recusa acabou por produzir uma mudança de leitura sobre as relações mundiais de divisão do trabalho, as causas do progresso econômico e do arranjo desejável entre sociedade, mercado e Estado e sobre a própria avaliação da evolução do processo histórico. Pelo conjunto e alcance geral dos temas ancorados na nova arquitetura intelectiva da teoria do subdesenvolvimento percebe-se que ela ultrapassou em muito os limites da teoria econômica, ramificando-se por entre a política, a história e pelo tema da mudança social. Não é à toa que foi capaz de, em seu tempo, canalizar e orientar a reflexão de um amplo leque de intelectuais, bem como, distante mais de meio século de sua produção original, continuar a justificar-se como material de análise e reflexão.

Celso Furtado: um retrato intelectual é um profícuo exemplo dos aspectos relevantes legados pela teoria do subdesenvolvimento, tomando como tema de análise a vasta produção intelectual de Furtado e sua correlação com o pensamento cepalino. Do trabalho de Mallorquin gostaria de destacar dois aspectos que me despertaram especial atenção: o primeiro é o tratamento e o enfoque adotados pelo autor, procurando estabelecer os laços entre o pensamento furtadiano e seu tempo histórico; o segundo é a análise densa e profunda das características intrínsecas à própria teoria proposta por Furtado. A articulação entre esses dois aspectos (dimensão tempo e dimensão estrutura lógico-conceitual) permite uma visão geral da obra e do papel que ela representa para os dilemas teóricos e políticos do período em que foi engendrada, ao mesmo tempo em que analisa a capacidade de sustentar-se na qualidade de uma particular tese explicativa. É a combinação entre esses dois "métodos" que organiza a multiplicidade dos aspectos trabalhados e também determina o próprio ritmo da análise apresentada.

O livro de Mallorquin é raro pela extensão proposta. O autor não se contenta com o tratamento de uma obra ou fase particular do pensamento furtadiano; ao contrário, faz um esforço de abarcar o conjunto da reflexão de Furtado em toda a sua vasta produção, partindo dos textos originais da década de 1950 até suas últimas contribuições sobre o cenário da globalização. Este recorte extensivo demonstra um enorme esforço e diligência, responsáveis por transformar o resultado final do trabalho em um texto obrigatório para aqueles que se debruçam sobre Furtado ou sobre a teoria do subdesenvolvimento. Chamo a atenção para o fato de que Mallorquin foi capaz de produzir um estudo que abrangeu mais de meio século de produção teórica, sobre uma obra intelectual complexa, acrescido do esforço de contextualização e responsividade ao ambiente histórico circundante. A massa de reflexões que Mallorquin aponta e coordena em sua análise produz um poderoso retrato dos dilemas teóricos e políticos fundamentais para a ocidentalização e o boom da industrialização posterior aos anos de 1950, e que passavam pela influência da matriz keynesiana, pela defesa do ferramental do planejamento e pela descoberta da pobreza dos países periféricos. Assim, no livro opera-se um diálogo multideterminado: ao dissecar a produção de Furtado, sob o impacto dos novos ares intelectuais que perfaziam o horizonte da economia política no período circundante ao final da Segunda Guerra Mundial (da crítica marxista à revolução keynesiana e ao fordismo; da função estratégica e civilizadora do planejamento em Mannheim e Myrdal; da leitura inovadora do problema do desenvolvimento econômico e de suas etapas em Nurske e depois Rostow; das revolucionárias concepções sobre o lugar dos países de herança mercantil exportadora nas teses de Roberto Simonsen, Prebisch e dos demais cepalinos), descortina toda a mudança que se produz mundialmente nessa área e que implica numa outra leitura sobre o telos e o motor do modelo de civilização industrial, utilizando como locus a recepção e o tratamento particularmente dado por um dos maiores expoentes do estruturalismo latino-americano.

Mallorquin reconhece a importância da obra de Furtado sem ceder ao seu endeusamento. O pensamento furtadiano é analisado sob a perspectiva de diálogo com o tema da formação econômica do Brasil, relacionando-o com o complexo teórico aberto por Prebisch e depois avançado pela produção dos cepalinos. Neste aspecto, o autor, ao procurar as influências e os anteparos que balizaram as teses de Furtado, acaba por fazer um balanço que versa sobre a originalidade e também os pontos fortes e fracos de sua obra – fato que não desmerece o talento e a contribuição furtadiana, nem infere uma antecedência ou primazia de outros autores e correntes, mas que problematiza o alcance e a fundamentação do estruturalismo na versão de Celso Furtado.

O desvelamento das interfaces encontradas por Mallorquin na obra de Furtado destaca um ponto importante, a saber, a capacidade de explicação a partir de uma abordagem sociológica e histórica (daí a ênfase inicial aos aspectos mais próximos ao ambiente temático da economia política e, mais radicalmente, de uma teoria da mudança social como corolário da teoria econômica – em seus postulados gerais ou aplicada ao caso brasileiro). Outro desdobramento é uma certa arqueologia conceitual que, ao tratar a geração e a evolução das idéias furtadianas, passa por uma sensibilidade que resgata os próprios movimentos de constituição e cinzelamento dos argumentos no interior da perspectiva analítica e na obra de Furtado – fato louvável na medida em que respeita o andamento e os impasses que foram construindo um discurso completo (tese) a partir da definição de um léxico, de uma gramática e da adoção de um estilo teórico –, o que, em síntese, é base de construção de todo o edifício lapidar das teorias. Louvável, também, por permitir a compreensão dinâmica pela qual passam, se constituem e se transformam os complexos teóricos ao sabor de uma evolução de princípios e balizas conceituais e do contato destas com a realidade.

Um último destaque sobre a obra de Mallorquin é uma breve descrição dos focos temáticos que o leitor encontrará no livro e que podem ser reunidos em três grupos. No primeiro (capítulos 1, 2 e 3), o autor analisa o ambiente intelectual, geopolítico, econômico e da ciência econômica (mundial e nacional) que Celso Furtado encontra ao iniciar sua formação e sua trajetória no mundo acadêmico e do qual, com certeza, herda paradigmas ao mesmo tempo em que rompe com outros (este cenário também monta a agenda dos temas e das questões que servirão de base para toda a reflexão furtadiana). O segundo grupo temático, reunindo quarto, quinto, sexto e sétimo capítulos, abarca uma investigação profunda da estrutura teórica da tese do subdesenvolvimento (e na sua outra face, uma tese sobre o desenvolvimento econômico), partindo da leitura mais intrínseca e árdua do jargão econômico stricto sensu até sua relação com as questões sociais e políticas. Neste momento, destaca-se o impacto político do pensamento furtadiano, e Mallorquin aponta a ação de Furtado diante de espaços e instituições públicas, bem como o papel assumido por suas teorias em face da intelligentsia e do debate intelectual e político sobre o dilema do progresso das nações caudatárias do progresso industrial. O último tema e capítulo do livro, denominado "O retorno do ex-profeta", baliza as contribuições contemporâneas de Furtado para o cenário da economia global e da finalização da industrialização – com novos temas e novos dilemas. Segundo a perspectiva apresentada por Mallorquin, logo na introdução, este movimento analítico está amarrado e condicionado por quatro temas-chave, a partir dos quais a obra de Furtado é analisada: "história da idéias", "o intelectual e o político", "o estruturalismo de Furtado" e "perspectivas do estruturalismo". O resultado é retomar e reavaliar a contribuição da produção de um intelectual que foi capaz de romper as fronteiras estreitas de uma análise econômica meramente descritiva (retomando também o vigor e a capacidade diretiva da economia política contemporânea), de importância inegável para o período nodal da industrialização e da construção dos projetos de modernidade para o Brasil e nações em situação correlata, apropriando-se dos elementos ainda vitais sem ceder ao anacronismo e ao apelo demagógico de um endeusamento fácil.

 

 

Vera Alves Cepêda é doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo e professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos.

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