SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.21 número61O legado intelectual de Celso Furtado: uma abordagem multidisciplinar e uma reflexão teórico-econômica sobre a teoria do subdesenvolvimentoDiálogo de gerações índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. v.21 n.61 São Paulo jun. 2006

https://doi.org/10.1590/S0102-69092006000200014 

RESENHAS

 

O historiador e seu ofício: oportunas lições

 

 

Wilma Peres Costa

 

 

Fernando Novais. Aproximações: estudos de história e historiografia. São Paulo, CosacNaify, 2005, 440 páginas.

Todos aqueles que tiveram o privilégio de ser alunos do professor Fernando Novais ouviram-no alguma vez discorrer, com a verve que lhe é peculiar, sobre a significação da palavra "clássico": o adjetivo, costuma dizer ele, aplica-se àquelas obras que se tornaram parte de um corpus no interior de um processo de ensino, algo que é tão significativo e exemplar que é selecionado para ser examinado "em classe". Os livros que se estudam "em classe" são assim definidos por que é através deles que aprendemos a pensar. Entendido dessa forma, o estudo "dos clássicos" não é contraditório com a produção de um pensamento original, mas é a sua própria condição. Assim pensava também Florestan Fernandes, quando se opunha a qualquer simplificação dos estudos sociológicos, defendendo o plantio das melhores cepas do pensamento universitário europeu e norte-americano em nosso ainda virgem solo acadêmico. A qualificação de "clássico" tem sido reiteradamente aplicada ao principal trabalho do próprio Fernando Novais – Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1979) – e nos ocorre espontaneamente quando procuramos um enquadramento adequado para um breve comentário do seu novo livro Aproximações: estudos de historia e historiografia. Acredito que isso ocorra porque a "classe" – vista aqui em seu sentido lato, como lugar simbólico onde ele vem exercendo apaixonadamente a sua vocação há mais de quarenta anos – seja também o campo fecundo para compreender a emergência desse livro.

Fernando Novais tem publicado pouco, para os padrões do "produtivismo" acadêmico que nos assola nos últimos tempos, nem sempre em benefício da qualidade dos livros e das teses. Ele afirma sempre, na sua forma meio marota, que "gosta mais de ler do que de escrever". Por outro lado, ao longo dos anos, ele tem sido o mais generoso dos professores, espargindo, dentro e fora da sala de aula, sua enorme erudição. Dela tem se beneficiado não apenas seus próprios alunos e orientandos, mas também um número incontável de jovens pesquisadores que o procuram para discutir projetos, para submeter um artigo ou uma tese à sua leitura crítica ou ainda simplesmente para desfrutar de sua conversação e de seu senso de humor incomparáveis.

Aproximações – título modesto, mas significativo da visão historiográfica do autor, para quem não existem interpretações definitivas em história – está dividido em três partes. A primeira, contendo dezesseis artigos, escritos em diferentes épocas de seu labor acadêmico, foi denominada "História"; a segunda, reunindo ensaios curtos e prefácios sobre trabalhos de historiadores relevantes do passado e da atualidade, chamou-se apropriadamente "Historiografia" e uma "Entrevista", editada a partir de cinco entrevistas recentemente concedidas por Fernando Novais, encerra o volume, que contém também uma bibliografia completa do autor. Produto de uma carinhosa recopilação por parte de seus antigos orientandos, o volume é um presente dos alunos ao professor (e ao público), transpirando o culto pela arte de ensinar que impregna todo o grupo. Uma parte significativa dos artigos que compõem a primeira seção guarda, por um lado, este sentido de homenagem e celebração por meio da reedição de textos que foram objeto de leitura e discussão em momentos importantes do trabalho comum; por outro, busca generosamente dividir com um público mais amplo trabalhos de difícil (ou impossível) acesso. É o caso, por exemplo, de "Colonização e desenvolvimento econômico", "Colonização e Sistema Colonial: discussão de conceitos e perspectiva histórica" e "O Brasil nos quadros do Antigo Sistema Colonial", todos eles escritos bem antes da tese (defendida em 1972 e publicada em livro em 1979), e que nos permitem reconstituir elos fundamentais de seu percurso intelectual e revelar a força de suas interlocuções originárias – a economia política e a sociologia. Obras importantes para os que pretendem estudar a formação do pensamento do mestre, portanto.

Ao seu lado, ainda na primeira parte, temos um conjunto precioso de textos em que o mestre fala diretamente aos alunos, no exercício virtuoso do ofício. Destaco principalmente os estudos de análise direta de documentos, como "A proibição das manufaturas no Brasil e a política econômica portuguesa do fim do século XVIII", "Notas para o estudo do Brasil no comércio internacional no fim do século XVIII e início do século XIX (1796-1808)", "O ‘Brasil’ de Hans Staden" e "A ‘certidão de nascimento ou de batismo’ do Brasil", em que se trata de mostrar que o trabalho meticuloso do analista pode "fazer falar" o documento, seja ele um alvará, uma carta ao rei, as balanças do comércio colonial, seja um relato de viagem. São artigos em que reponta essa forma elegante do "fazer mostrando como é que se faz", relevando a importância do saber teórico e conceitual que permite inserir o documento dentro de seu léxico próprio e da erudição histórica que possibilita desenhar seu contexto compreensivo. No mesmo espírito, sublinharia também o trecho da entrevista que forma a terceira parte, em que Fernando Novais descreve o "encontro/aula" com Fernand Braudel em Paris, em 1965. Ali todas as questões fundamentais de uma tese acadêmica são tratadas: a relevância do objeto, a periodização, o corpus documental, a relação entre curta, média e longa duração. Além desses pontos em que o ensino aparece dessa forma mais explícita, o sentimento generoso dessa cadeia do saber perpassa também os conteúdos dos numerosos prefácios, nos quais se reconhece os mestres (Capistrano de Abreu, Henri Pirenne, Caio Prado Jr., Alice Canabrava, Sergio Buarque de Hollanda), um "mestre" (Eduardo França) especial e um especial "aluno" (István Jancsò).

Vistos em seu conjunto, os artigos mostram os principais campos de interesse e as sinergias que têm convivido no trabalho desse grande historiador ao longo dos anos, em seu permanente interrogar da questão da identidade brasileira, que o fez se debruçar, nos últimos anos, sobre os temas mais diversos, da história econômica à história cultural, passando pela historiografia, explorando o fecundo território que o marxismo propiciou para o diálogo das ciências sociais, entre aqueles que souberam incorporá-lo de forma não dogmática. Por outro lado, ressaltam seu reiterado combate contra uma forma de fazer história que pode recair em uma "biografia" da nação, como se esta estivesse desde sempre contida nos movimentos contraditórios da economia do mundo que formataram o Sistema Colonial.

A forma criativa da edição da "Entrevista", compondo manifestações recentes de Fernando Novais sobre diversos temas da historiografia brasileira e sobre questionamentos que têm sido feitos por outros historiadores às suas teses, apresenta indicações preciosas para a compreensão de alguns dos principais debates da historiografia contemporânea, marcando com nitidez a posição do autor tanto no interior da "Escola da USP", como com aqueles que ele chama carinhosamente "os colegas do Rio de Janeiro". No primeiro caso, a entrevista permite que o autor esclareça as razões de sua ênfase nas descontinuidades e nas rupturas, na visão da Independência e da construção do Estado Nacional, por oposição à interpretação desenvolvida pela grande historiadora Maria Odila da Silva Dias, no também clássico A interiorização da metrópole, recentemente reeditado. No segundo caso, em uma discussão que se centrou principalmente na questão da "acumulação interna" de capital no interior do sistema colonial, a entrevista permite compreender por que, embora apreciando significativamente a contribuição dos historiadores cariocas, Fernando Novais insiste na idéia de que sublinhar a natureza extrovertida do sistema não implica em negar a existência da acumulação interna (sem a qual a própria ruptura seria impensável), mas privilegiar uma ênfase heurística a qual se vincula à sua visão do colonialismo como um sistema integrante do processo mais amplo de formação do capitalismo.

Embora escritos ao longo de diferentes momentos da sua carreira acadêmica e da própria trajetória histórica brasileira, este bem-vindo conjunto de ensaios apresenta também uma desafiadora e inquietante atualidade, em aspectos que é indispensável assinalar aos leitores, sobretudo neste comentário para a Revista Brasileira de Ciências Sociais.

O primeiro desses aspectos é o modo pelo qual este livro reintroduz a questão da relação entre a história e as demais ciências sociais, ao dizer que a disciplina histórica não tem conceitos que lhe sejam próprios – seus conceitos são os das ciências sociais. A marca distintiva da história como disciplina, portanto, não é um corpo teórico, mas o compromisso com a sua matéria: a temporalidade. O autor mostra isso por meio de estudos em que transparecem, ao lado do rigor e da disciplina do historiador, cioso de seu ofício, o diálogo permanente com as demais áreas das ciências humanas, em particular, a economia política e a sociologia. Com intensidade muito maior do que revelam as citações, estão aqui presentes não-historiadores, como Celso Furtado, Florestan Fernandes, Imannuel Wallerstein e Charles Tilly, para reter apenas aqueles mais freqüentes nas aulas e nos seminários de Fernando Novais.

O segundo aspecto é talvez o maior legado que este pensador tem nos transmitido e que tem inspirado um conjunto crescente de novos estudos: é preciso estudar as crises e refletir a partir delas, não apenas por que elas são momentos estratégicos para se pensar os grandes sistemas na plena operação de seus mecanismos e de seus limites, como o seu livro "clássico" nos ensinou. As crises são importantes, e mesmo fundamentais, principalmente porque são fecundas para o pensamento humano: elas acicatam os homens, relembram limites, forçam ultrapassagens. Este é o grande ensinamento deste livro, nascido "em classe", para ser usado "em classe" e fora dela, enquanto aguardamos novos trabalhos do professor Novais.

 

 

O arquivo disponível sofreu correções conforme ERRATA publicada no Volume 21 Número 62 da revista.
Wilma Peres Costa é doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo e professora titular em História Econômica do Departamento de Política e História Econômica do Instituto de Economia da Unicamp.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons