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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. v.21 n.61 São Paulo jun. 2006

https://doi.org/10.1590/S0102-69092006000200016 

RESENHAS

 

A pesquisa como orquestra de sentidos

 

 

Irlys Alencar F. Barreira

 

 

José de Souza Martins; Cornélia Eckert e Sylvia Caiuby Novaes (orgs.). O imaginário e o poético nas ciências sociais. Bauru, SP, Edusc, 2005. 315 páginas.

O apelo à criatividade e à imaginação, como fontes perenes do saber, constitui o recorte fundamental do conjunto de textos que dá a esta coletânea a unidade da experimentação e da ousadia, sem a renúncia ao rigor.

Como sugere o próprio título da obra, a travessia dada pelo sentido poético de apreensão da vida social supera caminhos prévios, costumeiramente adstritos a rubricas metodológicas convencionais, embora não abdique das experiências sociológica e antropológica acumuladas. Trata-se de textos resultantes de pesquisas, todas elas preocupadas com o aprimoramento dos métodos de investigação no trato de questões marcadas por diferentes formas de representação da vida social. O filme, a pintura, as narrativas e a música servem de pontes de compreensão dessa fronteira difusa que se interpõe entre realidade e imaginário.

Uma apresentação sucinta dos textos, na ordem segundo a qual estão dispostos na coletânea, conduz o leitor ao percurso teórico-metodológico feito pelos autores.

Peter Burke dirige sua atenção para o imaginário da pintura no século XIX, verificando a incidência da temática de registros que assumem o papel da narrativa historiográfica. A representação épica, a trágica, a crítica, o estilo anedotal e a alegoria confirmam o poder da imagem como forma de evocar o passado, muitas vezes recuperado sob nova luz. No México, por exemplo, a pintura remete ao tempo glorioso, anterior à conquista espanhola, contribuindo para a construção de um ideal de nação.

Considerando a importância da imagem na vida social, embora mais preocupado com as dimensões epistemológicas da questão, o texto de Ulpiano T. Bezerra de Menezes analisa a visualidade como uma dimensão possível de ser explorada, em qualquer dos segmentos correntes da história, incluindo a semiótica. O autor incursiona também pelas matrizes de percepção da imagem nas ciências sociais, abordando os temas da visibilidade e da invisibilidade, presentes nos estudos sobre o poder, a ideologia, as mentalidades e o imaginário. A natureza escópica da sociedade, cuja maior expressão encontra-se na Grécia, convoca a permanente associação entre imagens e representações simbólicas vigentes em diferentes temporalidades.

A complexidade da expressão visual estende-se também ao registro do filme documentário. O artigo de João Moreira Salles apresenta sentidos subjacentes a essa forma de produção, sobre a qual questões de fundo emergem: o que é um documentário? Encenações para a câmara são permitidas? O que é o real? Devemos ter compromisso com a verdade? O documentário traz implícita a idéia de um contrato, entre realizador e expectador, sobre a apresentação do mundo histórico. Mais que o uso de estratégias narrativas, o que faz um filme ser documentário é a maneira como olhamos para ele. Na fórmula tradicional do documentário, "Eu falo sobre você para eles" emergem os usos políticos ou educacionais implícitos.

O poder simbólico do filme documentário é também considerado no texto de Paulo Menezes, sob o prisma das dimensões arbitrárias presentes na escolha e na seleção de imagens. Dois filmes pioneiros dão suporte ao argumento, Nanook of the North (Flaherty) e Ao redor do Brasil (Major Thomaz Reis), ambos voltados para compreender a forma como a noção de "outro" foi concebida na apresentação de povos de culturas diferentes. O filme Nanook, sobre os povos australianos, apresenta a idéia de raça brava, amável e simples em oposição à chamada cultura civilizada. O Nanook, distante da civilização, conota a infância da cultura e a pureza perdida. O filme de Major Reis retoma a idéia de civilização como estatuto da narrativa. Os índios, retratados como seres estranhos que devem ser classificados e catalogados como próximos à natureza, são transformados em "outros" subalternos, incapazes de entender o universo do trabalho. Carajás e Nhambiquara são postos em uma escala diferencial, em face do grau de civilização. Em tal contexto, destaca-se a representação de uma sociedade homogênea, congelada no tempo e isenta de conflitos. Todas essas constatações convergem para percepção das dificuldades do documentário, sempre apresentado como reprodução da realidade.

Saindo da temática das representações e compondo um outro plano abrangente de reflexão, Etienne Samain apresenta a obra plurivalente de Bateson. Na condição de biólogo e antropólogo, o pesquisador indagava-se sobre a estrutura que une todos os seres vivos. No âmbito das ciências sociais, preocupava-se com as relações entre indivíduo e sociedade, com os processos culturais e a trama do mundo vivo mais amplo – o ecossistema. Ao dirigir a reflexão para o rumo da transdisciplinaridade, Bateson procurava as leis em ação que deveriam estar tanto no cristal como na forma de funcionamento da vida social. Como antropólogo, buscava compreender o modo como uma criança nascida em Bali tornava-se balinesa, dando significativa importância aos gestos e rituais. Aprofundando seus conhecimentos sobre a teoria da comunicação, o estudioso desenvolveu conceitos fundamentais da cibernética, contribuindo para instalar as bases de uma articulação entre diferentes áreas do conhecimento: psicanálise, educação, psicologia etc. Os destaques da obra do autor estão apresentados no artigo de Etienne Samain, indissociados da vida pessoal do investigador, compondo um universo totalizante de sensibilidade, curiosidade, inovação e culto à ciência.

Carlos Rodrigues Brandão retoma o tema da visualidade, fazendo uma retrospectiva da presença sutil ou explícita da imagem fotográfica em seus próprios registros de pesquisa. Não obstante o lugar permanente da imagem na antropologia – "de onde quer que se parta, sempre em algum momento se deve chegar ao rosto" –, seu uso pelo autor foi variável ao longo do tempo. Inicialmente e de forma pioneira, o pesquisador seguia sua acuidade visual como atividade alternativa e paralela. Aos poucos, firmou-se a experiência de uma antropoética, capaz de equilibrar a palavra e a imagem. Rostos solitários, faces, crianças e jovens já indicavam, nos registros de pesquisa, a importância da imagem como fonte de conhecimento. O negro, por exemplo, aparecia como corpo em movimento, em vez de um rosto. Posteriormente, o olhar do pesquisador voltou-se para a solidão dos rostos – "o lugar mais belo e misterioso disto a que damos o nome de cultura". Pensando as fotos para além da ilustração, Brandão invoca a possibilidade de "gerar trabalhos de uma antropologia do devaneio, equilibrando beleza, sensibilidade e sentimento".

A sensibilidade no uso da imagem como forma de investigação encontra-se explicitada no artigo de Fraya Frehse, que aborda de maneira original as potencialidades exploratórias da fotografia de rua. Privilegiando o foco das interações sociais, a autora toma por elemento de observação as fotografias de Militão Augusto de Azevedo, os cartões postais do final do século XIX e início do século XX, produzidos por Guilherme Gaensly e as fotografias de Vincenzo Pastore, situadas entre a segunda metade da década de 1900 e a primeira de 1910. A pergunta de fundo, dirigida a esse conjunto de imagens, era a seguinte: a quem cada um desses fotógrafos deu destaque durante o encontro físico do qual sua fotografia é testemunho? As imagens, vistas como testemunhos da deferência do fotógrafo em relação àqueles que destacou em primeiro plano, colaboram para transformar a fotografia em documento de transmissão simbólica. Destaca-se, nesse contexto, uma certa atenção do fotógrafo em relação a determinados indivíduos e raças: negros, mulheres e crianças. Se os fotógrafos, Gaensly e Militão Azevedo, privilegiaram planos médios e abertos em relação ao centro da cidade, desconsiderando a presença de negros e mulheres, Pastore, ao contrário, introduz essas categorias em suas incursões cenográficas. A "imaginação fotográfica" dos autores revela a potencialidade das análises sobre fotografias de rua, marcando a relação entre deferência fotográfica e deferência social.

Priorizando o olhar sobre as narrativas, Julie Cavignac concentra sua análise em histórias cotidianas de moradores do Rio Grande do Norte. A pesquisa, realizada em pequenos lugarejos, volta-se para compreender a dimensão identitária de povos indígenas, revelada em narrativas do passado. Na paisagem natural, por exemplo, as lagoas evocam o tema do encantamento, manifestando um mundo adormecido. Os encantados são, para os índios, seres dotados de poderes sobre a natureza, a vida, a morte, a doença, a prosperidade e a riqueza. O monumento em ruínas, a exemplo da "casa de pedra", situado no município de Nísia Floresta, no litoral sul do Estado, evoca o início mitológico dos tempos. As narrativas apontam dimensões importantes da colonização, contendo alusões a um passado de identidades intercambiáveis que aparecem em lendas e relatos concernentes à história colonial.

Flávio Lionel segue o percurso das narrativas, designadas como antropologia hermenêutica, buscando estabelecer conexões entre memórias épicas e cotidianas das missões, presentes nas paisagens do Noroeste do Rio Grande do Sul. Nesse espaço de significações, aflora uma simbologia de elementos místicos: a terra, a água o fogo e o ar. As regiões missionárias configuram-se também como um conjunto de espaços imagísticos relacionados ao mundo fantástico do assombro (caiporas, saci-pererês, burros sem cabeça), revelando a heterogeneidade cultural da sociedade brasileira.

Abordando as formas menos usuais de comunicação, baseadas no olhar e na fala, o texto de Rose Satiko Gitirana Hikiji explora as possibilidades de audição da vida social. À tradição de visualidade, tão presente no léxico antropológico (visão, ponto de vista, observação e ótica), deveria agregar-se o som como forma de apreender a vida social. Uma nova forma de percepção antropológica poderia "adentratos expressivos, deixando-os contaminarem os modos de pensamentos discursivo" (p. 281), tal como pontuou Lévi-Strauss em suas pesquisas. Na esteira do antropólogo estudioso dos mitos, a autora mobiliza sua experiência no lidar com a expressão dramática da narrativa presente em gestos, falas e pausas característicos do teatro épico. Como parte de um processo de descrição densa, os trabalhos com as imagens, tal qual foi desenvolvido pela autora, na pesquisa entre os internos da Febem, viabilizam um novo olhar e "ouvir" do objeto pesquisado.

Com base no pensamento de Pierre Nora sobre a temática da memória e do desenraizamento, o texto de Maria Aparecida Morais Filho examina a experiência de trabalhadores assentados, utilizando as oficinas de argila como espaço expressivo de ativação da memória. À medida que os objetos de argila iam sendo produzidos, muitas narrativas orais afloravam, sugeridas por lembranças e formas variadas de evocação ao passado. A prática de pesquisa enquadra-se na tentativa de pensar o processo de reencantamento do mundo entre trabalhadores desenraizados em sua vivência migratória: a memória como depositária da cultura e o silêncio como resistência, em lugar do esquecimento.

Como se pode observar, o conjunto de artigos, a partir de recortes criativos e ensaísticos, gravita em torno de uma sensibilidade estética, redefinindo ou atualizando campos de análise nas ciências sociais. As metodologias inusitadas de percepção da vida social são evocadas por autores que se encontraram, na reunião anual da Anpocs, com objetivo de trocar idéias sobre a dimensão poética das ciências humanas.

Alguns pontos comuns entre os textos merecem ser destacados. Em primeiro lugar, o caráter interdisciplinar dos temas, abrangendo os campos de conhecimento da história, da antropologia, da sociologia e da semiótica. A presença da imagem, por exemplo, que percorre diferentes abordagens, traz o desafio de incorporar, às reflexões, o horizonte polissêmico das representações sociais. A não-literalidade presente nos desafios e nos obstáculos do registro documental, como bem comprovam os textos, supera as antinomias do falso e do verdadeiro que tanto influenciaram discussões nas ciências sociais. Ao mesmo tempo, coloca em pauta as conexões entre imaginário e ideologia, sendo esta percebida não como o oposto da ciência, mas a forma de ser característica de modos peculiares de olhar o social (Geertz).

As reflexões sobre os silêncios e os detalhes da comunicação, menos convencionais do que o conhecimento marcado pela objetividade, fazem lembrar as reflexões do historiador italiano Carlo Ginzburg acerca de formas indiciárias de apreensão da vida social. Relegadas ao plano do não-científico, as análises microscópicas, baseadas na intuição, foram, ao longo do tempo, sendo substituídas por modelos considerados racionais e científicos.

Os textos da coletânea podem ser considerados espécies de retorno ao paradigma indiciário, contendo atualizações dessa forma de abordagem à luz de outras práticas de pesquisa: as imagens exploradas não como ilustração, mas dotadas de uma narrativa que produz a interface entre o científico e o estético. Narrativa que se faz, em consonância com critérios científicos, não baseados na lógica de investigação positivista, encontrando parentesco com a densidade, com as dissonâncias e as opacidades que tornam o tecido social digno de curiosidade e decifração.

Uma crítica sutil à separação entre o sujeito e o objeto da investigação emerge do conjunto dos textos. Essa é uma das questões já pontuadas pelos organizadores da coletânea quando, durante a apresentação, enfatizam o renascimento das idéias e dos horizontes perdidos, em substituição à crise da retórica na escrita científica – a vida efusiva em luta contra o apaziguamento do conceito.

Nas fotografias, é possível reconhecer indícios de variáveis socioculturais; nas narrativas populares, a presença da história oficial denegada; nas músicas, outras formas possíveis do dizer e do pensar. Os sentidos dessa orquestração poética, que a coletânea pretende invocar, estão bem ilustrados na imagem presente na capa do livro. O concerto de flauta de Frederico, o grande, pintado por Manzel, diz muito dessa orquestração teatral e orgânica que envolve a lógica sinuosa e polifônica da investigação.

O caráter instigante e provocador dos textos suscita algumas questões. O desafio, para os autores, é o da incorporação de experiências acumuladas para além do dualismo, freqüentemente posto nas ciências sociais, entre objetividade e subjetividade, entre ciência e sensibilidade, criação e teoria.

Retomar os elos perdidos da ciência e da arte, sem perder a especificidade e o encanto de cada um dos olhares, pode contribuir para superação do dualismo. Os diálogos entre ciência e arte são, porém, complexos. Nietzsche já recuperava o sentido da tragédia como afirmação dos paradoxos da vida, em substituição ao olhar racional da ciência. Encantar a ciência sem perder sua dimensão pioneira de desencantamento do mundo (Weber) eis o maior desafio. A esse respeito, a provocação de Bateson sobre o campo das comunicações interdisciplinares convoca o pensar criativo e relacional: a lógica, a metáfora e o imaginário como fontes perenes do conhecimento.

 

 

Irlys Alencar F. Barreira é professora titular do Programa de Pós-graduação em Sociologia, da Universidade Federal do Ceará.

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