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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. v.22 n.63 São Paulo fev. 2007

https://doi.org/10.1590/S0102-69092007000100001 

Eduardo Kugelmas

 

 

Eduardo Kugelmas era um craque. A figura não aparentava. O ar tranqüilo, a relação amistosa com todos os colegas, a capacidade de escutar, ler, entender e analisar o que se produzia, dentro ou fora da academia, escondia um intelectual às antigas e um outro, bem moderno, poderoso crítico.

Seus interesses abrangiam as ciências humanas como um todo. Conhecia como poucos história, literatura, economia, política, cinema, música e até mesmo ficção científica. Mas se destacava, sobretudo, ao se manifestar sobre a conjuntura política contemporânea, quando demonstrava sua sólida e abrangente formação teórica. Dominava de pensadores clássicos a toda gama moderna das várias e controversas metodologias de ensino e pesquisa. Eduardo analisava o mundo, o Brasil, a universidade, sempre com enorme sabedoria.

Sabedoria que aparecia em todos os seus escritos acadêmicos ou em simples conversas e discussões políticas com seus colegas e amigos. Eduardo dava a impressão de não ter perdido nada, que seu aprendizado intelectual teria aproveitado positivamente todas as oportunidades que surgiram em sua atribulada vida acadêmica e política, mesmo nas mais diversas situações.

Saído de uma formação rígida e tradicional, como era a da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, e de uma aberta e rica experiência universitária e política que impulsionava os cursos de ciências sociais da Faculdade de Filosofia na USP do início dos anos de 1960, integrante do pioneiro grupo da então Cadeira de Política, Eduardo soube transformar todas as dificuldades da condição de exilado em uma situação positiva, tanto em seu período chileno (1970-1974) como na sua mais longa estada na França, aonde chegou após o golpe de 1973 no Chile.

No Chile freqüentou a Escolatina da Universidade do Chile, que possuía cursos de pós-graduação orientados pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), onde pensar o Brasil significava pensar a América Latina. Na França, Eduardo aprofundou seus interesses pela história, pela filosofia, pela literatura e pelos temas da época que atingiam o Brasil e América Latina. As idéias de democracia e desenvolvimento eram centrais em todas as discussões. Desenvolveu, assim, o que se tornou sua marca na sua bela tese de doutorado, A difícil hegemonia: São Paulo na Primeira República (defendida em 1986 e que jamais quis publicar por não considerá-la acabada), e em seus trabalhos posteriores: uma necessidade de explicar a conjuntura política e econômica a partir de um conhecimento profundo da história concreta e do desenvolvimento das teorias que conduziram àquele momento. A opinião e os ensinamentos do Eduardo foram sempre para todos os seus amigos e colegas referências para se pensar o Brasil e as transformações da política mundial.

Felizes nós que dele fomos companheiros de estudo, trabalho e atividade política, unidos por uma amizade tão profunda e solidária quanto cheia de cuidados e carinho. Eduardo era um amigão, mais que irmão.

 

Célia Galvão Quirino

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