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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.25 no.73 São Paulo jun. 2010

https://doi.org/10.1590/S0102-69092010000200010 

RESENHAS

 

Mobilidade social, valores morais e segregação espacial. Scalon, Celi; Araújo, Clara; Marques, Eduardo & Oliveira, Maria Aparecida. Ensaios de estratificação. Belo Horizonte, Argumentum, 2009. 152 páginas.

 

 

Marcelo Medeiros

 

 

Marcada pelo rigor metodológico e pela relevância dos objetos que estuda, a análise da estratificação social é uma das áreas mais tradicionais da sociologia. Incorporando novas teorias, técnicas mais precisas e aplicando-as a dados atuais, a área se renova continuamente no Brasil e ajuda a entender melhor por que nossa sociedade é tão desigual e o que pode ser feito para mudar essa situação. O livro Ensaios de estratificação é uma contribuição de destaque em quatro temas reconhecidamente importantes nessa área: mobilidade intergeracional, opinião pública sobre desigualdade de renda e justiça, valores morais relacionados com papéis de gênero e segregação espacial.

O livro reúne cinco estudos de Celi Scalon, alguns deles escritos em colaboração com Clara Araújo, Eduardo Marques e Maria Aparecida Oliveira. Seu objetivo principal é fazer uma análise empírica da estratificação no Brasil e de como ela é reconhecida, justificada e se distribui espacialmente. Para isso os estudos baseiam-se em dados de cobertura ora nacional, ora referente às metrópoles do Rio de Janeiro e São Paulo, e utilizam dois esquema de estratificação internacionalmente aceitos, por títulos ocupacionais e por rendimentos.

O primeiro estudo, escrito no início dos anos 2000, examina a mobilidade estrutural no Brasil ocorrida entre 1988 e 1996. Aponta um aumento razoável na mobilidade intergeracional de homens e mulheres, em geral devido à migração para áreas urbanas. A maior parte dessa mobilidade, no entanto, foi de curta distância e não alterou substantivamente o padrão de estratificação social no país, tal como se vem observando já há algumas décadas. A análise da mobilidade intrageracional mostra que a rigidez do mercado de trabalho continua elevada. Os aumentos de mobilidade entre o início e o fim da carreira dos trabalhadores, quando ocorrem, evidenciam um quadro nada positivo: as chances de os homens e, particularmente, as mulheres observarem uma piora em suas carreiras profissionais aumentaram na década de 1990, ao passo que a possibilidade de progresso permaneceu reduzida. Os estratos de elite, porém, são capazes de preservar sua posição ao longo do tempo.

Em termos gerais, conclui Scalon, nenhuma mudança abrupta na desigualdade e nos padrões de mobilidade inter e intrageracional no Brasil foi observada entre 1988 e 1996, sinal do fracasso do ideal desenvolvimentista da década de 1950, no qual o crescimento econômico ampliaria a classe média, reduziria desigualdades e transformaria o formato da estrutura social de uma pirâmide de base larga para um losango. O país continua muito desigual, e as pessoas têm chances limitadas de progredir em suas trajetórias profissionais.

Diante desses resultados, cabe perguntar como a população do país reconhece e reage à tamanha desigualdade e imobilidade. Este é o objeto do segundo estudo, que se baseia em dados do levantamento do International Social Survey Program - ISSP de 2000, comparando as opiniões da elite, formada pelo décimo mais rico da população, e do restante da população. Trata-se de uma pergunta crucial, uma vez que as decisões dos indivíduos quanto à educação, à inserção ocupacional e mesmo a escolhas políticas são diretamente afetadas por suas opiniões quanto ao nível de desigualdade do mercado de trabalho, às chances de mobilidade dentro dessa estrutura desigual e à justiça dessa situação.

Elite e povo concordam que as desigualdades de renda no Brasil são muito grandes e vêem a estrutura social do país como uma pirâmide de base larga, mas não exatamente do mesmo modo. A elite tende a aceitar uma desigualdade salarial maior e é mais cética quanto às possibilidades de progresso individual por meio do esforço pessoal e qualificação profissional. As diferenças entre elite e povo emergem mais claramente quando se pergunta quais são os principais problemas sociais do país e que soluções devem ser buscadas para a desigualdade. Desemprego e pobreza são as maiores preocupações do povo, ao passo que da elite, aparecem desigualdade de renda, corrupção e educação. Reforma agrária e participação nos lucros das empresas constituem soluções mais presentes no povo e melhoras nos serviços públicos e controle de população aparecem com mais freqüência como soluções vislumbradas pela elite.

Elite e povo acham que a estrutura social está longe daquilo que deveria ser - na opinião de mais da metade da população, um losango que expressa uma pequena classe baixa, uma grande classe média e uma reduzida elite. Todos julgam que a promoção da igualdade cabe ao governo e priorizam a provisão de serviços públicos, mas muito poucos aceitam elevações de tributos que permitiriam financiá-los, o que leva Scalon à conclusão de que não parece haver saída possível para o impasse da desigualdade no Brasil.

No terceiro estudo Celi Scalon e Clara Araújo analisam resultados de um levantamento de cobertura nacional do ISSP feito em 2003 para pesquisar valores relacionados com a conciliação entre trabalho doméstico e trabalho pago. Seu objetivo é verificar se as relações de gênero vêm se tornando mais igualitárias como conseqüência da entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho nas últimas décadas.

As respostas do levantamento revelam que a desigualdade na carga de trabalho doméstico, muito maior entre as mulheres, é aceita como natural pelos adultos de ambos os sexos. Valores igualitários surgem à medida que a religiosidade diminui e a escolaridade dos entrevistados aumenta e são mais fortes entre as mulheres ocupadas em trabalho pago, mas isto não é suficiente para alterar a divisão objetiva de tempo empenhado em trabalho doméstico não-pago. Em função disso, as autoras afirmam que o trabalho de reprodução da vida cotidiana é um dos aspectos menos permeáveis à mudança da sociedade contemporânea.

Os dois estudos finais tratam de um tema de importância crescente nas análises de estratificação, qual seja, a relação entre desigualdades sociais e segregação espacial. Informações censitárias mostram que nas metrópoles do Rio de Janeiro e São Paulo a configuração do espaço urbano está fortemente associada à estrutura ocupacional desses locais e que, apesar da geografia distinta, os padrões de dispersão urbana das classes sociais é muito semelhante nas duas metrópoles. Celi Scalon, Eduardo Marques e Maria Aparecida Oliveira constatam que as duas possuem estruturas ocupacionais similares e são marcadas por forte segregação espacial. Em ambas a topologia social sobrepõe-se à territorial e a distância social entre as classes reflete-se também em distância espacial.

Ao contrário do que previam certas teorias de urbanização, a segregação espacial em São Paulo não parece ser afetada por fenômenos como globalização, reestruturação produtiva e suas conseqüências na atividade econômica. Apesar das substantivas mudanças econômicas ocorridas ao longo da década, houve pouca mudança na estrutura ocupacional paulistana e, mesmo onde essa mudança foi mais notável, não houve polarização da estrutura social, o que os autores caracterizam como "a inabalável segurança dos processos de reprodução de desigualdades e sua capacidade de absorver e sobreviver a ondas de transformação da sociedade" (p.146).

Permeando todos os artigos do livro, há uma perspectiva teórica comum na sociologia da estratificação social: a de que as posições dos indivíduos na hierarquia de classes é determinada por uma estrutura rígida e de que há pouco que os indivíduos ou mesmo agentes coletivos possam fazer para alterar este quadro. Herança do estruturalismo e do funcionalismo que durante muito tempo dominaram a disciplina, esse pessimismo reflete-se no enfoque dado aos estudos, fazendo com que as análises se concentrem em evidenciar a rigidez da sociedade em vez de explorar os determinantes da mobilidade em busca de elementos que poderiam ser modificados para promover a ascensão social dos indivíduos.

Se de um lado a rigidez da sociedade é um fato, de outro, do ponto de vista da pesquisa aplicada engajada em um projeto igualitarista, a rigidez completa esvazia a relevância da pesquisa no tema. Para os formuladores de política pública, por exemplo, um problema sem qualquer possibilidade de solução pragmática é um problema que não interessa. Isto, porém, não diminui a importância do livro, apenas inibe a expectativa ingênua de que pequenas ações serão capazes de causar grandes mudanças na sociedade. Para este tipo de leitor, os estudos reunidos devem ser vistos sob dois ângulos. Primeiro, como uma obra que apresenta os desafios a serem enfrentados pelas políticas de educação, mercado de trabalho, igualdade de gênero e planejamento urbano; segundo, como ponto de partida para o exame das causas da rigidez e para a formulação de projetos no sentido de eliminá-la.

O livro interessa a uma comunidade ampla de estudiosos da desigualdade, cientistas políticos e urbanistas. Suas partes mais técnicas são seguidas por interpretações acessíveis dos resultados, o que torna sua leitura possível mesmo por um público não especializado. Como se trata de uma compilação de artigos isolados, falta na obra um eixo condutor claro que vincule um estudo a outro, bem como um capítulo de conclusão capaz de abarcar e dar um sentido mais nítido aos achados, tarefa que é deixada ao leitor. Em Ensaios de estratificação, artigos que foram publicados em revistas nacionais importantes e outros inéditos estão convenientemente reunidos em um volume único.

 

 

MARCELO MEDEIROS é professor do departamento de Sociologia da Universidade de Brasília. E-mail: <medeiros@igualdade.org.br>.

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