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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.25 no.73 São Paulo jun. 2010

https://doi.org/10.1590/S0102-69092010000200011 

RESENHAS

 

A gênese da juventude mal escolarizada. Ribeiro, Luiz Cesar Queiróz & Kaztman, Rubem (orgs.). A cidade contra a escola? Segregação urbana e desigualdades educacionais em grandes cidades da América Latina. Rio de Janeiro/Montevidéu, Letra Capital/Faperj/Ippes, 2008. 367 páginas.

 

 

Rodrigo Rosistolato

 

 

Trabalhos coletivos são um desafio para as ciências sociais. Considerando sua natureza pré-paradigmática, no sentido proposto por Kuhn1, a convivência, em alguns casos conflituosa, de opções teórico-metodológicas é talvez a maior riqueza deste campo do saber, mas também seu principal dilema. Como transitar da compreensão particular para a generalização? Como generalizar sem ignorar as especificidades de contextos socioculturais particulares? Estas questões são típicas de ciências em que o objeto não existe senão quando construído por conceitos e filiações a tradições de pensamento.

A educação já foi apresentada como um objeto rejeitado na sociologia,2 porque associada a engenharias sociais. Sabe-se, no entanto, que o desejo de verdade, alardeado pelas raízes positivistas das ciências sociais, tem perdido força devido às sucessivas críticas às generalizações excessivas, e alguns de seus possíveis efeitos quando transformadas em argumentos para defesa de intervenções sociais. Mas, ao mesmo tempo, pairam expectativas de compreensão e, quem sabe, contribuição crítica para a resolução dos dilemas da ordem social pressuposta pela modernidade.

Como superar tal dilema? Como generalizar descobertas de pesquisa sem desconsiderar especificidades locais? Como trabalhar conceitualmente sem desvalorizar a visão dos atores sociais envolvidos diretamente nos processos analisados? O livro A cidade contra a escola? apresenta possíveis caminhos e estratégias metodológicas para o enfrentamento destas questões.

Os autores apresentam a escola como uma instituição moderna, organizada por expectativas de promoção de igualdade e equidade por meio da distribuição de um tipo específico de saber, discutido e oferecido coletivamente. Mas apontam que a construção de certo grau de homogeneidade cultural pelo oferecimento de saberes racionalmente organizados e distribuídos não é possível sem o diálogo com elementos culturais transmitidos por processos de reprodução social independentes da escola. O pertencimento a classes sociais tradicionalmente afastadas da cultura escolar, a grupos que desvalorizam a cultura escrita como organizadora das relações sociais, a populações segregadas na organização social das cidades cria obstáculos à distribuição igualitária do saber escolar.

O livro examina possíveis relações entre segregação residencial e desigualdade de chances de escolarização de crianças e jovens na América Latina. Trata-se de um vigoroso trabalho coletivo, singular nas hipóteses e comparativo por definição. As investigações foram realizadas em três instituições de pesquisa: a Universidade do Texas, a Universidade Católica do Uruguai e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. A hipótese principal é de que a crise do modelo de substituição de importações e a inserção das economias latino-americanas na globalização acabaram por enfraquecer mecanismos amortecedores das desigualdades sociais. A concentração territorial da pobreza - um dos resultados desta mudança - é apresentada como fenômeno desencadeador de processos de produção de desigualdades e exacerbação de tendências à fragmentação do tecido social. Este fenômeno geral influencia diversos aspectos da sociabilidade contemporânea em todos os países onde a pesquisa tem sido realizada.

Os autores entendem que a concentração territorial dos segmentos vulneráveis se transforma em segregação residencial, causando isolamento físico, sociocultural, de direitos cívicos e políticos inerentes à condição urbana. Em alguns contextos a distância territorial combina-se com distância social, fazendo com que a sociabilidade se empobreça e deixe de propiciar interações e trocas próprias do fenômeno urbano. Mesmo no caso do Rio de Janeiro, com sua distribuição territorial peculiar, há distâncias sociais significativas entre grupos de pessoas que ocupam espaços fronteiriços. O isolamento é apresentado como fenômeno que pode tomar a forma de distância sociocultural, proporcionando mecanismos de polarização social e induzindo práticas de resistência à violência simbólica de que são objeto os grupos estigmatizados.

O livro é dedicado, especificamente, ao debate sobre a "relação entre segregação residencial e desigualdades de chances de escolarização de crianças e jovens em cidades da América Latina" (p. 17). A pergunta que subjaz ao texto é: "em que medida a forma pelas quais as classes sociais se distribuem no território das grandes cidades facilita ou bloqueia o avanço da coesão social sobre as bases da equidade?" (p. 17). Os autores priorizam o exame dos efeitos do contexto social e da sociabilidade vigente em bairros populares de grandes cidades sobre o desempenho educativo de crianças e adolescentes. Entendem que a análise dos efeitos de segregação residencial sobre desempenhos escolares não se justifica apenas no contexto da América Latina, por isso se propõem a aprofundar o conhecimento sobre o fenômeno, apresentado como universal.

O entendimento de que o combate aos efeitos da segregação urbana deve ser incorporado ao enfrentamento da pobreza e das desigualdades sociais perpassa todo o trabalho. Existe, inclusive, uma preocupação com a construção de políticas públicas que desatrelem o desempenho escolar das desigualdades dos contextos econômicos de origem. Na apresentação, os organizadores afirmam que "é preciso lutar contra as desigualdades de origem, que já definem a posição e a trajetória dos indivíduos na sociedade" (p. 18).

O livro aponta questões fundamentais para as reflexões da sociologia da educação. Em alguns contextos, a escola e a família competem com outras formas de integração. O pertencimento a um determinado bairro pode, inclusive, criar o que os autores classificam como habitus negativo relacionado com a escola. As crianças teriam maior dificuldade de separar razão e emoção, descontrole sobre o próprio corpo, dificuldades de abstração e insegurança ontológica causada pela exposição à violência. Este habitus negativo contribuiria para a consolidação de um tipo de "profecia que se cumpre". Estudantes oriundos de bairros segregados chegariam à escola orientados pela crença de que aquele espaço não seria delas, ou para elas. Em conseqüência, resistiriam ao espaço por meio do silêncio, da violência ou da ausência de aprendizado.

A cidade contra a escola? é composto por onze artigos, dos quais seis são escritos em parcerias, além da introdução redigida pelos organizadores. Ana Lourdes Suárez e Fernando Groisman discutem a segregação residencial e as conquistas educacionais na Argentina; Haroldo da Gama Torres, Renata Mirandola Bichir, Sandra Gomes e Thaís Regina Pavez Carpim analisam a educação na periferia de São Paulo; Fátima Alves, Francisco Creso Junqueira Franco Júnior e Luiz César de Queiroz Ribeiro pensam a segregação residencial e as desigualdades escolares no Rio de Janeiro; José Francisco Soares, José Irineu Rangel Rigotti e Luciana Teixeira de Andrade enfocam as desigualdades socioespaciais e o efeito das escolas públicas de Belo Horizonte; Carolina Flores apresenta a segregação residencial e os resultados educacionais na cidade de Santiago do Chile; Gonzalo Saraví analisa a segregação urbana, a sociabilidade e a escola na cidade do México como uma coexistência entre mundos isolados; Patrício Solis analisa os efeitos do nível socioeconômico da vizinhança na continuidade escolar entre o ensino médio e o pré-universitário no México; Alejandro Retamoso e Ruben Kaztman discutem os desafios da educação a partir de processos de segregação urbana; Robert H. Wilson pensa a integração da forma urbana e a política pública; Camilo Arriagada Luco e Yael Korol Engel salientam os desafios às políticas educacionais que surgem com as novas tendências à segregação urbana e Nestor López discute o caráter territorial dos processos educacionais nas cidades.

Os textos apresentam resultados de pesquisas desenvolvidas na Argentina, na cidade de São Paulo, na cidade do Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, em Santiago do Chile e na cidade do México. Discutem algumas temáticas consolidadas nos estudos sociológicos da educação, como o "efeito-escola", e inserem um elemento novo que pode contribuir significativamente para as análises realizadas pela sociologia da educação em interface com a sociologia urbana e o planejamento das cidades. Trata-se do "efeito de vizinhança" - a tese propõe que a organização da cidade seria a expressão máxima da distribuição não-igualitária de bens e serviços sociais, contribuindo para a manutenção das mesmas relações sociais que a produziram.

O modelo de análise que orienta o projeto parte do entendimento de que fenômenos sociais podem ser explicados a partir de múltiplas relações de causa e efeito. O acontecimento analisado seria o efeito de causas diversas, que poderiam ser mapeadas e utilizadas para explicar o fenômeno em suas múltiplas determinações. Há, na proposta, a indicação de que as motivações, as escolhas e os comportamentos individuais dialogam com contextos onde pessoas com certas propriedades comuns ou semelhantes se encontram. As relações sociais desenvolvidas no espaço de moradia não são resultado ou simples conseqüência da composição social dos bairros, mas consolidam-se como uma variável importante para a explicação de comportamentos sociais. Existe um duplo movimento em que constrangimentos estruturais e escolhas individuais dialogam e produzem resultados que só podem ser compreendidos levando em consideração todas as dinâmicas envolvidas nesse processo.

Embora identifique as dificuldades enfrentadas por crianças oriundas de meios segregados para a incorporação da cultura escolar, o livro não descaracteriza a escola como espaço de produção e distribuição de saber. Trata-se de uma contribuição importante para o debate sobre a construção dos sistemas escolares e sua relação com a organização social do espaço em grandes metrópoles. O texto indica que a escola compete com outras vias de integração social, como o trabalho ou até mesmo a opção pela constituição de família.

Pensando especificamente o caso brasileiro, as análises apresentadas indicam que trajetórias de escolarização em escolas públicas e periféricas impedem ou atrapalham a consolidação dos saberes considerados básicos. Dessa forma, estudantes que concluem a educação básica neste contexto não estão aptos a dialogar em igualdade com estudantes que trilharam seus percursos escolares em escolas centrais e particulares. Considerando que no Brasil os vestibulares para ingresso no ensino público superior - exceção feita às universidades que utilizam algum tipo de sistema de cotas - são disputados por todos os estudantes egressos do ensino médio, seja público ou privado, seja cursado em escolas centrais ou periféricas, é possível pensar que estudantes mais pobres, moradores das periferias urbanas, formados por escolas públicas, que não optassem por cotas estariam em desvantagem em face do vestibular. Tenho trabalhado a partir desta hipótese, mas pensando especificamente nas estratégias utilizadas por estudantes pobres que decidem se organizar em movimentos sociais para se prepararem para o vestibular.

Existem, no Rio de Janeiro e em outros estados brasileiros, um conjunto de movimentos populares organizados por e para jovens pobres que desejam dar seqüência às suas carreiras estudantis. São cursos de pré-vestibular comunitários ou "alternativos", que oferecem formação complementar para que os estudantes possam competir nos vestibulares mais disputados. Minha pesquisa analisa as expectativas relacionadas com a educação superior presentes nestes espaços de ensino. Está em fase inicial, mas é possível perceber algumas regularidades no discurso dos estudantes. Eles culpam suas escolas de origem por não terem oferecido os conteúdos necessários para o vestibular, mas também assumem parte da culpa quando constroem suas memórias escolares e identificam situações que os permitiam experimentar o ambiente escolar sem, efetivamente, estudar.

Os dados iniciais permitem propor, a título de hipótese, que os pré-vestibulares são espaços de organização das memórias escolares e construção de novos sentidos associados à possibilidade de incorporação dos saberes escolares. Essas observações indicam a inadequação das escolas às necessidades dos jovens, mas também apontam as possibilidades de apropriação dos saberes oferecidos pela escola em um momento posterior à escolarização propriamente dita. Parece evidente que uma escola mais eficaz facilitaria o percurso dos jovens em direção ao ensino superior, mas é necessário dizer que, mesmo entre parcelas menos beneficiadas por escolas de qualidade, a escolarização ainda ocupa lugar central como orientadora de suas ações relacionadas com expectativas de mobilidade.

Os jovens freqüentadores de cursos de pré-vestibular "alternativos" são um dos frutos da precariedade da formação escolar oferecida em escolas públicas e periféricas no Brasil. As análises presentes em A cidade contra a escola? permitem interpretar a gênese desta situação escolar. É claro que nem todos os estudantes formados em boas escolas podem abdicar dos cursos de pré-vestibular, mas as distâncias entre uns e outros se apresentam nas opções por carreiras de maior ou menor prestígio, e nos sucessivos fracassos enfrentados por aqueles que em vez de aperfeiçoar o aprendido têm que aprender exatamente no momento em que saíram da escola.

 

Notas

1 T. S. Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, São Paulo, Perspectiva, 1998.

2 L. A. Cunha, "A educação na sociologia: um objeto rejeitado?". Cadernos Cedes: Sociologia da Educação: Diálogo ou Ruptura, São Paulo, Papirus, 1992.

 

 

RODRIGO ROSISTOLATO é professor adjunto de sociologia da educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ - campus Macaé). E-mail: <rosistolato@yahoo.com.br>.

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