SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.25 número73A gênese da juventude mal escolarizadaEntre o local e o cosmopolita: a teoria política latino-americana índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.25 no.73 São Paulo jun. 2010

https://doi.org/10.1590/S0102-69092010000200012 

RESENHAS

 

As Ciências Sociais a Serviço da Vida. Zimerman, Artur. Peguem a foice e vamos à luta: determinantes agrários da guerra civil. São Paulo, Humanitas, 2008. 224 páginas.

 

 

Pedro Neiva

 

 

O livro de Artur Zimerman é fruto de sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em dezembro de 2006. Ele busca identificar os elementos sociais e políticos determinantes das guerras civis que aconteceram no mundo entre os anos de 1969 e 1997, período em que houve uma grande concentração delas. Mais especificamente, o autor avalia até que ponto fatores agrários motivam a eclosão dessas guerras, procurando identificar o impacto que variáveis como densidade demográfica, concentração e produtividade da terra e números de trabalhadores "sem-terra" e de pequenos proprietários exercem sobre a ocorrência desse tipo de conflito. Embora motive uma boa discussão teórica, o livro destaca-se pela riqueza empírica e pela metodologia utilizada, a qual será o alvo principal dos comentários que apresento.

A obra foi estruturada em seis partes: introdução, quatro capítulos e conclusão. No Capítulo 1, o autor apresenta uma cuidadosa definição de guerra civil, suas diferentes categorias e alguns detalhes sobre os três tipos considerados, a saber: revolução, secessão e internacionalizada. Nesse capítulo, há ainda uma breve discussão sobre a "teoria de guerra civil", que se mostra inacabada e ainda em processo de elaboração. O capítulo apresenta também a forma criteriosa com que o autor lida com seu banco de dados, além de tecer diversas considerações sobre a melhor maneira de classificar e conceituar uma guerra civil. No período estudado, o autor identificou 69 eclosões desse tipo de conflito em cinqüenta países, considerando aqueles que tinham população acima de 1 milhão de habitantes no ano de 1970.

No Capítulo 2, Zimerman aborda o que chama de "determinantes consagrados" de guerra civil. Trata-se das condicionantes estruturais freqüentemente utilizadas pela literatura para explicar a eclosão de uma guerra civil, as quais envolvem fatores econômicos, históricos, de identidade, políticos, geográficos e regionais. Entre outras, variáveis como renda per capita, ajuda internacional, dependência de recursos naturais, diversidade étnica e religiosa, regime político, repressão governamental, área montanhosa e área florestal são utilizadas como explicação para esse tipo de conflito. Algumas delas foram utilizadas pelo autor, mas apenas como variáveis de controle.

As variáveis mais importantes, testadas como fatores explicativos de guerra civil, são discutidas no Capítulo 3. Referem-se aos fatores agrários, que, até então, não vinham sendo tratados com a devida seriedade pela literatura, nacional ou internacional. A contribuição principal do livro encontra-se exatamente neste ponto: ele incorpora, de maneira adequada, as questões agrárias na explicação para a eclosão de guerras civis. Trata-se realmente de uma medida fundamental, já que "uma guerra civil é, freqüentemente, de origem rural e camponesa", ainda que sejam conduzidas por lideranças que vivem nas zonas urbanas. As rebeliões que levam à guerra civil, segundo Zimerman, costumam ocorrer em zonas rurais, longe dos grandes centros, onde o controle do Estado é mais fácil e eficaz.

Para reforçar sua opção de incluir as variáveis agrárias em um modelo explicativo de guerra civil, o autor argumenta que a proporção da população rural e a taxa de ocupação no setor agrícola são maiores nos países que a experimentaram. Na sua visão, as questões agrárias ajudam a explicar, por exemplo, as guerrilhas recentes na América Latina, mais especificamente em Cuba, Venezuela, Guatemala, Colômbia, Peru, Nicarágua e El Salvador. Segundo ele, tais variáveis contribuem também para explicar diversos conflitos na Ásia e na África.

Para uma avaliação mais segura, Zimerman lança mão, no Capítulo 4, de análise rigorosa e sistemática, utilizando modelos de regressão logística binária, tendo a eclosão de guerras civis como variável dependente. Em linhas gerais, conclui que a instabilidade política, o número de agricultores "sem-terra" e de pequenos proprietários, o tamanho da população rural e a baixa produtividade rural apresentam-se como as variáveis mais importantes para explicação do fenômeno em questão. Ademais, variáveis como renda per capita e concentração da terra não se mostraram relevantes, contrariando as expectativas. O autor desconfia que tal resultado se deve ao fato de os dados disponíveis não serem satisfatórios, em virtude do sigilo que envolve as informações sobre o tamanho das propriedades rurais.

Em geral, creio que o livro goza de muitas qualidades. Em primeiro lugar, porque motiva uma boa discussão teórica, contribuindo efetivamente para o entendimento das guerras civis no mundo. Em segundo, porque se trata de um estudo comparativo, empiricamente rico, com um número de países relativamente grande, quando comparado com outros estudos de política comparada no Brasil. Não deixa de ser também um empreendimento corajoso, dada a dificuldade para obtenção desse tipo de dado e para a definição de critérios de categorização.

Além disso, trata-se de uma obra muito bem escrita, fluente, de leitura fácil e instigante. O autor expõe seus argumentos de forma clara, organizada e objetiva. O leitor pouco familiarizado com métodos quantitativos deverá ter um pouco mais de atenção, mas nada que o impeça de entender a discussão estabelecida no livro. Não é demais enfatizar o diferencial oferecido por Zimerman, ao considerar as variáveis de natureza agrária, que vinham sendo desprezadas em estudos do gênero.

Peguem a foice e vamos à luta destaca-se também pelo uso do instrumental metodológico. Confesso que, durante a leitura, em diversos momentos senti a necessidade de uma melhor especificação das técnicas utilizadas; porém, quase sempre, poucas linhas ou parágrafos depois, a resposta vinha de prontidão. Para aqueles que estão se familiarizando com análise de regressão, mais especificamente com regressão logística, o trabalho serve como um excelente exemplo de bom uso da técnica. Em função disso, sugiro ao autor que disponibilize seu banco de dados, tanto para os que quiserem replicar seus argumentos, como para aqueles que eventualmente queiram utilizá-lo como um interessante material de treinamento.

A despeito da qualidade de sua metodologia, pode-se questionar a adequabilidade da técnica utilizada para o tipo de dados que dispõe. As freqüências de sua variável dependente revelam um caso típico do que a literatura chama de "evento raro": em 3.706 observações, apenas 69 (1,89%) são classificadas como início de guerra civil. Nessa situação, parece-me que uma regressão logística tradicional não seja a técnica mais apropriada, já que ela pode gerar coeficientes subestimados, mesmo em amostras com grande número de casos.1 A proposta do autor de utilizar uma análise de efeitos aleatórios não parece ser suficiente para resolver essa questão. Felizmente, King e Zeng apresentaram uma solução para o problema e disponibilizaram um software para implementá-la.2 Outra possibilidade seria utilizar a técnica conhecida como "regressão binomial negativa para inflação em zeros".3 Essa última divide o processo de estimação em duas partes, uma para os valores iguais a zero (quando o evento não ocorre) e outra para os valores diferentes de zero (o evento ocorre).

Ainda sob o ponto de vista metodológico, falta um manejo mais adequado do aspecto temporal. Penso que o trabalho teria ficado melhor se o autor tivesse tratado não apenas da eclosão, mas também da permanência das guerras civis. A técnica conhecida como "análise de sobrevivência", que envolve a modelagem do tempo em função do evento, permitiria resolver o problema das ocorrências que se repetem em um mesmo país. Além disso, proporcionaria a resposta para perguntas interessantes, tais como: Entre os países que entram em guerra, quais os que permanecem? E por quanto tempo? Que circunstâncias particulares aumentam ou diminuem a chance de que o conflito permaneça? Não foram essas, no entanto, as questões que o autor se propôs a responder, conforme deixa claro desde o início do seu texto.

Caso haja uma segunda edição do livro, sugiro que se leve em consideração também a dimensão espacial. Isso porque a geografia física parece ter um papel importante na determinação das guerras civis. Além do continente em que elas se localizam, é importante observar o número de países fronteiriços, a existência de conflitos em cada um deles e a topografia da região. Fearon e Laitin,4 por exemplo, verificaram que terrenos montanhosos estavam associados com uma maior freqüência de guerra civil. Embora o autor reconheça parcialmente a relevância desse aspecto, ele não o inclui em nenhum de seus modelos explicativos.

Peguem a foice e vamos à luta merece ser lido não só por cientistas sociais que se dedicam ao tema das guerras civis, mas também por todas as pessoas que se preocupam com os seus efeitos devastadores. E mais, ele merece ser traduzido, pois interessa a pesquisadores de outros países, onde o fenômeno é ainda mais ameaçador do que no Brasil. Quanto maior for o conhecimento dos cientistas sociais sobre esses eventos trágicos, que vitimaram 134 milhões de pessoas no século XX, maior pode ser sua colaboração no sentido de evitá-los.

 

Notas

1 G. King e L. Zeng, "Logistic regression in rare events data". Political Analysis, 9 (137), 2001; "Explaining rare events in international relations", International Organization, 55: 693-715, 2003.

2 Disponível em <http://gking.harvard.edu/stats.shtml>.

3 J. Hilbe, Negative binomial regression, Nova York, Cambridge University Press, 2007.

4 J. Fearon e D. Laitin. "Ethnicity, insurgency, and civil war". American Political Science Review, 97: 75-90, 2003.

 

 

PEDRO NEIVA é doutor em ciência política pelo Iuperj. E-mail: <prneiva@gmail.com>.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons