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Revista Brasileira de Farmacognosia

Print version ISSN 0102-695XOn-line version ISSN 1981-528X

Rev. bras. farmacogn. vol.18 no.1 João Pessoa Jan./Mar. 2008

https://doi.org/10.1590/S0102-695X2008000100015 

ARTIGO

 

Efeito do uso da farinha desengordurada do Sesamum indicum L nos níveis glicêmicos em diabéticas tipo 2

 

Effect of defatted sesame (Sesamum indicum L.) flour on the blood glucose level in type 2 diabetic women

 

 

Angela Siqueira FigueiredoI , *; João Modesto-FilhoII

ILaboratório de Tecnologia Farmacêutica, Universidade Federal da Paraíba, 58051-970 João Pessoa-PB, Brasil
IIDepartamento de Medicina Interna, Universidade Federal da Paraíba, 58051-970, João Pessoa, PB, Brasil

 

 


RESUMO

Existe um incremento nas pesquisas de plantas e grãos com atividades hipoglicemiantes para prevenção e terapêutica do Diabetes Mellitus, que aumenta em grandes proporções mundialmente. Este estudo avalia o efeito do uso da farinha desengordurada do Sesamum indicum L. nos níveis glicêmicos de diabéticas tipo II submetidas a tratamento dietoterápico. Ensaio clínico controlado e aberto, em dois grupos, experimental (GE) e controle (GC) com avaliação na linha de base (AB), aos 30 (A-30) e 60 dias (A-60). As características gerais não apresentaram diferenças estatísticas entre os grupos. Observou-se diferença estatística significativa na glicemia de jejum (GJ) (p = 0,004) na AB, na GJ (p = 0,002) e peso (p = 0,020) na A30, e apenas no peso (p = 0,011) na A60. Nas glicemias pós-prandiais (GP) e hemoglobinas glicosiladas não houve diferença estatística em nenhuma das avaliações entre os grupos. Evidenciou-se diferença estatística entre a AB - A30 em relação ao peso nos dois grupos, e na AB - A60 na GP (p = 0,04) e peso (p = 0,01) no GE, mas apenas no peso (p = 0,03) no GC. A farinha de gergelim contribuiu no controle glicêmico e no peso em pacientes diabéticas, de forma econômica, saborosa e saudável.

Unitermos: Sesamum indicum, Pedaliaceae, farinha, diabetes, atividade hipoglicemiante, plantas medicinais, produtos naturais, nutracêutico.


ABSTRACT

There is an increment in the researches on plants and whole grains with hypoglycemic activity in order to prevent and treat Diabetes Mellitus which has increased rapidly on serious proportions all over the world. This study aimed at evaluating the effect of defatted Sesamum indicum L. flour on blood glucose level in type 2 diabetic women on diet therapy. A controlled and open-label clinical trial, with two groups, experimental group (GE) and control group (GC) were evaluated at the basal line (AB), at thirty day (A-30) and sixty day (A-60). The general characteristics in both groups were similar. There was a significant difference at fasting glucose level (GJ) (p = 0.004) on AB, GJ (p = 0.002) and weight (p = 0.020) on A-30, and only weight (p = 0.011) on A-60. There was no significant difference at postprandial glucose level (GP) and glycosylated hemoglobin level at all the evaluation between the groups. There was a significant difference between AB - A-30 of weight in two groups, and AB - A-60 of GP (p = 0.04) and weight (p = 0.01) on GE, but only of weight (p = 0.03) on GC. The defatted sesame contributed to the glycemic control and weight in diabetic women in a cheap, tasty and healthy manner.

Keywords: Sesamum indicum, Pedaliaceae, flour, diabetes, hypoglycemic activity, medicinal plants, natural products, nutraceutic.


 

 

INTRODUÇÃO

Diabetes Mellitus (DM) constitui um dos mais sérios problemas de saúde pública da atualidade. Nas últimas décadas tem se observado um rápido aumento na incidência dessa morbidade em todo o mundo. Dos 171 milhões de pessoas acometidas pela doença em 2000, projeções indicam que alcançará 366 milhões em 2030, o que é corroborado com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), onde a prevalência global estimada de DM de 2,8% em 2000, será de 4,4% em 2030. (Wild et al., 2004).

No Brasil, o envelhecimento populacional, associado ao aumento da freqüência do excesso de peso, estilo de vida sedentário e modificações no padrão alimentar, como o aumento do consumo de açúcares e refrigerantes em detrimentos das frutas, verduras e legumes, tem sido apontado como possíveis fatores envolvidos no incremento do DM nos últimos anos (Artoreli e Franco, 2003).

Pacientes e profissionais de saúde tem freqüentemente utilizado plantas e outras terapias alternativas com atividades hipoglicemiantes, em virtude de apresentarem menos efeitos adversos que os tratamentos convencionais (Dey et al., 2002). Uma metanálise em estudos epidemiológicos, metabólicos e de intervenção dietética tem demonstrado que a ingestão de grãos protege contra o aparecimento do DM tipo 2, e também melhora o controle glicêmico nos portadores desta patologia como também em diabéticos hipertensos (Sankar et al., 2006).

Ultimamente, considerável interesse tem sido mostrado na utilização de alimentos à base de Sesamum indicum (gergelim), para suplementação de dietas humanas. No Brasil apresentam-se como opção extremamente importante como fonte de proteína, vitaminas e minerais. (Beltrão et al., 1994; Namiki, 1995; Firmino e Beltrão, 1997). Embora Sesamum indicum esteja inscrito na primeira e quarta edição da Farmacopéia Brasileira (Brandão et al., 2006), para sua utilização como alimento, medicamento ou nutracêutico, é necessário o avanço de novos estudos.

O uso do gergelim, de baixo custo, compatível com o nível de renda da maioria da população, a facilidade e variedade no preparo das suas sementes, poderia constituir uma alternativa na prevenção e tratamento do DM tipo II na nossa região. Estudos em animais demonstraram efeito hipoglicemiante do Sesamun indicum utilizando tanto o extrato hidrólico de semente desengorduradas (Takeuchi et al., 2001), como o óleo em ratos diabéticos (Rameshi et al., 2005). Entretanto, até o momento, nenhum trabalho foi realizado evidenciando efeito hipoglicemiante utilizando a farinha de gergelim em humanos.

Assim, o objetivo deste estudo é avaliar o efeito do uso da farinha desengordurada do Sesamum indicum nos níveis glicêmicos em diabéticas tipo II submetidas a tratamento dietoterápico.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O presente estudo seguiu um modelo experimental, com desenho de ensaio clínico controlado e aberto, incluindo 28 pacientes diabéticas tipo 2, com idade entre 30 e 65 anos atendidas no Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB ), e em clínica privada, na cidade de João Pessoa, Paraíba (PB).

A seleção das pacientes ocorreu por meio de amostragem por conveniência, a partir dos seguintes critérios de exclusão: ausência de outras patologias e uso de medicamentos que: interferissem com o metabolismo da glicose.

O projeto do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do HULW/UFPB (protocolo nº 041/05). As pacientes foram incluídas no projeto após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido aprovado pelo CEP/HULW.

As pacientes elegíveis foram designadas para um dos dois grupos, composto de 14 diabéticas cada (experimental ou controle). Às pacientes do grupo experimental (GE) eram entregues as quantidades de farinha de gergelim a serem ingeridas durante a semana, sendo reforçada a orientação para sua ingestão adequada na alimentação diária, sendo 10 g nas principais refeições, perfazendo um total de 30 g/dia. Os dois grupos foram submetidos a uma dieta com seleção de monossacarídeos.

As sementes de gergelim foram doadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa Algodão (Campina Grande - PB) e a farinha era elaborada por sementes torradas e moídas fornecida pela Cooperativa de Produção de Suplementos Naturais de Campina Grande - PB (COPERNUT). A farinha de gergelim foi pesada em balança analítica eletrônica com capacidade para 200 g da Marca Tecnal® e acondicionadas em pequenos sacos plásticos fechados com fecho plástico marca Rogine Perez®.

Realizaram-se três avaliações durante o estudo: 1) avaliação inicial na linha de base (AB); 2) Avaliação após 30 dias (A30); e 3) avaliação após 60 dias (A60). Na técnica de coletas de dados, utilizou-se um formulário de dados clínicos elaborado pelos autores. Na avaliação inicial foi feita anamnese, com solicitação de dosagens bioquímicas de glicemias (jejum, pós-prandial) e hemoglobina glicosilada (HbA1c). As pacientes foram pesadas em balança com antropômetro acoplado, tipo plataforma, com capacidade de 150 kg e precisão de 100 g. O estado nutricional foi avaliado pelo Índice de Massa Corporal (IMC), e os indivíduos classificados em peso normal (IMC 18,5 - 24,9 kg/m2), sobrepeso (IMC 25 - 29,9 kg/m2) e obeso (IMC > 30 kg/m2) de acordo com FAO/OMS. A glicose plasmática foi dosada pelo método enzimático utilizando o kit comercial da Labtest®. A medida da HbA1c foi realizada por método microcromatografia utilizado o Kit comercial Human® in vitro.

Nas avaliações A30 e A60 (30 e 60 dias, respectivamente), foram repetidas a avaliação clínica e as mesmas dosagens bioquímicas, pesquisando-se o grau de aceitação do gergelim e aparecimento de sintomas relacionados com seu uso.

A medida primária de eficácia consistiu na comparação entre os grupos experimental (GE) e controle (GC) da redução percentual dos valores das variáveis dependentes entre as avaliações de eficácia (A-30 e A-60) em relação à AB, pelo teste t de Student para amostras independentes. O teste t para amostras pareadas completou a análise, com a comparação dos valores médios entre as avaliações (AB-A-30, A30-A-60, AB- A60). O teste c2 (ou o teste exato de Fisher) foi usado para comparação de variáveis categóricas. As análises estatísticas foram feitas com o uso do Statistical Package for Social Sciences (SPSS,Chicago) versão 11.5 para Windows.

 

RESULTADOS

Durante o período do estudo foram selecionadas 31 pacientes, e destas, no grupo controle, três solicitaram exclusão da pesquisa após a AB, e uma foi excluída porque alcançou nível glicêmico que exigiu intervenção medicamentosa. Houve total adesão à ingestão da farinha de gergelim no grupo experimental.

As variáveis representadas pela idade (p = NS), altura (p = 1,23), peso (p = 0,06) e Índice de Massa Corporal (p = NS) não apresentaram diferenças estatísticas (p < 0,05), entre os grupos.

A amostra apresentava 10,7% de peso normal, 39,3% de sobrepeso e 50% de obesos. O teste c2 (ou o teste exato de Fisher) foi usado para avaliar a variável atividade física entre o GE e GC ( p= N/S).

A avaliação da eficácia das variáveis analisadas entre o GC e o GE apresentaram diferença estatística em relação à glicemia jejum (p = 0,004) na AB, na glicemia jejum (p = 0,002) e peso (p = 0,020) na A30 e apenas no peso (p = 0,011) na A60. Nas glicemias pós-prandiais e nas HBA1Cs não houve diferença estatística em nenhuma das avaliações. (Tabela 1).

 

 

Comparando o perfil glicêmico e peso nas três avaliações (AB, 30 e 60 dias) entre o GE e o GC através do teste t para amostras pareadas, observamos que houve diferença estatística entre a AB-A30 em relação ao peso nos dois grupos GE e GC. A comparação A30-A60 não apresentou diferença estatística entre os grupos, mas na comparação AB-A60 houve diferença estatística nas variáveis glicemia pós-prandial e peso no GE e apenas no peso no GC. (Tabela 2)

 

 

DISCUSSÃO

Evidências epidemiologicas sugerem que sem um efetivo programa de controle e prevenção, haverá um contínuo aumento da prevalência de DM tipo 2 no mundo. Os maiores estudos de intervenção em diabetes com mudança no estilo de vida, diminuíram em 28 a 67% o risco relativo de desenvolver DM tipo 2 em relação ao placebo, e o Diabetes Prevention Program um dos maiores estudos randomizados e controlados demonstrou que a mudança no estilo de vida era mais efetiva em prevenir o DM tipo 2 que a metformina, particularmente em idosos (58% vs. 31%) (Alberti et al., 2007).

Derivados de plantas com supostas propriedades hipoglicêmicas têm sido usados na medicina popular e sistemas tradicionais de saúde no mundo todo (Agra et al., 2007; Biavatti et al., 2007; Torrico et al., 2007; Cavalli et al., 2007; Menezes et al., 2007; Funke e Melzig, 2006; Barbosa-Filho et al., 2005). Muitos produtos farmacêuticos modernos usados hoje na medicina convencional também têm origens em plantas medicinais, como a metformina, derivada da Galega officinales, um eficaz hipoglicemiante oral. (Yeh et al., 2003).

O papel dos constituintes da dieta na gênese e na prevenção de doenças e seus mecanismos de ação tem sido objeto de estudo há décadas. Há em todo o mundo um crescente interesse pelo papel desempenhado na saúde por alimentos que contêm componentes que influenciam em atividades fisiológicas ou metabólicas. As antigas culturas chinesa, indiana, egípcia e grega em particular, trabalhavam muito com o conceito de alimentos terapêuticos, atribuindo propriedades preventivas e/ou curativas a quase todos os alimentos, bem como reconhecendo as condições adequadas de preparo e consumo dos mesmos (Shils et al., 2003).

Nas últimas décadas tem aumentado significativamente uso de farelos, principalmente os derivados de aveia e trigo pela população (Bosello, 1980; Koh-Banerjee, 2004). Uma forte associação foi evidenciada entre farelos de grãos e risco de desenvolver DMT2 (Munter, 2007). No nosso estudo, avaliamos a eficácia da farinha desengordurada do gergelim nos níveis glicêmicos e peso dos diabéticos submetidos apenas a dietoterapia. Em relação à avaliação do perfil glicêmico, não foram encontrados estudo semelhante em seres humanos, apenas foi observado efeito hipoglicemiante pelo uso do extrato hidroalcóolico de sementes desengorduradas do gergelim em ratos KK-Ay geneticamente modificados. (Takeuchi et al, 2001), porém, o consumo do óleo de gergelim proporcionou uma melhora dos níveis glicêmicos e da hemoglobina glicosilada em ratos diabéticos (Ramesh et al., 2005) e em diabéticos hipertensos (Sankar et al.,> 2006).

Observamos uma alta aceitação de todos as pacientes ao uso da farinha gergelim devido ao delicioso aroma e sabor, como também em virtude do seu valor nutricional com cerca de 18 a 20% do conteúdo de carboidratos sob a forma de fibra dietética, rica fonte de proteínas e minerais como cálcio, ferro, fósforo, potássio, magnésio, zinco e selênio (Namiki, 1995). No nosso estudo houve uma redução estatística significativa da glicemia pós-prandial após 60 dias de tratamento com a farinha desengordurada de gergelim no GE. A importância no controle desta glicemia é de primordial importância, visto que o estudo observacional DECODE (Diabetes Epidemiology: Collaborative Analysis of Diagnostic Criteria in Europe) mostrou ser um fator de risco independente para a mortalidade. Uma possibilidade de explicação para o efeito obtido seria a fibra contida neste alimento, o que resultaria na redução do índice glicêmico e uma menor glicemia pós prandial. (Lau et al., 2005, Munter et al., 2007; Newby et al., 2007).

Uma associação inversa entre ingestão de grãos e risco de DM Tipo 2 era largamente explicada pela fibra do cereal (Fung et al., 2002; Hodge et al., 2004), porém foi sugerido que a fibra e os fitoquimicos, entre eles as vitaminas, minerais, compostos fenólicos e fitoestrogenos, abundantes na farinha dos grãos, seria mais benéfico para a saúde que as fibras isoladamente (Jensen et al., 2004; Koh-Bonarjee, 2004)). Contudo não está bem estabelecido quais componentes dietéticos de grão ou legumes agem como fatores de proteção, apesar de que os resultados de diversos estudos são consistentes que o consumo de grãos são mais benéficos à saúde que o efeito da fibra (Venn e Mann, 2004).

Os mecanismos pelo qual a fibra do cereal afeta a sensibilidade a insulina são desconhecidos. Foi demonstrado que cereais ricos em fibras reduzem a glicemia tanto em pessoas com níveis normais de insulina como em hiperinsulinemicos (Wolever et al., 2004), melhoram a sensibilidade a insulina (Pereira et al., 2002; Ylonen et al., 2003; Liese et al., 2005; Anderson, 2004; Ostman et al., 2006) e são inversamente associada com a probabilidade de resistência insulínica (Lau et al., 2005; Venn e Mann, 2004), podendo então, desta maneira prevenir o DMT2. Contudo, estudos clínicos com grãos são escassos e inconsistentes em seus efeitos tanto na glicemia pós-prandial, como na resposta à insulina (Liu et al., 2003).

No presente estudo também foi evidenciado uma redução significativa na glicemia de jejum entre o GE e o GC após 30 dias de tratamento. Este resultado é corroborado diversos estudos observacionais, transversais, prospectivos e intervencionistas, os quais demonstraram que a ingestão de grãos previne e melhora o controle do DM. (Liu et al., 2000; Meyer et al., 2000; Fung et al., 2002; Venn e Mann, 2004; Munter et al., 2007; Kochar et al., 2007).

Estudos prospectivos relatam que pessoas que consumiam três refeições, com alimentos a base de grãos, tinham redução de 20 a 30% do risco de desenvolverem DM tipo 2. (Liu et al., 2000; Meyer et al., 2000; Fung et al., 2002).

Tem sido proposta uma melhora da tolerância aos carboidratos por mecanismos antioxidantes, com a adição da farinha dos grãos à dieta devido a uma redução do ferro sérico e aumento das concentrações de magnésio (Kor-Banerjee, 2004; Anderson, 2004). Um dos possíveis efeitos responsáveis pela redução do DM em virtude do uso de grãos na alimentação é que não há perda de diversos micronutrientes entre eles magnésio, que são reduzidos após processo de refinamento destes alimentos. (Slavin, 2003).

Estes minerais também são encontrados na farinha de gergelim e poderiam ter contribuído para melhorar o perfil glicêmico evidenciado em nosso estudo. Alguns estudos com farinha de aveia, no entanto apresentam resultados contraditórios em relação ao controle glicêmico em pacientes diabéticos (Koh-Banerjee, 2004)

Comparando longitudinalmente a avaliação da eficácia em relação ao peso, houve uma diminuição estatisticamente significativa na A-30 e A-60 no GE, em relação ao GC, que não deve ser atribuído apenas à possível variável interveniente atividade física, visto que esta não diferiu entre os grupos. Wu et al. (2006), evidenciaram em um ensaio placebo controlado, em que mulheres na pós-menopausa que a ingeriam 50 g de sementes de gergelim, resultou em um significante aumento de peso após cinco semanas de tratamento. No nosso estudo, houve ingestão de apenas 30g/dia da farinha desengordurada, que totaliza uma ingestão calórica diária menor, em virtude da extração do óleo, verificada na intervenção do presente trabalho, o que poderia ter contribuído para a perda de peso observada nas diabéticas. Por outro lado, Sankar et al. (2006), mesmo utilizando o óleo de gergelim, rico em ácidos graxos polinsaturados, observaram diminuição do peso e IMC em pacientes hipertensos. Neste caso, o consumo de ácidos graxos polinsaturados pode ter aumentado os níveis de leptina no plasma, o que por sua vez pode ter facilitado à redução do peso (Hynes et al., 2003).

Contudo, a ingestão de grãos e fibra na dieta tem sido associada com diminuição do risco de obesidade e diabetes (Fung et al., 2002, Montonen et al., 2003; Jensen et al., 2004; Munter, 2007), e havendo também uma associação inversa entre ganho de peso e ingestão de fibras de cereais e frutas (Koh-Banerjee et al., 2004, Oliveira et al., 2003; Bazzano et al., 2005).

Desta maneira, outro possível mecanismo seria que a ingestão de grãos proporcionaria uma maior distensão gástrica, induzindo a uma sensação de saciedade, contribuindo desta maneira para uma menor ingestão de calorias e consequentemente uma redução do peso.

Um estudo prospectivo de 12 anos de duração demonstrou que o ganho de peso foi inversamente proporcional em mulheres com alta ingestão de fibras, reduzindo em 49% o risco de aumento de peso. (Liu et al., 2003). Também foi observado que quando farinha de grãos (trigo, aveia, milho e arroz) era adicionada à dieta reduzia-se o risco de ganho de peso, e para cada 20g/dia de farinha ingeridas havia diminuição de 0,36 kg no ganho de peso. (Koh-Banerjee et al., 2004). Além disso, tendo em vista que a leptina elevada se associa ao ganho de peso, outro estudo evidenciou que em uma dieta com alta ingestão de grãos levou à redução dos níveis de leptina (Jensen, 2004).

Contudo, estudos epidemiológicos avaliando a relação entre consumo de grãos e ganho de peso são escassos e a caracterização desta associação tem sido obscurecida por inconsistência metodológica. (Liu et al., 2003; Koh-Banerjee et al., 2004). Não podemos determinar com certeza, se a maior perda de peso do GE no nosso estudo ocorreu em virtude do uso do gergelim introduzido na dieta ou de uma maior conscientização por parte das pacientes deste grupo em aderir à orientação dietética, uma vez que Kochar et al., 2007 demonstrou que o consumo de grãos tem sido associado com um estilo de vida mais saudável. Porém, o curto período de tempo do uso da farinha de gergelim pode causar limitação na avaliação da perda de peso. Contudo, neste sentido estudos anteriores que tentaram associar o consumo de grãos e perda de peso mostram-se compatíveis com a existência desta relação causal (Fung et al., 2002; Montonen et al, 2003; Oliveira et al., 2003; Koh-Banerjee et al., 2004, Bazzano et al., 2005).

Em virtude da existência de vários estudos enfocando o real benefício de mudança de estilo de vida, a introdução do gergelim na dieta dos diabéticos poderia ser estimulada, como uma forma de prevenir o DM e melhorar o controle glicêmico, antes da introdução de qualquer tratamento medicamentoso ou mesmo poderia ser associado a este, principalmente em nossa região, que é uma entre as maiores produtoras atualmente no país de gergelim. Além disso, o consumo deste alimento proporcionaria uma maior ingestão de fibras, proteínas, vitaminas e minerais contribuindo assim para uma alimentação mais saudável e uma melhor qualidade de vida, associada ao benefício adicional da perda de peso.

Portanto os resultados encontrados neste trabalho sugerem que a ingestão de farinha de gergelim na dieta pode contribuir beneficamente na redução do risco de diabetes e obesidade, bem como auxiliar no controle do perfil glicêmico e do peso em pacientes diabéticos tipo 2, de forma econômica, saborosa e saudável.

 

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Recebido 21 Outubro 2007; Aceito 18 Fevereiro 2008

 

 

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