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Sociedade e Estado

Print version ISSN 0102-6992

Soc. estado. vol.27 no.3 Brasília Sept./Dec. 2012

https://doi.org/10.1590/S0102-69922012000300004 

DOSSIÊ: REINVENTAR NORBERT ELIAS

 

Vamos ao Brasil com Jules Verne? Processos editoriais e civilização nas Voyages Extraordinaires*

 

 

Andréa Borges Leão

Doutora em sociologia, professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará. E-mail: dealeao@secrel.com.br

 

 


RESUMO

No século XIX, uma rede de conhecimentos sobre as diferenças culturais dos povos americanos marcou a edição destinada à instrução e diversão da juventude francesa. Uma das 62 Voyages Extraordinaires de Jules Verne, publicadas por Pierre-Jules Hetzel, é ambientada entre o Peru e o Brasil: La Jangada, huit cents lieues sur l'Amazone (1881). Na produção de literatura juvenil que se desenvolve e expande no comércio transatlântico da livraria francesa, sobressai uma psicogênese do Brasil. Por esse ângulo, a via de análise aberta pelo sociólogo Norbert Elias ajudou a enfrentar o problema das emoções humanas, no romance de viagem, e a conceituar a atividade mimética no livro de ciência e recreação.

Palavras-chave: Jules Verne, Norbert Elias, Civilização das Emoções, Psicogênese do Brasil, Sociologia da Literatura.


ABSTRACT

In the 19th century, a net of knowledge about cultural differences of the populations of Americas imprint the edition assign to instruction and entertainment of the young French people. One of the 62 Voyages Extraordinaires of Jules Verne, published by Pierre-Jules Hetzel, is set between Peru and Brazil: La Jangada, huit cents lieues sur l'Amazone (Eight Hundred Leagues on the Amazon - 1881). Around the juvenile production that grows and expands in the transatlantic trade of the French bookstore, a psychogenesis of  Brazil shines through. By this angle, the analytic way opened by the sociologist Norbert Elias helps to face the problem of the human emotions in the travel novel and also helps to consider the mimetic activity in the book of science and entertainment.

Keywords: Jules Verne, Norbert Elias, Emotions Control, Psychogenesis of Brazil, Sociology of the Literature


 

 

Literatura e civilização das emoções

Que d'investigations seront nécessaires pour que nous saisissions ce qui est authentique parmi ces ilusions compliquées par nos propes réactions!
Piero Gondolo Della Riva

Em 1895, Edmondo de Amicis, autor do romance juvenil Cuore, deixou a Itália na companhia de seus dois filhos e embarcou para Amiens, uma pequena cidade do interior da França, a fim de entrevistar Jules Verne. Na Itália, havia quem desconfiasse da existência real do autor das Voyages Extraordinaires. Dizia-se que os romances eram produto de uma sociedade de escritores e Jules Verne não passava de um pseudônimo coletivo (COMPÈRE & MARGOT, 1998, p. 112). Onze anos antes da entrevista, em 1884, Verne fez um cruzeiro pelo Mediterrâneo a bordo do iate Saint-Michel, com a esposa Honorine, o irmão Paul, o filho Michel e mais outros convidados. O grupo visitou Portugal, Argélia, Tunísia e Itália. Em Veneza, o escritor foi muito bem acolhido. Os leitores iluminaram a fachada do hotel com lâmpadas que formavam o nome Verne, contava Honorine a Amicis, e que o arquiduque Louis-Salvador de Habsbourg procurou seu marido para lhe declarar admiração e oferecer um livro. Em Roma o triunfo foi maior, o Papa Léon XIII recebeu Jules Verne (SORIANO, 1978). Mesmo assim, intrigava a Amicis o exílio provinciano de um escritor de tanto sucesso fora da França, mas alheio e, em consequência, quase invisível nos espaços de consagração literária de Paris.

Ao italiano, Verne lembrou a figura de um general aposentado, de um professor de física ou de matemática. Quando indagado sobre o processo de criação literária, respondeu: os personagens excêntricos e os episódios descritos nas florestas, no fundo do mar ou no céu surgiam durante as consultas aos tratados de ciência e aos dicionários de história natural. Verne anotava as leituras que costumava fazer dos Boletins da Sociedade Geográfica de Paris. Se um parágrafo ou artigo chamava a sua atenção recortava-o para depois utilizá-lo como referência. Ele lia rigorosamente as revistas que publicavam narrativas de viagens, La revue des deux mondes, Le musée des familles, Le tour du monde, La revue maritime et coloniale, entre outras (PAUMIER, 2008, p. 44), e não deixava de se informar sobre os guias e itinerários para os viajantes europeus, seu preferido era o Guide Joanne, publicado pela Livraria Hachette.

A imaginação de Jules Verne funcionava com a disciplina necessária às manhãs de trabalho na rica biblioteca particular, que ia das cinco horas ao meio dia. Na organização das narrativas, as aventuras se desenrolavam em duas partes, que correspondiam a dois volumes de cada livro. Na primeira, o autor apresentava os frutos das pesquisas, os ingredientes do exótico e as informações didáticas: descrições das paisagens, comentários sobre história natural, comparações entre os costumes dos povos e informações sobre a história colonial de cada país. Os leitores eram feitos expectadores, "passivos elementos de um cenário", observa Régis Tettamanzi (2004, p. 140), enquanto o narrador assumia ar de professor. Só na segunda parte começava a intriga propriamente dita, a ação dos personagens ia ganhando vida e os mistérios iam sendo decifrados, ainda que persistissem as taxonomias científicas.

Os viajantes e exploradores dos quais Verne se valia como fontes documentais tinham suas experiências e relatos restituídos nas narrativas. Alguns deles apareciam como personagens, os heróis seguiam os passos de exploradores e cientistas ilustres. Por outro lado, as Voyages Extraordinaires também eram citadas nos artigos científicos. Em trabalho publicado no L'Année Geographique, de 1873, o geógrafo Vivien de Saint-Martin rende homenagens ao conjunto dos livros de "vulgarização científica" escritos por Jules Verne. O geógrafo reconhecia que as Voyages difundiam conhecimento por meio da imaginação. Na seção de matemática do L'Anée Geographique, de 1874, Saint-Martin faz menção ao "artigo científico" Les méridiens et le calendrier, de autoria do próprio Verne (MARGOT, 2004, p. 35).

Assim, na companhia de um livro de história da natureza assinado por sábios viajantes, como Alexander Von Humboldt ou Jean Chaffanjon, a narrativa verniana estava feita e os confins e povos do universo podiam desfilar aos olhos dos jovens franceses, cheios de expectativas. Edmondo de Amicis retornou a Itália feliz. A entrevista intitulada "Uma visita a Jules Verne" saiu na Nuova Antologia, de primeiro de novembro de 1896 e, em 1900, foi publicada nas memórias do italiano. 

Já na entrevista que concedeu ao jornalista americano Robert Sherard1, em 1893, Verne esboçou o autorretrato de um outsider, um escritor recém-chegado ou não inteiramente assimilado pelos estabelecidos na República das Letras. Por mais que se esmerasse no estilo e, com isso, tentasse conquistar os pares, o romance de viagem e aventura como gênero jamais foi reconhecido pela Academia Francesa. Na opinião de Alexandre Dumas, contava Verne a Sherard, o sucesso mundial de sua obra era o bastante para torná-lo um dos maiores mestres da ficção nacional. Dumas até propusera sua candidatura para a Academia. Mas foi em vão e o escritor apenas sorria quando recebia as cartas de leitores americanos endereçadas a "Jules Verne, da Academia Francesa", como um gentil reforço à sua imagem.

Outros contemporâneos do escritor, como Emile Zola, Théophile Gautier e Alphonse Daudet, não deixavam de reconhecer o aspecto pedagógico de seus romances, o caráter documental e enciclopédico das Voyages Extraordinaires (MARGOT, 2004). Além da dimensão profética e utópica quanto ao futuro das invenções científicas, os romances de Jules Verne conquistavam um lugar moral na educação dos jovens. Robin (1988) enfatiza que, em Jules Verne, as maravilhas das fadas foram substituídas pela maravilha da ciência. Na companhia das Voyages, os leitores eram levados pela imaginação francesa do mundo colonial. As lições de geografia e história de diversas partes do universo podiam ser aproveitadas para a educação dos sentimentos e o controle das emoções face às diferenças. Tudo isso, resultando em uma recompensa ao público, que lia o exótico em proveito da instrução, completa Vivien de Saint-Martin. A eficácia moral e comercial dos livros de Jules Verne, desse modo, era medida pelas identificações e fantasias provocadas por heróis que corriam o mundo.

É provável que a posição verniana ― alto valor educativo e comercial da obra aliados a um baixo valor literário ― explique a ambivalência da representação social de um escritor com a aparência de professor de matemática. Ou mais provável, ainda, é que o escritor-professor tenha sido produzido por uma rede de representações sociais em mutação. Na França, o escritor-padre, cuja função era transmitir os corretivos morais do cristianismo, ia sendo substituído por um novo modelo do homem de letras, responsável pela difusão da moral científica, laica e republicana. A nova moralidade regulava a curiosidade dos leitores e se mostrava mais adequada aos estudos de Jules Verne.

Porém, o modo como o escritor era visto pelos outros não era o mesmo que a sua família o via. Um belo dia, um sobrinho por quem Verne nutria especial afeição foi visitá-lo em Amiens e, após lhe dirigir impropérios sem explicação aparente, disparou um tiro em sua perna esquerda, causando um ferida que jamais cicatrizaria e o deixaria em dificuldades para cruzar o Atlântico2. Tudo isso, explica o entrevistado a Robert Sherard, com o objetivo de chamar a atenção da candidatura do tio célebre a uma cadeira na Academia Francesa (COMPÈRE & MARGOT, 1998, p. 90).

A compreensão dos desequilíbrios de poder que orientavam as ligações sociais entre os escritores franceses, suas aspirações e frustações, conduz ao modelo das dependências recíprocas entre estabelecidos e outsiders (ELIAS, 2000). O que realmente conectava os homens de letras em figurações específicas eram os acordos e disputas travados nos trabalhos da escrita e comercialização dos livros. A posição social ocupada por eles convertia-se em experiências de vida, às vezes, dolorosas. Escritores que praticavam gêneros de larga difusão viviam na pele a experiência social da não equivalência entre o sucesso comercial e a legitimidade literária de suas obras. O que, em boa medida, pode ser atribuído ao projeto editorial que dava suporte às publicações e estabelecia um novo padrão de distinção literária. A literatura de viagem era erudita pela referência científica, mas classificada no rol dos livros populares devido à difusão ampliada e à satisfação das expectativas do grande público. Em poucos anos, obras no gênero, como o Robinson Crusoé, de Daniel DeFoe, Moby Dick, de Herman Melville, Voyage au centre de la terre, de Verne, se deslocariam em classificações eruditas e populares, compondo o panteão dos clássicos nas coleções de livros portáteis e em menores formatos. Os sucessos dos clássicos são prolongados nas edições de bolso, que atraem sucessivas gerações de leitores com preços acessíveis.

Na origem da ambivalência da posição social de Jules Verne, quando não de seu isolamento estratégico em Amiens, encontra-se o ousado projeto do editor Pierre-Jules Hetzel: publicar, na coleção Voyages Extraordinaires, a terra inteira como um romance, ambientando cada aventura em uma parte do planeta. É evidente que um escritor de coleção produzia seus livros em série e não mais corresponderia à figura romântica do gênio criador. O novo homem de letras, ao mesmo tempo célebre e anônimo, nada tinha a ver, na opinião de Amicis, com o padrão do escritor francês, mais próximo dos reis e imperadores, quando o assunto era atrair o público com suas intimidades.

Em 1863, quando saiu o primeiro livro da coleção, Cinq Semaines en Ballon, Jules Verne firmou um contrato jurídico com o editor, cuja principal exigência consistia em entregar, daí em diante, de três a dois volumes a cada ano, impondo um ritmo acelerado de trabalho e a fidelidade a um único gênero (COMPÉRE, 1991). O projeto da coleção fundava-se nos princípios da educação e recreação moral, por isso, a exigência de Hetzel era clara: o conhecimento devia assumir forma literária e despertar o interesse dos leitores, divertindo-os. O conceito de recreação na literatura converte a escrita e a leitura em atividades miméticas, uma forma de recriação ficcional das emoções vividas nas situações da vida cotidiana. A literatura de recreação ativa a surpresa e a curiosidade, libera tensões, aguça o desejo por mais conhecimentos, fazendo, do texto, suporte desencadeador de um "descontrole controlado" (ELIAS, 1995). Para Compére (1991), os traços do contrato literário firmado com o editor podem ser recuperados no próprio texto verniano. Em vista disso, é importante indagar o modo como a literatura civiliza as emoções, quais sentimentos são mobilizados, os prazeres proporcionados e autocontroles ativados com as viagens e aventuras. Em suma, quais foram os efeitos psicossociais da fórmula editorial de Pierre-Jules Hetzel?

A epopeia moderna das Voyages Extraordinaires sintetiza um estágio do desenvolvimento da civilização das emoções. Na repartição geográfica dos títulos, o Brasil ocupa o lugar de um país americano do sul, junto à Argentina e à Venezuela3. Ou melhor, o Brasil consta no mapa das Voyages como um Império sul-americano.

Esse artigo propõe uma volta ao continente, a bordo de uma das viagens "americanas" de Jules Verne. O objetivo é acompanhar a psicogênese do Brasil na escrita e edição do romance La Jangada, huit cents lieues sur l'Amazone (1881). Interessa mostrar o modo como uma interpretação do Brasil civiliza os sentimentos dos jovens europeus em relação às diferenças postas por antigos espaços coloniais, construídos ficcionalmente em plena modernidade, ao mesmo tempo em que constrói categorias do exótico e se desenvolve no processo de expansão da edição francesa.

A dupla Hetzel-Verne não correria mundo sem o trabalho da família de livreiros Garnier, que servia de entreposto comercial e distribuidora dos clássicos juvenis para os países da América do Sul. Torna-se, também, necessário conhecer os vínculos entre as rotas internacionais do comércio de livraria e a produção de uma literatura de viagem ambientada nos países para onde migravam os livreiros. O que realmente favorecia o sucesso de Jules Verne e o conectava a leitores de países distantes era o desenvolvimento a pique do comércio transatlântico da livraria francesa, que exportava livros e conhecimentos para boa parte do mundo.

Uma sociologia dos processos de conhecimento, considerando o papel da literatura juvenil na regulação das emoções, requer a adoção de uma medida de tempo mais alargada e uma abordagem que considere o desenvolvimento da produção editorial em cadeias de ligações específicas. O ponto de vista adotado face aos romances indaga a teoria da civilização de Norbert Elias. A análise entrelaça uma interpretação das trajetórias da família Garnier, de Pierre-Jules Hetzel e Jules Verne à psicogênese do Brasil nos livros franceses de recreação. A troca de correspondência entre o editor e seu autor, a autobiografia de Jules Verne, bem como os catálogos comerciais da Livraria Garnier, trazem algumas importantes pistas de compreensão.

É digno de interesse o modo como a recriação ficcional da natureza, dos costumes e da história do nosso país contribuíram para a educação sentimental dos jovens europeus. Assim, pensar os vínculos e interdependências entre a literatura francesa e o universo temático brasileiro, invertendo as posições e descartando a referência a um colonialismo cultural de mão única da França para o Brasil, oferece um caminho para a investigação da circulação transatlântica dos livros e a internacionalização dos mercados editoriais no século XIX. Quem sabe, torne possível alguma renovação em sociologia da literatura.

 

Hetzel-Verne e Garnier, utopias em comum  

Je fais les yeux et vous fournissez les larmes
 De Jules Verne para Pierre-Jules Hetzel

Durante o século XIX, as mutações nas práticas de edição para a empresa capitalista conferem, ao trabalho literário, uma maior profissionalização. O investimento no valor comercial das coleções destinadas ao grande público, como as mulheres e as crianças, somado à exportação mundial, são os princípios do novo negócio do livro francês. Na edição juvenil, uma lógica da demanda social, limitada ao atendimento da exigência de textos de educação moral e religiosa pela Igreja ou as escolas, típica da Bibliothèque de la jeunesse chrétienne, foi sendo substituída por uma lógica da oferta, na qual uma nova geração de editores apostava na criação de mercados no interior da França, com a expansão da rede ferroviária, e mesmo fora da Europa, com a melhoria do transporte marítimo (MOLLIER, 1988)4. Esse novo modelo de negócios apoiava-se, evidentemente, nas grandes distribuições.

Na medida em que mudavam as regras da edição, deslocava-se a dinâmica interna dos romances rumo a uma contenção das emoções nas tramas vividas pelos personagens (no sentido de um refreamento dos afetos), afetando as modalidades de percepção dos leitores.

Com as proibições internalizadas por um longo processo de constituição do habitus, o novo leitor amante das viagens e aventuras experimentava a liberdade controlada de suas emoções. Ora, o problema do conhecimento de outros povos diz respeito aos modos de gestão dos afetos e ao equilíbrio entre atitudes de aproximação e distanciamento (ELIAS, 1998). Sob a lógica mais agressiva da criação de novos mercados, observa-se uma maior contenção dos impulsos agressivos frente a tudo o que fosse diferente e extraordinário. Nas narrativas de viagens, o horror à prática do canibalismo e aos ritos pagãos das tribos americanas ia sendo dominado e outras fantasias mobilizadas. A descrição de índios "bárbaros" e "selvagens" dos relatos dos missionários franceses Jean de Léry e André Thevet, protagonistas da França Antártica, fundada por Nicolas de Villegagnon, no Rio de Janeiro (1556 a 1558), dava lugar aos estudos das modernas "alteridades tropicais".

As viagens marítimas e a descoberta de novas terras, a exploração de um mundo povoado de nativos, frutas silvestres e animais selvagens, as descrições detalhadas de cronistas e cientistas e toda a vastidão da terra firme aguçou a imaginação europeia por muitos e muitos anos, a ponto de se tornar um dos temas mais em voga nas publicações infantis da França no século XIX. As principais editoras francesas, como a Mégard, de Rouen, a Mame, de Tours e a Eugene Ardant, de Limoges, destacavam-se pelas coleções de livros com todas as variações do tema viagens. A catequese empreendida pelos colonizadores, com a conversão de índios e negros, era o ponto forte de muitos enredos. Mas o sucesso das edições leva a crer que os leitores europeus nutriam uma curiosidade, quando não uma predileção, pela a vida, costumes e pensamento dos habitantes do Novo Mundo. Leitores da Europa e da América apreciavam as aventuras de personagens que se lançavam em direção aos povos coloniais, lobos do mar corajosos, cientistas frios e um elenco de heróis senhores de si, como o Capitão Nemo, Michel Strogoff, Phileas Fogg e Joan Garral, protagonista de La Jangada.

Tudo leva a crer que as empresas de edição buscavam as mesmas rotas descritas nas narrativas de viagem. Em muitas delas, o Brasil figurava como tema. A produção das ideias podia ter como epicentro a Europa, mas o que definia asua geografia era a circulação internacional das obras, que costumavam atravessar oceanos com a maior desenvoltura e traçar verdadeiros mapas de interdependências nacionais. Os trajetos eram acidentados, os resultados incertos e as trocas culturais entre as nações literárias um pouco difíceis para os momentos iniciais de um projeto expansionista de edição. 

As bibliotecas de educação e recreação moral incluíam títulos que se destacavam pelas interpretações das comunidades de colonos portugueses, de índios e negros brasileiros, oferecendo, inicialmente, uma forma de instrução fundamentada nos ritos da conversão, do batismo e do matrimônio e que, por isso, não representava perigo aos dogmas da fé, nem à formação do jovem cristão. Da boa safra de brasilianas, destacam-se quatro livros nos gêneros "romance moral histórico" e "viagens e aventuras". Publicados no curso do século, ilustram a passagem do velho regime editorial, dependente da censura dos comitês eclesiásticos de leitura, para o novo regime mais afinado ao progresso científico, ao pensamento liberal e a audácia de uma geração de editores de mentalidade e vocação conquistadora, que apostava no circuito de exportação e em redes de atuação internacionais. São eles: L'Univers en Miniature ou Les Voyages du Petit André sans sortir de sa chambre, publicado em Paris, por Desirée Eymery, em 1836; Émigrants au Brésil, de Amélie Schoppe, uma tradução do original alemão publicada em sucessivas edições pelos livreiros Mégard e Mame, a partir de 1838; Les Portugais D'Amérique. Souvenirs Historique De La Guerre Du Brésil En 1635, da escritora bretã Julie Nicolase Delafaye-Bréhier, publicado pela editora Lehuby, em 1848; e o romance de Verne La Jangada – Huit cents lieus sur l'Amazone, de 1881, publicado pela editora Hetzel. Todos esses livros constam nos catálogos da livraria carioca de Baptiste-Louis Garnier, a partir de 1858, embora somente La Jangada tenha sido traduzida no mesmo ano do lançamento na França e, até hoje, trilhe uma carreira editorial em português.

Sendo assim, um passo decisivo no sentido de uma maior sublimação afetiva na literatura juvenil foi dado pelo incremento da circulação transatlântica dos livros e pela velocidade com que as ideias atravessavam a Europa, atingindo culturas nacionais em formação, como a brasileira. Por esse motivo, a livraria francesa escolheu se instalar definitivamente na corte do Rio de Janeiro, no meado do século XIX.

De acordo com o documento intitulado Portraits de Libraires, les Frères Garnier, publicado por uma corporação de livreiros franceses, em 19135, Baptiste-Louis, o mais novo dos quatro irmãos que partiram da Normandia para seguir carreira no comércio de livros em Paris, havia compreendido que a América Latina, em franco desenvolvimento cultural, necessitava de "livros franceses e de boas traduções em espanhol". Decidiu, então, vir para o Brasil e se especializar no negócio do livro importado. Uma vez estabelecido, investiu nas traduções de autores consagrados e obras clássicas, na publicação de almanaques, além das edições próprias de ciência, livros escolares e literatura brasileira. Mas quem, perguntavam os livreiros parisienses, à época se arriscaria a empreender negócio semelhante?

Tudo começou quando Auguste-Désiré Garnier desembarcou em Paris, em 1824, deixando para trás a rotina na fazenda da Baixa-Normandia, em uma pequena cidade chamada Lingreville. A família Garnier era de origem humilde, o pai trabalhava como açougueiro, percorria a região da Mancha vendendo carne salgada. Os primeiros passos de Auguste na carreira de livreiro foram dados no gabinete de leitura de Saint-Jorre, um compatriota monarquista e especializado na venda de livros antigos. François Hippolyte, o segundo irmão a chegar em Paris, fez escola na livraria de Henri Delaroque, situada no boulevar des Capucines, perto do Ministério das Relações Exteriores. A vizinhança acabou determinando a clientela. A loja de Delaroque passou a ser conhecida como a "librairie du Ministère des Affaires Etrangères", o que sugere o aprendizado e a motivação de Hippolyte para o investimento no comércio de exportação de livros. Não por mera coincidência, o terceiro irmão a vir da Normandia, Pierre-Auguste, debutou na livraria estrangeira de Truchy. Em 1837, Hippolyte e Auguste decidem abrir o próprio negócio, uma livrara com o nome da família no Palais-Royal6.

Em 24 de junho de 1844, Bartiste-Louis Garnier chega ao Rio de Janeiro. O irmão mais novo abre uma loja no número 69 da Rua do Ouvidor. O programa editorial da Garnier para a América Latina diz muito sobre a organização da circulação dos livros e, principlamente, sobre o que se transferia da França para o Brasil. Considerando uma dinâmica social fundada na tradição ibérica, católica e patriarcal, os livros que Hippolyte e Auguste enviavam da matriz para a loja carioca, os editados com selo próprio ou negociados com outras casas para a venda no Brasil, formavam um acervo de obras cristãs, piedosas e moralistas, dicionários em várias línguas, uma vasta e atualizada imprensa de viagem, romances de aventuras e clássicos da literatura adulta e juvenil7. Também compunham o fundo da livraria brochuras obscenas e estampas pornográficas. Em Paris, Pierre-Auguste se tornara especialista no ramo. O erotismo e as práticas devotas tocavam um seleto leitorado – uma "comunidade de almas latina" –, que, certamente, de há muito conhecia e esperava por esses livros. Márcia Abreu (2003), nos diz do quanto os cariocas letrados apreciavam as leituras de livros importados. Com a abertura dos portos, levas de estrangeiros, adultos e crianças, passaram a residir no Brasil e a se constituir em público leitor dos clássicos ingleses, franceses e espanhóis. Mesmo com a fiscalização exercida pelo Desembargo do Passo, entre os anos de 1808 e 1826, era expressiva a presenaça de livros importados no Rio de Janeiro.

Para as crianças, a autora cita, entre outros, o opúsculo de Arnaud Berquin, L'amie des enfants e o romance Les aventures de Télémaque, de Fénelon (ABREU, 2003, p. 124). Ambos tiveram sucessivas reedições em português.

O destino de muitos outros livros e tesouros impressos que entraram no Brasil esteve, sobretudo, ligado à longa viagem da biblioteca dos reis portugueses, estudada por Lília Moritz Schwarcz (2002). Depois de vencer três duríssimas provações naturais na Lisboa de 1755, o tremor, o fogo e o maremoto, passar por uma reconstrução levada a cabo pelo ministro Pombal e por tantas mesas censórias e disputas políticas que tiravam de circulação livros particulares, para depois os redistribuir pelas coleções reais, enfim, a Real Biblioteca, ou uma parte dela, chega ao Brasil na companhia da monarquia portuguesa, em 1808 (SCHWARCZ, 2006). Após o desembarque e a instalação da corte não cessaram as remessas de livros vindos da Europa para enriquecer a biblioteca. O destino dos livros e impressos da Real Biblioteca, no entanto, foi o de ultrapassar os domínios da realeza, disseminar ideias, contagiar os leitores e contribuir para a construção da independência política e autonomia de pensamento no país.

Nos domínios do livro juvenil, uma relação duradoura se estabelece entre a França e o Brasil. A livraria francesa contribui com a formação do incipiente mercado editorial brasileiro, exportando obras de seu vasto patrimônio literário e o Brasil com um universo temático para a literatura juvenil francesa, composto de episódios históricos, costumes, uma natureza exuberante e tudo o que oferecesse novidades, coubesse nas convenções do gênero e satisfizesse as expectativas dos leitores. Além das brasilianas importadas para a juventude, destacam-se, nas coleções de clássicos juvenis franceses da livraria de Baptiste-Louis, as traduções e adaptações da escritora russo-francesa Sophie de Ségur, a condessa de Ségur, publicada por Louis Hachette na Bibliothèque de Chemin de Fer, os clássicos Contos de Fadas, de Perraut, os Contos do Cônego Schmid, as Fábulas, de La Fontaine, as Viagens de Gulliver, de Swift, e a série das Voyages Extraordinaires, fruto de um percurso a dois trilhado por Verne e Hetzel, o autor e seu editor8.

Pierre-Jules Hetzel foi um homem ligado às inovações de seu tempo. Para o biógrafo Jean-Paul Gourévitch (2005), ele marca o início da moderna edição juvenil na França. Com a publicação das revistas ilustradas Nouveau magasin des enfants, do Magasin d'Éducation et de Recréation, das obras de grande formato destinadas às crianças menores, os Albums de Stahl de Mademoiselle Lili, sob o pseudônimo de P-J Stahl, e da Bibliothèque d'Éducation et de Récréation, da qual faziam parte as Voyages Extraordinaires, de Jules Verne, Hetzel reinventou um conceito já consagrado delivro juvenil. Desde finais do século XVIII, o gênero definia-se no par instrução-diversão ou educação-recreação, incentivando a pesquisa por mais conhecimentos e, ao mesmo tempo, estimulando a leitura livre. O conteúdo moral do livro recreativo devia agir nas disposições íntimas dos leitores, moderando suas emoções. Hetzel inovou propondo um novo par, a ciência-ficção.

Para ele, tinha chegado a hora das descobertas e utopias científicas entrarem para o livro de viagem e aventura. Em 1867, escreve a seguinte advertência aos leitores das Aventures du capitaine Hatteras, de Verne: "il faut bien se dire que l'art pour l'art ne suffit plus à notre époque, et que l'heure est venue où la science a sa place dans le domaine de la littérature" (PAUMIER, 2008, p. 66). O novo par ciência-ficção oferecia aos leitores uma moral viril e a fé nos conhecimentos positivos (VENAYRE, 2006), surtindo efeitos tão ou mais duradouros que os áridos manuais escolares. As condições sociais eram favoráveis ao projeto do editor, que coincidia com os .vanços na alfabetização e as conquistas pedagógicas da Terceira República. As virtudes em ação propagadas por heróis que corriam o mundo, catequizando e convertendo nos livros cristãos, já não satisfaziam as expectativas dos jovens e, muito menos, agradavam as famílias e escolas. A vez de Hetzel, o responsável pelos grandes sucessos nos domínios da vulgarização científica, tinha chegado. O segredo de sua fórmula consistia em apropriar-se das ideias dos cientistas para aproveitá-las em aventuras divertidas, cujo principal objetivo era a transmissão de conhecimentos enciclopédicos e universais. Aproveitando-se da "febre violenta por curiosodades geográficas", nas palavras de Jean-Marie Embs e Philippe Mellot (2006, p. 161), e com a ajuda das narrativas de cientistas naturais que percorriam o planeta, Verne e seu editor inventam futuros possíveis e improváveis, as chamadas antecipações científicas.

As situações imaginárias nas atividades recreativas imitam a vida real, provocando "estados de ânimo diferentes e contrapostos, medos e prazeres, tristezas e alegrias, dor e júbilo, agitação e relaxamento" (ELIAS, 1996, p. 57). Nisso consiste o caráter mimético da literatura. Os leitores têm a ilusão de estarem protegidos dos perigos e ameaças reais que "pesam sobre a existência humana". Um jovem apaixonado por geografia, na pele dos heróis viajantes, dá voltas ao mapa-múndi em barcos a vela, sobe ao céu em balões, explora ilhas desertas, vai do centro da terra ao fundo da mar, até naufraga sem correr riscos. O estado de excitação ativado pelas peripécias dispensa ao leitor a experiência real da aventura. Quando muito, as expectativas e entusiasmos o levam a um "descontrole controlado".

De uma família protestante, Pierre-Jules Hetzel nasceu em 1814, na cidade de Chartres. Depois de cursar a faculdade de Direito, o primeiro emprego em Paris foi na livraria de Paulin, de quem se tornara sócio em 1837 e, em pouco tempo, patrão. Sua estreia como editor aconteceu com o livro Scènes de la vie privée et publique des animaux, uma paródia dos costumes, no qual colaborou uma equipe formada por nomes célebres como Stendhal (com texto póstumo), Eugène Sue, Théophile Gautier, entre outros amigos escritores. A teia de relações em torno de Hetzel não era pequena. Ele se impôs como editor com a Comédie humaine, de Balzac, publicada em associação a outros dois colegas, Furne e Dubochet. Para a coleção que levava o seu nome, a Collection Hetzel in-32, assinou contrato com Victor Hugo, Alexandre Dumas e George Sand. A experiência inicial de Hetzel é marcada pela escolha de autores românticos empenhados na descrição dos costumes parisienses e provincianos. Mas o editor é emblemático da irrupção dos novos homens fortes no mundo do livro, os quais, de acordo com Jean-Ives Mollier (1988), na medida em que suas funções se especializavam, substituíam uma lógica econômica da demanda social por uma moderna lógica da oferta, em resposta às expectativas do novo público alfabetizado. É nesse movimento que acontecem as grandes apostas e a criação de novos mercados. Não se pode perder de vista que, em decorrência das reformas na educação – a mais importante delas levada a cabo pelo ministro Guizot, em 1833 – e de um processo de alfabetização sem retorno, enfatiza Mollier, os franceses já não se contentavam em restringir suas leituras aos manuais escolares e passavam a buscar os livros das mais variadas coleções.

Após o golpe de Estado de dezembro de 1851, que conduziu Napoleão III ao poder, as ideias republicanas do editor levaram-no a oito anos de exílio entre a Suíça e a Bélgica. Em 1862, já de retorno a Paris, Hetzel recebe de Alexandre Dumas o manuscrito de um autor de teatro desconhecido, Jules Verne. Recusada por outros editores, a narrativa de uma aventura na África chamava-se Le voyage dans l'air. A empatia entre o editor e o autor foi imediata, embora o estilo relaxado de Verne não tenha agradado Hetzel. A opinião pública, no entanto, parecia favorável e de há muito formada, viagens aéreas estavam na moda, convinha publicar Le voyage dans l'air, porém com um título mais comercial Cinq semaines em ballon. A partir daí, o editor exerce a sua função, enquanto o escritor cumpre as obrigações do contrato. Hetzel intervém nos textos enviados pelo amigo, corrigindo-os por inteiro, sugerindo títulos e personagens, cortando passagens e capítulos que julgasse inadequados. O editor também propunha a Verne a colaboração de intelectuais de prestígio das sociedades de ciência de Paris, com o objetivo de fundamentar e agregar legitimidade às informações utilizadas nas obras. Além do mais, lembra Gourévitch (2005, p. 214), Hetzel viu, em Jules Verne, o colaborador científico ideal para o Magasin. Ainda em 1851, o jornal de viagem Musée des familles traz um estudo de Verne dedicado à América Latina, Un drame au Méxique. Les premiers navires de la marine mexicaine e, em 1852, a novela L'Amerique du Sud. Moeurs péruviennes. Martin Paz, nouvelle historique. Ou seja, até mesmo antes dos romances propriamente ditos, o escritor deu a palavra aos viajantes e exploradores da América do Sul, na trilogia Histoire des grands voyages et des grands voyageurs, publicadaentre 1878 e 1880.

O Magasin d'Éducation et de Recréation, cujo subtítulo já dizia ao que vinha – Journal de toute la famille –  pretendia ser uma Revue des Deux Mondes da juventude, o difusor de uma cultura literária e científica para toda a família. Sob o olhar censor dos pais, o Magasin recriava as práticas de comunhão da leitura em voz alta. Essa linha editorial conferia legitimidade ao periódico, abrindo as portas das escolas para a editora. Hetzel contava com uma experiente equipe de redatores e ilustradores. Além de Verne, destacam-se Jean Macé e os desenhistas L. Benett e Gustave Doré. O Magasin cumpria, ainda, a função de suporte das pré-edições dos romances da Bibliothèque d'Éducation et de Récréation. Outra estratégia do editor era a publicação antecipada em folhetins, no modelo de pré-edições, do que viria a compor a série das 62 Voyages Extraordinaires.

Jules Verne também foi um homem ligado às inovações de seu tempo. Filho de um advogado, Pierre Verne, e de Sophie Allotte de la Füye, uma descendente da velha nobreza, nasceu na ilha Feydeau, em Nantes, no dia 8 de fevereiro de 1828. Na autobiografia intitulada Souvenirs D'enfance et De Jeunesse (1995), recorda a infância passada à beira do rio Loire, apreciando os navios que o atravessavam em meio ao "mouvement maritime d'une ville de commerce, point de dépar et d'arrivée de nombreux voyages au long cours" (VERNE, 1995, p. 95). O primeiro contato com a América do Sul veio na voz de um tio, um velho marinheiro, que narrava a ele e ao irmão Paul as viagens à Caracas e à Porto-Gabello, "Nous l'appelions Oncle Prudent et ce en son souvenir que j'ai ainsi nommé l'un des personnages de Robur le Conquérant. Mais Caracas, c'était en Amérique qui me fascinait déjà" (1995, p. 98).

A família Verne passava as férias de verão na casa de campo de Chantenay, situada no lado direito do rio. Aos olhos da criança de dez anos, o Loire era o mais importante rio da França, embora não pudesse ser comparado aos continentais rios americanos, o Mississipi, o Hudson e o Amazonas. O desejo de navegar devorava o pequeno Jules, aos doze anos ele ainda não conhecia o mar, mas compreendia as manobras e perigos da navegação marítima com a leitura dos livros de Fenimore Cooper, do Robinson Suisso, de Wyss, e do clássico Robinson Crusoé. Verne acabou assimilando as disposições do herói de Daniel Defoe, que "s'incarnait en ma personne". Um dia, ele e Paul obtiveram permissão dos pais para conhecer o mar, foi uma emoção provar a água salgada. Adulto, comprou um iate, o Saint-Michel, navegou pelo Mediterrâneo, atravessou o Atlântico, conheceu os Estados Unidos da América, passou oito dias em Nova Yorque, viu o Hudson e contemplou as cataratas do Niágara, sempre tomando anotações em seu diário de bordo. Numa feita, Verne fez uma visita a seu editor português, David Corazzi, que o publicava na Biblioteca das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos. Talvez o tiro na perna o tenha impedido de vir  ao Brasil. E, tampouco, sensibilizou a Academia Francesa.

Jules Verne desposou Honorine, uma jovem viúva mãe de dois filhos, aos quais se juntou Michel, fruto do casal. Em 1866, a família decide morar em Crotoy, na Picardia e, em 1871, se instala definitivamente em Amiens, "si je vivais à Paris, j'aurais écrit dix romans de moins" (GOURÉVITCH, 2005, p. 218), até a morte do escritor, em 1905.

Foi somente aos 34 anos que Verne encontrou Hetzel e iniciou a carreira de escritor. A partir daí, vieram os sucessos da série das Voyages – Voyage au centre de la terre (1864), De la terre a la lune (1865), Les enfants du Capitaine Grant (1865-1867), Vingt mille lieus sous les mers (1869-1870), Autour de la lune (1869), entre outras – cujo objetivo era a descrição da vida natural e social nos cinco continentes, partindo, em 1863, e chegando, em 1905, à África. Nas palavras do escritor: "peindre la terre entière, le monde entier, sous la forme du roman, en imaginant des aventures spéciales à chaque pays, en créant des personnages spéciaux"9.

Vamos, então, ao Brasil com Jules Verne? Lá, encontraremos a natureza relacionada ao homem, exotismo e beleza na transmissão do conhecimento.

 

Psicogênese do Brasil em La Jangada

Moi, je finis l'annèe comme d'habitude, le nez sur le papier et la plume à la main. Je l'ai commencée aux Indes avec la Maison à vapeur, je la termine au Brésil avec la Jangada.
De Jules Verne para Pierre-Jules Hetzel

O romance sul-americano de Jules Verne aproxima as diferenças entre os costumes e a natureza dos países do continente e os modelos de compreensão dos europeus. O novo livro de recreação científica inventado por Hetzel visava tanto à psicogênese dos jovens franceses, por meio de uma abertura social e psíquica ao conhecimento das alteridades, como à conquista de um novo público de leitores nas Américas. De acordo com os objetivos da leitura doméstica da coleção, o homem americano – índios domesticados, negros e brancos mestiços – é construído pelas aventuras e experiências científicas. Portanto, as narrativas deveriam soar familiares e contribuir para a integração social e psíquica de leitores dos dois continentes. O que sugere o recurso ficcional, típico da obra verniana, aos personagens de identidades fronteiriças, entre selvagens e civilizados, e às misturas étnicas que forjam boas relações entre o colonizador e o nativo.

A assimilação e amenização das diferenças na literatura de viagem não é uma simples questão de dominação e submissão cultural, mas antes um processo de aquisição de autodomínio em direção a um maior controle e, com o passar do tempo, a uma emancipação das emoções. Esse processo, que faz da ficção juvenil suporte das regras sociais e, por conseguinte, da formação de uma segunda natureza, desenvolve-se no sentido de uma maior informalização, nas tramas das narrativas, dos códigos de comportamentos e sentimentos, dando lugar ao que Cas Wouters (2007) entende como sociogênese de uma terceira natureza. Como as Voyages sintetizam uma etapa da civilização das emoções, nelas, um novo princípio de autorregulação passa a conectar brasileiros e europeus. Além do mais, a apologia da ciência e o caráter antecipatório da ficção de Jules Verne sintonizam-se às forças e impulsos sociais em jogo na dinâmica cultural francesa. Essas forças ou tendências de civilização pressionavam o presente, indicando algumas possibilidades de sentido para o futuro (ELIAS, 1998). O processo de racionalização do mundo natural alterava o equilíbrio entre os controles externos e internos aos indivíduos. Por isso, é muito importante a figura do cientista no universo verniano, como o Professor Lidenbrock, mineralogista e embaixador da Rússia, que decifra o segredo do centro da terra, difundindo um modelo do conhecimento fundado nas classificações rigorosas, procedimento da ciência positiva de Auguste Comte. Um pacto amoroso de leitura com os heróis cientistas podia levar os jovens franceses a fazerem suas leituras ao avesso. Ao invés de sentirem medo e repulsa, se encantarem com as descrições dos homens, plantas e animais "selvagens" do Novo Mundo, como se estivessem em um museu de história natural vendo tudo com os próprios olhos.

As construções literárias de Jules Verne foram muito bem documentadas em estudos de cientistas e exploradores. O projeto das Voyages acabou contribuindo para a divulgação do pensamento social e científico francês sobre a América do Sul. Por esse motivo, é necessário investigar as fontes reunidas e utilizadas por Verne.  Não faltavam fontes de trabalho e inspiração para a dupla Verne-Hetzel. O sucesso dos livros das viagens ao Brasil dos já citados Jean de Léry e André Thévet, bem como das viagens modernas, entre as mais conhecidas as de Auguste de Saint-Hilaire, Ferdinand Denis e Louis Agassiz, era emblemático da onda romântica das edições "novomundistas". Sem perder de vista as viagens sul-americanas de Alexander von Humbold e Élisée Reclus, Jules Verne frequentemente faz menção aos cientistas que realizaram expedições ao rio Amazonas dos quais se valeu para a composição de La Jangada. O escritor era amigo do célebre explorador Jacques Arago, além de membro, por trinta e quatro anos, da Société de Géographie de Paris, partilhando o convívio e a amizade de eminentes cientistas, como Vivien de Saint-Martin. Era durante as reuniões da Société de Géographie, que Verne lia os primeiros capítulos de seus romances (PAUMIER, 2008). Nas aventuras sul-americanas, são muitas as referências às explorações de Orellana, no século XVI, do português Pedro Texeira, entre 1636 e 1637, de Alexandre Humboldt e Louis Agassiz, no século XIX.

Mas, é na leitura da correspondência trocada entre Verne e Hetzel que se torna clara a enorme e decisiva influência do editor no trabalho de criação e pesquisa do escritor. Lendo atenciosamente as cartas, conhecemos todo o processo de composição dos romances ambientados em países nos quais Verne ou Hetzel jamais pisariam os pés. Em La Jangada, Gabriel Marcel (1843-1909), geógrafo e chefe do Département Géographique da Bibliothéque Nationale de France, ajudou o escritor na procura de documentos sobre a história e a geografia do Brasil. Antes de La Jangada, Verne e Marcel já tinham trabalhado juntos no livro l'Histoire générale des grands voyages et des grands voyageurs. Marcel redigiu, para o escritor, algumas obras que ficaram em estado de provas: Les vieux continents, l'Ancien monde et Le nouveau monde. O geógrafo desempenhava a função de secretário de Verne, "preparador de provas", um revisor dos textos que comporiam a coleção Voyages Extraordinaires.

Na correspondência que acompanhou a escrita de La Jangada, Hetzel mostrava-se bastante preocupado em garantir uma "economia de tempo" ao trabalho literário de Verne. De que serviria, perguntava o editor, "abrir lacunas" na produção do romancista com uma demorada investigação sobre a geografia e a história de países da América do Sul, estando Verne já tão ocupado com o processo de criação de suas tramas? Hetzel considerava mais pragmático dividir o trabalho de composição do romance, combinando a escrita propriamente ficcional à pesquisa cientifica. É o que se lê na carta do editor enviada ao seu autor no dia 10 de agosto de 1881: "Cella n'ébréchera rien de vos travaux habituels. Grace à cette combinaison, en un mot vous pourriez ne pas stopper sur le principal, ne pas faire de lacune dans votre production générale. Pensez-y bien" (DUMAS,  2002, p. 114). No ano da pesquisa de La Jangada, 1880, Verne estava igualmente ocupado com a redação de Un capitaine de quinze ans. Certamente que as preocupações de Hetzel com o tempo para a escrita diziam respeito ao cumprimento de uma das clausulas do contrato: a de publicar, no mínimo, de três a dois romances a cada ano. Uma importante recomendação bibliográfica de Hetzel para La Jangada aparece na mesma carta: "Il a paru en Alemagne em 1874 un grand livre in-4 intitulé Amazone et Madeira. Petit récit du Voyage de Rio de Janeiro jusqu'aux chutes de Madeira". Como nem Verne e muito menos Macel sabiam ler o livro de Kröner Stuttgard em alemão, Hetzel providenciou uma tradução para consulta.

Assim, todo o quinto capítulo do romance La Jangada, intitulado O Amazonas, é consagrado a uma descrição do rio. Ou melhor, a uma aula sobre o sistema hidrográfico do Amazonas. Sobressai um narrador humboldiano que afirma as influências do meio físico sobre o caráter dos brasileiros, referindo-se aos personagens como "filhos do Amazonas". Nesse capítulo, o narrador evoca o professor Agassiz e outros exploradores que, até então, tinham descido e subido o curso do rio, desde o Abade Durand, Orellana, Texeira Coelho, La Condamine, Humboldt e Bonpland, até os contemporâneos Franz Keller-Linzenger, engenheiro brasileiro, e o Dr. Crevaux.

Cabe observar que os viajantes estrangeiros levavam do Brasil numerosas coleções de história natural, relatos de observações geológicas, zoológicas, botânicas e antropológicas, mas também lembranças e impressões pessoais com detalhes pitorescos de suas aventuras. Lorelay Kury (2001, p. 164) observa que, por exemplo, em Agassiz (1975), que realizou uma expedição ao Brasil na companhia da esposa Elizabeth, entre 1865 e 1866, a Amazônia foi cenário de coletas para a zoologia criacionista, mas também funcionou como palco de observação sobre o que o naturalista considerava a inferioridade das raças e o perigo da mestiçagem. Para os autores de um estudo crítico intitulado Verne et Agassiz, publicado no Bulletin De La Société Jules Verne, de 1973, a primeira tradução francesa do livro de Agassiz, Voyage au Brésil, de 1872, está na origem de La Jangada. Se o título do romance não foi retirado do relato de Agassiz, ao menos Jules Verne fez uma apropriação do cenário onde se desenrola a intriga de Joan Garral e sua família, argumentam os redatores do Bulletin.

La Jangada foi publicada em pré-edição, como folhetim no Magasin d'Éducation et de Recréation, entre janeiro e dezembro de 1881. Sua edição definitiva em dois volumes para a Bibliothèque d'Éducation et de Récréation saiu em dezembro do mesmo ano, acompanhada de dois mapas em preto e branco, intitulados Cours de L'Amazone10. Foi traduzido no Brasil pela Livraria de Baptiste-Louis Garnier, também em 1881, conhecendo outra edição em Portugal, pela casa de David Corazzi. A partir daí, o interesse pelo romance foi tanto que, em 1858, é adaptado para o cinema mexicano por Emílio Gomez Muriel, traduzido como Ochocientas mil leguas por el Amazonas.

O gosto de Verne pelo jogo de palavras e pelas mensagens secretas, atenta Olivier Dumas (1998), é o motivo da escolha de abrir La Jangada com um criptograma, que só será decifrado quarenta capítulos após. Toda a ação do romance repousa sobre o segredo da mensagem, que inocenta o protagonista da acusação do roubo de um diamante11. La Jangada pode ser lida como uma viagem de aventura e estudo pela selva sul-americana. Os protagonistas, que configuram uma grande família colonial de parentes e agregados, composta por portugueses e espanhóis, por negros alforriados e índios trabalhadores, sob a proteção do patriarca Joan Garral, partem de uma fazenda situada no povoado de Iquitos, no Peru, e descobrem a Amazônia brasileira a bordo de uma jangada. De início, o objetivo da viagem é o casamento da filha Minha, em Belém do Pará, com Manuel, um médico militar e colega de estudos de seu irmão, Benito.

Com o desenrolar da trama, recheada de aulas de geografia dos Andes até o Oceano Atlântico e com aventuras de conhecimento pelas Províncias ribeirinhas do Império brasileiro, torna-se claro o real motivo da viagem: a revisão de uma sentença que condenara o protagonista Joan Garral que, na verdade, se chamava João Da Costa, à morte, pela acusação do roubo de uma carga de diamantes vinte e três anos antes.

Partindo da selva peruana até o oceano Atlântico, o trajeto perfaz oitocentas léguas, mais exatamente quatro meses de deslocamento. A viagem acompanha o curso do rio Amazonas, representado como um mar de águas e elo entre o Peru e o Brasil. Em certas passagens, o romance mais parece uma aula de geografia, noutras, assume ares de uma grande aventura, com personagens enfrentando jacarés, cobras elétricas em mergulhos ao fundo do rio e temíveis macacos nas florestas, ou maravilhando-se com as descobertas de pássaros raros, densas árvores e flores selvagens. Aí, chegamos aos modelos culturais disseminados e aos leitores previstos por Verne. O convívio com várias formas de apropriação e com a previsão de vários leitores – aqueles que esperavam, do livro, alguma instrução e os que buscavam apenas entretenimento ou, ainda, leituras que combinavam aprendizado com diversão – é indício de diferenciação cultural no interior de uma mesma sociedade.

O nó da intriga de La Jangada encontrava-se no documento cifrado que continha a declaração da inocência do patriarca Garral e de cuja posse o aventureiro Torres, um capitão do mato mestiço e semibárbaro ou quase selvagem, usava como instrumento de chantagem. Torres, personagem apresentado a Benito e Manuel ainda na fazenda de Iquitos, acabara embarcando na jangada. Daí, o que era convívio pacífico e ordenado entre as três raças – chefes de família luso-brasileiros, bravos índios e africanos fiéis, os empregados pessoais – torna-se conflito aberto. O equilíbrio de tensões nessa família de viajantes untada por laços de gratidão é rompido justo pelo elemento que representa a mistura das raças, levando a crer que Verne não demonstrava muita simpatia à ideia da mestiçagem, associando-a ao desequilíbrio social e ao estado de selvageria. Talvez a mestiçagem aguçasse o medo primitivo e, até, um sentimento íntimo de aversão na contida alma da juventude europeia.

O personagem Torres situava-se próximo à animalidade, sua profissão de capitão do mato, caçador de escravos, denunciava-o face aos princípios do liberalismo e, em consequência, das pressões pela abolição da escravidão no Brasil, que tanto provocara os debates na Europa da segunda metade do século XIX. Afinal, a jangada era como uma ilha artificial no estilo Robinson Crusoé, toda feita pelas "próprias mãos" dos personagens. O único horizonte era o rio Amazonas. O perigo que Torres representava aos viajantes só se comparava a um ataque de jacarés ou a uma insurreição de negros ou índios evadidos.

Verne considera o paradigma da raça superior o homem americano do norte: corajoso, forte, instruído e de senso prático. A América livre, tão exaltada nas Voyages Extraordinaires, torna-se sinônimo de energia, audácia e realismo. Desse modo, define seus heróis americanos do sul em relação aos americanos do norte, estabelecendo apreciações e classificações sentimentais num jogo de autoimagens do "nós" e do "eles".

Interessante, nesse sentido, é o modo como o narrador configura sociologicamente a jangada. A comunidade de viajantes divide-se em estratos sociais bem demarcados, quanto mais próximos fisicamente, maior o abismo social entre eles, num típico convívio colonial entre patrões e empregados. No centro do "comboio flutuante", havia uma casa grande finamente decorada e coberta com flores e folhagens. Para os personagens, a casa lembrava um pedaço da fazenda de Iquitos. Em volta, havia um pequeno povoado de malocas – as casas abertas dos índios – e de cabanas dos negros, estas fechadas como as da Europa, lembrando as casas mais habituais entre os leitores.

O romance de aventura de Jules Verne põe em movimento modelos de civilidade e barbárie, polidez e selvageria. Esses modelos podem ser assimilados por meio de um pacto de identificação e reconhecimento entre as intenções do autor e as categorias de compreensão e julgamento do mundo nas apropriações dos leitores. O que faz a distinção marca o estilo de Verne é a simultaneidade de diferenciação e aproximação entre as culturas. Com isso, a leitura possibilita o exercício da autorregulação individual e o aprendizado da diferenciação das funções sociais na teia que enreda os personagens.

De acordo com Michel Riaudel (1992), Verne tinha em mente apresentar ao público de jovens franceses "o contexto político, a missão pedagógica e a força do imaginário" brasileiro. A primeira pista fica por conta do encontro de Jules Verne, na França, com Gaston D'Orleans, o Conde D'Eu, e sua mulher, a princesa Isabel, herdeira do Imperador Pedro II. Gostaria de observar que o Duque de Montpensier, filho da casa de Orleans, também participou desse encontro. O que sugere, além do parentesco franco-brasileiro, um elo cultural entre as duas casas reais. A princesa, que apreciava os livros do autor, em 1888 assinou a Lei Áurea. O romance, então, seria uma cortesia diplomática com casa imperial brasileira. Para Riaudel (1992, p. 6), Verne mostra-se benevolente com uma questão política controversa: "a abertura do rio à navegação internacional e o traçado da fronteira que separava a Guiana Francesa do Brasil". Essa última questão mobilizou os debates em torno de quem melhor poderia civilizar os índios do Amazonas, se os patrões portugueses e brasileiros ou os missionários franceses. Vejamos essa passagem de La Jangada:

Contudo, o fato mais considerável, honra seja feita ao governo brasileiro, foi o seguinte: no dia 31 de julho de 1857, depois de inúmeras contestações de fronteira entre a França e o Brasil sobre o limite da Guiana, o curso do Amazonas, declarado livre, foi aberto a todas as bandeiras e, para por a prática no nível da teoria, o Brasil assinou um tratado com os países limítrofes para a exploração de todas as vias fluviais da bacia do Amazonas. (2003, p. 59)

O segundo ponto que pode ter aproximado Verne do Brasil ficava por conta de seu otimismo em relação ao credo positivista da ordem e do progresso e, o que é outra marca de distinção de sua obra, o entusiasmo que nutria pela difusão da ciência. Daí, a profusão, na trama de informações geográficas, botânicas, zoológicas e culturais.

Para além da trama, o que se poderia ensinar e aprender com a leitura de La Jangada? Os costumes, os dias e as noites nos trópicos? A geografia e a vida social nas cidades, povoados e missões banhadas pelo Amazonas? O contato com uma selvageria tipicamente brasileira construída em plena modernidade? A hidrografia do Brasil? A consciência europeia de outras normalidades e pactos de civilização? Ou tudo isso junto e mais as relações sociais que são como o rio e correm à deriva, com brancos, negros e índios, patrões e empregados, convivendo a bordo da casa flutuante?

Interessava ao autor diminuir as diferenças entre os universos culturais de seus leitores, aproximando os jovens franceses dos brasileiros. O narrador não cansa de lembrar a mansidão dos índios ribeirinhos do Brasil e de toda a América Central: "os índios que habitavam as margens pertenciam a tribos pacíficas, e os mais ferozes já se haviam retirado com a chegada da civilização, que foi se espalhando ao longo do rio e de seus afluentes". Verne faz uma clara distinção entre os personagens "senhores de si" – homens e mulheres que demonstram autocontrole nas situações extremas, dos quais exalta a razão e o sangue-frio – e pessoas meio bárbaras que são escravizadas pelos instintos e que cometem excessos, os "deixados levar", ainda que uns dependam dos outros.              

É por demais interessante a invenção do Brasil em Jules Verne. A antiga colônia não é tão somente vinculada à Portugal. Em La jangada, o espaço nacional brasileiro é construído, antes de tudo, pela situação geográfica e as afinidades e comparações são estabelecidas entre o Brasil e o Peru. Nos romances Le Superbe Orénoque (1898) e Le Phare du bout du monde (1905), Verne liga o Brasil à Venezuela e à Argentina. Embora o autor cruzasse informações lidas nas narrativas dos viajantes, nem sempre exatas, e cometesse muitos erros de datas – estratégia de independência e conquista de autonomia em relação às intervenções de Hetzel? –, acabou construindo uma autêntica ficção de invenção do Brasil.

 

Conclusões

Os best-selleres de Jules Verne não foram simples livros de temporada e muito menos tiveram vida curta. Os livreiros-editores Baptiste-Louis Garnier e Hetzel foram ainda mais longe. Guiados por um cosmopolitismo das viagens, realizaram suas utopias comuns, voltando-se à compreensão psicogenética dos povos e leitores de além-mar. No momento em que a produção editorial francesa incorporava as inovações técnicas, adotava os princípios da racionalidade econômica e da divisão do trabalho e se expandia pelo mundo, organizava-se na literatura francesa uma escrita sobre as descobertas e conquistas coloniais, incluindo os livros de viagens para a juventude que tinham a América do Sul e o Brasil como temas. Sendo assim, a apropriação literária de nosso país posicionava-o, de algum modo, na República Mundial das Letras, conferindo conhecimento e reconhecimento à sua cultura e história na formação da juventude europeia. No mesmo processo editorial, toma corpo a produção de um exotismo tropical na imprensa francesa de viagem. Jornais como Musée de Familles, Le Magasin Pittoresque, Journal de Voyages e Le Tour du Monde, este último publicado pela Librairie de Louis Hachette, atraem e satisfazem as expectativas do grande público com relatos e ficções de viagens ao Brasil. Entram em cena autores como Louis Boussenard e Paul d'Ivoi. Com a virada do século XIX para o XX, o Brasil é incluído no gênero Guides pour les voyageurs. Suas diferenças são apresentadas aos novos viajantes-turistas de forma bastante atraente, articulando a simples curiosidade ao desejo de conhecimento.

Marcada pela intenção de tocar a alma latina, as rotas comerciais dos livreiros franceses se entrecruzaram à história da recepção dos clássicos juvenis no Brasil. Se toda leitura opera identificações, quem sabe os brasileiros passassem a se ver como as imagens populares dos cientistas, capitães, piratas e exploradores vernianos, prolongando os efeitos, ainda hoje, eficazes do projeto Hetzel.

Na França, a utilidade social do trabalho de Jules Verne foi indiretamente reconhecida, em 1872, com uma distinção da Academia Francesa à coleção Voyages Extraordinaires e à Bibliothèque d'Éducation et de Récréation, de Pierre-Jules Hetzel, por sua trés belle édition populaire illustrée. No mesmo ano, Verne é eleito para a Academia de Amiens, realizando o desejo de imortalidade na Província. Outras normas de reconhecimento entravam em jogo com a literatura voltada para o entretenimento, as grandes tiragens e a tendência sem freios de globalização da cultura. Em 1902, o filme de Geoges Méliès, Le voyagedans la lune, mesmo que fortemente inspirado no romance de Wells, não deixa de buscar referências em De la terre à la lune. Logo as Voyages Extraordinaires entrariam para a televisão. A complexa e audaz posição verniana encontrava-se em pleno desenvolvimento e jamais poderia ser apreendida por meio das simplificações que opõem os gêneros erudito e popular de escrita e edição.

 

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Recebido: 20.07.2012
Aprovado: 19.08.2012

 

 

*   Este artigo resulta do estágio pós-doutoral que realizei no Centre D'Histoire Culturelle des Sociétés Contemporaines, na Université de Versailles – Saint Quentin en Yvelines, sob a orientação do professor Jean-Yves Mollier, durante o primeiro semestre de 2009, com bolsa CAPES. Consultei a documentação relativa a Jules Verne no Fonds Jules Verne da Bibliothêque Municipale de Nantes, na cidade de Nantes, no Fonds Jules Verne do Centre International Maison Musée Jules Verne, na cidade de Amiens, e na Bibliothèque National de France, em Paris. No momento, desenvolvo pesquisa vinculada ao projeto de cooperação internacional "A circulação transatlântica dos impressos - a globalização da cultura no século XIX", coordenado por Márcia Abreu, do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, e Jean-Yves Mollier, aos quais sou grata.
1. Essa entrevista foi realizada no outono de 1893 e publicada com o título "Jules Verne at home. His own account of his life and work", no MacClure's Magazine, em 1894 e, hoje, está publicada em Compère e Margot, 1998, p. 89-97.
2. O acidente aconteceu em 1878. A bala nunca foi retirada e o sobrinho de Verne foi parar em um hospício.
3. Há outros romances de Verne ambientados em países da América do Sul: Les Enfants du Capitaine Grant. Première Partie, Amérique du Sud, Le Chancellor, Le Superbe Orénoque, Les Naufragés du Jonathan e Le Phare du Bout du Monde.
4. O exemplo é Louis Hachette e suas coleções de livros populares vendidos nas estações de trem de Paris – a Bibliothèque de Chemin de Fer ou Bibliothèques de Gare, que causaram forte impacto no mercado europeu com a inauguração de um novo sistema de vendas.
5. Esse documento contém uma parte do Boletim da Association Amicale Profissionelle Des Commis-Libraires Français, uma corporação de livreiros da França do século XIX.
6. Sobre a livraria Garnier, consultar: A. B. Leão. "Universos da devoção, sabedoria e moral – as Bibliotecas Juvenis Garnier (1858 – 1920)". In: Educação em Revista, n. 1 – Belo Horizonte: FaE/UFMG, n. 43, jun. 2006.
7. Examinei o Catalogue de la Librairie de B. L. Garnier, 1858, de N. 12 – Histoire, biographie, souvenirs, mémoires, chroniques, anecdotes, géographie, voyages, descriptions.
8. Interessante notar as instruções aos clientes de observância do selo da Livraria Garnier como garantia de autenticidade das obras importadas e traduzidas.
9. Citado em Souvenirs D'enfance et De Jeunesse, 1995, p. 93.
10. São por demais contraditórias as informações sobre o dia e mês da primeira tiragem em livro de La Jangada. Talvez em função da "querela" entre Verne e Hetzel em torno da publicação, no final do segundo tomo, da narrativa de Paul Verne, irmão de Jules Verne. De acordo com Piero Gondolo Della Riva, La Jangada foi anunciada na Bibliografia da França, no dia 6 de agosto de 1881, e posta à venda no dia 20 de junho de 1881. No segundo volume é que vem o texto do Paul Verne, De Rotterdam a Copenhague a Bord du Yacht a Vapeur "Saint-Michel", e foi posto à venda no dia 10 de novembro de 1881. A primeira tiragem da edição in-8 saiu no dia 17 de novembro de 1881. Trabalhei com a data fornecida por Embs e Merllot, 2005.
11. Os estudiosos de Jules Verne atribuem esse recurso à leitura e influência de Edgar Alan Poe na obra do autor.

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