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Sociedade e Estado

Print version ISSN 0102-6992

Soc. estado. vol.29 no.2 Brasília May/Aug. 2014

https://doi.org/10.1590/S0102-69922014000200016 

RESENHA

 

En diálogo. Metodologías horizontales en ciencias sociales y culturales

 

 

Natalia CabanillasI; Ana Gretel Echazú BöschemeierII

Idoutoranda PGSOL - UnB. <nataliacabanillas@gmail.com>
IIDoutoranda PPGAS/DAN - UnB. <gretigre@gmail.com>

 

 

(BERKIN, Sarah Corona; KALTMEIER, Olaf (Orgs.). Barcelona: Gedisa, 2012)

Poderíamos dizer que, no âmbito das correntes mais influentes e transformadoras das últimas décadas nas ciências sociais e humanas, estão os estudos pós-coloniais. A estreita ligação do eurocentrismo com a materialidade do imperialismo e seu caráter cultural (Said, 1979), a desconstrução dos paradigmas do conhecimento ocidental (Spivak, 2010) e a crítica mordaz ao feminismo branco enquanto produtor de sentidos colonialistas para as mulheres do Terceiro Mundo (Mohanty, 1983) são alguns dos diversos projetos de conhecimento que abriram novos olhares, sustentos teóricos e perspectivas sobre o mundo que habitamos e, porventura, pesquisamos. Desde a América Latina também se desenvolveram caminhos similares, com foco para a face colonial da modernidade (Dusell, 1979), a persistência de aspectos coloniais do poder (Quijano, 2000), do saber (Mignolo, 2006) e da ergopolítica na produção de conhecimento (Grosfoguel, 2009).

Assim, abriram-se portas teóricas abrangentes e, por que não dizê-lo, deslumbrantes. As teorias foram sendo construídas com a finalidade de encontrar um sentido às informações obtidas nas pesquisas e valiosos insights foram, nesses processos, levantados. Não obstante, é pouco o que tem sido sistematizado a respeito dos caminhos metodológicos que podem dar uma força viva a teoria pós-colonial na produção de conhecimento no Terceiro Mundo. O texto aqui resenhado vem preencher esse vazio. Produto de encontros provenientes do seminário Métodos horizontales en los dos lados del Atlántico, da Universidad Intercultural de Chiapas, foi publicado em espanhol no ano 2012 pela Editorial Gedisa o livro En diálogo. Metodologías horizontales en ciencias sociales y culturales, coordenado por Sarah Corona Berkin e Olaf Kaltmeier, dando um passo além das formulações teóricas de tipo macro e inicia um lúcido debate sobre os desdobramentos práticos possíveis do chamado post colonial turn.

No prólogo, a compiladora e o compilador propõem-nos a entrada em um universo de diversas reflexões epistemológicas e metodológicas como caminhos possíveis para uma produção de conhecimento dirigida à horizontalidade desde o compromisso político e ético que aquilo supõe.

O restante do livro é composto por mais uma introdução e nove capítulos divididos em três seções correspondentes a três momentos diferenciados da pesquisa social: o lugar da enunciação, o diálogo na situação do campo e, finalmente, a escrita. A primeira seção, titulada "En diálogo, los nombres del proceso", possui dois capítulos. O primeiro, escrito por Olaf Kaltmeier, reflete sobre os pontos de partida epistemológicos e os pressupostos desde onde os diálogos iniciam-se e desenvolvem-se no trabalho de campo. O autor propõe, a partir de seu trabalho com comunidades indígenas e camponesas do Equador, a reflexividade baseada em um modelo dinâmico de relações - ou de constelações dos atores envolvidos, como ele poeticamente sugere - , assumindo a pesquisa como ato político situado em uma história previamente "partida", marcada por características coloniais do poder, mas passível de confrontá-lo segundo diversas estratégias. Dentre essas, Kaltmeier apresenta o início de uma proposta de debate a respeito da não privatização dos direitos intelectuais. O segundo artigo, escrito por Mario Rufer, é uma reflexão situada a partir de registros críticos de uma pesquisa realizada na localidade de Quilino, Córdoba, Argentina. Inspirado em uma série de sempre desafiadores diálogos com o líder comunitário Don Efrén Cabrera, Rufer analisa a palavra do outro desde seu posicionamento estratégico frente a ele como pesquisador, conforme os lugares de enunciação previamente investidos de poder, quando cada voz é proferida e auscultada.

A segunda parte - "En diálogo: conflicto y reciprocidade en el campo" - apresenta quatro opções metodológicas concretas que procuram a horizontalidade no trabalho de campo e na pesquisa. No capítulo 3, Sarah Berkin sinaliza a possibilidade de construir condições de igualdade que permitam desenvolver novos olhares sobre a interação intercultural. Ao dar início a uma experiência coletiva de uso de câmeras fotográficas para jovens indígenas rurais em uma viagem para a cidade, Berkin delineia formas de "pesquisa mutua", onde é possível um intercâmbio do papel de pesquisador/a pesquisada/o no processo de produção de conhecimento: a produção de um olhar das/os jovens indígenas sobre as/os "mestiças/os urbanas/os". A juventude Wixárica1 se inicia em um diálogo que, ainda sem ser, em sentido estrito, uma conversa entre iguais, se dá na construção proposital e "artefactual" de condições de igualdade; e onde o objetivo não é o de produzir conhecimento sobre o outro, mas compreender a relação de encontro intercultural, possibilitando novas formas de expressão sobre dito encontro. A cultura da/o pesquisador/a está sob uma lente particular, sendo analisada e observada: ela deve ser exposta, explicada, aberta aos olhares alheios. Assim, a pesquisa se produz no compromisso político de dialogar, e essas entre vozes têm por resultado um texto polifônico e vivamente criativo. No capítulo 4, Elizabeth Tuider destaca a presença das vozes das/os outras/os na escrita, a partir de entrevistas com mulheres maquiladoras migrantes na fronteira norte do México. Tuider traz questionamentos radicais na própria concepção moderna e colonial de um processo de trabalho de campo dialógico seguido por outro, de escrita monológica no lugar de pertencimento da/o pesquisador/a, ordenados em sequência evolutiva. Ela propõe que os depoimentos biográficos não sejam reinterpretados depois do campo, portanto, que as citações textuais sejam costuradas a partir de mínimas explicações necessárias, apontando para a necessidade de favorecer uma entidade explicativa mais autônoma das narrações das mulheres entrevistadas. No capítulo 5, Yvonne Riaño reapropria-se da metáfora do mutirão como forma de trabalho coletivo típico da época do Inkanato, e aplica essa iniciativa a grupos de mulheres profissionais migrantes na Suíça, obtendo como resultado uma pesquisa-ação participativa com o objetivo de construir ações cooperativas vinculadas à inserção laboral das mulheres migrantes no país de acolhida. Já no capítulo 6, Mailsa Pinto Passos y Rita Ribes Pereira centram-se na produção de conhecimento no encontro com um grupo de crianças, com idade entre quatro e onze anos, no Rio de Janeiro, com as quais realizaram uma pesquisa sobre o impacto das novas tecnologias nas experiências de infância. Destaca-se a reflexão que essas autoras fazem sobre a amizade como condição propiciadora de encontros e cumplicidades na produção de conhecimentos.

Por fim, a terceira parte, denominada "En diálogos: descubrir la voz del otro y la propia", apresenta-nos o processo de escrita como um contínuo com sucessivas traduções culturais e de registros de linguagem. Assim o demonstra o capítulo 7, escrito por María del Carmen de La Peza Casares, no qual a intervenção da/o pesquisador/a apresenta-se como fundamental para que o discurso acadêmico seja inteligível. De La Peza Casares exemplifica os momentos do processo de tradução entre diferentes públicos intervenientes a partir da crônica jornalística que relata o enterro de um jovem assassinado em Ciudad Juárez, no México. Já o capítulo 8, apresentado por Rebecca Pérez Daniel, problematiza a questão da autoria nas pesquisas interculturais a partir da experiência "Entre voces", projeto educativo que vincula professoras/es de comunidades indígenas Wixárica e "mestiças/os urbanas/os" mexicanas/os. Um exemplo de leitura na contramão dos arquivos históricos para a escrita de outra história é apresentado no capítulo 9, escrito por Christian Büschgues. Ele trabalha com documentos produzidos na serra do Peru durante os séculos XVIII e XIX, identificando a referência a sujeitos históricos tais como "índios", "cidadãos" e "peruanos" como construtos coloniais que são também apropriados pelos atores subalternos com finalidades de estratégias de identificação e negociação do pertencimento.

Como eixo comum que permeia o livro inteiro, as/os autoras/es propõem a análise do lugar do diálogo na pesquisa, quando o mesmo acontece numa estrutura de poder que antecede os sujeitos envolvidos; propõem maneiras de alcançar o intercâmbio comunicativo onde a voz da/o pesquisador/a não é a única audível, nem no campo, nem na escrita. As contribuições que formam esse caleidoscópico texto sugerem levar a sério as assimetrias de poder durante o processo de produção de conhecimento, tentando com diversas estratégias de ação e discursivas diminuir o impacto das mesmas. Dentro dessa tarefa, que valorizamos como extremamente difícil, podemos observar que se encontram no livro possibilidades ampliadas de resolução, baseadas nas trajetórias acadêmicas de cada um/a das/os autoras/es: exemplos práticos, análises de situações de campo e resoluções de dilemas para pensar e agir desde o lugar de quem não está disposto a ser parte da empresa colonial, e ao mesmo tempo, dedica-se em fazer aquilo que chamamos de "ciência".

Longe das visões românticas ou inocentes sobre as/os outras/os às quais nos acostumaram os relatos da modernidade, há uma ênfase das/os autoras/es em realizar um exercício sincero e profundo sobre as possibilidades reais de atingir alguma forma de relação sem exploração entre pesquisador/a e pesquisadas/os. Elas/os partem de problemas práticos com os quais se confrontaram durante ou após o trabalho de campo; de resoluções ensaiadas e articuladas com sujeitas/os específicas/os. Pistas, traços, desenhos, criatividade ao serviço de textos heterogêneos, sem soluções mágicas, mas que se apresentam como um conjunto de ferramentas úteis para pensar, crescer e pesquisar dentro de uma ética política pós-colonial.

Em tempos de aguda incerteza sobre as possibilidades que a ciência tem de tornar viável o próprio ato de conhecer, e nos quais o estatuto da representação encontra-se tão questionado, o livro apresenta-se como espaço repleto de provocações, convites e trânsitos "sem garantias" para continuar fazendo pesquisa sem abdicar de convicções éticas e políticas em prol de "formas de viver melhor" dentro da diferença. A criatividade ao serviço da metodologia propõe formas diversas de estabelecer e sustentar os diálogos, assumindo, desde o início, os possíveis conflitos no campo, focando análises de discursos, contemplando o exercício de escrita não só como forma de tradução, mas também como privilégio e meio de apropriação d/o outra/o. Ainda se admitirmos o fato de que não é possível fugir da grade das relações de poder, há, nos textos mencionados, uma procura ativa em não permitir que assimetrias se cristalizem nas relações de exploração ou de dominação.

"A voz mediada, emprestada ou roubada só permite conhecer uma verdade mediada, emprestada ou roubada" (Berkin & Kalteimer, p.109; tradução nossa). É interessante salientar que o livro não oferece, nem pretende fazê-lo, uma listagem de soluções preestabelecidas ou conclusivas. Nenhuma das propostas metodológicas apresenta-se desprovida de seus limites, de suas contradições, ambiguidades e dificuldades. Todas trabalham à beira dos dilemas da modernidade, com uma orientação política e ética sólida que tem o pano de fundo da discussão pós-colonial como guia. Nesse processo muito mais amplo de "descolonização espiritual e superação dos traumas coloniais" (Berkin & Kalteimer, p. 29, tradução nossa), esses textos não pretendem dar respostas categóricas, apenas salientar pontos críticos para os quais a vigilância epistemológica e ética deve ser constituída com rigor. Fiéis aos princípios teóricos que representam, não fornecem uma metodologia para se chegar, mas metodologias plurais para abrir caminhos guiados, de maneira muito prática, pela utopia.

Por fim, é de se destacar que o livro propõe a desconstrução dos microprocessos de pesquisa que fazem da produção de conhecimento um procedimento meramente extrativo. Os resultados da pesquisa e a interação no campo não seriam os únicos elementos que fazem parte da configuração deste diálogo horizontal. A horizontalidade vai de mãos dadas com a definição conjunta dos objetivos da pesquisa, seus instrumentos e seleção dos conceitos chaves, as possibilidades de controlar os sentidos dos discursos científicos sobre si mesmos, a escrita a duas mãos e mesmo a coautoria. O texto tem como virtude máxima não esgotar sua contribuição na crítica profunda das formas de produzir e circular dos saberes sob a chancela ocidental: propõe alternativas reais de trabalho, afastando-se assim dos modelos de perfeição teórica, tão facilmente adquiríveis e, ao mesmo tempo, tão facilmente descartáveis. O que nos é oferecido no "En diálogos..." é uma variedade de experiências de pesquisa que não são automaticamente extrapoláveis, mas de cuja "horizontalidade como horizonte" há muito que ensinar.

 

Referências

GROSFOGUEL, Ramon. Para descolonizar os estudos de economia e os estudos pós-coloniais: transmodernidade, pensamento de fronteira e colonialidade global. In: SOUSA SANTOS, B. de; MENESES, M. P. (Orgs.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009.

MIGNOLO, D. Walter. Os esplendores e as misérias da "ciência": colonialidade, geopolítica do conhecimento e pluriversalidade epistémica. In SOUSA SANTOS, Boaventura de (Org.). Conhecimento prudente para uma vida decente. Um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo: Cortez, 2006.

MOHANTY, Chandra Talpade. Bajo los ojos de Occidente, revisitado: la solidaridad feminista a través de las luchas anticapitalistas. In: SUÁREZ NAVAZ, L.; HERNÁNDEZ, R. A. (Orgs.). Descolonizar el feminismo: teorías y prácticas desde los márgenes. Madrid: Cátedra, 2008.

QUIJANO, Anibal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In: LANDER, Edgardo (Comp.). "La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales". Perspectivas Latinoamericanas. Jul. 2000, Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (Clacso).

SAID, Edward W. Orientalismo. O oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1979.         [ Links ]

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Crítica de la razón poscolonial. Hacia una crítica del presente evanescente. Madrid: Akal, 2010.         [ Links ]

 

 

1. Povo originário da serra norte de Jalisco, no México. A comunidade que vivencia essa experiência encontra-se localizada próximo à cidade de Guadalajara.

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