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Sociedade e Estado

versão impressa ISSN 0102-6992versão On-line ISSN 1980-5462

Soc. estado. vol.32 no.1 Brasília jan./abr. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/s0102-69922017.3201001 

Editorial

Editorial

Lourdes M. Bandeira* 

Ana Cristina Murta Collares* 

Joaze Bernardino-Costa* 

* Docentes do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília


Temos o prazer de apresentar aos leitores da revista Sociedade e Estado a primeira edição de 2017. Este será o primeiro número inteiramente on-line da Sociedade e Estado, que, a partir desta edição, não contará mais com sua versão impressa. O volume traz uma interessante coleção de artigos de temas variados, discutindo desde os mitos relacionados à imagem de Eva Perón, na Argentina, às disputas entre os imperativos morais e estratégicos no enquadramento interpretativo dos movimentos sociais, tomando por base os ativistas de direitos dos animais. Aliada à diversidade de assuntos tratados, deparamo-nos com a abrangência temática e metodológica que faz jus à tradição de pluralidade da revista.

Nessa perspectiva, três dos artigos presentes nesse número trabalham temas relacionados às relações de trabalho. No primeiro artigo, Adalberto Cardoso e Julián Gindin discutem o movimento sindical na Argentina e no Brasil entre 2002 e 2014, argumentando que este se fortaleceu sob a égide dos governos do PT no Brasil e de Kirchner na Argentina. Os autores salientam também a importância da articulação com o movimento sindical para o fortalecimento de ambos os governos e, por fim, que o novo contexto econômico, político e social dos dois países provocou mudanças nessa articulação. Já no segundo artigo mencionado - "A função do dinheiro: uma análise das estratégias dos mediadores em um sistema de crédito cooperativo" -, Jandir Pauli e Cinara Rosenfield analisam as relações entre agricultores e dirigentes de cooperativas de crédito que envolvem transações financeiras com recursos disponibilizados por programas governamentais. A conclusão, baseada em perspectivas teóricas específicas, é de que esses dirigentes, como mediadores, operam fortalecendo as relações sociais nas quais essas transações se baseiam, a partir de estratégias de "negociação da intimidade", que transformam a confiança e a amizade em vínculos institucionais. Finalmente, ainda nessa linha, o artigo de Jacob Carlos Lima e Daniela Ribeiro de Oliveira - "Trabalhadores digitais: as novas ocupações no trabalho informacional" - discute as transformações nas relações de trabalho dos trabalhadores da indústria da informática, os chamados "trabalhadores digitais".

Dois outros artigos trabalham a questão da influência do poder simbólico e da identidade nas relações sociais e políticas. O artigo de Karina Elizabeth Vázquez - "Ni rara, ni extraordinaria: política y corporalidad en Eva Perón" -, como indica o próprio título, trabalha os dois mitos relacionados à imagem de Eva Perón, o "mito negro" e o "mito branco". O primeiro aquele da arrivista social manipuladora, e o segundo o da madona dedicada à luta por justiça social. Vázquez discute como ambos os mitos são manipulados em termos de linguagem e imagens a ponto de converter ou substituir a realidade história pela ficção. Já o artigo de Michel Nicolau Netto - "A hierarquização simbólica do Brasil na Copa do Mundo" - mostra uma faceta pouco discutida das disputas em torno da possibilidade de o Brasil sediar a Copa do Mundo ocorridas entre 2013 e 2014: a promoção da imagem do país no exterior. Netto apresenta o resultado dessa disputa como uma hierarquização das marcas e imagens de promoção que se relacionava muito mais com as grandes empresas relacionadas ao evento do que propriamente a uma imagem do Estado-nação brasileiro.

Na perspectiva dos direitos políticos e sociais, Cristina Almeida Cunha Filgueiras e Léa Guimarães Souki abordam no artigo "Individualização da incerteza: direito condicionado e ativação da proteção social" os componentes políticos de reformas recentes dos sistemas de proteção social, com foco nas políticas relacionadas ao trabalho, e suas consequências para a cidadania. Na visão das autoras, essas reformas estariam conduzindo a uma "(re)individualização dos riscos e das incertezas", a uma "erosão do status social", que seriam resultantes do "questionamento à titularidade de direito e da adoção do direito condicionado" (p. 89). Ainda nessa linha, Matheus Mazzilli Pereira e Marcelo Kunrath Silva, em "O dilema do enquadramento interpretativo: o caso das interações entre o movimento dos direitos animais e a grande mídia", trabalham as organizações de direitos animais para compreender e propor novas abordagens para o chamado "dilema interpretativo" dos movimentos sociais, que trata do equilíbrio e da tensão entre os imperativos morais e os imperativos estratégicos desses movimentos.

Ainda na perspectiva das relações entre o Estado e os direitos sociais, está o artigo de Leno Francisco Danner, "Estado, política e evolução social: uma tendência para este século XXI". Danner propõe que, desde o final do século passado, estamos assistindo a um fortalecimento do Estado e de seu poder compensatório e regulatório, ou seja, há uma tendência de reforço de uma cultura pública de defesa dos direitos sociais. Nessa perspectiva otimista da evolução do Estado moderno, a política é vista como o elemento fundamental de transformações sociais nas sociedades democráticas.

Por fim, ao tratar especificamente da desigualdade social no topo da distribuição de renda, e inserir nesse tema os enfoques importantes de gênero e raça, o artigo de Emerson Rocha - Riqueza e status entre mulheres negras no Brasil - aborda a participação das mulheres negras no topo da distribuição de renda no Brasil, ou seja, entre os 1% mais ricos da sociedade. Com uma análise bem abrangente, Rocha estima a contribuição das desvantagens cumulativas, como, por exemplo, a desigualdade de oportunidades educacionais, a remuneração discriminatória e as dinâmicas matrimoniais, para explicar a baixa participação desse grupo entre os ricos brasileiros, além de indicar a influência direta da condição racial na composição desse quadro.

Além das tradicionais resenhas de teses e dissertações defendidas no período por estudantes do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Departamento de Sociologia da UnB, o presente volume acrescenta duas resenhas de obras atuais e bastante relevantes para a teoria sociológica, os livros Trente ans après La distinction (2013), de Pierre Bourdieu, e The tragedy of great power politics (2014), de John J. Mearheimer.

A edição on-line conta com a vantagem de apresentar imagens, tabelas e gráficos em cores, o que muitas vezes é altamente relevante para a compreensão da mensagem passada pelas mesmas, tal como no artigo de Michel Nicolau Netto presente neste número. Esperamos ter composto, com essa diversidade de artigos e temáticas, um número que alcance o interesse de grande número de leitores da comunidade acadêmica.

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