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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.19 no.1 Porto Alegre Jan./Apr. 2007

https://doi.org/10.1590/S0102-71822007000100006 

Sujeitos no sumidouro: a experiência de criação e resistência do Jornal Boca de Rua1

 

Subjects in the gutter: the experience of creation and resistance of the Jornal Boca de Rua

 

 

Danichi Hausen MizoguchiI; Luis Artur CostaII; Manoel Luce MadeiraIII

IUniversidade Federal Fluminense, Niterói
IIUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre
IIIJornal Boca de Rua

 

 


RESUMO

Este texto versa sobre o Jornal Boca de Rua, periódico confeccionado por moradores de rua da cidade de Porto Alegre. Procura-se nele relacionar a posição subversiva destes moradores de rua com a lógica do capitalismo contemporâneo em três instâncias – espaço urbano, mídia e consumo –, trabalhando seus detalhes, implicações, ambivalências e comentando seus resultados parciais. A resistência espacial é tida como a própria maneira do morador de rua habitar a urbe – seja como morador, seja como vendedor –, ou seja, a reinvenção dos desvalidos vãos da cidade. A resistência midiática, por sua vez, é caracterizada pela construção de um meio de dispersão alternativo ao mass-mídia, possibilitando a um grupo emitir palavras e imagens sobre si e fazê-las agenciáveis em circuitos antes não alcançados. A resistência do consumo, por fim, dá-se na possibilidade do deslocamento da posição de pedinte para a de prestador de serviço, o que, em última análise, possibilita outros modos de inserção do morador de rua nas tramas da sociedade atual.

Palavras-chave: Jornal Boca de Rua; moradores de rua; Psicologia Social; cidade contemporânea; resistência.


ABSTRACT

This text is about Jornal Boca de Rua, a periodical made by homeless people of Porto Alegre. Its aim is to establish a relation between the subversive position of these people and the logic of contemporary capitalism in three different ways – urban space, media and consumption –, working on the details, implications, ambiguities and commenting on the partial results. Spatial resistance is seen as a way the homeless inhabit the city, either as an inhabitant or as a salesperson, which means reinventing valueless empty spaces of the city. Media resistance is characterized by the construction of an alternative diffusive medium from that of mass-media, giving the opportunity for this group to publish their works and placing them in spaces never imagined before. Consumption resistance, finally, becomes possible when the homeless render services instead of begging, offering other ways for them to be included in the web of contemporary society.

Keywords: homeless; Jornal Boca de Rua; contemporary city; resistance; media.


 

 

Mesmo o relógio pavado está certo duas vezes ao dia (Epígrafe do primeiro jornal publicado pelo Boca de Rua, 2000).

 

Instantes

O álcool castiga-lhe o freio. José vem dirigido seu carro quase que como em fuga pelas madrugadoras ruas de Porto Alegre. Volta pra casa, já que erra em um mero útil dia, inusual para tão tarde e extasiada vigília. Ocupa-lhe a boa notícia que recebera em seu emprego enquanto o sol ainda cumpria seu mais recente expediente. Porém, como um cotidiano pássaro que passa, lembra-se que deve estar acordado em três horas. Atravessa o sinal vermelho, e quase alçando vôo percorre o dorso do viaduto que o leva para a avenida cortada pelo arroio Dilúvio. Tão inóspito e fugaz à superfície, há algumas horas o viaduto, remendo da cidade, abriga um homem em seu vão. Com a carne amolecida pelo odor inebriante da anestesia cotidiana, no sono da cidade dorme o rapaz; sabe-se lá que medos e desejos obram seus sonhos. Pouco antes das seis horas, o caminhão de lixo passa, recolhendo os detritos ensacados depositados nas calçadas. Ruidoso, acaba por acordar aquele que sob a marquise dormia.

É manhã. Há cidadãos que vazam de residências e se encaminham à labuta. Há carros que zunem, buzinam e somem. Há transeuntes apressados, sem tempo sequer para o cordato bom dia ao porteiro. Há ônibus lotados. Para todos os lados, fluem fluxos de trabalhadores. Indefectíveis em sua determinação, todos hão de chegar. Seguindo por mero acaso a mesma rota, dois amigos se encontram na sinaleira: "Por favor telefona, eu preciso beber alguma coisa rapidamente. Pra semana prometo, talvez, nos vejamos, quem sabe".2 Ali mesmo onde todos aqueles passam, o mesmo rapaz que há horas atrás dormia sob o viaduto prepara o café da manhã. Meio pão dormido, dois goles do galão de água. Postos os pratos no chão, o chão está posto. A mesa de então é a cama de momentos atrás: um naco de papelão, já desgastado por sonos e refeições. Engolido o desjejum, caminhando, vai trabalhar.

Naquela sinaleira onde os trabalhadores apressados se encontraram e concluíram que precisam se ver por aí, o rapaz vende jornais. Tablóides trimestrais, escritos por ele mesmo e seus colegas, todos moradores de rua. Ali onde muitos passam, o rapaz dorme e come. Ali onde muitos passam, o rapaz também trabalha. No sumidouro da rua, ele estanca e se faz sujeito.

Parado, esperando que o sinal feche, está o rapaz vendendo o produto do seu trabalho – é o Jornal Boca de Rua. Ele faz parte do grupo de aproximadamente 50 pessoas que vivem visceralmente as ruas e se encontram toda a semana para criar os textos, as fotos, as reportagens do Jornal publicado trimestralmente e que, em 2006, completa seis anos de existência. Aproveitando o estancamento do fluxo de veículos, o momento em que os motoristas, por um instante, param, o sujeito tenta fazer vistos o viver urbano e suas histórias.

Sujeitos no Sumidouro

Em A história da loucura, Michel Foucault estuda os princípios mestres da Nau dos Loucos – embarcação européia do século XV que carregava aqueles que se opunham à saúde da moral urbana. Desde já, há de se ressaltar que os ditos loucos que nomeiam a Nau, não são somente aqueles que atualmente habitam os hospitais psiquiátricos. A internação, aliás, tem fundada sua idéia em dar fim "ao desemprego ou, pelo menos, a mendicância e a ociosidade" (Foucault, 1972, p. 64). Os loucos da Nau, portanto, eram indivíduos alvo de uma ação policial que almejava alijar da cidade seus homens improdutivos – mendigos, dementes, miseráveis. O barco navegava pelos rios recolhendo o homem secretado pelos muros da cidade, tornando-o "prisioneiro da passagem" (Foucault, p. 12): homem que está sempre numa via de acesso à urbe, mas cuja entrada é barrada. Destino do homem ocioso teorizado no século XVI por Montaigne, no ensaio Da ociosidade: "Sem objetivo preciso, a alma se tresmalha, pois, como se diz, é não estar em nenhum lugar, estar em toda parte" (Montaigne, 1987, p. 118).

Idos tempos – mas não idas idéias. Os rios transbordaram, invadiram a cidade moderna e são chamados de ruas, avenidas, perimetrais, mantendo um ideal de passagem. Richard Sennet afirma que as descobertas sobre a circulação do sangue de William Harvey alteraram "as expectativas dos planos urbanísticos de todo o mundo no século XVIII" (Sennet, 2003, p. 214).

Construtores e reformadores passaram a dar maior ênfase a tudo que facilitasse a liberdade do trânsito das pessoas, imaginando uma cidade de artérias e veias contínuas, através das quais os habitantes pudessem se transportar tais quais hemácias e leucócitos no plasma saudável (Sennet, 2003, p. 214).

A rua, portanto, é líquida, e na cidade contemporânea vê agravada sua fugacidade. Deste modo, o mendigo que outrora navegava na Nau dos Loucos, hoje é, sobremaneira, carcerário errante – porém urbano. Foucault afirma que o homem da embarcação "é colocado no interior do exterior, e inversamente" (op. cit., 2003, p. 12), e sua premissa se mantém válida: o morador do rio–rua é o prisioneiro da passagem, homem que não tem a chave de entrada aos lugares telhados.

A ampulheta do tempo disparou: das passadas de ritmo delimitado pela potência do corpo humano até as infovias, muito se acelerou. Desde quando o sistema fez-se de tal forma que Benjamin Franklin podia afirmar, sem medo de errar, que tempo era dinheiro, a velocidade tornou-se condição sine qua non para a inclusão no paraíso dos bem-sucedidos. Daqui pra acolá, há de se perder o menor tempo possível. Pouco se dura, pouco se pára, muito se quer fazer. Na tirania do efêmero, somos "órfãos do tempo" (Chesneaux, 1996, p. 119). No "regime de beleza do rápido" (Costa & Mizoguchi, 2003, p. 173), muito se passa e pouco se encontra. Talvez o José da narrativa inicial alcance apressado o viaduto e não se dê conta de que aquele existe para que ele não precise parar em uma sinaleira. Provavelmente ele também não põe em contraposição o frenético passar dos automóveis e o dormente morador de rua lá embaixo – o acelerador de um, o freio do outro. Ou, ainda, a aceleração de muitos, o freio de quase ninguém.

Em tempos nos quais o outro vem se transformando em ameaça em potencial, sob o imperativo do medo, a cidade transforma-se cada vez mais em cidadela (Pechman, 2005). Se até metade do século XX a otimização da fluidez do espaço de passagem era obtida, dentre outras medidas, pelo afastamento e clausura dos que não se enquadravam a tal planificação, hoje não: são os espaços de fechamento que garantem a livre circulação, desvencilhada de obstáculos. Assim, a rua vem sendo alijada da vida. A metrópole movimentou-se de modo a não tirar o homem da rua, mas a rua do homem, fazendo com que nela ele se sentisse estrangeiro. Vidros fechados, trincos batidos, olhares atentos. Passos rápidos, destinos diretos, e os mesmos olhares atentos. E é assim que a proliferação de medos finda por engessar a segmentaridade do espaço urbano, despotencializando a cidade e sua possível função de provocar encontros e acontecimentos. Em A hora da estrela, de Clarice Lispector, o narrador diz que até escreveu o encontro amoroso de sua protagonista, mas por acidente sua empregada o pôs fora. Está impossibilitado por seus limites criativos de refazê-lo, e escreve que simplesmente um encontro na rua houve. Porém, o que fazer?

Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado:

– Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor? (Lispector, 1998, p. 43-44).

A vitrine, ladeando o fluxo de corpos que escorrem uns pelos outros sem contato, reivindica a esparsa atenção do transeunte acelerado. Tela vítrea, provoca um dos únicos encontros pelas calçadas: o encontro entre o olhar e a mercadoria, espargindo e multiplicando a cultura do consumo. Transparência luzida por uma imagética do espetacular, tira o fôlego cognitivo e mata a palavra singular, tornando Macabéa analfabeta de fala para com seu próprio desejo: é puro slogan. Em sua aparente translucidez, as vitrines berram e murmuram, emparedando o sentir alheio em uma polifonia visual.

E é assim que o espaço público urbano vê declinar sua função política e a rua perde seu caráter civil.3 Torna-se um espaço não mais dado a nele se estar; espaço dado, sim, a por ele se passar para que a outro espaço – talvez mais seguro – se possa chegar. Com a cidade entregue aos mandos da velocidade, do espetáculo e do medo, o espaço que seria de todos transmuta-se em espaço de ninguém. Ou – talvez melhor fosse pôr – de quase ninguém.

O morador de rua é aquele que pára e habita tempos e espaços desvalidos no epicentro do turbilhão urbano. É, pois, um homem que – quer por obrigação, quer por opção – se contrapõe à lógica que a cidade capitalística – ávida pela velocidade dos homens produtivos, atemorizada pela violência e exposta à espetacularização fetichista – impõem aos seus espaços públicos.

O seu vagar – homens lentos, segundo a expressão do geógrafo Milton Santos (1993) – já consistiria, por si só, em uma subversão. Modo de subversão, porém, pouco profícuo quando o que se quer é que multiplicidades de existências consistam no mundo e na cidade. O elogio da lentidão é, no mais das vezes, quando por aí pára, um elogio fúnebre (Guillaume, 1996), e o mesmo raciocínio poderíamos estender à espetacularização e ao medo: se dela nada se tira, de nada vale. Mas, afinal, o que daí se poderia produzir? Que estranha inclusão se poderia efetuar?

Resistência e criação: o Boca trouxe o trombone?

Quando se fala de resistência, há de se compreender que um movimento crítico não vai de encontro a um sistema de verdades criando opostos, mas antes permite uma diagonal de deslocamento. Trata-se de efetuar um processo de "acontecimentalização" (Foucault, 1990), ou seja, ao invés de contrapor-se a uma coisa ou processo específicos – como a lentidão diante da velocidade – se deve referir o decalque desgarrado à rede que lhe insurge existência: vislumbrando suas condições de constituição. Repuxar suas linhas de limites definidos, produzindo fugas de sua substantiva essência, a percorrer o tecido conectivo que objetiva nosso mundo. Vemos então uma resistência que problematiza e abre possíveis ao invés de fechar-se em miseráveis opções contrárias: resistência que produz linhas de fuga imanentes à própria máquina social e não indica a retomada de uma suposta legitimidade. Ao contrário, criam possibilidades outras, para além do sistema de aceitabilidade atual e suas definições de legitimidade.

A resistência enquanto criação insere-se nas fissuras do sistema. Não enquanto ausência ou falha, mas como espaço de criação de onde vertem criações de novas possibilidades de criação. Não se trata de uma relação em busca da mera inclusão do excluído, desde que não existe um fora do sistema, algo que independe do mesmo. Existem antes sumidouros, os quais surgem no próprio e deste dependem e partem, na formação de outras máquinas sociais, de outras lógicas. Mas não há ruptura completa – e tampouco continuidade –, já que a subversão se dá nos fluxos imanentes ao arranjo que constitui nosso socius, por um processo cancerígeno de mutação progressiva do seu tecido, espargindo-se por um mecanismo de contágio.

Por fim, sabendo-se que a resistência não é o que se opõe ou nega, mas o que adentra e, alimentando-se dos fluxos, subverte de forma imanente ao sistema, podemos afirmar que o projeto Boca de Rua acopla-se estrategicamente à máquina capitalística contemporânea – alimentando-se da mesma para subvertê-la. Tal processo pode ser vislumbrado em ao menos três pontos táticos: no espaço urbano, no consumo-trabalho e na mídia. Pontuemos, agora, alguns aspectos dos três.

Caracóis em fuga: as moradas

Depois de atravessarem o muro e a tarde os caracóis cessarão. Ás vezes cessam ao meio. Cessam de repente, porque lhe acaba por dentro a gosma com que sangram os seus caminhos (Barros, 1998, p. 28).

Com o mundo cheio e produzindo lixo a todo instante, é nos espaços que ninguém quer – e o qual muitos temem – que o excesso vai se alocar. É nas esquinas, sob marquises ou nos bancos dos parques que "os peixes mortos da ecologia ambiental" (Guattari, 1990, p. 26) mostram aos concidadãos sua desconfortável presença. São eles que vivem no desvalido espaço público, nessa desapreciada terra de ninguém a qual é um vão, segundo avisa a personagem de Chico Buarque em "Vitrines." Espaço vazio, onde, para a grande maioria dos ditos incluídos, os encontros se perdem. Mas é justamente no sumidouro da rua que o morador de rua se encontra. É onde o cidadão comum se perde que ele encontra seu lar, seus pares, seus nichos. É nesse tempo e nesse espaço que ele se faz sujeito, que ele se identifica: é no fluído que ele estanca e se faz pessoa.

É onde os fluxos acelerados não queriam permitir tal ação, dispersando toda e qualquer marca, que ele se constitui. Tomando os cruzamentos e lá erigindo morada e labuta, singulariza o massificado povoando-o com suas marcas próprias, quiçá pejorativamente por outros chamadas cacarecos e entulhos. Nesta subversão do espaço urbano, porém, diversas dificuldades se lhes aparecem, estratégias que visam realocá-lo em acordo com o regime espacial contemporâneo, e disso a grande mídia não se farta de ceder exemplos.

No ano de 2005, foram comuns reportagens sobre os "indigentes" nas praças que impediam a "convivência" nos locais públicos, e cuja presença denunciava a necessidade de uma "revitalização". Dias depois, foram entregues à prefeitura 14 veículos para patrulhar parques e praças. Tornaram-se freqüentes reportagens sobre a retirada dos pertences de moradores de rua, promovidas pela Guarda Municipal e a Secretaria Municipal do Meio-Ambiente – sendo o material publicamente posto no lixo. É o morador de rua um morto-vivo em fuga. A sua indesejável presença é discutida no Jornal: "seria interessante que as pessoas não se importassem com a presença dos moradores de rua nas praças, e sim com a situação que eles vivem. Se isso fosse feito, não haveria o incômodo da presença, pois a presença não existiria" ("Feijão com arroz e cacos de vidro", 2005, p. 8).

Vai, pois, ele ocupar o oco. Outrossim: os jornais denunciam o descobrimento de um buraco-moradia: "A vida no miolo do viaduto" (Trezzi, 2005e, p. 1), "As crianças do bueiro" (2005, p. 33), "A casamata do crime" (Trezzi, 2005a, p. 1). Dias depois, os ocos não existem: "Buraco onde vive adolescente será fechado pela prefeitura" (2005, p. 24), "Prefeitura fecha toca da gangue" (Trezzi, 2005b, p. 29). Aliás, até a foto de um menino dormindo no chão da rua é sinal de eficiência – "Gangue do buraco se dispersa" (Trezzi, 2005c, p. 41).

Viver no oco: curiosa imagem literária farta. No oco do crocodilo, em Dostoiévski, no oco do carvalho, em Italo Calvino (2003), no oco da canoa, em Guimarães Rosa. Mas no oco de onde no Boca de Rua? Gente-caracol foi o título da décima primeira edição do jornal. Prófugos urbanos, eles carregam seus "mocós"4 ("Não à violência", 2004, p. 1) junto às costas, formando uma concha sobre o corpo, e assim dizem se assemelharem ao molusco.

Ao habitar o oco o morador de rua subverte o status e a funcionalidade destes espaços vãos, preenchendo-os de novos sentidos. Amacia o concreto frio e cinza com o calor do corpo que ali ressoa vivo. Faz do espaço renegado por tantos cidadãos uma morada: lugar marcado pela singularidade que ali habita. Faz do não lugar um lugar, e ali, naquelas paredes esquecidas, afirma a consistência de sua existência desviante da sedentaridade civilizada.

A rua revisitada: trabalho, consumo e cidadania

De uns tempos para cá é costume de muitos mendigos escreverem na calçada a própria história, em letras grandes, com pedaços de giz colorido: é um bom sistema, pois as pessoas ficam curiosas para ler e depois se sentem obrigadas a jogar umas liras (Calvino, 1993, p. 59).

Mas como fazer com que esse modo de existência consista? Como fazer com que os peixes mortos nadem por entre ocos sem que, para isso, seja preciso que façam reincidir a perversa regra geral da "extensão do domínio da luta" (Houellebecq, 2002) segundo a qual alguém sempre deve perder?

Não é raro, no contemporâneo, que muitos modos de existência, tidos por inaptos, não tenham nem vez nem voz na constituição daquilo que se diz comum. Modos de vida, como toda e qualquer mercadoria, circulam somente quando há a possibilidade de serem consumidos. Assim, cabe a pergunta que Peter Pal Pelbart (2003) faz a si mesmo e a seus leitores: "no contexto de um capitalismo cultural, que expropria e revende modos de vida, não haveria uma tendência crescente, por parte dos chamados excluídos, em usar a própria vida, na sua precariedade de subsistência, como um vetor de autovalorização?" (Pelbart, p. 137). Uma possível resposta vem logo em seguida: "Seu único capital sendo a vida, no seu estado extremo de sobrevida e resistência, é disso que fizeram um vetor de existencialização, é essa vida que eles capitalizaram e que assim se auto-valorizou e produziu valor" (Pelbart, p. 138).

A crescente privatização e fragmentação de práticas antes consideradas de caráter público e responsabilidade do coletivo, faz com que todas questões deste último passem a serem individualizadas. A auto-ajuda e os direitos humanos são dois exemplos das tecnologias sociais que constituem este processo no tecido da sociedade. Enquanto o primeiro estabelece a transferência enquanto uma relação circular fechada consigo mesmo, o outro torna privativa a exigência de uma sociedade justa, substituindo-a por uma gama de direitos individuais, estando a exigência destes centrada na não intervenção e em liberdades individuais do que ao seu oposto, as obrigações do estado para com a sociedade e da sociedade para com os seus.

Para Tocqueville, o indivíduo, indiferente perante os demais, é o inimigo da cidadania (apud Bauman, 2001). Hoje vemos uma cidadania mínima, atrelada a uma micro-política que se reduz à compra de estilos de vida, à possibilidade do consumo enquanto exercício da liberdade e expressão do ser, construindo uma política de vida a partir da "pragmática do comprar" (Bauman, p. 87). O consumo permite a atualização das virtualidades do capital abstrato segundo uma configuração privativa a cada um, garantindo sua diferença na massa: "A pessoa se tornou realmente 'privada', enquanto derivada das quantidades abstratas e se torna concreta no tornar-se concreto dessas mesmas quantidades" (Deleuze & Guattari, 1976, p. 319).

Na máquina capitalística contemporânea, engrenada em operações espetaculares e consumistas, a virtualidade do capital toma a cada dia proporções maiores. Diante da fluidez e da flexibilidade dos critérios normalizadores, o futuro adquire a forma de uma infinidade de pré-fabricados possíveis. Ser cidadão aí é possuir consistência de vida para efetuar tais escolhas: capital e liberdade de uso do mesmo para varrer e esquadrinhar as virtualidades ao seu bel prazer. Podemos lembrar, por exemplo, das drugstores e das cabines de voto: "lugares geométricos da liberdade individual, são também as duas mamas do sistema" (Baudrilard, 1995, p. 11).

Neste contexto, em que capital e consumo são definidores da liberdade e cidadania, desemprego é importante fator para que algumas pessoas passem a ser moradores de rua e se mantenham nas ruas nessa oposição à demanda de produtividade da urbe. Como já sugerido alhures, a rua se presta à desprestigiada função de servir, da forma mais veloz possível, de ligação entre um lugar e outro. No entanto, é, como todos outros lugares, mercado, obedecendo, assim, à sua lógica funcional (Santos, 1993). E é utilizando-se desta premissa os moradores de rua que integram o Boca de Rua procuram de algum modo subverter sua usual condição de mendicância perante os demais.

Ao reunirem-se em um grupo e buscarem sua identidade, utilizam-na como elemento de inserção nos fluxos do espetáculo contemporâneo, mediando por imagens seu contato com os demais cidadãos capitalizam sua situação, autovalorizando-a. Isso ocorre de tal modo que lhes desloca de uma posição de vítima que clama a assistência de uma sociedade justa – que lhe provenha de condições de sobreviver, por ser isso responsabilidade de todos – para a posição de um prestador de serviços. Invés de um caçador/coletor das sobras da produção do socius – do lixo às moedinhas e seu assistencialismo cristão culpado –, o integrante do Boca de Rua insere-se nos fluxos contemporâneos, deslocando a entrega de uma moeda, fruto da mendicância, para uma relação de consumo e adquirindo, assim, a potência de ser reconhecido enquanto cidadão da sociedade de consumo. Para além de romantizações, cabe dizer que mesmo depois de alguns anos, a curiosidade e o reconhecimento de sua forma de labor ainda é pequeno. Os condutores, em sua maioria, fogem os olhares como se não existissem: tirar-lhes a identidade de mendigos resulta muito custoso.

Podemos novamente catar exemplos nas mídias majoritárias. Em maio de 2005, por exemplo, ocupou metade da contracapa do Zero Hora – o mais vendido jornal de Porto Alegre – uma grande fotografia de dois integrantes do Jornal Boca de Rua, vendendo seus jornais em uma das principais avenidas de Porto Alegre. Abaixo da imagem, a legenda: "A Avenida Ipiranga é uma corrida de obstáculos para o motorista que almeja algo simples: Chegar em casa em paz e tranqüilidade." Combinação estarrecedora, pois se tratava de uma das sinaleiras de maior movimento da cidade, e qualquer pessoa que visse a fotografia dar-se-ia conta de que se tratava de um local onde há muito o Zero Hora é vendido. A reportagem condenava os vendedores de "bugigangas, artistas ocasionais, mendigos" (Trezzi, 2005d, p. 38) e elidia a presença de vendedores de grandes jornais, concessionárias, supermercados, planos de saúde nos mesmos locais denunciados. Em destaque, um vendedor do Boca de Rua, com seu ponto de venda mapeado e o texto:

Extra! Extra! Jornal aqui

Maltrapilho, o mendigo se aproxima dos carros e, em tom calmo e cordial, solicita uma contribuição. É para o jornal Boca de Rua, explica. Poucos compram, mas ele sorri conformado. Ao lado, em cima da mureta da ponte, sua companheira dorme, equilibrada sabe-se lá como (Trezzi, 2005d, p. 38, grifos nossos).

Passagem fúnebre. Já na primeira frase está o homem morto na contramão atrapalhando o trânsito: pendura as chuteiras a cidadania. De trabalhador que cobra justo e obrigatório preço por aquilo que oferta, vira mendigo ao solicitar uma contribuição. Diria Foucault: "quem quer viver na cidade tem que trabalhar" (1974, p. 100). O Boca de Rua atravessa sua existência a expor a angústia do vivo visto morto por critérios laborais. Na primeira edição do Jornal em 2000, lê-se na capa: "Enquanto o cara não trabalha, é como se não existisse" ("Vozes de uma gente invisível", 2000, p. 1). Tendo cinco anos de trabalho transcorridos, a questão é ainda muito presente:

Muitas vezes, a pessoa tá viva e morta ao mesmo tempo na rua. Tá viva, se alimentando, mas tá morta em iniciativa, em espírito, na mente. Porque a sociedade se fecha e não dá oportunidade para a vida, para que a pessoa mostre seu lado bom, seu talento, para que ela trabalhe ("Feijão com arroz e cacos de vidro", 2005, p. 4).

Em Morte e Vida Severina, falam os coveiros sobre os homens do sertão que teimam em ir a Recife:

– Eles não têm onde trabalhar e muito menos onde morar.
– Na verdade, seria mais rápido e também muito mais barato que os sacudissem de qualquer ponte dentro do rio e da morte.
– O rio daria mortalha. E até um macio caixão d'água.
– Mas o que se vê não é isso: é sempre nosso serviço crescendo mais cada dia; morre gente que nem vivia
(Melo Neto, 2003, p. 191).

Morte, não entendida enquanto supressão de vida, mas sim como outro modo de viver. Trata-se de compreender nas mortes antes referidas o desviar-se de uma determinada concepção de vida: não participar do consumo e sua "fun morality" (Baudrilard, 1995). Aqui, portanto, morrer significa não usufruir do capital em sua intensidade de futuros possíveis, a qual define a concepção de liberdade na contemporaneidade. É deste modo que, pelo deslocamento da esmola assistencialista e cristã para sua realocação no circuito serviço-consumo, o jornal Boca de Rua abre um campo de possibilidade de se gerar um reconhecimento da cidadania desta vida até agora considerada morta.

O grito do caracol: imagens menores

Falada na tribuna a palavra é prodigiosa, é criadora, mas é o monólogo; escrita no livro, é ainda criadora, é ainda prodigiosa, mas é ainda o monólogo; esculpida no jornal, é prodigiosa e criadora, mas não é o monólogo, é a discussão (Assis, 1959, p. 44).

Vemos em nossa sociedade uma mediação generalizada das relações sociais por instrumentais imagéticos, segundo estratégias publicitárias. Com a profusão dos serviços de entretenimento e informação, vimos o surgir de um segmento midiático que se propunha a diferenciar-se do mass mídia. Usualmente denominados mídia alternativa, estes veículos de informação multiplicaram-se principalmente nos países desenvolvidos. Isso redundou em uma segmentação do segmento, o qual partiu-se em diversos dispositivos, cada um voltado a um público diferenciado: mulheres jovens, homens de negócios, negros, hispânicos, gays, lésbicas, sado-masoquistas, comunidades pobres, etc. Tal pluridivisão dá conta de produzir imagens referentes a cada grupo, mas, isoladas, reverberam somente na interioridade de cada segmento identitário.

De certo modo, o jornal Boca de Rua se insere no escopo da mídia alternativa, mas possui especificidades diversas. Primeiramente, o contexto onde se insere, a cidade de Porto Alegre, é coberto por uma pequena gama de periódicos, que possuem longa abrangência no estado do Rio Grande do Sul como formadores de opinião. Ou seja, a ação díspar de não alinhar-se a um modelo massivo de dispersão da informação não é redundante na cidade onde o Boca de Rua é distribuído.

Além disso, o Boca de Rua não reforça as segmentações pluridemocráticas, isoladas em seus mundos discursivos. Afinal, apesar de ser elaborado por um grupo específico e tratando de temas relativos a este mesmo grupo, o jornal não é voltado exclusivamente para este segmento. Ao invés de criar uma interioridade ressentida, isolada e contraposta aos demais, o Boca de Rua busca antes fazer espargir uma voz menor, invisibilizada e impedida de escorrer pelas relações midiatizadas do contemporâneo. O Jornal possibilita aos moradores de rua que criem imagens sobre si, as quais instrumentarão suas trocas sociais para além dos estereótipos apresentados pelos grandes veículos de informação.

Humano, demasiado caracol

A partir dessas reflexões, buscamos dar visibilidade ao projeto Boca de Rua como instrumento de resistência criativa. Ressaltando três formas de resistência – a relação com o espaço, consumo e mídia –, discutimos tanto a feitura e venda do Jornal, quanto a existência do morador de rua na cidade contemporânea. Não é nosso objetivo glorificar o estilo de vida do morador de rua, transformando-o numa espécie de herói contemporâneo. Não há como esquecer a precariedade de sua situação. Apenas buscamos desta o que há de positivo para a transformação das relações sociais.

 

Notas

1 O Jornal Boca de Rua tem seus textos, fotos e reportagens realizados por moradores de rua da cidade de Porto Alegre. O trabalho, iniciado em 2000, tem como fundadoras as jornalistas Clarinha Glock e Rosina Duarte e se insere nos projetos da ONG ALICE – Agência Livre pela Informação, Cidadania e Educação.

2 Trecho extraído da canção Sinal Fechado, de Paulinho da Viola.

3 A civilidade não é utilizada aqui à moda de Gilles Deleuze e Félix Guattari (1996a, 1996b), num conjunto diferencial do qual fazem parte também a barbárie e a selvageria. É utilizada à luz de Zygmunt Bauman, segundo quem a "principal característica da civilidade é a capacidade de interagir com estranhos sem utilizar essa estranheza contra eles e sem pressioná-los a abandoná-la ou a renunciar a alguns dos traços que os fazem estranhos" (Bauman, 2001, p. 122).

4 Segundo o Dicionário Aurélio pode significar um "roedor da família dos cávidas" (Ferreira, 1975, p. 939), ou até uma pequena bolsa. Atualmente, pode ter a acepção de esconderijo. Esta se aproxima da significação dada à palavra pelos moradores de rua, pois usam-na para se referir aos errantes lugares onde moram.

 

Referências

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Recebido: 28/06/2006
1ª revisão: 25/10/2006
2ª revisão: 02/11/2006
Aceite final: 02/11/2006

 

 

Danichi Hausen Mizoguchi é psicólogo, mestrando de Psicologia pela Universidade Federal Fluminense, integrante da equipe técnica do Jornal Boca de Rua. danichihm@hotmail.com
Luis Artur Costa é psicólogo, mestrando de Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. lartur@cpovo.net
Manoel Luce Madeira é psicólogo, integrante da equipe técnica do Jornal Boca de Rua. Endereço para correspondência: Rua Dr. Vale, 605 apto. 702-A – CEP 90560-010 – Porto Alegre, RS. manomadeira@hotmail.com

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