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Acta Cirúrgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.13 n.2 São Paulo Apr./May/June 1998

https://doi.org/10.1590/S0102-86501998000200004 

ESTUDO CLÍNICO E ANATOMOPATOLÓGICO DA CICATRIZAÇÃO CUTÂNEA NO GATO DOMÉSTICO. UTILIZAÇÃO DO LASER DE BAIXA POTÊNCIA GAAS (904 NM).1

 

Angélica Cecília Tatarunas 2
Julia Maria Matera 3
Maria Lucia Zaidan Dagli 4

 

 

TATARUNAS, A.C.; MATERA, J.M.; DAGLI, M.L.Z. - Estudo clínico e anatomopatológico da cicatrização cutânea no gato doméstico. Utilização do laser de baixa potência GaAs (904 nm). Acta Cir. Bras.,

RESUMO: A pesquisa avalia a ação do laser de baixa potência Arseneto de Gálio (904 nm) em feridas cirúrgicas de pele de felinos. Utilizamos 63 animais divididos em 3 grupos: A - radiados com 4J/cm2 , B - radiados com 2J/cm2 e C - controle, não radiados. A aplicação da radiação foi única no pós-operatório imediato em feridas cirúrgicas de gatas submetidas a ovariohisterectomia por conveniência. Realizamos estudo macroscópico e de microscopia de luz (Hematoxilina e Eosina) nos tempos 2º, 4º, 8º e 15º dias de pós-operatório. Obtivemos clínica e microscopicamente resultados que sugerem um incremento na cicatrização das feridas radiadas quando comparado com o grupo controle e, se mostrando vantajosa ainda a radiação com 2J/cm2 em relação a 4J/cm2. Acreditamos, portanto ser o laser um adjuvante na cicatrização cutânea, podendo otimizar a evolução de feridas pós-cirúrgicas por primeira intenção nas condições e espécie animal estudada.
DESCRITORES: Cicatrização. Laser. Pele. Gato doméstico. GaAs (Arseneto de Gálio)

 

 

INTRODUÇÃO

Aos lasers de baixa potência se atribuem efeitos analgésicos, antiinflamatórios e estimulantes da cicatrização. O estudo da interação entre a luz laser e a matéria viva é bastante complexo;6 a energia depositada nos tecidos sofre fenômenos de absorção, reflexão, difusão e transmissão. A pele é extremamente heterogênea do ponto de vista óptico e à medida que distanciamo-nos da superfície menor é a energia absorvida.12,14,16

Estudos comparando a estrutura da pele dos gatos com os demais mamíferos domésticos tem mostrado resultados controversos.5,24 Pesquisadores denotam existir também variações quanto à cicatrização entre as diversas espécies animais, justificando que esta além da localização e tamanho da ferida, depende da mobilidade da pele e tecido subcutâneo da espécie em particular.3,20

Em uma ferida cicatrizando por primeira intenção a fibrina, epiderme, neovasos e matriz extracelular contribuem na força de tensão inicial,12,26 porém a sutura é a principal responsável por manter os bordos justapostos.25 Em 24 a 48 horas a epiderme atravessa o defeito, na sequência há proliferação fibroblástica e colagenogênese com significativo aumento na força de tensão.12 FOWLER (1989) afirma que os fibroblastos e os capilares aparecem dentro de 24 horas e são mais evidentes em 7 a 10 dias; POPE (1993), JOHNSTON (1977) que o início do processo de reparação ocorre em 3 a 4 dias e PROBST (1993) infere que a força de tensão aumenta significativamente com 4 a 6 dias até alcançar um máximo em 14 a 16 dias.

Durante a cicatrização a presença de fluído inflamatório devido espaço morto é indesejável haja visto que limita a capacidade das células reparativas migrarem dentro da ferida e aumenta o risco de infecção.7

No estudo do laser de baixa potência Endre Mester obtém regeneração epitelial,23 colagenogênese,22 neovascularização e força de tensão aumentadas17 em feridas radiadas quando comparado às isentas de tratamento laser. Em 1985 compila seus trabalhos e conclui que: a radiação laser de baixa potência atua no processo cicatricial; dosagens altas ou pequenas, porém cumulativas, possuem efeito inibidor; o laser atua no estágio inicial da cicatrização, favorecendo primariamente a colagenogênese; a úlcera inteira não precisa ser radiada para se obter ação estimulante em sua totalidade e é recomendável o uso do laser para estimular a cicatrização de feridas.21

HUTSCHENREITER et al. (1980), SURINCHAK et al. (1983) e MATERA et al. (1994) obtém aumento da força de tensão em feridas submetidas à radiação laser utilizando comprimento de onda, dose e número de aplicações diferentes entre si. O último autor fez uso do laser GaAs (2J/cm2), enquanto os demais pesquisadores utilizaram o laser Hélio-Neônio nas doses 2J/cm2 , 4 J/cm2 e 2,2J/cm2, respectivamente.

KANA et al. (1981) ao comparar os lasers de Argônio (514,5 nm) e HeNe (623,8 nm) observam aceleração significativa na cicatrização entre o 3º e 12º dias de pós-operatório quando do uso do laser de HeNe (4J/cm2).

KANEPS et al. (1984) e FRETZ & ZHONG LI (1992) não encontram diferenças entre feridas radiadas e controle de pele e de tendão de equinos à microscopia de luz, todavia o segundo autor descreve que as feridas radiadas se apresentaram com menor edema durante o período de radiação.

O laser diodo, quando comparado ao laser HeNe, além de possuir maior penetração (1,4 mm.) é pequeno, econômico, seguro e de simples aplicação.16

LONGO et al. (1987) estudam a ação do laser GaAlAs (904 nm) em cicatrização de feridas cutâneas e observam menor processo inflamatório, maior regeneração epitelial e cicatrização aumentada nas feridas radiadas, quando comparado ao grupo controle.

ANNEROTH et al. (1988) avaliam macroscópica e histologicamente o efeito do laser GaAs (904 nm) na cicatrização de feridas de pele em 14 ratos. Não encontram diferenças entre as feridas controle e aquelas radiadas imediatamente após a sua confecção (freqüência de 500 Hz, potência de 0,5 mW e tempo de 8 minutos).

BRAVERMAN et al. (1989) ao pesquisarem o efeito bioestimulante do laser na cicatrização de feridas de pele de 72 coelhos obtêem aumento significativo na força de tensão em todas as feridas radiadas e contralaterais não radiadas quando comparado ao grupo controle. Os autores utilizaram laser HeNe (632,8 nm) 1,65 J/cm2 e GaAlAs (904 nm) 8,25 J/cm2 uma vez ao dia durante 21 dias, aplicados individualmente ou associados.

HUBÁCEK & POSPISILOVÁ (1989) ao estudarem a influência do laser HeNe em feridas cutâneas de ratos concluem que as áreas diretamente radiadas no estágio inicial da cicatrização estimulam a proliferação fibroblástica.

IKEUCHI et al. (1989), avaliando a ação do laser HeNe (3,6J/cm2 diariamente por 4 dias) em tecido de granulação de feridas cutâneas de cobaias, observam no grupo radiado, aos 14 dias de pós-operatório tecido cicatricial mais maduro, com a maioria das fibras colágenas arranjadas paralelas à epiderme e com menor quantidade de vasos capilares e fibroblastos em relação ao grupo não radiado.

WANDERER (1991) pesquisa o efeito da radiação laser HeNe (6J/cm2, diariamente durante 10 dias consecutivos) no processo cicatricial de feridas cutâneas em cães e conclui que a radiação afeta o processo regenerativo, incrementando a atividade fibroblástica em feridas cicatrizando por primeira e segunda intenção.

Embora no estudo dos lasers de baixa potência seja difícil comparar os resultados, visto que a radiação raramente é a mesma em dois experimentos, seu uso clínico a fim de incrementar a cicatrização vem constantemente aumentando. Tem sido sugerido o seu uso após o ato cirurgico, a fim de otimizar a evolução cicatricial.1

A dose recomendada em laserterapia para promover aumento no número de fibroblastos e consequentemente de fibras colágenas, incremento vascular e reepitelização deve se situar entre 1 e 5J/cm2.6

Vários pesquisadores tem colaborado com dados concernentes a aplicação do laser de baixa potência a fim de incrementar a cicatrização, porém a literatura ainda é bastante limitada e contraditória, principalmente por carência de detalhes na dosimetria pois o comprimento de onda do laser, a densidade de potência, o tempo de radiação e o estado de polarização da luz podem influenciar na cicatrização.13

 

MÉTODO

Utilizamos 63 fêmeas da espécie felina sendo 3 animais da raça siamês e os demais mestiços, com idades estimadas entre 8 a 36 meses. Os animais foram divididos em 3 grupos, aleatoriamente: grupo A: receberam radiação laser única de 4 J/cm2 (20 animais); grupo B: receberam radiação laser única de 2 J/cm2 (19 animais); grupo C: controle, não foram radiados (24 animais).

Todos os animais foram submetidos a ovariohisterectomia por conveniência no Serviço de Técnica Cirurgica da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo e a incisão cutânea de aproximadamente 6 cm, utilizada para o estudo da cicatrização. A medicação pré-anestésica constou de sulfato de atropina 0,25 mg na dose de 0,044 mg/kg por via subcutânea , a anestesia de Cloridrato de Tiletamina associado ao Cloridrato de Zolazepam* na dose de 0,2 ml/kg por via subcutânea. Para a síntese da parede muscular e da pele foi utilizado fio de algodão 2-0** aplicado em pontos separados simples. Na pele os pontos foram colocados eqüidistantes de 1 cm, com especial atenção à justaposição adequada das bordas da ferida e colocação do nó ao lado da incisão. As feridas foram mantidas protegidas com bandagem de gaze e esparadrapo e nos animais foi colocado vestimenta de proteção a fim de impedir auto-traumatismos.

Imediatamente após término do ato cirúrgico as feridas foram radiadas pelo laser semicondutor diodo GaAs***, pulsátil, comprimento de onda 904 nm, potência instantânea 27 W e densidade de energia 2 ou 4 J/cm2. Foi realizada a aplicação pontual, com a caneta mantida perpendicular à ferida, contactando levemente a sua extremidade a esta. A energia foi depositada entre os pontos cutâneos (cerca de 4 radiações / ferida). Utilizamos óculos de proteção durante a radiação.

Todas as feridas foram avaliadas clinicamente, preenchendo-se protocolo (Fig.1) no 2º dia de pós-operatório para todos os animais e, também no momento da biópsia (no 2º, 4º, 8º e 15º dias de pós-operatório). Para determinação da força de tensão se realizou manobra digital, simulando o afastamento das bordas da ferida, com auxílio dos dedos polegar e indicador e praticada sempre pela mesma pessoa.

As biópsias foram realizadas no 2º, 4º, 8º e 15º dias de pós-operatório em todos os grupos A, B e C; e para tal os animais foram submetidos a anestesia geral como descrito anteriormente. Procedeu-se à exérese de fragmento de pele medindo aproximadamente 1 cm de comprimento por 0,5 cm de largura, contendo a linha de incisão e também um ponto de sutura. Padronizou-se coletar o fragmento junto ao 2º e 4º pontos de sutura, a seguir suturando-se o defeito criado com fio de algodão 2-0**. O fragmento foi fixado em formalina a 10% ou em líquido de Bouin adicionado de solução saturada de ácido pícrico, incluídos em parafina e corado pelo HE, observadas e fotografadas em microscópio Olympus-Jap

 

Ferida Cirúrgica:

Temperatura local: Normal ( ) Aumentada ( ) Diminuída ( )
Presença de líquido: Não ( ) Sim ( ) Tipo: _________
Coloração da cicatriz: Rósea ( ) Vermelha ( )
                                       Com vascularização: Sim ( ) Não ( )
Presença de crostas: Sim ( ) Não ( )
Resistência tênsil do fio: Normal ( ) Aumentada ( ) Diminuída ( )

Resistência da Ferida Cirúrgica:

1. Deiscência ( )
2. Separação espontânea (tendência a deiscência) ( )
3. Separação do bordos da ferida sob leve tensão ( )
4. Aderência dos bordos ( )
5. Cicatrização sem possibilidade de separação dos bordos da ferida sob tensão ( )

Retração da ferida (defeitos)

Fig.1: Protocolo para avaliação clínica das feridas cirúrgicas.

 

RESULTADOS

CLÍNICO

Os resultados obtidos pela avaliação clínica das feridas cirúrgicas, através de preenchimento de protocolo (Fig.1) nos diferentes grupos, no momento da biópsia (2º, 4º, 8º e 15º dias de pós-operatório) encontram-se nos Quadros 1 a 4. Inseridos no Quadro 5 estão os resultados concernentes à resistência da ferida cirúrgica de todos os animais (n = 63) pertencentes aos grupos A, B e C no 2º dia de pós operatório, momento de troca de curativo da ferida cirúrgica.

Os animais dos grupos A, B e C apresentaram temperatura local normal, coloração rósea da cicatriz, resistência tênsil normal do fio de sutura e ausência de retração ou defeito cicatricial em todos os momentos estudados.

 

QUADRO 1: Avaliação clínica das feridas cirúrgicas no 2º dia de pós-operatório (momento da biópsia) relativo à presença de seroma, crostas e resistência da ferida cirúrgica nos grupos A, B e C. São Paulo, 1996.

 

GRUPO A (n = 7)

GRUPO B (n = 4)

GRUPO C (n = 7)

Seroma

42,85%

-

28,57%

Crostas

57,14%

75%

71,42%

Resistência da ferida cirúrgica

28,57%

25%

-

Grupo A: radiados com 4 J/cm2
Grupo B: radiados com 2 J/cm2
Grupo C: não radiado
Resistência da ferida cirúrgica: % de animais que tiveram classsificação nº 5 (cicatrização sem possibilidade de separação dos bordos da ferida sob tensão) do protocolo experimental (Figura 1)

 

QUADRO 2: Avaliação clínica das feridas cirúrgicas no 4º dia de pós-operatório (momento da biópsia) relativo à presença de seroma, crostas e resistência da ferida cirúrgica nos grupos A, B e C. São Paulo, 1996.

 

GRUPO A (n = 6)

GRUPO B (n = 8)

GRUPO C (n = 8)

Seroma

16,66%

12,50%

37,50%

Crostas

100%

100%

100%

Resistência da ferida cirúrgica

100%

87,50%

50%

Grupo A: radiados com 4 J/cm2
Grupo B: radiados com 2 J/cm2
Grupo C: não radiados
Resistência da ferida cirúrgica: % de animais que tiveram classsificação nº 5 (cicatrização sem possibilidade de separação dos bordos da ferida sob tensão) do protocolo experimental (Figura 1)

 

QUADRO 3: Avaliação clínica das feridas cirúrgicas no 8º dia de pós-operatório (momento da biópsia) relativo à presença de seroma, crostas e resistência da ferida cirúrgica nos grupos A, B e C. São Paulo, 1996.

 

GRUPO A (n = 3)

GRUPO B (n = 4)

GRUPO C (n = 5)

Seroma

-

25%

-

Crostas

100%

100%

100%

Resistência da ferida cirúrgica

100%

100%

80%

Grupo A: radiados com 4 J/cm2
Grupo B: radiados com 2 J/cm2
Grupo C: não radiados
Resistência da ferida cirúrgica: % de animais que tiveram classsificação nº 5 (cicatrização sem possibilidade de separação dos bordos da ferida sob tensão) do protocolo experimental (Figura 1)

 

QUADRO 4: Avaliação clínica das feridas cirúrgicas no 15º dia de pós-operatório, (momento da biópsia) relativo à presença de seroma, crostas e resistência da ferida cirúrgica nos grupos A, B e C. São Paulo, 1996.

 

GRUPO A (n = 4)

GRUPO B (n = 3)

GRUPO C (n = 4)

Seroma

-

-

-

Crostas

25%

33,3%

-%

Resistência da ferida cirúrgica

100%

100%

100%

Grupo A: radiados com 4 J/cm2
Grupo B: radiados com 2 J/cm2
Grupo C: não radiados
Resistência da ferida cirúrgica: % de animais que tiveram classsificação nº 5 (cicatrização sem possibilidade de separação dos bordos da ferida sob tensão) do protocolo experimental (Figura 1)

 

QUADRO 5: Avaliação clínica da ferida cirúrgica de todos os animais pertencentes aos grupos A, B e C no 2º dia de pós-operatório, no momento de troca de curativo da ferida cirúrgica. São Paulo, 1996.

 

GRUPO A (n = 20)

GRUPO B (n = 19)

GRUPO C (n = 24)

Seroma

15%

-

16,66%

Crostas

75%

94,73%

75%

Resistência da ferida cirúrgica

15%

31,57%

4,16%

Grupo A: radiados com 4 J/cm2
Grupo B: radiados com 2 J/cm2
Grupo C: não radiados
Resistência da ferida cirúrgica: % de animais que tiveram classsificação nº 5 (cicatrização sem possibilidade de separação dos bordos da ferida sob tensão) do protocolo experimental (Figura 1)

 

ANATOMOPATOLÓGICO

No 2º dia de pós-operatório, grupo A observamos epitélio em regeneração; tecido conjuntivo subjacente com edema e congestão com infiltrado inflamatório composto predominantemente por neutrófilos íntegros e degenerados, fibrina, presença de elementos do processo cicatricial com células alongadas semelhante a fibroblastos e raros vasos neoformados. No grupo B verificamos epitélio com presença de broto epitelial; na derme e hipoderme infiltrado inflamatório com predomínio de polimorfonucleares e marginação leucocitária, quadro inicial de cicatrização, bem como presença de figuras de mitose. No grupo C obtivemos epitélio se regenerando; infiltrado inflamatório em derme e intensa congestão com predomínio de leucócitos polimorfonucleares íntegros e degenerados, visualização de edema, marginação leucocitária e raros elementos do processo cicatricial.

No 4º dia de pós-operatório do grupo A a reepitelização não foi contínua em todos os casos, observando-se proliferação intensa do epitélio em região de junção dos bordos, com membrana basal fragmentada. O tecido conjuntivo subjacente mostrou infiltrado inflamatório com mono e polimorfonucleares, marginação leucocitária, edema, congestão e fibrina. Os elementos cicatriciais se mostravam com maior tendência à organização quando comparado ao grupo controle (Fig. 2). Os animais do grupo B mostraram junção dos bordos da ferida pelo epitélio proliferante com visualização de broto epitelial e membrana basal; na derme infiltrado inflamatório constituído principalmente por polimorfonucleares e marginação leucocitária, neovascularização, predomínio de fibroblastos, figuras de mitose e matriz extracelular; observa-se maior organização estrutural com elementos cicatriciais orientados paralelamente à epiderme, quando comparado aos demais grupos (Fig. 3). No grupo C observamos reepitelização bem adiantada, porém não sendo completa em todos os casos e membrana basal fragmentada. Em derme e hipoderme presença de infiltrado inflamatório com predomínio de polimorfonucleares, início de neovascularização e visualização de fibroblastos, alguns fibrócitos e matriz extracelular (Fig.4).

 

a04fig1.jpg (57377 bytes)

Fig. 2 - Fotomicrografia de pele de felino colhida aos 4 dias de pós-operatório radiado com 4 J/cm2 (A). Na derme presença de discreto infiltrado inflamatório com predomínio de mononucleares. Predomínio de fibrócitos e presença de fibras colágenas com tendência a maior organização quando comparado ao grupo controle. HE 200 X.

 

 

a04fig2.jpg (59381 bytes)

Fig. 3 - Fotomicrografia de pele de felino colhida aos 4 dias de pós-operatório radiado com 2 J/cm2 (B). Observa-se em derme discreto infiltrado inflamatório, com predomínio de polimorfonucleares. Predomínio de fibroblastos com presença de alguns fibrócitos e fibras colágenas orientados paralelamente à epiderme, com raros vasos neoformados. HE 200 X.

 

 

a04fig3.jpg (60848 bytes)

Fig. 4 - Fotomicrografia de pele de felino colhida aos 4 dias de pós-operatório, que não sofreu radiação (controle). Observa-se em região de derme infiltrado inflamatório com predomínio de polimorfonucleares. Presença de fibroblastos, ainda desorganizados, fibras colágenas e raros vasos neoformados. HE 200 X.

 

No 8º dia de pós-operatório o grupo A mostrou reepitelização completa, espessamento da epiderme no local de junção, presença de brotos epiteliais em meio à cicatriz e membrana basal fragmentada. Constatamos infiltrado inflamatório em derme e hipoderme (mononucleares), predomínio de fibroblastos e presença de fibrócitos orientados paralelamente à epiderme, neovascularização e abundante matriz extracelular. No grupo B observamos quadro cicatricial semelhante ao grupo anterior. No grupo C observamos epiderme mais delgada do que nos grupos anteriores e membrana basal fragmentada; infiltrado inflamatório em derme e hipoderme com marginação leucocitária, presença de fibroblastos e fibrócitos desorganizados, neovascularização e matriz extracelular.

No 15º dia de pós-operatório dos grupos A e B observamos completa reepitelização; em derme neovascularização, abundante matriz extracelular, predomínio de fibrócitos e fibras colágenas dispostas paralelamente ao epitélio. No grupo C notamos reepitelização completa; a derme se mostrava com fibroblastos, fibrócitos e fibras colágenas tendendo a organização, a qual era menos evidente do que nos grupos radiados.

 

DISCUSSÃO

A técnica operatória de ovariohisterectomia utilizada foi de fácil execução e isenta de complicações durante o trans- e o pós-operatório.

Como descrito em literatura,16 a realização da radiação com o laser diodo Arseneto de Gálio e Alumínio se mostrou simples e segura e o aparelho pequeno, de fácil aplicação à pele e de baixo custo.

Fazendo prosseguir pesquisa iniciada por MATERA et al. (1994) e dentro dos limites propostos em literatura6 optamos por utilizar as doses 2 e 4J/cm2.

Feridas radiadas por laser apresentam-se menos edematosas macroscopicamente sugerindo efeito anti-inflamatório pelo aparelho.8

Sabido ser indesejável o acúmulo de líquido inflamatório na ferida7 observamos em nosso estudo que no 2º dia de pós-operatório este foi ausente no grupo B (Quadros 1 e 5) e menos frequente nos grupos radiados ao 4º dia de pós-operatório quando comparado com o grupo controle. Nossos resultados macroscópicos concordam com o primeiro autor supra-citado.

Vários autores obtiveram aumento na força de tensão em feridas submetidas a radiação laser, principalmente nos estágios iniciais da cicatrização.4,10,17,19,27 Também obtivemos cicatrização mais resistente à separação de seus bordos em feridas radiadas no 2º, 4º e 8º dias de pós-operatório, quando comparado com o grupo controle (Quadros 1 a 3). Tal fato notório no grupo B quando consideramos a avaliação dos 63 animais no 2º dia de pós-operatório (Quadro 5). Acreditamos ser relevante este feito pois durante o período inicial a ferida depende da sutura para que seus bordos se mantenham justapostos.25

A pele quando lesada sofre uma sequência de eventos a fim de restaurar sua continuidade estrutural; em feridas cicatrizando por 1º intenção ocorre inversão, espessamento, migração e mitose em cerca de 24 a 48 horas.12 Em nosso estudo o epitélio comportou-se conforme descrito acima, todavia feridas radiadas mostraram intensa regeneração epitelial no 2º e 4º dia de pós-operatório, quando comparado ao grupo controle. Isto foi principalmente evidente no grupo radiado com 2J/cm2 que mostrou presença de brotos epiteliais já no 2º dia dia de pós-operatório e junção dos bordos da ferida em todos os animais no 4º dia de pós-operatório, o que não ocorreu na mesma intensidade nos demais grupos nestes tempos.

Sequencialmente há proliferação fibroblástica e colagenogênese,12 variando o período entre os autores.7,12,25,26 Observamos em todos os grupos no 2º dia de pós-operatório a presença de elementos do processo cicatricial (fibroblastos e neovasos), porém mais evidente nos grupos radiados. Já no 4º e 8º dias de pós-operatório notamos principalmente que os animais pertencentes ao grupo B, e também os do grupo A mostravam maior organização estrutural quando comparado ao grupo controle com fibroblastos, fibrócitos e fibras colágenas orientando-se paralelamente a epiderme.

Muitos pesquisadores têm procurado entender a ação bioestimulativa dos lasers de baixa potência no processo cicatricial, bem como determinar comprimento de onda, número de aplicações, tempo de radiação e densidade de energia mais apropriados. Autores referem maior regeneração epitelial,18,23 maior vascularização,17 incremento na proliferação de fibroblastos e colagenogênese9,22,28 em feridas submetidas a laserterapia. Como descrito por CRUÃNES (1984), em nossa pesquisa os cortes de tecido estudados sugerem um incremento tanto no epitélio como nos componentes da derme nos grupos radiados em relação ao grupo controle.

A força de tensão inicial se deve ao coágulo de fibrina, epitélio, neovascularização e matriz extracelular depositada recentemente.12,26 Em nosso estudo observamos maior resistência à separação dos bordos em feridas radiadas (principalmente com 2 J/cm2), quando comparado com o grupo controle ao 2º e 4º dias de pós-operatório (Quadros 1,2,3 e 5). Neste tempo o estudo histológico nos mostrava nestes grupos um incremento tanto no epitélio como na derme. No 4º e 8º dia de pós-operatório visualizamos fibroblastos, fibrócitos e matriz extracelular sugerindo estarem em maior quantidade e em superior arranjo estrutural nos animais radiados (principalmente no grupo B) quando comparado ao grupo controle. Estes elementos podem ter contribuído na maior resistência inicial, aventando-se portanto que foram induzidos pela laserterapia.

MESTER et al. (1985), avaliando os efeitos dos lasers Ruby, Hélio-Néon e Argônio, referem que dosagens altas têm efeito inibidor. Observamos que as feridas radiadas com 2J/cm2 tiveram evolução cicatricial histopatológica e clínica vantajosa, quando comparado com 4J/cm2, ao 2º e 4º dias de pós-operatório. Donde a primeira densidade de potência é favorável com o laser de Arseneto de Gálio nas condições e espécie animal estudada.

Posto a existência de grande diversidade de dados e ausência de uma padronização, acreditamos ainda ser muito difícil interpretar e interrelacionar as informações existentes sobre os efeitos dos lasers de baixa potência. Porém, como descrito por SURINCHAK et al. (1983) e BASFORD (1986), acreditamos que o soft-laser tem um futuro promissor dentro da clínica-cirúrgica veterinária, necessitando-se estudos detalhados a fim de determinar comprimento de onda, tempo de radiação, número de aplicação e dosimetria específicos com a espécie animal e patologia em questão.

ABERGEL et al. (1984) sugerem a utilização do laser de baixa potência a fim de otimizar o processo cicatricial após o ato cirúrgico. Concordamos, através dos resultados obtidos em nosso estudo com a opinião do autor acima citado, pois pudemos observar um incremento no processo cicatricial na espécie estudada.

 

CONCLUSÕES

A análise dos resultados obtidos permite-nos concluir que o laser GaAs (904 nm) nas dosagens 2 e 4 J/cm2, única radiação, realizada no pós cirúrgico imediato atuou positivamente na cicatrização por primeira intenção de feridas cirúrgicas em pele de felinos, tendo a dose de 2 J/cm2 se mostrado vantajosa em relação à 4 J/cm2.

Acreditamos ser o laser um adjuvante no processo cicatricial, devendo-se no entanto ter conhecimento das características do aparelho utilizado, dosimetria e número de radiações mais efetivas para o tipo de ferida e espécie animal em questão, necessitando portanto da realização de estudos complementares.

 

REFERÊRENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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TATARUNAS, A.C.; MATERA, J.M.; DAGLI, M.L.Z. - Clinical and anatomopathological study of cutaneous healing in domestic cat. Use of low-power GaAs laser (904nm). Acta Cir. Bras.,

SUMMARY This research evaluates the action of the Galium Arsenide laser (904 nm) in feline cutaneous surgical wounds. We used 63 animals divided in 3 groups: A - radiated with 4J/cm2 , B - radiated with 2J/cm2 and C - control, not radiated. The aplication of the laser was accomplished in only one session in the immediate pos-operative procedures just after elective ovariohisterectomy. The macroscopical and microscopical analyses (Hematoxilin and Eosin) of the skin were performed in 2, 4, 8 and 15 days pos-operatively. As result we obtained clinical and microscopical increase in the radiated wounds compared with control group and the energy densitie 2J/cm2 was more efficient than 4J/cm2 . Therefore we believe that the laser device can be used as coadjuvant in the healing process of skin wounds, in addition to optimizing the evolution of first intention post-surgery skin wounds in the studied species and circunstances.
SUBJECT HEADINGS: Healing. Laser. Skin. Domestic cat. GaAs (Galium Arsenide).

 

 

Endereço para correspondência:
Angélica Cecília Tatarunas
Rua Vitoantonio Del Vecchio nº 350, apto 123
CEP 03124-070-São Paulo-SP.

 

 

1 Parte da tese apresentada para obtenção do título de Mestre, área de Cirurgia, FMVZ/USP. Projeto financiado pela FAPESP - Proc. nº 92/3039-7.
2 Mestre, Médica Veterinária do Serviço de Cirurgia do HOVET da FMVZ/USP.
3 Professora Associada do Departamento de Cirurgia, FMVZ/USP.
4 Professora Doutora do Departamento de Patologia, FMVZ/USP.

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