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Revista Paulista de Pediatria

versão impressa ISSN 0103-0582

Rev. paul. pediatr. vol.30 no.3 São Paulo set. 2012

https://doi.org/10.1590/S0103-05822012000300017 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Desnutrição e excesso de peso em crianças e adolescentes: uma revisão de estudos brasileiros

 

Desnutrición y exceso de peso en niños y adolescentes: una revisión de estudios brasileños

 

 

Vanessa Sá LealI; Pedro Israel C. de LiraII; Risia Cristina E. de MenezesIII; Juliana Souza OliveiraIV; Emilia Chagas CostaV; Sonia Lúcia L. S. de AndradeVI

Instituição: Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Centro Acadêmico de Vitória, Vitória de Santo Antão, PE, Brasil
IDoutorado em Nutrição em Saúde Pública pela UFPE; Professora-Adjunta do Curso de Nutrição do Centro Acadêmico de Vitória da UFPE e da Faculdade de Nutrição da Ufal, Maceió, AL, Brasil
IIDoutorado em Medicina pela London School of Hygiene and Tropical Medicine, Inglaterra; Professor Titular do Departamento de Nutrição da UFPE, Recife, PE, Brasil
IIIDoutorado em Nutrição em Saúde Pública pela UFPE; Professora Adjunta da Faculdade de Nutrição da Ufal, Maceió, AL, Brasil
IVDoutorado em Nutrição em Saúde Pública pela UFPE; Professora Adjunta do Curso de Nutrição do Centro Acadêmico de Vitória da UFPE, Vitória de Santo Antão, PE, Brasil
VMestrado em Nutrição em Saúde Pública pela UFPE; Professora-Assistente da Faculdade de Nutrição da Ufal, Maceió, AL, BrasilVIDoutorado em Nutrição em Saúde Pública pela UFPE; Professora Adjunta do Departamento de Nutrição da UFPE, Recife, PE, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Revisar a literatura brasileira sobre a prevalência e os fatores associados ao déficit de estatura e ao excesso de peso em crianças e adolescentes de cinco a 19 anos.
FONTES DE DADOS: A pesquisa foi realizada nas bases de dados PubMed e Bireme, utilizando-se os seguintes descritores: "desnutrição", "déficit estatural", "obesidade", "sobrepeso", "IMC", "criança", "escolar", "adolescente" e "Brasil". Foram considerados os seguintes critérios de seleção: artigo original de base populacional, avaliação dos fatores associados por meio de análise estatística de regressão, e artigos publicados entre 2000 e 2010.
SINTESE DOS DADOS: No que se refere ao déficit estatural, apenas dois estudos atenderam aos critérios estabelecidos, apresentando variações de 3,5 a 16,7%, com indicação da condição social e da escolaridade dos jovens como fatores associados. Dos 12 estudos que investigaram o excesso de peso, 67% foram realizados na região Sul do Brasil e nenhum incluiu o Norte do país. A maioria apresentou delineamento transversal. As prevalências variaram de 13,9 a 38,9%, sendo os principais fatores associados: padrões socioeconômicos, influência familiar e estilo de vida sedentário.
CONCLUSÕES: As associações das variáveis renda e nível de escolaridade com o déficit de estatura e com o sobrepeso, embora com tendências opostas, chamam a atenção. Sugere-se a realização de mais estudos, em especial nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Palavras-chave: desnutrição; sobrepeso; obesidade; crianças; adolescentes; determinantes.


RESUMEN

OBJETIVO: Revisar la literatura brasileña de 2001 a 2010 sobre las prevalencias y los factores asociados al déficit de estatura y al exceso de peso en niños y adolescentes de cinco a 19 años.
FUENTES DE DATOS: La investigación fue realizada en las bases de datos Pubmed y Bireme, utilizándose los descriptores a continuación: «desnutrición», «déficit estatural», «obesidad», «sobrepeso», «IMC», «niño», «escolar», «adolescente», «Brasil» y «determinantes». Se consideraron los siguientes criterios de selección: artículo original de base poblacional, evaluación de los factores asociados, por medio de análisis estadístico de regresión, y artículos publicados entre 2000 y 2009.
SÍNTESIS DE LOS DATOS: En lo que se refiere al déficit estatural, solamente dos estudios atendieron a los criterios establecidos, presentando variaciones de 3,5 a 16,7%, e indicación de la condición social y de la escolaridad de los jóvenes como factores asociados. De los 12 estudios que investigaron el exceso de peso, 66,6% fueron realizados en la región Sur de Brasil y ninguno incluyó al Norte del país. La mayoría presentó delineación transversal. Las prevalencias variaron de 13,9 a 38,9%, siendo los principales factores asociados: estándares socioeconómicos, influencia familiar y estilo de vida sedentario.
CONCLUSIONES: Las asociaciones de las variables ingresos y nivel de escolaridad con el déficit de estatura y el sobrepeso, aunque con tendencias opuestas, llaman la atención. Se sugiere la realización de más estudios, en especial en las regiones Norte y Nordeste de Brasil.

Palabras clave: desnutrición; sobrepeso; obesidad; niños; adolescentes; determinantes.


 

 

Introdução

As modificações demográficas e tecnológicas intensificadas desde a última metade do século 20 determinaram alterações no consumo alimentar e no estilo de vida das populações de diversos países, em especial naqueles em desenvolvimento, como o Brasil(1). Essas transformações refletem o processo da transição nutricional retratada por distúrbios, que, por um lado, integram doenças infecciosas e processos carenciais, a exemplo da desnutrição energético-proteica, da deficiência de vitamina A e da anemia. Por outro lado, existem as doenças da modernidade, resultado dos processos crônicos não transmissíveis: diabetes melito, obesidade, hipertensão arterial e diversos tipos de neoplasias(2).

A desnutrição, explicitada pelo déficit de estatura na infância e na adolescência, é atribuível a uma série de fatores intimamente relacionados às condições de vida e satisfação de necessidades básicas, como a falta de acesso aos alimentos, ao saneameanto básico, à assistência à saúde e à educação de qualidade(3). Nas nações menos desenvolvidas, milhares de crianças não atingem seu pleno potencial de crescimento, com consequências no desempenho escolar e na transferência da pobreza para as próximas gerações(4).

Estudos sobre a situação nutricional da população brasileira realizados entre 1974 e 2006 indicam um declínio de aproximadamente 80% no déficit estatural das crianças menores de cinco anos, embora ainda com grandes distinções inter-regionais, tendo o Norte e o Nordeste apresentado as piores situações(5). Para as crianças com idades entre cinco e nove anos, a tendência de declínio acompanha o que foi observado entre as menores de cinco anos (cuja prevalência aproxima-se a 6,8%); entretanto, para os adolescentes, os percentuais são mais elevados (9,8%), além de não haver dados disponíveis para verificar a tendência de redução nas últimas décadas(6,7).

No entanto, caracterizando a transição nutricional, a elevação do peso corpóreo entre os mais jovens evidenciou incremento percentual de três e quatro vezes de 1974 a 2009, resultando em 47,8% de crianças e 21,5% dos adolescentes brasileiros com sobrepeso e obesidade(6). Segundo Miech et al(8), quanto mais intensa e precocemente a obesidade se desenvolve, maiores serão os riscos de permanência na idade adulta e o surgimento de comorbidades relacionadas. De modo geral, a obesidade apresenta como determinantes imediatos a alimentação hipercalórica, rica em gorduras trans e ácidos graxos saturados, o consumo excessivo do açúcar, além do sedentarismo e outros hábitos não saudáveis do estilo de vida ocidental(9). Afora o fator comportamental, cabe enfatizar a influência da condição nutricional pregressa, a exemplo da desnutrição fetal e, ainda, das características socioeconômicas e ambientais sobre a determinação do sobrepeso(10).

O consensual reconhecimento de acompanhar o crescimento e o estado nutricional no período crítico dos primeiros anos de vida faz com que crianças menores de cinco anos sejam objeto de inúmeros estudos clínicos e epidemiológicos, contrastando com o que ocorre na idade escolar e na adolescência, nas quais são escassas as pesquisas que tratam da magnitude dos distúrbios nutricionais (desnutrição e obesidade), suas características e seus fatores associados. Deste modo, a presente revisão da literatura visa discorrer sobre a prevalência e os fatores associados ao déficit de estatura e ao excesso de peso de crianças e adolescentes de cinco a 19 anos, com base em estudos representativos para as diversas regiões do Brasil.

 

Método

A revisão da literatura foi realizada entre junho e dezembro de 2010. A busca envolveu pesquisa nas bases de dados eletrônicas do Pubmed e da Bireme e utilizou os seguintes descritores, em línguas portuguesa e inglesa: "desnutrição", "déficit estatural", "obesidade", "sobrepeso", "IMC", "escolar", "criança", "adolescente" e "Brasil" (para a localização de artigos conduzidos com a população nacional).

Os artigos foram selecionados de acordo com os seguintes critérios: amostra probabilística com crianças e adolescentes brasileiros (idades entre cinco e 19 anos); artigo original de base populacional que apresentasse informações dos procedimentos metodológicos (representatividade e seleção da amostra); determinantes calculados por meio da análise estatística de regressão e artigos cujos dados foram coletados a partir de 2000.

Para a seleção dos trabalhos referentes ao déficit estatural, em razão da lacuna de estudos para o período escolhido, optou-se por considerar os artigos publicados entre 2001 e 2010, independentemente do ano de coleta. Contudo, de 29 trabalhos eleitos, apenas dois contemplaram as exigências referidas. Para o levantamento dos estudos acerca do excesso ponderal, foram selecionados 56 artigos nacionais abrangendo a faixa etária e o período de interesse; entretanto, apenas 12 atenderam aos demais critérios de inclusão estabelecidos.

 

Resultados

No que diz respeito ao déficit estatural, o estudo de Laurentino et al(11), com delineamento transversal e representatividade para Pernambuco, revelou prevalência de 16,7% em 1997 e indicou que residir em área rural, ser do sexo masculino, consumir água sem tratamento, ter renda per capita inferior a um quarto de salário mínimo e escolaridade inadequada estão entre as variáveis explicativas para o retardo de estatura. Vieira et al(12), em pesquisa com escolares na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 2004, identificaram 3,5% de crianças e adolescentes com déficit de crescimento e constataram forte associação ao nível de escolaridade destes indivíduos, além da variável idade (Quadro 1).

No tocante ao excesso de peso, dos 12 trabalhos selecionados, a maioria possui desenho transversal e dois apresentam delineamento do tipo coorte e caso-controle. Os dados das pesquisas foram coletados entre 2000 e 2007, sendo a maior parte de abrangência municipal e apenas um com representatividade estadual(13). Todos utilizaram amostras probabilísticas, sendo 75% com escolares e 25% de base populacional. O tamanho amostral variou de 719 a 28.084 crianças e adolescentes, com idades entre seis e 19 anos. Mais da metade dos estudos (n=8)(12,14-20) foi realizada na região Sul do Brasil, com destaque para a cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, cenário de cinco dessas investigações. Contrastando com a região Sul, chama atenção a ausência de publicações envolvendo a região Norte (Quadro 2).

As prevalências do excesso de peso variaram de 13,9 a 38,9%, com mais de dois terços dos estudos (n=8) apresentando valores superiores a 20%. A totalidade dos trabalhos contemplou a relação do excesso ponderal com a variável sexo e, dentre os que demonstraram associação significante (33%), todos descrevem maiores chances para o sexo feminino(12,19,21). A idade esteve relacionada ao excesso de peso em três estudos(12,16,19), sendo, em dois, de maneira inversa (Quadro 2).

Dentre os trabalhos que pesquisaram a elevação do índice de massa corpórea (IMC) dos pais, todos indicaram associação positiva com o sobrepeso das crianças e dos adolescentes(14,16,18,21). O estudo de caso-controle realizado por Guimarães et al(21) demonstrou que, além da escolaridade materna, da condição socioeconômica e do IMC dos pais, o elevado peso ao nascer, a união conjugal da mãe (única) ou o fato de ser filho único representou chances duas vezes maiores para o excesso de peso. Guedes et al(22) também constataram associação positiva entre escolares filhos únicos ou os que têm até dois irmãos e a elevação no risco de sobrepeso (Quadro 2).

No que se refere aos determinantes comportamentais, metade dos estudos verificou associação entre excesso de peso e práticas sedentárias. Assistir televisão, jogar video-game ou utilizar o computador várias horas ao dia (>3 horas) foram os resultados mais encontrados(15,17,18,22). Inatividade física ou não participar das aulas de Educação Física na escola também apresentaram relação significante com o excesso ponderal(13,18,21). A prática de fazer dieta inadequada e omitir refeições diárias foi listada como determinante em dois dos estudos(15,16). Segundo Guedes et al(22), a distância entre a casa e a escola, o meio de transporte utilizado (carro ou transporte coletivo), assim como o hábito de alimentar-se na cantina escolar também estiveram associados à elevação do peso corpóreo (Quadro 2).

De oito pesquisas que investigaram a condição socioeconômica, em sua maioria utilizando os critérios de classificação da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abepe)(23) ou similares, sete apresentaram associação com o excesso de peso(14,15,17,19-22). No caso das que não incluíram o critério socioeconômico citado (n=4), destaca-se a relação positiva do sobrepeso com o fato de residir em área urbana(13), em localidades mais desenvolvidas economicamente(24) ou de estudar em escolas da rede privada de ensino(12,18). No caso da escolaridade materna ou dos pais, em dois estudos, a associação foi direta e significante(22,24) (Quadro 2).

 

Comentários

Tendo em vista a crescente prevalência do excesso de peso na infância e na adolescência e, em paralelo, o declínio da desnutrição observado durante anos, pesquisas nessa última temática parecem estar sendo realizadas com menor frequência. No entanto, é importante lembrar que a magnitude do déficit estatural verificado em nível nacional (6,7% em crianças e 9,8% em adolescentes)(6,7) e em Pernambuco (16,7%)(11) mantém este agravo como problema de Saúde Pública, indubitavelmente relacionado à influência das perversas condições sanitárias e socioeconômicas, às quais boa parte da população, em especial os menores de 18 anos, estão submetidos(5,25).

No trabalho de Vieira et al(12), realizado em uma cidade com elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), como é o caso de Pelotas, observou-se que, apesar da prevalência baixa (3,5%), indicadores socioeconômicos também estiveram entre os determinantes do déficit de estatura. Os resultados dos dois estudos (Laurentino et al e Vieira et al)(11,12) estão de acordo com os achados de Monteiro et al(5), que atribuem a redução da desnutrição no Brasil à influência de quatro fatores primordiais: melhoria da escolaridade materna, aumento do poder aquisitivo familiar, assistência à saúde e saneamento básico; condições evidenciadas também em se tratando da região Nordeste do País(26). Além da escolaridade materna, destaca-se a associação do atraso escolar das crianças e adolescentes com seu estado nutricional(11,12), remetendo à influência da educação no processo saúde-doença, seja sobre a compreensão da prática dos cuidados infantis, no caso do grau de instrução das mães, ou do ambiente escolar como fator protetor, na medida em que atua na formação de hábitos sanitários, alimentares e de incentivo à prática de atividades físicas, ao tratar-se da adequação escolar dos jovens(27).

O saneamento básico, caracterizado em boa parte das áreas menos desenvolvidas do Brasil pela ausência de abastecimento de água e saneamento público, mais que duplica o risco para o déficit de crescimento. Além disso, a falta de tratamento da água para consumo individual pode potencializar doenças infecciosas e parasitárias, influenciando diretamente os indicadores nutricionais(28). Entretanto, apesar da importância atribuída ao saneamento básico, apenas 59,1% dos domicílios brasileiros são atendidos pelo serviço de rede coletora de esgoto, tendo as regiões Norte e Nordeste apresentado as menores parcelas de cobertura por este serviço. Com relação à rede geral de abastecimento de água, esta atende apenas 84,4% dos domicílios e, tratando-se do serviço da coleta de lixo, 11,4% dos domicílios não recebem a assistência necessária(29). Essas observações, em consonância ao seu impacto no estado nutricional e nas condições de vida, denotam a insuficiente priorização deste assunto na agenda política do País.

A elevada magnitude do déficit de estatura nas populações rurais também remete à substancial associação entre desnutrição e condições de vida inadequadas, a exemplo do acesso à saúde e educação de qualidade inferior, quando comparadas às áreas urbanas(11). Políticas econômicas que promovem a equidade social têm sido acompanhadas de melhorias significativas nas condições de vida, com consequente diminuição da desnutrição infantil, bem como das disparidades observadas em relação ao estado nutricional das crianças de superior e inferior quintis socioeconômicos(5). A referência do maior risco entre os que pertencem ao sexo masculino e com faixa etária mais elevada ratifica os resultados de recentes pesquisas nacionais(6,7), porém, sem explicações causais consolidadas ou explicitadas em outras publicações.

Com relação ao excesso de peso, as variações percentuais dentro de uma mesma região podem estar relacionadas aos diferentes critérios de classificação nutricional utilizados em cada estudo ou ainda ao delineamento amostral, no caso de se tratar de estudos com escolares ou domiciliares com crianças e adolescentes de cinco a 19 anos. De qualquer forma, as prevalências se apresentam acima do valor limítrofe da população de referência (2,3%), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)(29), denotando a gravidade do problema no contexto nacional.

Anteriormente à associação com os fatores ambientais e socioeconômicos, a obesidade sofreu influência das variáveis biológicas idade e sexo. Embora nos achados de Terres et al(16) e Vieira et al(12) tenha sido constatada redução do excesso de peso em função do incremento etário, corroborando também aos dados nacionais, no estudo de Guedes et al(19) a associação com a idade foi direta e significante, apesar de, quando estratificados por sexo, a participação dos grupos etários se apresentarem acentuadamente diferentes. Enquanto nos rapazes de 15 a 18 anos o risco para a obesidade é 90% maior do que naqueles com idades entre sete e dez anos, nas moças as proporções são similares em ambos os grupos (5,7 e 6,1%, respectivamente). É possível supor que essa diferença entre os estudos supracitados esteja relacionada à ampla faixa etária estudada (sete a 18 anos) e aos diferentes tamanhos amostrais por sexo ou faixa etária.

Nos estudos que constataram associação positiva com o sexo, as maiores prevalências nas meninas podem ser explicadas pela elevada vulnerabilidade aos hormônios sexuais e ao aumento dos depósitos de gordura corpórea durante a adolescência. Além disso, nessa mesma fase elas praticam menos atividade física do que os meninos(30). No entanto, analisando pelo tipo de escola, os meninos estudantes da rede privada são os mais obesos, sugerindo que meninas de melhor condição social têm maior preocupação com o excesso de peso e a imagem corporal(12). Estudos nacionais mais recentes ratificam essa afirmativa(6,7), traduzindo uma tendência de redução do excesso de peso em meninas de nível de renda mais alto e residentes nas regiões mais ricas do país, achados que sugerem, ao menos para o sexo feminino, a mesma associação inversa observada nos países desenvolvidos(31).

Contudo, de maneira geral, no Brasil, a vulnerabilidade ao excesso de peso sofre incremento em função da melhora socioeconômica(14,15,17,19-22,32), condição quase sempre retratada pelo maior número de itens domésticos e pela evolução do grau de instrução do chefe de família. Considerando ainda o tipo de escola e o local de moradia como proxy para o nível socioeconômico, entende-se que residir em locais mais desenvolvidos economicamente ou estudar em escola da rede privada também representa maiores chances para o excesso ponderal(12,13,18,24). Independentemente do tipo de escola, o déficit escolar igualmente demonstra associação ao sobrepeso, embora com tendências opostas, no qual a escolaridade inadequada indica fator de proteção ao agravo(12,16).

A escolaridade dos pais é outro fator que interfere na ocorrência do excesso de peso de crianças e adolescentes. Em Montes Claros, no estado de Minas Gerais, o risco de os escolares desenvolverem sobrepeso torna-se significativamente maior a partir do nono ano de escolarização do pai ou do responsável; já em Cuiabá, no Mato Grosso, o alto nível de escolaridade materna proporcionou, em mais de três vezes, a chance para o sobrepeso dos filhos(21,22). Além do grau de instrução, a condição nutricional dos pais também interfere diretamente no estado nutricional dos filhos(14,16,18,21). Guimarães et al observaram forte associação estatística entre o IMC dos pais, especialmente da mãe, e o sobrepeso dos escolares(21). Os Odds Ratio (OR) ajustados foram de 7,27 para os escolares cujas mães e pais eram obesos (IMC30) e de 2,65 para aqueles cujos pais tinham IMC inferior a 25. Se um dos pais é obeso, a chance da criança desenvolver obesidade é de 40% e, se ambos os pais forem obesos, essa chance pode duplicar(33).

Os fatores genéticos podem justificar, em parte, a relação direta no tocante à prevalência de sobrepeso nos filhos de pais sob essa mesma condição; todavia, os determinantes ambientais associados ao excesso de peso, especialmente os maus hábitos alimentares e a inatividade física, servem como exemplo dos pais, comumente seguido pelas crianças(34). Outra questão diz respeito à percepção materna quanto ao estado nutricional dos filhos, uma vez que, em geral, as mães têm dificuldades para reconhecer a condição de sobrepeso, apesar da preocupação com o peso dos filhos no futuro e de considerarem mais saudável uma criança com peso normal(35).

A influência do número de irmãos na determinação do excesso de peso deve-se ao fato de que a condição de ser filho único aumenta a proteção materna, principalmente relacionada a uma maior oferta alimentar; além disso, quanto menor o número de moradores no domicílio, maior a disponibilidade de alimentos per capita(22,36). Outra referência ao núcleo familiar diz respeito à variável número de uniões conjugais: as crianças filhas de mães com apenas uma união têm 2,53 vezes mais chances de sobrepeso, em relação àquelas que tiveram duas ou mais uniões(22).

No tocante aos hábitos de lazer, o tempo assistindo à televisão contribui tanto para o sedentarismo como para o consumo excessivo de energia, uma vez que, além de passar horas fazendo isso, os indivíduos estão mais expostos à propaganda de alimentos não saudáveis(13,15,17,18,21). Ademais, crianças e adolescentes tendem a consumir mais fast-food e refrigerantes e menos frutas e vegetais do que aqueles que passam menos tempo assistindo à televisão(37). Quanto maior for o número de horas semanais (10 horas) em que as crianças participam de brincadeiras, maior a associação com a redução do excesso ponderal(22) e, à parte as brincadeiras na rua ou fora da escola, participar das aulas de Educação Física diminuiria em 45% as chances para o desenvolvimento da obesidade(13).

Outros fatores que influenciam a associação entre atividade física e excesso de peso são a distância entre a casa e a escola e o meio de transporte utilizado para a realização do percurso. Residir a menos de 1km do local de estudo representa riscos maiores entre 35 e 67% para o sobrepeso do que residir a mais de 10km. Ainda, ir para a escola utilizando automóveis ou transporte coletivo apresenta maior risco para o sobrepeso do que deslocar-se caminhando ou de bicicleta(22).

O grande uso da cantina escolar entre os jovens com sobrepeso sugere a frágil percepção dos adolescentes quanto à importância da merenda oferecida pela escola e, em paralelo, demonstra as opções de alimentos não saudáveis, em geral de alta densidade enegética, ricos em gorduras e carboidratos(22). O fato de realizar dieta para emagrecimento sem as devidas orientações ou omitir refeições diárias denota a preocupação dos jovens com a estética e a saúde, porém, influencia o hábito de "beliscar" alimentos com elevada densidade calórica ao longo do dia(38). É válido destacar que os estudos listados (Quadro 2) não avaliaram o consumo alimentar de crianças e adolescentes, impedindo maiores inferências sobre o estilo de vida e o estado nutricional. Entretanto, sabe-se que o consumo alimentar inadequado é uma das causas imediatas da elevação do peso corpóreo e que sofre forte influência do status socioeconômico e familiar.

Evidencia-se, com a presente revisão, que os determinantes do estado nutricional em crianças e adolescentes condicionam-se aos padrões socioeconômicos, familiares e às características comportamentais referentes aos hábitos de vida. No caso do déficit estatural, ressalta-se a influência da escolaridade, da renda e do saneamento básico. Para o excesso de peso, destaca-se a associação com a condição socioeconômica, a escolaridade dos jovens e de seus pais e com o estilo de vida sedentário.

Deste modo, torna-se evidente a necessidade da intensificação de ações direcionadas à vigilância alimentar e nutricional na faixa etária descrita, em paralelo à distribuição equânime das políticas de educação e saúde à população. Por fim, tendo em vista o quantitativo de estudos na região Sul, sugere-se a realização de investigações sobre a situação dos distúrbios nutricionais e fatores associados, em especial nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

 

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Endereço para correspondência:
Vanessa Sá Leal
Avenida Afonso Olindense, 344 - casa 26 - Várzea
CEP 50810000 - Recife/PE
E-mail: vanessasaleal@yahoo.com.br

Recebido em: 21/6/2011
Aprovado em: 16/11/2011
Conflito de interesse: nada a declarar

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