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Revista Paulista de Pediatria

Print version ISSN 0103-0582On-line version ISSN 1984-0462

Rev. paul. pediatr. vol.36 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2018  Epub Jan 15, 2018

https://doi.org/10.1590/1984-0462/;2018;36;1;00001 

Artigos Originais

PRIMEIRA VISITA DOMICILIAR PUERPERAL: UMA ESTRATÉGIA PROTETORA DO ALEITAMENTO MATERNO EXCLUSIVO

Maria José Laurentina do Nascimento Carvalhoa  * 

Michelle Figueiredo Carvalhoa 

Carlos Renato dos Santosa 

Paula Thianara de Freitas Santosa 

aUniversidade Federal de Pernambuco, Vitória de Santo Antão, PE, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

Averiguar a influência da primeira visita puerperal, da renda familiar, do hábito de chupeta, do número de irmãos e do peso ao nascer na manutenção do aleitamento materno exclusivo (AME) em lactentes com uma semana de vida até seis meses de idade no município de Vitória de Santo Antão, Pernambuco.

Métodos:

Neste estudo transversal, coletaram-se dados por inquérito que abrangiam características sociais e demográficas das famílias e prática de amamentação em crianças com uma semana até seis meses de vida, que compareceram às unidades de saúde da família de Vitória de Santo Antão nos dias de puericultura, entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015. Para indicar quantas vezes a prevalência do desfecho foi aumentada por influência dos fatores analisados, utilizou-se a Razão de Prevalência, bem como um modelo de regressão logística binária para análise e confiabilidade dos resultados.

Resultados:

A prevalência de amamentação exclusiva foi de 41,7%. A renda familiar, o hábito de chupeta, o número de irmãos e o peso ao nascer não demonstraram significância estatística sobre a manutenção do AME. Em contrapartida, a ausência da visita puerperal (p=0,009) influenciou negativamente a sua permanência. As crianças que receberam visita mostraram maior possibilidade de estarem em AME (RP 2,28, IC95% 1,17-4,42). Na regressão logística apenas a visita apontou significância para estimar a probabilidade de ocorrer AME.

Conclusões:

A ausência da visita puerperal influenciou negativamente a manutenção do AME. Esse achado preenche a lacuna referente ao conhecimento dos fatores determinantes sobre essa prática e norteia o planejamento de ações e estratégias locais para promoção, proteção e apoio à amamentação exclusiva.

Palavras-chave: Aleitamento materno; Visita domiciliar; Desmame precoce

ABSTRACT

Objective:

To investigate the influence of the first postpartum visit, family income, pacifier habit, number of siblings and birth weight on the maintenance of exclusive breastfeeding in infants aged one week up to six months.

Methods:

In this cross-sectional study, data were collected through a survey, which included social and demographic characteristics of the families and the breastfeeding practice in children aged one week to six months, who received care at family health units in the municipality of Vitória de Santo Antão, Pernambuco, Northeast Brazil, between December 2014 and February 2015. Prevalence ratio was used to indicate how many times the outcome prevalence was increased by the influence of the studied variables, as well as a binary logistic regression model for the analysis and reliability of the results.

Results:

The prevalence of exclusive breastfeeding was 41.7%. Family income, pacifier habit, number of siblings and birth weight did not show statistical association with the maintenance of exclusive breastfeeding. However, the absence of postpartum home visits adversely influenced the outcome (p=0.009). The children who received home visits had a higher chance of being exclusively breastfed for six months or more (PR 2.28, 95%CI 1.17-4.42). In the logistic regression, only the visit showed significance to estimate the probability of exclusive breastfeeding.

Conclusions:

The absence of postpartum home visits negatively influenced the duration of exclusive breastfeeding. This finding fills a gap in the knowledge of determinants of exclusive breastfeeding and may guide the planning of local strategies and actions to promote, protect and support exclusive breastfeeding.

Keywords: Breastfeeding; Home visit; Weaning

INTRODUÇÃO

É consenso que o leite materno é o melhor alimento para a promoção e proteção da saúde da criança e apresenta reconhecidos benefícios nutricionais, imunológicos, cognitivos, econômicos, sociais e emocionais.1,2 Esses benefícios são aproveitados em sua magnitude quando o aleitamento materno (AM) é praticado exclusivamente até os seis meses de vida do bebê, permanecendo complementado por outros tipos de alimentos até os dois anos de idade ou mais, como recomenda a Organização Mundial de Saúde (OMS).3

Estimativas da OMS demonstraram que, se a amamentação fosse praticada universalmente, as mortes de 823 mil crianças e 20 mil mães poderiam ser evitadas a cada ano.4 Apesar dos benefícios do aleitamento materno exclusivo (AME) e dos esforços para a promoção do seu exercício, as taxas no Brasil, ainda com evidente melhoria,5 encontram-se aquém do recomendado, sendo a sua interrupção precoce um importante problema de saúde pública.6 A pesquisa de prevalência de AM nas capitais brasileiras e no Distrito Federal mais atual, publicada em 2009, revelou prevalência de 41% de AME. Mesmo tendo ocorrido um significativo aumento nos índices ao quarto mês de vida no Brasil (35,5% em 1999 para 51,2% em 2008), ao sexto mês essa taxa não chega a 10%.7

A Estratégia de Saúde da Família mostra-se como espaço privilegiado para as ações de promoção, proteção e apoio ao AM. Nesse âmbito, pode-se desenvolver práticas educativas para a promoção do AM desde o pré-natal, o que deve fazer parte da agenda de toda a equipe de saúde, sendo fundamental a formação do vínculo dessa com a dupla mãe-filho e famílias, possibilitando apoio, esclarecimentos sobre as intercorrências comuns na amamentação e promoção da saúde.8 Destaca-se, ainda, a Estratégia Nacional para Promoção do Aleitamento Materno e Alimentação Complementar Saudável no Sistema Único de Saúde (SUS) - Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil (EAAB), lançada em 2012, cujo objetivo é qualificar as ações nesse cenário por meio do aprimoramento das competências e habilidades dos profissionais de saúde nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Tal estratégia soma esforços importantes à Estratégia de Saúde da Família no que tange a temática do AM, qualificando o processo de trabalho por meio da educação permanente crítico-reflexiva e contribuindo de forma mais efetiva para o aumento dos índices de AM.9

A manutenção do AME pode ser influenciada por vários fatores. A visita domiciliar puerperal, umas das atividades inerentes à Estratégia de Saúde da Família, consiste em instrumento de intervenção fundamental na saúde da família, pois possibilita ao profissional mais contato com o trinômio mãe-filho-família, o que o aproxima da realidade vivenciada e permite identificar as principais necessidades em saúde.10 Isso é recomendado na primeira semana após a alta do bebê, e nos primeiros três dias caso o recém-nascido (RN) tenha sido classificado como de risco. A visita apresenta como objetivos principais: avaliar o estado de saúde da mulher e do RN e a interação entre eles; orientar e apoiar a família para a amamentação e os cuidados básicos com o RN; orientar o planejamento familiar e identificar situações de risco ou possíveis intercorrências para a adoção de condutas adequadas.11

Outros determinantes do AM merecem ser elencados. A renda per capita familiar é um deles, pois acredita-se que a adesão à amamentação é positiva quando há um melhor nível nesse quesito,1 embora não haja consenso entre os estudos que fizeram essa associação.1,12,13 O hábito de chupeta é um fator preditivo para a interrupção do AME, já que pode diminuir a frequência com que a criança mama ao seio, reduzindo a produção do leite materno e alterando a dinâmica oral do bebê, o que fortalece a orientação para que as mães não a ofereçam ao RN;6 entretanto, os estudos ainda são controversos.6,14,15,16 O número de filhos é outro aspecto relevante, visto estar intimamente relacionado à experiência prévia com amamentação. Há aumento na prevalência de AME entre mães que já amamentaram, correlacionando-se com suas vivências anteriores.17 Outro fator amplamente estudado é o peso ao nascer, pois crianças com baixo peso, por sua condição de imaturidade, apresentam maior dificuldade para mamar e menor duração da amamentação, podendo comprometer o sucesso do AME.6,12,16

Face ao exposto, o presente estudo teve por objetivo averiguar a influência da primeira visita puerperal, da renda familiar, do hábito de chupeta, do número de irmãos e do peso ao nascer na manutenção do AME em lactentes com uma semana até seis meses de vida no município de Vitória de Santo Antão, Pernambuco.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal de abordagem quantitativa que apresenta resultados de uma pesquisa mais ampla, intitulada “Avaliação das condições de saúde e nutrição materno-infantil atendidas nas unidades de saúde no município de Vitória de Santo Antão, PE, Brasil”, realizada entre os anos de 2014 e 2015.

Os dados foram coletados por meio de instrumento padronizado, aplicado às mães, com questões formuladas a partir das recomendações do Programa de Humanização do Pré-Natal e Nascimento e do Programa de Atenção à Saúde da Criança. Representa um questionário pré-codificado sobre as condições socioeconômicas, demográficas e de assistência ao pré-natal, a duração do AM e as causas do desmame.

A amostra consistiu em 62 crianças que compareceram, acompanhadas de suas mães, nos dias da puericultura, nas unidades de saúde da família (USF) das áreas urbanas e rurais do município de Vitória de Santo Antão, Pernambuco, representando 72,6 e 27,4%, respectivamente, das entrevistas realizadas entre os meses de dezembro de 2014 e fevereiro de 2015 nos períodos da manhã e da tarde. O estudo contemplou 15 USF; no entanto, a distribuição de crianças não foi equânime entre elas. Todas as mães aceitaram participar da pesquisa e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Como critérios de inclusão, foram considerados: crianças com uma semana de vida, já que a visita puerperal acontece na primeira semana ­pós-parto até o sexto mês de idade; e nutrizes das áreas cobertas do município que compareceram às USF no dia da coleta e não apresentaram complicações durante a gestação ou após o parto, contraindicando a amamentação. O percentual de perda foi de 3% (n=2) devido à ausência de informações nos questionários.

As principais variáveis exploradas foram: nível socioeconômico (<1 e ≥1 salário-mínimo); número de irmãos (1, 2 e ≥3); visita domiciliar puerperal realizada na primeira semana pós-parto (sim, não) por profissional da Estratégia de Saúde da Família, como recomenda o Ministério da Saúde (MS);11 uso de chupeta (sim, não); peso ao nascer (categorizado como <2500 g - baixo peso e ≥2500 g - peso adequado), de acordo com o MS;11 aspectos relativos à amamentação - criança mama ou mamou (sim, não), e se foram oferecidos outros alimentos no período em que ela era amamentada. Para essa última, considerou-se mais de uma resposta pela mãe na análise dos dados, ou seja, uma mesma criança poderia ter recebido um ou mais dos alimentos referidos: água, chá, fórmulas infantis, leite de vaca em pó integral e suco.

Para a construção do banco de dados, foi utilizado o software EpiData (The EpiData Association, Odense, Denmark), e para a análise estatística das variáveis utilizou-se o Statistical Package for the Social Scienes (IBM Corp. Armonk, NY, USA). Realizou-se a análise descritiva com cálculos de frequências dos resultados encontrados, e a associação entre as variáveis foi investigada por meio do teste do qui-quadrado, tendo como variável desfecho o AME e adotando um nível de significância menor que 0,05 (p<0,05) para todas as análises. Para indicar quantas vezes a prevalência do desfecho foi aumentada por influência dos fatores a medida de associação utilizada foi a Razão de Prevalência.

Devido à natureza da variável resposta do tipo dicotômica (presença ou não do AME), ajustou-se um modelo de regressão logística binária, que consiste em um caso particular dos modelos lineares generalizados.18 Para selecionar o melhor modelo, escolheu-se o método proposto por Akaike,19 o qual se diferencia de outros procedimentos de seleção de modelos por ser um processo de minimização que não envolve testes estatísticos. Por meio da rotina glm do software R (R Core Team - R Foundation for Statistical Computing, Viena, Áustria), foi ajustado um modelo de regressão logística usando a variável dependente AME (0 - não e 1 - sim) e as variáveis independentes X 1 : presença da visita puerperal (0 - não e 1 - sim); X 2 : idade da criança (1 - até dois meses e 2 - mais de dois meses); X 3 : renda (1 - ≤1 salário-mínimo e 2 - >1 salário-mínimo); e X 4 : sexo (1 - masculino e 2 - feminino).

Este estudo foi autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), conforme o protocolo nº 390.191 e CAAE nº 15371413.8.0000.5208.

RESULTADOS

As características das crianças estudadas encontram-se na Tabela 1. A maioria era do sexo masculino e apresentava peso ao nascer adequado (≥2500 g). A maior parte dos lactentes possuía um irmão, e as mulheres moravam com companheiros e filhos. Em relação ao saneamento básico, a maioria possuía água encanada, o destino de dejetos era realizado por meio de rede de esgoto e o lixo era coletado. Quanto ao aspecto socioeconômico, a renda familiar concentrou-se abaixo de um salário-mínimo, e grande parte das famílias referiram não receber benefício do governo.

Tabela 1: Características das crianças de uma semana a seis meses de vida acompanhadas nas unidades de saúde da família e parâmetros sociodemográficos, econômicos e habitacionais das famílias no município de Vitória de Santo Antão, Pernambuco, 2014-2015. 

Variáveis (n=62) n %
Sexo
Feminino 25 40,3
Masculino 37 59,7
Idade*
1 semana a ≤3 meses 38 61,3
>3 meses a ≤6 meses 24 38,7
Peso ao nascer** (g)
<2500 5 8,1
≥2500 55 88,7
Número de irmãos
Um 29 46,8
Dois 16 25,8
Três ou mais 17 27,4
Mora com***
Companheiro e filhos 41 66,1
Companheiro e familiares 9 14,5
Familiares 9 14,5
Água encanada
Sim 54 87,1
Não 8 12,9
Destino de dejetos
Fossa 20 32,3
Céu aberto 5 8,1
Rede de esgoto 37 59,7
Destino do lixo
Coletado 54 87,0
Queimado 6 10,0
Céu aberto 2 3,0
Renda familiar (salário-mínimo)
<1 44 71,0
≥1 18 29,0
Recebe algum benefício do governo****
Sim 29 46,8
Não 33 53,2

*A categorização não foi considerada na análise estatística; **Dois questionários não continham essa informação; ***Três questionários não continham essa informação; ****O benefício mais citado foi o Bolsa-Família (32,2%; n=20).

A prevalência de AME, AM e de crianças desmamadas foi de 41,7% (n=25), 38,3% (n=23) e 20,0% (n=12), respectivamente. A maior parte dos lactentes tinha recebido algum tipo de alimento - destacando a introdução da água e do chá nos primeiros seis meses -, e a explicação mais alegada pelas mães para terem desmamado ou interrompido o AME foi o leite insuficiente; grande parte das crianças fazia uso de chupeta. Informações detalhadas em relação ao AM são mostradas na Tabela 2.

Tabela 2: Características relacionadas ao aleitamento materno. Vitória de Santo Antão, Pernambuco, 2014-2015. 

Variáveis (n=62) n %
Prevalências*
Aleitamento materno exclusivo 25 41,7
Aleitamento materno 23 38,3
Sem leite materno 12 20,0
Explicações alegadas para desmame ou interrupção do AME
Leite insuficiente 10 16,1
Criança não queria 2 3,2
Mãe trabalhava ou estudava 2 3,2
Mãe não queria 1 1,6
Recebeu outro tipo de alimento enquanto mamava**
Sim 33 53,2
Não 25 40,3
Alimentos ofertados nos primeiros seis meses***
Água 27 43,5
Chá 16 25,8
Fórmulas infantis 14 22,6
Leite de vaca em pó integral 11 17,7
Suco 10 16,1
Chupeta
Sim 33 53,2
Não 29 46,8

AME: aleitamento materno exclusivo; *Dois questionários não apresentavam tais informações; **Dois questionários não tinham tal informação e em outros dois as crianças nunca tinham recebido leite materno; ***Pode haver mais de uma resposta para a mesma criança.

Os dados descritos na Tabela 3 referem-se às características da amostra e das associações obtidas entre AME e as variáveis averiguadas neste estudo. Deve ser dada ênfase para a visita puerperal, na qual foi avaliado se a criança foi vista na primeira semana de vida por algum profissional de saúde da Estratégia de Saúde da Família, como recomenda o MS,11 observando-se que 48,4% (n=30) receberam a visita, e em 51,6% (n=32) dos casos ela não ocorreu. Os profissionais mais referidos durante a visita foram: enfermeiro (30,6%; n=19), agente comunitário de saúde (22,6%; n=14), médico e fonoaudiólogo (3,2%; n=2 cada), e nutricionista e fisioterapeuta (ambos com 1,6%; n=1).

Tabela 3: Influência das variáveis selecionadas na manutenção do aleitamento materno exclusivo em crianças de uma semana a seis meses de vida no município de Vitória de Santo Antão, Pernambuco, 2014-2015. 

Aleitamento materno exclusivo p-valor
Sim [n (%)] Não [n (%)]
Visita puerperal
Sim 17 (29,3) 11 (18,9) 0,009
Não 8 (13,7) 22 (37,9)
Renda familiar (salário-mínimo)
<1 15 (25,8) 25 (43,1) 0,199
≥1 10 (17,2) 8 (13,7)
Hábito da chupeta
Sim 10 (17,2) 19 (32,7) 0,185
Não 15 (25,8) 14 (24,1)
Número de irmãos
Um 14 (24,1) 13 (22,4) 0,110
Dois 3 (5,1) 12 (20,6)
Três ou mais 8 (13,7) 8 (13,7)

A visita puerperal permaneceu estatisticamente associada à manutenção do AME (Razão de Prevalência - RP=2,28; intervalo de confiança de 95% - IC95% 1,17-4,42; Tabela 4). Em contraste, a renda familiar, o uso de chupeta e o número de irmãos não demonstraram associação significativa.

Tabela 4: Associação entre a variável selecionada e o desfecho aleitamento materno exclusivo em crianças de uma semana a seis meses de vida. 

Razão de prevalência IC95%
Visita puerperal
Sim 2,2 1,17-4,42
Não 1,0

IC95%: intervalo de confiança de 95%.

O modelo de regressão logística apontou apenas a presença da visita puerperal (X 1 ) como significativa para estimar a probabilidade de ocorrer AME. Utilizou-se, em seguida, o método stepwise e a análise de significância dos parâmetros para buscar o melhor modelo, apontando para um novo e reduzido contendo como variável dependente apenas o AME e variável independente a presença da visita puerperal. Foi obtida uma probabilidade de 0,266 de ocorrer AME na ausência da visita, e 0,607 com a presença da visita. Os dois modelos aqui apresentados demonstraram critério de informação de Akaike de 79,3 e 76,3, respectivamente. Desse modo, evidencia-se que a visita domiciliar puerperal é um importante fator para o incremento da probabilidade de ocorrer o AME.

DISCUSSÃO

As evidências científicas que fundamentam a excelência do AME são inúmeras.1,2,3,4,5,20 Todavia, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, são raros os estudos populacionais que buscam avaliar as condições de saúde materno-infantil e, principalmente, compreender a situação de AM e seus determinantes, destacando a relevância do atual estudo. Além do mais, a pesquisa é a primeira a abordar a visita puerperal e a sua possível influência sobre a manutenção do AME, aspecto fundamental de apoio da Estratégia de Saúde da Família com a dupla mãe-bebê e familiares.

Mesmo perante as recomendações para que o leite materno seja oferecido até os seis meses de idade da criança,3 o seu indicador foi aquém do esperado nos avaliados, evidenciando prevalência de AME de 41,7%. Essa baixa prevalência na presente pesquisa assemelhou-se à encontrada por outros estudos com menores de seis meses.6,21 Os motivos alegados pelas mães para a interrupção do AME, como o leite insuficiente, a recusa da criança, o compromisso de trabalho ou o estudo da mãe, corroboram os referidos por outros autores.21,22

A expectativa era obter indicadores mais satisfatórios, já que o município apresenta serviços atrelados à rede ­materno-infantil como o Centro de Saúde da Mulher, a Policlínica da Criança, a Associação de Proteção à Maternidade Infantil de Vitória e o Hospital João Murilo de Oliveira.23 O município ainda conta com a Estratégia de Saúde da Família e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, com cobertura estimada de 77,02 e 90,30%, respectivamente, além do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF).24 Essas estratégias agregam esforços importantes nas ações de promoção, proteção e apoio à amamentação.25 Mesmo com a proporção de crianças em AME ter ficado abaixo das recomendações internacionais,3,4 a região, a julgar pela estruturação da rede, demonstra envolvimento e empenho com o grupo materno-infantil, e o atual estudo fornece subsídios para direcionar o planejamento das ações a partir da compreensão dos fatores que permeiam a prática do AME.

Diversos motivos podem influenciar a permanência do AME, sendo crucial o seu entendimento para permitir avanços na situação da amamentação. Assim, nos primeiros seis meses de vida do lactente, dentre as variáveis testadas, a visita puerperal foi aquela que deteve influência sobre a manutenção do AME. Com relação a esse aspecto, a visita é compreendida como um momento privilegiado para a extensão do cuidado, importante para as mães sanarem as suas dúvidas e para que o profissional verifique a técnica e as dificuldades relacionadas à amamentação. Adicionalmente, os primeiros dias após o parto correspondem a uma etapa crítica para início e manutenção do AM, já que representa o momento em que há insegurança e fragilidade emocional da mulher. Em virtude disso, esse acompanhamento proporciona o desenvolvimento da segurança materna e familiar e uma prática de AME segura.26 Na pesquisa atual, as crianças que receberam a visita puerperal mostraram mais possibilidades de estarem em AME.

Mediante o exposto, pode-se inferir que a visita puerperal atua como fator protetor na manutenção da prática de amamentação exclusiva. É um momento oportuno para realizar atividades assistenciais e de educação em saúde que repercutirão favoravelmente na saúde materna e infantil. O apoio do profissional, por meio da escuta qualificada, da atenção humanizada, do esclarecimento das dúvidas, da orientação da técnica correta de amamentação e do suporte no enfrentamento das possíveis dificuldades no processo, contribui para que a mulher inicie e continue o AME de forma mais efetiva, colaborando para o aumento de seus índices. Neste estudo, apenas 48,4% das duplas mães-bebês receberam visitas, a maioria delas realizada pelo profissional de enfermagem e agente comunitário de saúde, revelando uma lacuna na concepção do trabalho pautado na lógica multiprofissional. Ressalta-se aqui a necessidade de maior envolvimento de médicos e profissionais do NASF, pois poucas visitas foram realizadas por eles. É preciso que essa prática seja papel de todos para garantir mais efetividade nas ações e extensão na duração do AME. Vale frisar que, quanto à visita do agente comunitário de saúde, Oliveira et al12 não identificaram influência dessa variável sobre a duração do AM. Entretanto, destaca-se a importância da intervenção desses por sua proximidade e vínculo com as famílias, que, devidamente capacitadas, tornam-se agentes potenciais na melhoria dos indicadores de AM.

A renda familiar não se associou ao AME, apesar da hipótese de que a menor renda está ligada à sua interrupção precoce, premissa que pode ser confirmada no estudo de Barbosa et al.13 Para esses autores, a renda familiar menor ou igual a três salários-mínimos aumentou em três vezes a chance de desmame precoce. Acredita-se que são pessoas em situação socioeconômica desfavorável, com número elevado de moradores por domicílio, justificando a necessidade de a mãe ter que trabalhar para contribuir com a subsistência da família e dificultando o estabelecimento do AME. No presente estudo, o tamanho amostral possivelmente contribuiu para que não fosse encontrada tal associação.

O hábito da chupeta esteve presente em 53,2% da amostra, porém não foi constatada a sua influência sobre a exclusividade do AM, resultado também evidenciado por Pellegrinelli et al.27 Contudo, não há consenso quanto aos efeitos adversos da chupeta e muitos resultados são controversos na literatura.6,14-16 Boccolini et al 16 apontaram que o uso de chupeta foi o aspecto mais fortemente associado à interrupção precoce do AME nos estudos avaliados. Seu uso pode implicar em diminuição na frequência de mamadas, resultando em menor estimulação do complexo mamilo-areolar e consequente redução na produção do leite materno. Há embate na literatura sobre a questão de não ser a chupeta o motivo primário do desmame e sim um indício da vontade materna de desmamar ou uma prova das dificuldades com a prática da amamentação.16,28 O tamanho amostral pode ter sido fator comprometedor do resultado no atual estudo, dificultando a elucidação das controvérsias quanto ao uso da chupeta.

No que corresponde ao número de irmãos que a criança apresentava, não foi observada associação com a interrupção do AME. Esse achado difere de outros estudos,14,16,29,30 nos quais multíparas, devido à experiência prévia, ofertaram mais o leite materno de forma exclusiva do que primíparas, implicando no aumento da prevalência do AME. Vale sublinhar que essa variável não foi controlada, pois impossibilitou identificar se os irmãos relatados eram filhos com laços consanguíneos ou não da mulher, podendo ter influenciado no resultado.

O peso ao nascer é apontado pela literatura como fator preditivo para a interrupção do AME, dado que a criança com baixo peso (<2500 g) apresenta mais dificuldades no estabelecimento do AM por imaturidade na frequência e pressão de sucção, além de longos períodos de internação em unidade neonatal, prologando a separação de suas mães.12,14,16 Nesta pesquisa, o peso ao nascer não esteve associado ao AME, verificado também por outros autores.6,14 No entanto, tal achado pode ter ocorrido devido à pequena proporção de crianças com baixo peso, pois a distribuição nas categorias não ocorreu de maneira uniforme.

Convém discorrer sobre a oferta de água, chás, sucos e leite de outras origens, algo corriqueiro na população e fortemente enraizado na cultura, e que foi observado no presente estudo. Essa prática é considerada inofensiva por mães e familiares, sendo encorajada por figuras mais experientes da família, a exemplo das avós,28 e ocorre na expectativa de sanar problemas como cólicas e gases e saciar a sede do bebê.12,22 Neste estudo, a água foi o líquido mais ofertado pelas mães, seguida pelo chá, o que condiz com achados de Campos et al.22 A introdução de líquidos e alimentos nessa idade provoca diminuição da ingestão do leite materno e redução em sua produção, além de afetar a duração do AM, diminuir a confiança e segurança da mãe e expor a criança a riscos de contaminação.28

É oportuno mencionar que uma das limitações do estudo se refere aos resultados traduzirem a realidade específica de um grupo de crianças de até seis meses, destacando a necessidade de outras pesquisas mais abrangentes que possibilitem inferir os resultados para a população. Outra limitação relaciona-se à não inclusão de características maternas (idade, escolaridade, profissão, tipo de parto) para análise de associação com o AME, pois o instrumento de coleta privilegiava questões a respeito da criança.

Por fim, o presente trabalho apontou que a prevalência de AME ficou inferior ao preconizado pela OMS e o aspecto que influenciou negativamente a sua manutenção foi a ausência da visita puerperal. Em contraste, a renda familiar, o número de irmãos, o peso ao nascer e o hábito da chupeta não demonstraram associação significativa. Os achados do atual estudo são de grande relevância, visto que preenchem uma lacuna no que se refere ao conhecimento dos fatores determinantes sobre a prática de AME em Vitória de Santo Antão, norteando o planejamento de ações locais. Assim, as ações em saúde materno-infantil no município devem priorizar a primeira visita puerperal como estratégia de apoio e incentivo para a manutenção do AME.

REFERÊNCIAS

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Financiamento: A pesquisa foi realizada a partir do trabalho intitulado “Planejamento estratégico participativo das unidades de saúde: ferramenta da melhoria da qualidade dos serviços e integração das ações de atenção primária à saúde materno-infantil no município de Vitória de Santo Antão”, usado para o Projeto PET - Rede Cegonha, sob o parecer nº 390.191 e CAAE nº 15371413.8.0000.5208.

Recebido: 15 de Agosto de 2016; Aceito: 19 de Abril de 2017

*Autor correspondente. E-mail: marialaurenc@hotmail.com (M.J.L.N. Carvalho).

Conflito de interesses: Os autores declararam não haver conflito de interesses.

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