SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.12 issue2Tooth length determination according to the position of the imaging plate of the Digora digital system in relation to the dental axisAlternative tecniques for the control of the dimensional alterations in the acrylic resins of the complete dentures author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo

Print version ISSN 0103-0663

Rev Odontol Univ São Paulo vol.12 n.2 São Paulo Apr. 1998

https://doi.org/10.1590/S0103-06631998000200013 

Prótese

 

Avaliação in vitro da efetividade de polimerização da resina acrílica dental ativada através de energia de microondas, quando em contato com metal

Use of microwave energy for processing acrylic resin near metal

 

Katia Olmedo BRAUN*
Altair Antoninha DEL BEL CURY**
Jaime Aparecido CURY***

 

 


BRAUN, K. O.; DEL BEL CURY, A. A.; CURY, J. A. Avaliação in vitro da efetividade de polimerização da resina acrílica dental ativada através de energia de microondas, quando em contato com metal. Rev Odontol Univ São Paulo, v. 12, n. 2, p. 173-180, abr./jun., 1998.

Com o objetivo de verificar a efetividade da energia de microondas na polimerização da resina acrílica próxima ao metal, foram confeccionados 36 corpos-de-prova cilíndricos com 30,0 mm de diâmetro x 4,0 mm de espessura, contendo no seu interior uma sela metálica com 28,0 mm x 8,0 mm x 0,5 mm, divididos aleatoriamente em 3 grupos e submetidos aos seguintes processamentos: G1) resina Clássico polimerizada em ciclo curto; G2) resina Acron-MC polimerizada em forno de microondas por 3 minutos a 500 W; G3) resina Clássico polimerizada em forno de microondas por 3 minutos a 500 W. Após a polimerização, cada amostra foi dividida em duas partes aproximadamente iguais, sendo que uma das partes foi utilizada para a avaliação de monômero residual, enquanto a outra foi submetida aos testes de dureza e porosidade. A dosagem de monômero liberada na água durante doze dias consecutivos foi avaliada através da espectrofotometria. A dureza Knoop foi verificada nas distâncias de 50, 100, 200, 400 e 800 mm da sela metálica, e a porosidade interna e externa foi avaliada a olho nu e com auxílio de microscópio com aumento de 100X. Diante dos resultados obtidos, concluiu-se que a energia de microondas pode ser utilizada para a polimerização da resina acrílica contendo sela metálica no seu interior e que as resinas acrílicas convencionais, quando polimerizadas através da energia de microondas, apresentaram maior quantidade de poros.

UNITERMOS: Resinas acrílicas; Porosidade; Microondas.


 

 

INTRODUÇÃO

Em meados dos anos 30, a resina acrílica (polimetil metacrilato) foi incorporada aos materiais odontológicos, tornando-se, a partir de 1940, o material mais utilizado na confecção de bases de próteses, devendo isto à sua característica de translucidez, a qual permite a imitação da aparência natural da gengiva, sendo esta a principal vantagem sobre o material antecessor: a borracha vulcanizada, que, apesar de sua opacidade, apresentava propriedades físicas e mecânicas adequadas (SPENCER; GARIEFF33, 1949).

Tradicionalmente, a resina acrílica tem sido processada em moldes sob pressão no interior de muflas metálicas imersas em água à temperatura controlada, por um tempo específico, para que ocorra a conversão do monômero em polímero (TAKAMATA; SETCOS34, 1989). Entretanto, através desse processo, a resina acrílica apresenta algumas limitações, como alteração dimensional e porosidade. Esses poros podem ser internos e/ou superficiais. Poros internos são considerados como área de concentração de "stress", resultando em uma maior vulnerabilidade à fratura e distorções das bases de prótese, enquanto os superficiais dificultam a limpeza da mesma (BAFILE et al.4, 1991; PHILLIPS24, 1993), permitindo a colonização de microorganismos e causando, conseqüentemente, estomatite protética (DAVENPORT7, 1970).

Na tentativa de simplificar a técnica de processamento e de melhorar as propriedades físicas, diferentes formas de processamento foram introduzidas: calor seco, vapor, infravermelho, luz visível e irradiação por microondas (LEVIN et al.20, 1989; TAKAMATA; SETCOS34, 1989).

NISHII22, em 1968, foi o primeiro a utilizar a energia de microondas com a finalidade de polimerizar a resina acrílica. Esse processo ocorre através do aquecimento dielétrico, no qual a energia é simultaneamente absorvida pela área superficial e interna da resina. Dessa forma, elimina-se o tempo necessário para transferir o calor da água quente para a mufla, para o gesso de revestimento e, por fim para a resina, fazendo com que esse processo seja bastante rápido, fácil e limpo (LEVIN et al.20, 1989). Em 1985, REITZ et al.25 concluíram que as propriedades físicas (dureza, resistência transversal e porosidade) da resina polimerizada por microondas não são estatisticamente diferentes das propriedades da resina polimerizada pelo banho de água convencional.

Entretanto, as microondas são ondas eletromagnéticas que podem ser absorvidas, transmitidas ou refletidas, dependendo do tipo de material presente no campo eletromagnético. Na presença de metal, as microondas são refletidas, sendo este um material totalmente intransponível para as mesmas (AL DOORI et al.1, 1988).

Considerando que, em uma prótese parcial removível, a base de resina acrílica envolve uma sela metálica e sabendo que o metal é um material intransponível para as microondas, poderia se afirmar que, teoricamente, a presença de metal no interior da massa de resina poderia interferir na polimerização da mesma e, conseqüentemente, em suas propriedades físicas.

Para se avaliar a efetividade da polimerização de resinas acrílicas dentais submetidas ao processamento através da energia de microondas na presença de metal, foram utilizados o teste de dureza superficial, que é um indicador de outras propriedades (PHILLIPS23, 1993), e a dosagem de monômero residual, a qual permite verificar a conversão do monômero em polímero alcançada (JAGGER13, 1978) e a porosidade, que é uma das limitações da técnica de processamento (DE CLERK8, 1987).

 

MATERIAIS E MÉTODO

Foram utilizadas duas marcas comerciais de resinas acrílicas: Acron-MC (G. C. Dental Ind. Corp.) – resina para microondas – e Classico (Clássico Artigos Odontológicos Ltda.) – resina termopolimerizável convencional.

Confecção das amostras

Foram confeccionados 36 corpos-de-prova com matrizes cilíndricas de cera utilidade, medindo 30,0 ± 0,05 mm de diâmetro e 4,0 ± 0,05 mm de espessura, contendo no seu interior uma sela metálica com 28,0 mm X 8,0 mm X 0,5 mm. As matrizes de cera foram incluídas na mufla em gesso pedra tipo III proporcionado conforme as instruções do fabricante. Os corpos-de-prova foram divididos aleatoriamente em 3 grupos submetidos aos seguintes processamentos: Grupo 1 (G1): prensagem da resina termopolimerizável convencional Clássico polimerizada em banho de água aquecida (ciclo curto); Grupo 2 (G2): prensagem da resina Acron-MC para a polimerização com energia de microondas; Grupo 3 (G3): prensagem de resina termopolimerizável convencional Clássico polimerizada com energia de microondas.

As resinas foram preparadas conforme as instruções do fabricante e, na fase plástica, foram inseridas nos moldes, que continham as selas metálicas em seu interior, à semelhança das próteses parciais removíveis (Figura 1). As amostras do Grupo 1 foram polimerizadas em banho de água, ciclo curto de 3 horas (técnica modificada de Tuckfield24), enquanto as amostras dos Grupos 2 e 3 foram polimerizadas em forno de microondas em potência de aproximadamente 500 W durante 3 minutos, conforme as instruções do fabricante. Terminado o ciclo de polimerização, as muflas foram submetidas a um resfriamento de 30 minutos sobre a bancada de trabalho e mais 30 minutos sob água corrente.

 

a12f1.jpg (21348 bytes)

 

Os corpos-de-prova removidos das muflas foram submetidos ao acabamento com lixas d’água com granulação decrescente até 600 em politriz APL-4 (AROTEC) e polidos com pasta de diamante com granulação de 1 m (METADI-BUEHLER); limpos em ultra-som (THORNTON modelo T7) por 2 minutos. Todos os corpos-de-prova foram cortados em duas partes aproximadamente iguais, utilizando uma cortadeira metalográfica ISOMETTM, sendo que uma das partes foi utilizada para a análise de monômero residual, enquanto a outra foi submetida aos testes de dureza e porosidade.

Avaliação da Dureza

A dureza Knoop das amostras foi avaliada utilizando o microdurômetro Shimadzu modelo 2000, sendo realizadas 5 penetrações com carga de 25 g por 10 segundos para cada lado da sela metálica nas distâncias de 50, 100, 200, 400 e 800 mm (Figura 2).

 

a12f2.jpg (17290 bytes)

 

Avaliação da porosidade

Foram avaliadas as superfícies interna e externa das amostras de duas maneiras: a olho nu e com o uso do microscópio Shimadzu modelo 2000 com aumento de 100X, em uma extensão de 6 mm X 4 mm (24 mm2) (Figura 3). Foram atribuídos escores para melhor descrição da porosidade:

  • n° de poros < 30 = Leve (L);
  • n° de poros [30-70] = Moderado (M);
  • n° de poros  > 70 = Pesado (P).

 

a12f3.jpg (26201 bytes)

 

Determinação do monômero residual

As metades restantes dos corpos de prova foram colocadas individualmente em frascos contendo 6,0 ml de água deionisada e mantidas na estufa a 37± 2ºC por 24 horas. Transcorrido esse período, as soluções aquosas foram retiradas para análise da presença do monômero através de espectrofotometria (LAMB et al.19, 1982), utilizando o espectrofotômetro Beckman DU- 65, sendo esse processo repetido a cada 24 horas até completar 188 horas, quando ocorreu a estabilização da liberação do monômero residual (DEL BEL CURY9, 1992). Após a leitura, a solução aquosa de monômero foi desprezada.

A porcentagem de monômero liberado na água pelos corpos de prova foi determinada a cada 24 horas utilizando-se espectrofotômetro marca BECKMAN modelo DU-65. O cálculo foi realizado pela regressão, utilizando o "software" Quatro-Pró (Borland International):

C = constante + coeficiente de (x) X Absorbância, onde

C = concentração de monômero da solução.

Análise estatística

Os dados obtidos para a dosagem de monômero residual e microdureza foram submetidos à análise de variância e as médias, comparadas através do teste de Tukey, no nível de 5 % de significância.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 Com o intuito de verificar a eficácia da polimerização da resina acrílica próxima ao metal, foram avaliadas a dureza superficial Knoop, a presença de poros e a dosagem de monômero residual.

Os resultados obtidos com as medidas de dureza Knoop sugerem que o metal não interferiu com a polimerização da resina acrílica quando processada através da energia de microondas, pois foi observado que as amostras do Grupo 2 (A.MC) apresentaram os melhores resultados, diferindo significativamente do Grupo 1 (Cl. A) (Tabela 1). Esses dados estão de acordo com os resultados obtidos na pesquisa de ALKATIB et al.2 (1990). Os Grupos 1 (Cl. A) e 3 (Cl. MC) (Tabela 4) não apresentaram valores de dureza com diferença estatística significativa, resultado coerente com os encontrados por NISHII22, (1968); REITZ et al.25 (1985); TRUONG; THOMASZ36 (1988); ILBAY et al.12 (1994). Esses resultados talvez possam ser explicados devido à mais completa polimerização conferida às resinas acrílicas quando processadas através da energia de microondas (Tabela 4), combinada com a diferente composição da resina desenvolvida para a polimerização através da energia de microondas, que será discutida posteriormente.

 

a12t1.gif (6458 bytes)

 

 

TABELA 2 - Freqüência por amostra do número de poros pequenos, contados através do microscópio com aumento de 100 X.
Class.
do n°
de
poros
Parte interna Parte externa
G1
(A)
G2
(A. MC)
G 3
(MC)
G1
(A)
G2
(A. MC)
G3
(MC)
L 4 3 2 4 5 5
M 6 7 7 6 6 3
P 2 2 3 2 1 4
L = Leve, M = Moderado, P = Pesado

 

 

TABELA 3 - Média do número de poros visíveis a olho nu  na área interna da amostra por tratamento.
Áreas Grupo 1
(Cl. A)
Grupo 2
(A. MC)
Grupo 3
(Cl. MC)
Área no
microscópio (A)
0 2,92 ± 1,18 4,00 ± 2,33
Área Total (At) 0,83 ± 0,32 3,58 ± 1,76 14,42 ± 3,94
R = At - A 0,83 ± 0,32 0,67 ± 0,30 10,42 ± 2,53

 

 

TABELA 4 - Médias e desvios padrões das medidas do conteúdo de monômero residual (% x 10-4) segundo o  tratamento e o tempo avaliado.
Tempo Grupo 1 (CL. A) Grupo 2 (A. MC) Grupo 3 (Cl. MC)
24 h 178,84 ± 17,88 a 59,51 ± 11,09 b 116,54 ± 12,03 c
48 h 119,43 ± 11,28 a 39,60 ± 4,86 b 77,43 ± 5,03 c
72 h 85,28 ± 10,06 a 22,85 ± 4,51 b 50,18 ± 5,20 c
96 h 75,94 ± 7,53 a 24,75 ± 4,19 b 54,43 ± 4,60 c
120 h 75,83 ± 5,60 a 20,52 ± 2,79 b 59,19 ± 4,14 c
144 h 71,83 ± 4,46 a 20,61 ± 2,62 b 56,64 ± 3,59 c
168 h 72,45 ± 6,72 a 19,31 ± 2,77 b 68,86 ± 6,51 a
192 h 67,48 ± 4,69 a 18,63 ± 1,96 b 60,35 ± 3,92 a
216 h 43,88 ± 3,80 a 11,10 ± 1,76 b 33,83 ± 3,03 a
240 h 54,83 ± 2,96 a 10,27 ± 1,69 b 79,03 ± 21,47 a
264 h 36,64 ± 4,49 a 16,03 ± 2,01 b 35,37 ± 2,96 a
288 h 44,28 ± 2,16 a 6,79 ± 1,34 b 40,13 ± 2,75 a
Médias seguidas por letras distintas diferem entre si ao nível de 5% de significância em linha

 

Quanto à porosidade foram detectados poros pequenos nas superfícies externa e interna de todas as amostras, verificando-se, na Tabela 2, que os Grupos 1 (Cl. A) e 2 (Cl. MC) apresentaram tendência a repetição dos escores moderado e leve, enquanto o Grupo 3 (Cl. MC) apresentou a maior repetição do escore pesado, confirmando os resultados de REITZ et al.25 (1985); AL DOORI et al.1 (1988); BAFILE et al.4 (1991); ILBAY et al.12 (1994); GARCIA RODRIGUES26 (1995).

Na Tabela 3, pode-se verificar a média do número de poros visíveis a olho nu, na superfície interna por amostra, e nota-se que as amostras do Grupo 3 (Cl. MC) apresentaram, em média, maior número de poros que os Grupos 1 (Cl. A) e 2 (A. MC), estando de acordo com os resultados de REITZ et al.25 (1985); AL DOORI et al.1 (1988); ALKATIB et al.2 (1990); BAFILE et al.4 (1991); ILBAY et al.12 (1994), que detectaram uma maior quantidade de poros nas amostras de resina acrílica convencional polimerizadas através da energia de microondas.

A porosidade interna encontrada nas resinas convencionais polimerizadas através da energia de microondas poderá ser atribuída pelo aumento excessivo da temperatura, principalmente no início do ciclo de polimerização (FARAJ; ELLIS10, 1979), pois o ponto de ebulição do monômero é de 100,8ºC e, se a temperatura excede o mesmo, o monômero entra em ebulição, evaporando e, produzindo poros (DE CLERCK8, 1987). Entretanto, a resina desenvolvida para a polimerização em microondas apresenta menor quantidade de poros, fato esse que pode ter ocorrido em função da presença de trietileno ou tetraetilenoglicol na composição do monômero, os quais são dimetacrilatos que contêm um grupo reativo em cada extremidade e possuem baixa pressão de vapor em altas temperaturas, variando entre 100 e 150ºC (COMBE6, 1986), o que permite o seu processamento em temperaturas elevadas sem que ocorra porosidade (BAFILE et al.4, 1991).

Os resultados sugerem que a sela metálica não é um dos fatores que poderia aumentar a porosidade das resinas acrílicas quando submetidas à polimerização através da energia de microondas, estando de acordo com os achados de KIMURA et al.16 (1983); DE CLERCK8 (1987); SHLOSBERG et al.30 (1989), muito embora duas amostras nos Grupos 2 (A. MC) e 3 (Cl. MC) apresentaram porosidades excessivas próximas ao metal. Esses casos isolados de porosidade não têm uma origem clara, sendo importante lembrar que a origem dos poros pode também estar relacionada com outras variáveis de processamento; como contração de polimerização, inclusão de gases e homogeneidade inadequada da massa, pois a formação de poros na resina acrílica é um fenômeno complexo com origem multifatorial (WOLFAARDT et al.37, 1986). Segundo ROHRER; BULARD27 (1985), geralmente as ondas eletromagnéticas são refletidas pelo metal e este não se aquece, não podendo, dessa maneira, contribuir para o aumento da temperatura e conseqüente produção de poros, mas, se uma concentração maior de ondas eletromagnéticas atingissem o metal, estas penetrariam 1 mm na superfície deste, causando um deslocamento de elétrons na mesma; se essa corrente elétrica for intensa, pode ocorrer uma descarga elétrica originando um aquecimento também intenso.

Ainda segundo vários autores (REITZ et al.25, 1985; TRUONG THOMAS36, 1988; AL DOORI et al.1, 1988; TAUBERT; NOWLIN35, 1992; ILBAY et al.12, 1994), a porosidade encontrada nas resinas acrílicas convencionais curadas através da energia de microondas poderia ser reduzida se o tempo de processamento fosse aumentado e a potência, diminuída. Outra maneira de se minimizar a porosidade das resinas acrílicas convencionais seria aumentar o tempo decorrido entre a prensagem da resina no molde e o início do ciclo de polimerização (TAUBERT; NOWLIN35, 1992), o qual permitiria uma maior difusão do monômero para o interior das partículas de polímero, reduzindo aglomerados de monômero que, por contração de polimerização, provocariam porosidades (KIMPARA; MUENCH15, 1996).

Através da dosagem de monômero residual, pode-se avaliar a efetividade de conversão do monômero em polímero e, conseqüentemente, a polimerização da resina acrílica. Os resultados obtidos sugerem que a sela metálica presente no interior da massa de resina acrílica, quando processada através da energia de microondas, não interfere com a conversão de monômero em polímero, uma vez que as menores quantidades de monômero foram detectadas nas amostras dos Grupos 2 (A. MC) e 3 (Cl. MC) processadas através da energia de microondas (Tabela 4), estando de acordo com KODA et al.17 (1989); DE CLERCK8 (1987); DEL BEL CURY9 (1992); TRUONG; THOMAS36 (1988); YUNUS et al.38 (1994). Esse fato pode ser explicado pelo tipo de aquecimento da resina que ocorre devido a polarização das moléculas de monômero, as quais entram em freqüência com as ondas eletromagnéticas e são movimentadas no interior da massa de forma não passiva. À medida que vai ocorrendo a polimerização, vai sendo reduzida a quantidade de monômero e, portanto, a mesma quantidade de energia vai sendo absorvida por uma quantidade menor de monômero, fazendo a molécula aumentar a sua atividade, atingindo uma mais completa polimerização (DE CLERCK8, 1987).

Nos Grupos 2 (A. MC) e 3 (Cl. MC) (Tabela 4), nos quais as amostras foram submetidas ao mesmo método de polimerização, o Grupo 2 (A. MC) apresentou menor quantidade de monômero residual, estando de acordo com os resultados de HARRISON; HUGGET11 (1992), que obtiveram variações na quantidade de monômero detectado em 23 marcas de resinas diferentes quando submetidas ao mesmo ciclo de polimerização, sugerindo que esse resultado esteja relacionado com a composição da resina acrílica, sabendo-se que o monômero utilizado nas resinas para microondas é composto de uma mistura de metil e etil metacrilato (SANDERS et al.29, 1987).

Pode-se verificar na Tabela 4 que há uma maior liberação de monômero na água nos primeiros dias e que esta tende a diminuir com o tempo, confirmando os resultados de LAMB et al.19 (1982); LAMB et al.18 (1983); KODA et al.17 (1989); DEL BEL CURY9 (1992); TRUONG; THOMAS36 (1988), YUNUS et al.38 (1994).

Esse comportamento da eliminação de monômero foi explicado por LAMB et al.19 (1982). Após o ciclo de polimerização, a concentração de monômero residual pode ser reduzida por dois mecanismos, difusão do monômero do interior da resina para a água e polimerização adicional, pois foram detectados radicais ativos imediatamente após a polimerização de metil metacrilato, mas, segundo SMITH; BAINS32 (1956), pequenas moléculas de monômero residual não podem ser extraídas ou não estão acessíveis em polímeros bem polimerizados; assim, o total de metil metacrilato residual é a somatória do monômero difundido com o monômero não acessível.

A presença de monômero residual, de acordo com RUYTER28 (1980), ocorre devido a presença de oxigênio, que é um importante inibidor da polimerização do metil metacrilato, sendo que a sua ação inibidora deve ser somada à presença de hidroquinona (componente inibidor de polimerização adicionado à fórmula do monômero).

Também pode-se observar na Tabela 4 que os Grupos 1 (Cl. A) e 3 (Cl. MC), que foram confeccionados com a mesma resina, a partir do 7ºdia (168 h) de dosagem não mais apresentaram diferença estatisticamente significante, enquanto o Grupo 2 apresentou-se diferente durante todo o período de dosagem, sugerindo que a composição da resina é um fator que interfere na quantidade de monômero residual que será alcançada (KODA et al.17, 1989).

A presença de monômero residual nas bases de resina acrílica pode causar dois tipos de efeitos adversos: reações alérgicas devido ao monômero residual liberado na saliva do paciente conforme SMITH; BAINS32 (1956); McCABE; BASKER21 (1976); AUSTIN; BASKER3 (1980); BAKER; BROOKS5 (1988), e alteração das propriedades físicas e mecânicas (dureza, resistência transversal etc.) da resina, conforme SMITH; BAINS32 (1956); JAGGER13 (1978); JEROLIMOV et al.14 (1985).

Os resultados de dureza Knoop obtidos se mostraram coerentes com os resultados de monômero residual, sendo que o Grupo 2 (A. MC) apresentou os menores valores de monômero residual (Tabela 4) e os maiores valores de dureza Knoop (Tabela 1). O Grupo 3 (Cl. MC) apresentou valores de microdureza intermediários, sendo semelhantes estatisticamente aos do Grupo 2 (A. MC) e aos do Grupo 1 (Cl. A), resultado também coerente com as dosagens de monômero que, embora os três grupos tenham se apresentado diferentes estatisticamente, o Grupo 3 (Cl. MC) também apresentou valores intermediários (Tabela 4). Os Grupos 2 (A MC) e Grupo 1 (Cl. A) apresentaram entre si diferença estatisticamente significativa no nível de 5% , sendo que o grupo1 (Cl. A) apresentou os menores valores de dureza (Tabela 1) e os maiores valores de monômero residual (Tabela 4). Esses resultados estão de acordo com os de JAGGER13 (1978), que verificou que há correlação entre a dosagem de monômero residual e as propriedades físicas e mecânicas das resinas acrílicas e que a concentração de monômero residual é o fator mais importante na investigação das propriedades do material.

 

CONCLUSÃO

Diante dos resultados obtidos neste estudo, podemos concluir que:

1. A energia de microondas pode ser utilizada para a polimerização das resinas acrílicas contendo em seu interior uma sela metálica com resultados adequados para dureza superficial e menores conteúdos de monômero residual.

2. O metal contido no interior da resina acrílica não contribuiu para o aumento da porosidade da mesma.

3. A resina convencional, quando polimerizada através da energia de microondas, apresenta maior porosidade.

 

AGRADECIMENTO

À Fundação de Amparo e Incentivo à Pesquisa do Estado de São Paulo pelo auxílio financeiro (Proc. 96/4814-5).

 

 


BRAUN, K. O.; DEL BEL CURY, A. A.; CURY, J. A. Use of microwave energy for processing acrylic resin close metal. Rev Odontol Univ São Paulo, v. 12, n. 2, p. 173-180, abr./jun. 1998.

The conventional method to process acrylic resin is a time consuming step to construct removable prosthodontics. Microwave energy could provide a solution, but there are still questions regarding this process taking place in the presence of metal. The aim of this study was, therefore, to compare residual monomer, microhardness and porosity of two acrylic resins cured by different methods in the presence of a metal framework. The conditions evaluated were: Group 1 - Acrylic resin Clássico, short cycle heatcured for 3 h; Group 2 - Acron MC resin cured in microwave oven for 3 min at 500 W; Group 3 - Acrylic resin Clássico cured in microwave oven for 3 min at 500 W. For each group 12 specimens measured were prepared, measuring 30 X 4 mm (diameter X thickness) and containing inside a metal framework of 28 X 8 X 0.5 mm. After curing the samples were individually imersed in 6.0 ml of deionized water. Residual monomer released in the water, which was changed daily, was measured spectrophotometrically for 12 days. The specimens were polished in order to measure microhardness at the distances of 50 to 800 mm of the metal framework. The specimens were cross-sectioned to evaluate the internal and external porosity under the naked eye and using a X100 magnification. Porosity under the naked eye was observed in all of the Group 3 samples and in 50% of those from Groups 1 and 2. Under magnification, porosity was found externally and internally in all of samples. It was concluded that microwave energy can be effectively used to polymerized removable partial denture, and that, when polymerized with microwave energy, conventional resin presents higher porosity.

UNITERMS: Acrylic resins; Porosity; Microwaves.


 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. AL DOORI, D. et al. A comparison of denture base acrylic resins polymerized by microwave irradiation and by conventional bath curing systems.  Dent Mater, v. 4, n. 1, p. 25-32, Feb. 1988.         [ Links ]

2. ALKHATIB, M. B. et al.  Comparison of microwave-polimerized denture base resins.  Int J Prosthodont, v. 3, n. 3, p. 249-255, May/June 1990.         [ Links ]

3. AUSTIN, A. T.; BASKER, R. M.  The level of residual monomer in acrylic denture base materials with particular reference to a modified method of analysis.  Br Dent J, v. 149, n. 18, p. 281-286, Nov. 1980.         [ Links ]

4. BAFILE, M. et al.  Porosity of denture  resin cured  by  microwave  energy.  J Prosthet Dent, v. 66, n. 2, p. 269-274, Aug. 1991.         [ Links ]

5. BAKER, S.; BROOKS, S. C.; WALKER, D. M.  The  release  of residual monomeric methyl methacrylate from acrylic appliances in the human mouth: an assay for monomer in saliva.  J Dent Res, v. 67, n. 10, p. 1295-1299, Oct. 1988.

6. COMBE, E. C.  Notes on dental materials. 5. ed. Edinburgh : Churchill Livingstone, 1986. p. 50-52, 258-263.         [ Links ]

7. DAVENPORT, J. C.  The oral distribution of candida in denture stomatitis.  Br Dent J, v. 129, n. 18, p. 151-156, Aug. 1970.         [ Links ]

8. DE CLERCK, J. P.  Microwave polymerization  of  acrylic  resins  used  in dental prostheses.   J Prosthet Dent, v. 57, n. 5, p. 650-658, May 1987.         [ Links ]

9. DEL BEL CURY, A. A.  Estudo in vitro das propriedades físico-químicas de resinas acrílicas dentais termopolimerizáveis, quimicamente ativadas e curadas por microondas. São Paulo, 1992. 133 p. Tese (Doutorado) - Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.         [ Links ]

10. FARAJ, S. A. A.; ELLIS, B.   The effect of processing temperatures on the exotherm, porosity and properties of acrylic denture base.  Br Dent J, v. 147, n. 16, p. 209-212, Oct. 1979.         [ Links ]

11. HARRISON, A.; HUGGET, R.  Effect of the curing cycle on residual monomer levels of acrylic resin denture base polymers.  J Dent, v. 20, n. 6, p. 370-374, Apr. 1992.         [ Links ]

12. ILBAY, S. G.; GÜVENER, S.; ALKMRU, H. N.  Processing dentures using a microwave technique.  J Oral Rehabil, v. 21, n. 1, p. 103-109, Jan. 1994.         [ Links ]

13. JAGGER, R. J. Effect of the curing cycle on some properties polymethilmethacrylate  denture base material.  J Oral Rehabil, v. 5, n. 2, p. 151-157, Apr. 1978.         [ Links ]

14. JEROLIMOV, V. et al.  The effect of variations in the polymer/monomer mixing ratios on residual monomer levels and flexural properties of denture base materials.  Quintessense Int, v. 9, n. 7, p. 431-434, July/Aug. 1985.         [ Links ]

15. KIMPARA, E. T.; MUENCH, A. Porosidade em decorrência do processamento e volume de resina acrílica.  Rev Odontol Univ São Paulo, v. 10, n. 3, p. 237-239, jul./set. 1996.         [ Links ]

16. KIMURA, H. et al.  Applications of microwave for dental technique (part I).  J Osaka Univ Dent, v. 23, p. 41-49, Aug. 1983.         [ Links ]

17. KODA, T. et al.  High-performance  chromatographic  estimation  of  eluates from dentures base polymers.  J Dent, v. 17, n. 2, p. 84-89, July 1989.         [ Links ]

18. LAMB, D. J.; ELLIS, B.; PRIESTLEY, D.  The affects of process variables on levels of residual monomer in autopolymerizing dental acrylics resin.  J Dent, v. 11, n. 1, p. 80-88, Mar. 1983.         [ Links ]

19. LAMB, D. J.; ELLIS, B.; PRIESTLEY, D.  Loss into water of residual monomer from autopolimerizing dental acrylic resin.  Biomaterials, v. 3, n. 3, p. 155-159, July 1982.         [ Links ]

20. LEVIN, B.; SANDERS, J. L.; REITZ, P. V.  The use of microwave energy for processing acrylic resins.  J Prosthet Dent, v. 61, n. 3, p. 381-383, Mar. 1989.         [ Links ]

21. McCABE, J. F.; BASKER, R. M. Tissue sensitivity to acrylic resin. A method of measuring the residual monomer content and it’s clinical application.  Br Dent J, v. 140, n. 10, p. 347-350, May 1976.

22. NISHII, M.  Studies on the curing of denture base resins with microwave irradiation: with particular reference to heat-curing resins.  J Osaka Dent Univ, v. 2, p. 23-40, Feb. 1968.         [ Links ]

23. PHILLIPS, R. W.  Propriedades físicas dos materiais dentários: reologia, cor, propriedades térmicas.  In: PHILLIPS, R. W., ed.  Skinner materiais dentários. 9. ed. Rio de Janeiro : Guanabara, Koogan, 1993. Cap. 3, p. 16-34.

24. PHILLIPS, R. W. Resinas para bases de dentadura: considerações   técnicas e resinas diversas. In: PHILLIPS, R. W., ed.  Skinner materiais dentários. 9. ed. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 1993. Cap. 11, p. 103-123.

25. REITZ, P. V.; SANDERS, J. L.; LEVIN, B.  The curing of denture acrylic resins by microwave energy. Physical properties.  Quintessence Int, v. 6, n. 8, p. 547-551, Aug. 1985.

26. RODRIGUES, GARCIA, R. C. M. Estudo da adaptação e porosidade de bases de próteses confeccionadas com resina acrílica dental submetida a dois ciclos de polimerização.  Rev Odontol Univ São Paulo, v. 10, n. 4, p. 295-302, out./dez. 1996.         [ Links ]

27. ROHRER, M. D.; BULARD, R. A.  Microwave sterilization.  J Am Dent Assoc, v. 110, p. 194-196, Feb. 1985.         [ Links ]

28. RUYTER, I. E.  Release of formadehyde from denture base polymers.  Acta Odontol Scand, v. 38, n. 1, p. 17-27, Mar. 1980.         [ Links ]

29. SANDERS, J. L.; LEVIN, B.; REITZ, P. V.  Porosity in denture acrylic resins cured by microwave energy.  Quintessense Int, v. 18, n. 7, p. 453-456, July 1987.         [ Links ]

30. SHLOSBERG, S. R. et al.  Microwave energy polymerization of poly (methyl methacrylate) denture base resin.  Int J Prosthodont, v. 2, n. 5, p. 453-458, Sept./Oct. 1989.           [ Links ]

31. STAFFORD, G. D.; BROOKS, S. C.  The loss of residual monomer from acrylic ortodontic resins.  Dent Mater, v. 1, n. 4, p. 135-138, Aug. 1985.         [ Links ]

32. SMITH, D. C.; BAINS M. D.  The acrylic denture base. Residual monomer.  Br Dent J, v. 105, n. 5, p. 86-91, Aug. 1956.

33. SPENCER, H. R.; GARIAEFF, P.  The present status of vulcanite versus plastics: a base plate material.  Contact Point, v. 27, p. 263-267, June 1949.

34. TAKAMATA, T.; SETCOS, J. C.  Resin dentures bases: review of accuracy and methods of polymerization  Int J Prosthodont, v. 2, n. 6, p. 555-562, Nov./Dec. 1989.

35. TAUBERT, T. R.; NOWLIN, T. P.  Controlling  porosity  in microwave  processed acrylic.  Trends Thech Contemp Dent Lab, v. 9, n. 3, p. 45-48, Apr. 1992.         [ Links ]

36. TRUONG, V.; THOMASZ, F. G. V.  Comparison of denture acrylic resins cured by boiling water and microwave energy.  Aust Dent J, v. 33, n. 3, p. 201-204, June 1988.         [ Links ]

37. WOLFAARDT, J. F.; CLEATON-JONES, P.; FATTI, P.  The occurrence of porosity in a heat-cured poly (methil methacrylate) denture base resin.  J Prosthet Dent, v. 55, n. 3, p. 393-400, Mar. 1986.         [ Links ]

38. YUNUS, N.; HARRISON, A.; HUGGET, R.  Effect irradiation on the  flexural strength and residual monomer levels of an acrylic resin repair material.  J Oral Rehabil, v. 21, p. 641-648, Nov. 1994.         [ Links ]

 

Recebido para publicação em 11/06/97
Aceito para puiblicação em 18/08/97

 

 

* Aluna de Mestrado do Curso de Pós-graduação em Ciência Odontológica da Faculdade de Odontologia de Piracicaba - UNICAMP.
** Professora Assistente Doutora da área de Prótese Parcial Removível da Faculdade de Odontologia de Piracicaba - UNICAMP.
*** Professor Titular da área de Bioquímica da Faculdade de Odontologia de Piracicaba - UNICAMP.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License